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Contos-->Voltarei (amor) -- 10/03/2018 - 02:58 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Recordações do acidente na plataforma do metrô  trouxeram-lhe à mente as palavras de Fernão: Eu tropeço, tu me pegas; tu escorregas, eu te seguro pelo braço.  Era a lembrança mais reconfortante, e também a mais carinhosa que guardava do marido. Tudo eram recordações do passado. Lembranças guardas nos anéis da memória. Viúva, ela não conseguia imaginar-se viúva. Não assinou papéis em cartório nem na igreja, então não era casada. Só fica viúvo quem é casado.
Fernão morreu...
Um dia todos morreremos. Cada coisa tem seu tempo, sua vida útil, sua duração. Só os vivos morrem, mas nem todos os mortos são enterrados. Há muita gente morta que continua andando por aí. Morreu para si mesmo, morreu para os outros. É um morto ambulante que continua insistindo que está vivo. Morreu quando parou de sonhar, de desejar que novo amanhã aconteça. Diante de uma grande estiagem, o nordestino olha para o céu. Céu limpo com nuvens carregadas de algodão. Mas o bom nordestino  retira o chapéu da cabeça, põe-no em seu peito e cruza os braços por cima. Olha para o céu e proclama sua confissão de fé: Se Deus quiser, no ano vindouro vai ter muita chuva.
O sol pendia.
Pombos catavam migalhas de alimentos deixados pelos banhistas na praia. A luz do dia  fraquejava.  O vento soprava suavemente, e  a noite derramava estrelas pontilhando o céu. Era hora de voltar pra casa. 
O coração de Ravenala estava em frangalhos. Ela sequer tinha uma boneca para compartilhar suas dores.  ‘Se pelo menos Emília estivesse aqui...’ Mulher casada querendo brincar de boneca? ‘Casada não, viúva.’ E se Fernão sobreviveu? Era preciso ser otimista demais para acreditar nesta possibilidade. Ela criava expectativa em torno da volta de Fernão: Quando Fernão voltar... Quem sabe ele resolve assumir outra profissão e ter mais tempo para ficar comigo. Voar não é uma profissão. É um desafio. Desafiar a morte toda vez que sai para trabalhar. Refez a reflexão: A vida em si é um desafio. A luta contra a morte só termina quando a morte é a vencedora. Ela nunca perde. Mas é preciso lutar. Sair da zona de conforto, conquistar espaço, criar mundos em torno de si mesmo e viver a fantasia em cada realidade, ou a realidade em cada fantasia.Ela era mestra em fantasias que a levassem a viajar nos contos de fada. Em seu  apartamento, na   Barão de Flamengo, Ravenala tinha um guarda-roupa com dois grandes espelhos: um espelho na porta da direita, outro na porta da esquerda, e no meio, um vão para televisor, DVD, e outras parafernálias da tecnologia moderna. No espelho da direita,  via-se linda, maravilhosa! No espelho da esquerda, feia e com as pernas tortas. A esta imagem que via no espelho esquerdo, chamava de Ramayana: Menina, estás péssima hoje. E naquele dia, tudo lhe parecia feio. Por mais que alisasse os cabelos, eles permaneciam rebeldes a qualquer trato. Tudo parecia torto, desalinhado. Nem mesmo  o batom vermelho, tinha  brilho e cor. O rosto tomava forma  desfalecida, e a alma se contorcia de aflição. — Cuidado com autossugestão — disse seu Eu paralelo — Palavra tem poder de benção ou de maldição. Se disseres: Como és feio, rosto desprezível. Dito isto, teu rosto ficará feio aos teus olhos. E grande será a vergonha que ele terá de ti e do mundo. Tudo que determinares, ainda que em pensamento, o cérebro dará ordens ao corpo e o corpo  obedecerá.  Do mesmo modo, se  disseres: Pernas, vocês são tortas e finas... horríveis! Elas sentirão profundo constrangimento. Ficarão finas e tortas aos teus olhos e se contorcerão de dor. Mas se disseres: Que  rosto lindo eu tenho! Sempre que olhares no espelho, teu rosto estará feliz.
—Guarda bem essas coisas, Ravenala.
— Com quem estás conversando patroa. Preocupou-se a faxineira.
—Com o espelho. Não há mais ninguém nesta casa com quem eu possa conversar.
— Nem vai fazer falta. O patrão não morava aqui.
Katzel percebeu que tinha dito uma asneira, mas não havia mais como consertar. Pôs as mãos na cintura, feito um açucareiro, balançou os quadris e soltou o rodo no chão: Com licença. Preciso terminar a faxina. Estou atrasada...
—  Você está passando pano de chão em meus pés. Por que não começa pelo outro banheiro?
— Cruz credo. Não se tem liberdade nesta casa.
Bisbilhoteira — Pensou mais não disse — Essa  faxineira procura esfregar o chão, sempre no lugar em que estou.
Diante do espelho, Ravenala penteou o cabelo, e cantou a primeira música que lhe veio à mente: Tornero. Cantou baixinho, senão, Katzel parava de trabalhar... Naturalmente, a música não era da geração de Ravenala, mas, de tanto seu pai fazer rodar o disco na vitrola, a filha aprendeu a música. Porque gostou da melodia. Ravenala tentava fazer uma tradução, torcendo a língua para adequar a letra à realidade que vivia: ‘A rosa que você (não)me deu, secou. E eu seguro em um livro que eu nunca terminei de...(escrever).
Se  Fernão conhecesse Tornero do grupo italiano Santo Califórnia, talvez ele dissesse: voltarei.
 
Deixe-me recuperar essa lágrima, voltarei... Um ano não é um século, voltarei...
 
Ravenala refletia no silêncio de seu coração.
 A casa, antes de ruir, dá sinal de fragilidade. Por que choras a perda daquilo que não era teu? Há casamentos que nunca existiram de fato. Calma, Ravenala, calma... Conte um conto, cante um canto É com  teu canto que teces a aurora dos teus dias.
 
 
Adalberto Lima
Enviado por Adalberto Lima em 10/03/2018
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