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Contos-->O céu fez silêncio de meia hora -- 11/05/2018 - 16:09 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Abriu-se o templo de Deus no céu 
e apareceu, no seu templo, 
a arca do seu testamento. 
 
 
Houve relâmpagos, vozes, e um  estrondo como o ribombar de trovões; em seguida, um homem de terno branco, estacionou o fusca preto na faixa que separa o céu da terra. Rasgou um bilhete de loteria e elevou as mãos em prece: ‘Senhor, tu me deste o tempo necessário para plantar e para colher, adiaste a ceifa para que minha alma atingisse a maturidade, segundo Cristo; e prolongaste minha vigília para que eu Te encontrasse, antes do entardecer de minha existência. Eis-me aqui, frágil e dependente da Vossa Misericórdia.”

Aliviado, Androceu viu Ramayana apagando o fogo que saia de um tubo com a ponta alargada, outrora, usado por viciados para fumar pedra.  E  sumiam vagando no mundo feito zumbis.
Ela apagava os cachimbos de craque, com a água que corria do lado direito do templo. 

Escondido na penumbra de suas más inclinações, o  Anjo Negro se divertia  e bradava com voz cavernosa: ‘Não tem jeito! Condenados! Todos condenados. ’ Ramayana ofereceu água àqueles que tinham sede. E suas almas, antes manchadas, iam tomando brancura. Com efeito, o anjo de voz gargalhada, desapareceu  numa nuvem de fumaça negra. 


A vaquejada no céu.

Seguido por uma  multidão de índios, João Velho e outros vaqueiros cortavam a betônica no peito, correndo boi.  ‘Pega e leva ao estábulo para adorar o Menino Santo’ — disse o patrão.

— O boi é  arredio demais, Generoso! 
— Então leva  boto cor-de-rosa. Leva também Mimosa com a cria.

A onça pintada, no quadro de parede, tinha a boca fechada. E uma  gazela pastava ao lado da onça. O menino que antes  chorava sem a graça do Batismo, agora batizado por Corina, dava risadas, enfiava a mão na boca da serpente, e retirava dali um pintinho chuviscado. Vivo. A galinha pintadinha catava migalhas com seus pintinhos no território do gavião, e o gavião comia milho.  Vintém elevou-se à categoria de tostão. Depois promovido a cruzado, cruzeiro... Mas foi rebaixado para cruzeiro novo, mais tarde, cruzado que não cruza. Cresceu novamente tornando-se cão real. Mas a coroa que lhe deram, foi retirada. E ele desejou voltar ao tempo dos mil réis e do vintém. Latia no purgatório. Choramingava. Nada podia fazer por si mesmo.

João Velho consulta o livro da vida e reescreve sua história:
— Não quero vaqueiro caçando onça! Vaqueiro é pra correr atrás de boi.
— Alguém viu José Lino?— Quis saber Euzébia.
—Foi colher lírio do vale com Smith e Reika.
—Quem é Reika?
— A cigana que passou por Campo Grande, e deixou o coração de nosso filho apertado.
— Nunca soube!
— Nem poderia, Euzébia! Há verdades que só podem ser reveladas após a morte.
— Não sabia que cigano ia para o céu.
— Reika está aqui. Aquela tenda listrada é dela. 
— Aquela é a tenda que você pôs abaixo com um chute?
— Não! Aquela parte foi apagada na confissão que fizemos na festa do vaqueiro na fazenda Campo Grande.
— E as onças que você matou. Também estão no céu?

João Velho desconversou. "Coisas do passado não marcam presença na eternidade."  Os tempos celestes não conhecem o ontem nem o amanhã. Tudo é hoje. Por isso, Deus não olha o passado. Passado, presente,  e futuro,  só existem no calendário dos homens. 

— Bichos vão para o céu?
— Alguns! O cavalo que cochilava à beira da cerca, não compareceu.  Fingia-se doente. Era mentiroso. E foi mordido pela serpente.

Euzébia, que não admitia que João Velho escondesse dela nenhuma verdade, afinal, eram marido e mulher. Ela insistiu:

— 
Depois dos muros abissais, tem um dragão lançando chamas e um leão rugindo.
— Ali não é o céu. Aquele é o dragão, a antiga serpente.
— Nossa, a serpente cresceu. Tornou-se dragão?
— Sim, mas tombará como Golias, por causa de sua arrogância. Aliás, já caiu.
— Bicho Papão é do Bem ou do  Mau?
— Bicho Papão é lenda para assustar criança desobediente.
— Acho que entendi — disse a mulher — Tudo que causa desordem é do mal. Qual benefício que o bicho papão produz na mente das crianças? 
— Benefício... benefício...Não sei. Muitos  apresentam o bicho papão às suas crianças,  maquiado com outras denominações como halloween, rei leão e outros tantos do desenho animado.  
— A carimbamba existe?
— A carimbamba só existe na terra. No céu não há lendas. Tudo e real.
— Bicho não vai para o céu não, João Velho.
— Se vai não sei. No mundo, bicho tem poder. Cavalo desfila com faixa no pescoço. E Leão é rei com palácio estabelecido na capital. Na terra, no céu e no mar, em cada um desses mundos mora um ser dominante.
— E o bicho homem domina tudo.
— Domina até outro homem, mas se deixa dominar por uma mulher.

Xandão  aparece puxando  Mimosa pelo cabresto, seguida por um bezerro castanho, muito famoso.

— Tire o cabresto da vaca, Xande! Aqui não há cabrestos. Tudo é regido pelo amor. E no amor não há cabresto.

Euzébia se levantou do sofá de camurça azul, decorado com duas faixas brancas no formato de uma cruz. Olhou com carinho para João Velho e perguntou:
— Aquele velho robusto é Zé Pilão?
— Aqui no céu chamamos as pessoas pelo nome de batismo. Se o apelido não for pejorativo, até que vai. Tem Padre  Zezinho, Padre  Chiquinho... Sarcasticamente, o diferente nas pessoas é colocado em evidência, pregado na testa como um rótulo que precisa ser  lavado sete vezes no rio Jordão. José Pillon que é o mesmo Zé Pilão, passou agora há pouco chupando cana.
— No céu tem cana?
— Tem tudo. Só coisa boa. É só pensar. E não é toque de mágica. Deus não é mágico.  Ele tudo pode. Deus é capaz de colocar um mundo inteiro num dedal.
— Se só tem o que é bom. Não tem doença.
— Doença é só no mundo dos mortais. Lá, cada  um tem sua lepra. 

Aquele que nasceu com um defeito físico, logo perde o nome e recebe o defeito como batismo: ‘Ô, perneta, faz favor!’... ‘Ô bucho de lama... ’ ‘Tampinha de Binga, venha cá!’ ‘Ô Vara de Tirar Mamão, troque esta lâmpada para mim!...’ ‘Carequinha, faça-me um favor!’ E vai por aí afora pisando nos calos sem pisar; machucando e fingindo não  machucar. Zé Pilão tinha cintura fina, espáduas largas e quadril avantajado. Se tirasse a barba e vestisse saia... Não  teve filhos, mas  adotou uma menina que mais tarde se tornou esposa de Turíbio Soberbo. 
— Era eunuco.
— Esse registro não consta no livro da vida dele. Apenas algumas averbações. “Lutou  para vencer as tentações; grande é sua recompensa no céu.”

João Velho dominava a conversa, e como ninguém o interrompeu, ele continuou  “O povo conta que Soberbo matou  o sogro Zé Pilão, porque o pai  se pôs em defesa da filha. Quero dizer, Zepillon  Evangelista de Jesus. Uso o apelido dele, só para situar melhor a história.” 

—  A briga foi com Pururuca.  Briga à-toa. Zé Pillonj chamou Pururuca de Torresmo rançoso. E Pururuca devolveu a ofensa chamando o outro de Zé Pilão, Zé-povinho... Zé-prequeté...

São Pedro ouviu a conversa. E por um momento,  fica  indeciso. ‘Que fazer com Turíbio Soberbo?’  Consultou o livro de registros. Tudo que disseram estava anotado a lápis e apagado com uma borracha. Mas, ficara o vinco.

— Que fazer com Turíbio Soberbo? — pensou alto  aquele que tem na mão a chave do céu.
— Mande apresentar-se a César — disse o Anjo Torto.

São Pedro conferiu os nomes que marcaram presença na missa do vaqueiro em Campo Grande. O nome de Turíbio constava na lista dos absorvidos em confissão comunitária.

 --- A confissão comunitária só é válida em casos em caso de perigo de morte iminente —Protestou a antiga serpente.
— Pese a alma — disse São Pedro ao anjo que tinha na mão uma balança.

O galo cantou.
São Pedro analisou todo o texto, inserindo a situação de Turíbio no contexto de sua realidade de morador na zona rural: “ A confissão é válida, quando não há  tem tempo de confessar a todos individualmente , ou nos  casos em que o sacerdote vai a um lugar poucas vezes, e não tem tempo de receber a confissão individual de todos.”

— Jurisprudência, jurisprudência! Não tolero jurisprudência --- Disse o Anjo Negro.
 
 Pedro olhou para a Virgem Maria e a Virgem olhou para Turíbio. 

— A taça de meu Filho transborda amor e misericórdia.  Invoco o sangue dos mártires da  Santa Madre Igreja sobre a alma do acusado. 

Turíbio, ajoelhado, exclamou em alta voz: “ Filho de Davi! Abri-me as portas santas...”

O céu fez silêncio de meia hora.

— Que achas disso, meu Filho? Disse a Rainha vestida em ouro de Ofir que entre tantas denominações, age poderosamente como Mãe de Deus,  Mãe de Jesus Cristo, Rainha do Céu, Mãe da Igreja, Arca da Aliança,  Consoladora do Aflitos,  Espelho  de Justiça e muitos outros epítetos conforme a fé católica.

— Vem sentar ao meu lado, --- disse o Rei Jesus --- Como está abandonada a cidade,  outrora, tão povoada. Crucifixos arrancados das paredes e proibidos em locais públicos. Aldeias inteiras antes silenciosas e pacatas, agora aplaudem as obras do mal:  barulheira dos infernos, corrupção, droga, assassinato e prostituição... 

E Jesus ergueu o  braço para esmagar a Terra.  Mas, a Rainha susteve a mão poderosa do Filho, por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo celeste.
 
 ***
Adalberto Lima, fragmento de "Estrela que o vento soprou."
 
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Adalberto Lima
Enviado por Adalberto Lima em 11/05/2018
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