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Contos-->Coroa de espinhos -- 05/04/2018 - 04:15 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
As coisas mais simples tornavam-se-lhe perturbadoras e o faziam sentir-se moralmente fracassado, uma simples  tentativa frustrada de intimidade com a mulher, ele julgava uma afronta ao brio de sua masculinidade. Ela deve ter outro homem — dizia Yuri.  E procurava refúgio em amores clandestinos com mulheres da  Vila Mimosa.  A VM assim chamada aquela vila de prostíbulos é o lado feio da  Cidade Maravilhosa. E  tornou-se conhecida até no exterior — graça ou por desgraça da mania  que tem o brasileiro de expor suas mazelas, enquanto outros países escondem as suas. Por sorte, ou azar, nem tudo que é mostrado na TV é visto. E por isso, Morgana e Ravenala não  viram as imagens feitas  da Vila Mimosa. Nem sabiam que a ex-colega do Marista se tornara prostituta de bordel. 
Prostitutas  não confiam nem na própria sombra e nem podem. Muitas são as cicatrizes que trazem no corpo e na alma. Não têm histórias escritas em livros e aqueles que escrevem sobre elas, são gigolôs das letras. São  traídas, ferem e são feridas. Defendem um relacionamento que não querem ter, mas precisam. Não precisam de homem, precisam do dinheiro dele e do relacionamento que disputam com outras putas: um amor que não recebem e nem dão. Tudo é negócio, a vida, um ócio, monotonia de esperar no apagar da luz, que brilhe sua estrela. Fingem. Apenas fingem que gostam e em paga, recebem dinheiro e fingimento. Aqueles a quem chamam de meu homem.  Não são seus, pertencem às esposas que os maridos deixaram em  casa. Nada fica nada sobra na vida da  prostituta, nada além do palavroso queimando como fogo a vida chula que levam. E quando envelhece, dorme na rua inalando a creolina que os proprietários derramam sobre as calçadas, para não serem incomodados com a visita noturna dos moradores de rua. É assim no Rio de Janeiro e em muitas cidades pelo Brasil afora.
— Vamos à Vila Mimosa?
Ravenala recusou o convite, disse estar ocupado e desligou o telefone.
Ramayana insiste.
— Não queres mesmo conhecer a galeria de bares da Vila Mimosa?
— A que horas?
— Às vinte e duas!
— Vamos de ônibus ou de táxi?
— De carro próprio!
— Compraste um?
— Darei meu jeito com um amigo. Passarei em tua casa às 22:00h. 
Às dez da noite, Ramayana chegou numa brasília amarela, dirigida por Leonardo. O motorista tinha face felina, redonda e com de bigode como gato.
 —Entre, minha deusa — disse ele.
Durante os primeiros quinze minutos, o veículo se deslocava a uma velocidade assustadora. Silente, Ravenala escondia medo e terror. 
— Já estamos na rua Ceará — disse Leonardo. 
A voz do motorista parecia ter saído de uma caverna: queimava como lava brotada das profundezas  de um vulcão infernal. Ravenala gelou  com a visão que teve da rua Ceará: mulheres tatuadas, seminuas fervilhavam nas calçadas e portas de bares da Vila. ‘Paga só dez reais  por um beijo. O serviço completo na cama é vinte. ’  Os sete pecados capitais tremeram. Leonardo mordeu os freios, como se fosse acorrentar Ésquilo. 
— Pelas sete chagas de Jesus, não pare! 
—Pare! — disse Ramayana.  
Lentamente o carro seguia, desviando-se de transeuntes. Os ferros da lataria passavam quase  esfregando nas barracas, que ocupavam parte da rua. Na calçada da direita, uma prostituta tirou a parte de cima e balançou os seios para Leonardo... 'Vamos fazer amor, meu bem?...’ Distraído, o motorista atropelou um bêbado que atravessava a rua. Duas mulheres arrastaram o corpo e o lançaram no matagal. ‘Este aqui, amanhã tá fedendo!’ Disse uma delas. As cenas que Ravenala via lembravam a descrição que o padre Davi  fazia do inferno. Ela mesma se sentia no inferno e já não tinha certeza se o que via era real, ou imagens formadas em sua mente por um surto de medo. Naquele instante, um homem estendeu a mão e  disse com autoridade: Pare!  E a brasília amarela estacou. O motorista que transportava almas para o inferno fugiu a pé. 

Ravenala sentiu-se como que suspensa, entre o céu e o inferno. Ela Não sabe por quanto tempo ficou em estado de choque, e quando deu acordo de si, outra pessoa ocupava o lugar que fora de Leonardo. Olhou o novo motorista e viu uma coroa de espinhos sobre a cabeça dele. O homem sorriu docemente: “Vou te levar para a casa, minha filha.”  

O triângulo amoroso arquitetado por  Ramayana caiu por terra. Ela nunca fora presa por pequenos furtos. Sempre alegava que acontecera apenas um esbarrão, e se passava por estudante, exibindo um livro que não lia. Mas, quando se envolveu com tráfico de drogas, o corporativismo do pai não prevaleceu. Foi apanhada pela ronda do tenente Durão.

 E não adiantaram os protestos: “Sou filha de oficial.” A informação constava em seu RG. E esse registro em época de ditadura salvou a pele de vários filhos de militares, envolvidos em pequenos delitos. Mas o tenente Durão era aroeira de sete cascas.  Não levou em conta a paternidade da moça. E Ramayana  curtiu seis meses de cadeia, em presídio feminino no Rio de Janeiro.

Ela  conseguiu a custo de muito dinheiro, provar que a quantidade de drogas, não era aquela informada no processo. Não negou a droga encontrada em sua bolsa, disse que portava  pequena quantidade para consumo próprio. Conquistou assim a liberdade, mediante o arrolamento de falsas testemunhas, e a contratação de um advogado conhecido por Diabo Louro.

***

 
Adalberto Lima, trecho de "Estrada sem fim..."
Adalberto Lima
Enviado por Adalberto Lima em 05/04/2018
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