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Contos-->I Festa no céu -- 11/05/2018 - 18:12 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos









 



Padre Davi  percebeu que   Arualdo  já sabia  o suficiente sobre o outro lado da vida. E deu o estágio por concluído. O índio estava curado. Purificado. Pronto para se apresentar diante de Deus. Durante o estágio, também  Turibio Soberbo curou as  feridas de sua alma, dos sentimentos que guardava por causa do  gado que matara na fazenda do patrão.  O padre lhe ensinara que  tudo o que se move e vive serve de alimento ao homem.  E com estas mesmas palavras, foi retirado o remorso do patrão da culpa de morte, por todos os bois vendidos para o abate.
Enquanto caminhava com o padre, Arualdo reviveu cenas de sua infância e juventude na fazenda Grande. Viu um homem que tirava o chapéu e abria a porteira para que os animais passassem. Contava do primeiro ao último. Depois punha o chapéu, para guardar o resultado na cabeça.

—  Vejo um homem semelhante ao doutor Generoso, fazendo a apartação do rebanho.
— É ele, mas não agora. Aqui não tem passado nem futuro. Tudo é hoje. Hoje você quis visitar a fazenda Campo Grande. Hoje você foi lá. Hoje aqui é o ontem de lá. Aqui tudo é  hoje. O que viste e ouviste foi a recepção de chegada do  Generoso no céu.

O gado mugiu. O vaqueiro aboiou.
Corina disse sorrindo: “Campo grande traz à minha alma, as melhores lembranças de mim.” 
--- Atalha o frango, nego mole --- disse  Nhá Santa.

Nhá Santa gostava quando a meninada de  Campo Grande a chamava de “Mãe Preta”. Talvez fosse esperteza deles para receberem algum agrado, porque logo, ela oferecia um beiju, uma pinha ou um pedaço de rapadura. Alguma coisa Nhá Santa guardava para mimar  quem aparecia na hora que ela mais precisava: “Meu filho, vá buscar uns pau de lenha pra mãe preta”. E rapidamente o menino chegava com um feixe de gravetos. O menino  sabia que o agrado era certo. 
 Atalho o franco nego mole — dizia gracejando, quando um menino  que corria atrás de um frango no terreiro, levava um drible, e mais outro drible, toda vez que o frango dava uma pirueta espetacular.

Novamente, o vaqueiro tocou o berrante.
Chega, João.  — Disse Euzébia — já tem muito gado no pátio!
Tunico Oliveira calcula  por baixo: mais de quatrocentas reses. Veríssimo confirma. Maximiano fica calado.
 
Avante, Gracioso!... Arreda, Matreiro!...
Vai Samburá... Arreda, menino, 
que a boiada vai passar!
 Bôooi!
 
Era festa no céu.
Tinha boi na brasa e todo tipo de guloseima, mas não houve nenhum abate.

— Convidaste tia Du pra o churrasco?
— Qual delas?
— As duas: a mãe de Smith e a Do Carmo Lopes.
— Do Carmo  está aí, faz tempo!
— Du Marques está atrasada. Não larga Zeca por nada. Diz que estava com muita saudade... Chegará mais tarde.
— Por que não vem com o Zeca?
— Zeca está na academia.

Du Marques demorou muito a sair de Montes Claros. Não queria largar o Hotel Sonia, ali ela viveu um céu com Zeca, mas ele viajou primeiro. Saiu mas não saiu... Estava sempre por ali recebendo a clientela. Foi preciso que Du dissesse: “Vá meu filho, apresente-se a Jesus. Espere lá por mim.” Ela demorou uma eternidade. Viveu quase cem anos, isso no calendário dos homens, porque no tempo celeste representa uma fração de hora.

Chove lá  fora.
— Não sabia que chovia no céu.
— É chuva de bênção.

Corina avisa que a mesa é posta.
— Eu não tinha sentido fome, desde que cheguei aqui.
— Esqueces que nos transportamos para Campo Grande, meu Cravo? Hoje é festa do Vaqueiro. Olha como está cheia a capela que construímos.

— Tem mais de quinhentas pessoas.
— Só a descendência de Tião Caburé dá essa quantidade.
— Não devemos chamar as pessoas por apelido.
— Ora, minha rosa, estamos em Campo Grande. 
—  A fazenda Campo Grande gerou em minha alma toda boa lembrança que tenho de mim — repetiu ela.
— Achei que fosse Mirabela.
— Cada coisa em seu lugar e em seu tempo. 
— Verdade. A vida é uma ficção da realidade desconhecida.
— Meu cravo, como se não bastasse rasgar teu latim no meio do pasto, queres agora filosofar em festa de vaqueiro? 
— Então me dê cá a viola.

E tocou Saudade de Mirabela. 

Seu repertório passou também por Luís Gonzaga, Tião Carreiro, até entregar a viola a outro. 

— Agora é com você, Alcymar Monteiro.
 
O vaqueiro adoecendo joga seus couros na cama. Pelo campo o gado urra como quem por ele chama/Na porteira do curral berra toda bezerrama eheheh.
 
O padre justificou o atraso: estivera antes, celebrando na Catarina. E disse a missa em Campo Grande em Português para um grande número de fiéis.

Não vais narrar o leilão, tal qual na festa do vaqueiro em Campo Grande? Quis saber Robert.
--- No céu não há pregão, leilão nem negociata. Tudo foi adquirido ao elevado preço do preciosíssimo sangue do filho de Deus.

 
***
Adalberto Lima, fragmento de "Estrela que o vento soprou."
Imagem: www.youtube.com/watch?v=3ajnnhqsk


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Adalberto Lima






Enviado por Adalberto Lima em 11/05/2018

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