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Contos-->O Primeiro Beijo -- 09/05/2018 - 13:09 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos





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A tarde seguia devagar como se não quisesse saudar a noite. Robert   tinha pressa, Morgana também. Não viam a hora de se encontrarem no restaurante chinês para o jantar combinado daquela  sexta-feira. Era humano demais para entender, mas não surdo, que não pudesse ouvir a voz de seu coração ressoar em sintonia com a alma de Morgana. Contava as cerdas grisalhas nas costeletas e um punhado de pelos brancos no queixo. Quarenta anos e ainda solteiro? Era hora de encontrar um par para seu coração. Os primeiros momentos do encontro foram de completo embevecimento. Ele olhava para Morgana, como se estivesse diante uma deusa.
 
Era dezenove de abril.
— Esta data de hoje, não te faz recordar alguma coisa?
 
Pensou em dizer que era dia do índio. E até acreditou que cupido protege os  eternos enamorados, porque, em vasculhando a memória, encontrou a resposta.
 
— Dezenove de abril foi o dia de nosso primeiro beijo. E  coincidiu com o aniversario dos três anos ‘Suzi.’ Comemoremos, pois,  o primeiro beijo, depois o aniversário da cadelinha. 
— Sabia que todas as minhas bonecas tinha o nome de Suzi?
— E como fazia para diferenciar uma da outra?
— Pela ordem que foram adquiridas... Zuzi 1... Zuzi 2...Chequei a ter vinte e duas bonecas com o nome Suzi.
— Comemoravas o aniversário de cada uma delas, isoladamente?
— A intenção era esta. Mas... minha mãe  as considerava gêmeas, e sugeriu que fizéssemos o aniversário de  todas elas em um mesmo dia.
Riu.
Robert  segurou a respiração para não deixar escapar a sensação de alívio por recordar-se do primeiro beijo. Para os homens, não tem primeiro, nem segundo. Eles só contam o último. O de agora. Até faz sentido.  O último beijo é  real e concreto; os demais passaram, foram apenas prenúncio do devir. Já as mulheres guardam as datas do primeiro aceno de mão, do primeiro isso, do primeiro aquilo... E o homem não pode esquecer, nem mesmo do aniversário do cãozinho dela.
 
E para comemorar, ele deu um beijo mais ousado.
 
— Para, Bob estou com a boca cheia...
 
Teve vontade de dizer: “Pois esvazie. Eu quero usá-la.”  Mas usar... Usar é uma grande ofensa, afinal, humanos não são mercadorias nem bens de consumo. E depois de brindarem taças de precioso vinho, ele retirou  do bolso uma caixinha.  Minúscula, capaz de caber na palma da mão. Abriu-a  deixando o conteúdo exporto em sua mão. Morgana olhou por alguns segundos e com a voz embargada disse:
 
— Simulaste bem tua surpresa. Por um momento, pensei que houvesse esquecido nosso primeiro aniversário de namoro.
 
E chorou. E beijou-o lascivamente.
 
— Já podemos usar as alianças. Não tenho a quem pedir tua mão em casmaento.
 
Morgana cerrou os lábios e fechou os cenhos, mudando a sensação de felicidade  para um semblante de tristeza. 
 
— Desculpe! Não quis trazer à tua lembrança a ausência de seus pais. Também não tenho os meus a meu lado. Assim, não precisamos permissão de nenhum deles para casarmos.
 
— O dia de hoje dever ser marcado com uma pedrinha branca, disse  ele.
 
De pedra em pedra, as mulheres colecionam pedregulhos, imaginou. E o homem tem que ser esperto para não tropeçar em nenhuma delas. Não se esquecer daquilo que para uma mulher  é muito importante, e para o homem. Bem, para o homem foi bom enquanto durou.
 
A hora avança.
— Creio que hoje não dará mais tempo de comemorarmos o aniversário da Suzi.
— Nem podemos. Ela está dodói.
— Posso visitá-la.
— Claro! Você é meu noivo. E se procederes bem, pode tornar-se pai dela.
 
Robert acabava de se tornar pai de uma cadela. Mas não podia rir. Não podia perder sua princesa, por causa de uma cadelinha de estimação. Faria um exercício sobre-humano para  gostar de gato, cachorro e de tudo que Morgana gostasse, só para agradá-la. Só esperava que ela não apreciasse  da TV brasileira. 
 
— Podemos ir para casa, disse ele com suavidade de voz.
— Não temos casa.
— Como não! Tens a tua e eu a minha. Vamos lançar a sorte para saber para qual delas iremos. Afinal somos  quase casados.
— Assim tão rápido. Noivado e casamento no mesmo dia?
— A vida tem pressa. Vejo fios de cabelos brancos em minha barba.
— Bobo! Nunca percebi.
— Perceberias se eu não fizesse a barba todos os dias...
— Vamos lançar os dados?
— Não precisa — disse ele — tive minha sorte maior hoje.
— Como assim?
— Os colegas  de serviço  preparam-me uma surpresa. E nos esperam em casa.
— Por que então sugeriste lançar a sorte sobre...
— Para tornar a surpresa misteriosa.
— Avisou a eles que ia noivar?
— A proposta foi minha. Mas eles sabem que hoje é nosso aniversário de namoro. 
— Vais conhecer meu amigo  pastor.
— Pastor alemão? Tenho medo de cães grandes...
— Pastor brasileiro. 
— Existe esta raça?
— Bom, não se trata de raça. E sim de Igreja.
— Tornaste evangélico.
— Aprecio muito as igrejas pentecostais.
— Pois que o pastor nos dê sua bênção e depois celebraremos o sacramento de nossa união, no catolicismo. Concorda?
— Com corda, com o balde e a roldana.
— Você é um homem incrível!... Obrigada. 
 
 Sabia que Morgana e Ravenala eram do mesmo mês. Mas, qual delas era do dia primeiro de abril e qual era do dia dezenove. Teve que fazer ginástica mental para   não mais confundir. Senão, era o mesmo que trocar Roma por Romão. Desta vez ele riu sozinho. Nunca tivera tempo para pesquisar a ligação de Roma com romaria. Se romeiro é aquele que vai a Roma ou o que vai ao Juazeiro do Padre Cícero Romão Batista.
— De que te ris?
— Do que penso.
— Não te esqueças que agora pensamos a dois.
— Até no pensamento?
—  Até nosso pensamento deve ser único e indivisível.
 
Robert preocupou-se. Não sabia o que falar?   Então resolveu dizer o que pensava sobre romeiro, Roma e Romão. A começar pelo jargão  "Quem tem boca vai a Roma." Modificado depois o sentido pelos não simpatizantes do império para: "Quem tem boca vaia Roma." 
 
 
Pensou em contar sobre a vocação ao sacerdócio,  quando em sua juventude. Mas o assunto levaria horas... Ou não. Talvez  nem precisasse aprofundar-se. Morgana o conhecia desde os tempos de Marista, e sabia da intenção do diretor de tornar religiosos os alunos que se destacavam em comunicação. Na verdade, Robert queria mesmo era  contar pra Morgana que escrevia um livro em parceria com Ravenala, mas isso poderia, botar tudo a perder. 
 
— Escrevo um livro com Ravenala. Vês algum problema em escrevermos um livro a duas mãos?
— Não me oponho, contanto que não narres os pormenores de nossa lua-de-mel. Ravenala escreve desde menina. Já me apresentou textos em prosa, e versos. Coisas que tencionava publicar no futuro. Como está o andamento.
— Adiantado. Depois de uma década, agora está quase no ponto de ir a prelo.
— Adiantando? Costurando uma colcha há tanto tempo; e chamas isso de adiantado?
— É modo de falar. Digamos que já se aproxima a hora de tirar o véu da noiva. Revelar o mistério.
 
Robert   ficou em dúvida se tirar o véu da noiva ainda estava no assunto do livro, ou avançava para o casamento.
 
— Nada contra a publicação do livro, nem o fato de escreverem juntos.
— Fica tranquila. O que se passa entre quatro paredes, nem as paredes devem saber.
 
***
Adalberto Lima, fragmento de "Estrela que o vento soprou."

Adalberto Lima, fragmento de "Estrela que o vento soprou."
 
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Adalberto Lima


Enviado por Adalberto Lima em 09/05/2018







Adalberto Lima




Enviado por Adalberto Lima em 09/05/2018

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