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Contos-->Vaquejada no céu   -- 12/05/2018 - 15:24 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos




Vaquejada  no céu
 


 
 Seguido por uma  multidão de índios, João Velho e outros vaqueiros cortavam a betônica no peito, correndo boi.  ‘Pega e leva ao estábulo para adorar o Menino Santo’ — disse o patrão.
 
— O boi Chuvisco  é  arredio demais, Generoso! 
— Então leva  boto cor-de-rosa. Leva também Mimosa com a cria.
 
A onça pintada, no quadro de parede, tinha a boca fechada. E uma  gazela pastava ao lado da onça. O menino que antes  chorava sem a graça do Batismo, agora batizado, dava risadas, enfiava a mão na boca da serpente, e retirava dali um pintinho chuviscado. Vivo. A galinha pintadinha catava migalhas com seus pintinhos no território do gavião, e o gavião comia milho.  Vintém elevou-se à categoria de tostão. Depois promovido a cruzado, cruzeiro... Mas foi rebaixado para cruzeiro novo, mais tarde, cruzado que não cruza. Cresceu novamente tornando-se cão real. Mas a coroa que lhe deram, foi retirada. E ele desejou voltar ao tempo dos mil réis e do vintém. Latia no purgatório. Choramingava. Nada podia fazer por si mesmo.
 
João Velho consulta o livro da vida e reescreve sua história: " Não quero vaqueiro caçando onça! Vaqueiro é pra correr atrás de boi."
 
 Alguém viu José Lino?— Quis saber Euzébia.
 
—Foi colher lírio do vale com Smith e Reika.
—Quem é Reika?
— A cigana que passou por Campo Grande, e deixou o coração de nosso filho apertado.
— Nunca soube!
— Nem poderia. Há verdades que só podem ser reveladas após a morte.
— Não sabia que cigano ia para o céu.
— Reika está aqui. Aquela tenda listrada é dela. 
— Aquela é a tenda que você pôs abaixo com um chute?
— Não! Aquela parte foi apagada na confissão que fizemos na festa do vaqueiro da fazenda Campo Grande.
— E as onças que você matou. Também estão no céu?
 
João desconversou. "Coisas do passado não marcam presença na eternidade."  Os tempos celestes não conhecem o ontem nem o amanhã. Tudo é hoje. Por isso, Deus não olha o passado. Passado, presente,  e futuro,  só existem no calendário dos homens. 
 
— Bichos vão para o céu?
— Alguns! O cavalo que cochilava à beira da cerca, não compareceu.  Fingia-se doente. Era mentiroso. E foi mordido pela serpente.
 
Euzébia, que não admitia que João Velho escondesse dela nenhuma verdade, afinal, eram marido e mulher.
Ela insistiu:
— Depois dos muros abissais, tem um dragão lançando chamas e um leão rugindo.
— Ali não é o céu. Aquele  dragão é a antiga serpente.
— Nossa, a serpente cresceu. Avantajou-se. Tornou-se dragão?
— Sim, mas tombará como Golias, por causa de sua arrogância. Aliás, já caiu.
— Bicho Papão é do Bem ou do  Mal?
— Bicho Papão é lenda para assustar criança desobediente.
— Acho que entendi — disse a mulher — Tudo que causa desordem é do mal. Qual benefício que o bicho papão produz na mente das crianças? 
— Benefício... benefício...Não sei. Muitos  apresentam o bicho papão às suas crianças,  maquiado com outras denominações como halloween, rei leão e outros tantos do desenho animado.  
— A carimbamba existe?
— A carimbamba só existe na terra. No céu não há lendas. Tudo e real.
— Bicho não vai para o céu não.
— Se vai não sei. No mundo, bicho tem poder. Cavalo desfila com faixa no pescoço. E Leão é rei com palácio estabelecido na capital. Na terra, no céu e no mar, em cada um desses mundos mora um ser dominante.
— E o bicho homem domina tudo.
— Domina até outro homem, mas se deixa dominar por uma mulher.
 
Xandão  aparece puxando  Mimosa pelo cabresto, seguida por um bezerro castanho, muito famoso.
 
— Tire o cabresto da vaca, Xande! Aqui não há cabrestos. Tudo é regido pelo amor. E no amor não há cabresto.
 
Euzébia se levantou do sofá de camurça azul, decorado com duas faixas brancas no formato de uma cruz. E perguntou ao marido:
— Aquele velho robusto é Zé Pilão?
— Aqui no céu chamamos as pessoas pelo nome de batismo. Se o apelido não for pejorativo, até que vai. Tem Padre  Zezinho, Padre  Chiquinho... Sarcasticamente, no mundo dos humanos,  o diferente das pessoas é colocado em evidência, pregado na testa como um rótulo que precisa ser  lavado sete vezes no rio Jordão. Zepillon que é o mesmo Zé Pilão, passou agora há pouco chupando cana.
 
— No céu tem cana?
— Tem tudo. Só coisa boa. É só pensar. E não é toque de mágica. Deus não é mágico.  Ele tudo pode. Deus é capaz de colocar o mundo inteiro num dedal.
— Se só tem o que é bom. Não tem doença.
— Doença é só no mundo dos mortais. Lá, cada  um tem sua lepra. 
 
Aquele que nasceu com um defeito físico, logo recebe o defeito como nome: ‘Ô, perneta, faz favor!’... ‘Ô bucho de lama... ’ ‘Tampinha de Binga, venha cá!’ ‘Ô Vara de Tirar Mamão, troque esta lâmpada para mim!...’ ‘Carequinha, faça-me um favor!’ E vai por aí afora pisando nos calos sem pisar; machucando e fingindo não  machucar. Zé Pilão tinha cintura fina, espáduas largas e quadril avantajado. Se tirasse a barba e vestisse saia... Não  teve filhos, mas  adotou uma menina que mais tarde se tornou esposa de Turíbio Soberbo. 
— Era eunuco.
— Esse registro não consta no livro da vida dele. Apenas algumas averbações. “Lutou  para vencer as tentações; grande é sua recompensa no céu.”
 
João Velho dominava a conversa, e como ninguém o interrompeu, ele continuou  “O povo conta que Soberbo matou  o sogro Zé Pilão, porque o Zé  se pôs em defesa da filha. Quero dizer, Zepillon  Evangelista de Jesus. Uso o apelido dele, só para situar melhor a história.” 
 
—  A briga foi com Pururuca.  Briga à-toa. Zé Pillon chamou Pururuca de Torresmo rançoso. E Pururuca devolveu a ofensa chamando o outro de Zé Pilão, Zé-povinho... Zé-prequeté...
 
São Pedro ouviu a conversa. E por um momento,  fica  indeciso. ‘Que fazer com Turíbio Soberbo?’  Consultou o livro de registros. Tudo que disseram estava anotado a lápis e apagado com uma borracha. Mas, ficara o vinco.
 
 Que fazer com Turíbio Soberbo? — pensou alto  aquele que tem na mão a chave do céu.
 
— Mande apresentar-se a César — disse o Anjo Torto.
 
São Pedro conferiu os nomes que marcaram presença na missa do vaqueiro em Campo Grande. O nome de Turíbio constava na lista dos absorvidos em confissão comunitária.
 
A confissão comunitária só é válida em casos  de perigo de morte iminente — Protestou a antiga serpente.
 
— Pese a alma — disse São Pedro ao anjo que tinha na mão uma balança.
 
O galo cantou.
São Pedro analisou todo o texto, inserindo a situação de Turíbio no contexto de sua realidade de morador na zona rural: “ A confissão é válida também nos  casos em que o sacerdote vai a um lugar poucas vezes, e não há tempo de receber a todos em confissão individual.”
 
— Jurisprudência, jurisprudência! Não tolero jurisprudência — Disse o Anjo Negro.
 
  Pedro olhou para a Virgem Maria e a Virgem olhou para Turíbio. 
 
— A taça de meu Filho transborda amor e misericórdia.  Invoco o sangue dos mártires da  Santa Madre Igreja sobre a alma do acusado. 
 
Turíbio, ajoelhado, exclamou em alta voz: “ Filho de Davi! Abri-me as portas santas...”
 
O céu fez silêncio de meia hora.
 
 Que achas disso, meu Filho? Disse a Rainha vestida em ouro de Ofir que entre tantas denominações, age poderosamente como Mãe de Deus,  Rainha do Céu, Mãe da Igreja, Arca da Aliança,  Consoladora do Aflitos,  Espelho  de Justiça e muitos outros epítetos conforme a fé católica.
 
— Vem sentar ao meu lado, --- disse o Rei Jesus. E prosseguiu: "Como está abandonada a cidade,  outrora, tão povoada. Crucifixos arrancados das paredes e proibidos em locais públicos. Aldeias inteiras antes silenciosas e pacatas, agora aplaudem as obras do mal:  barulheira dos infernos, corrupção, droga, assassinato e prostituição."
 
 Jesus ergueu o  braço para esmagar a Terra.  Mas, a Rainha susteve a mão poderosa do Filho, por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo celeste.
 
 Lá fora uma fileira de índios, aguarda que se extinga a fumaça da diamba, queimada aos espíritos de seus ancestrais, para que seus olhos se abrissem e pudessem ver a Luz.  Três caburés de cabelos corridos,  ainda estão na penumbra, entre eles, estivera o índio Arualdo. E, encontrando-se sob o jugo da rendilha cabrestante, foi entregue aos algozes, até que pagasse até o último centavo. Esteve no purgatório, como candidato ao céu em temporada de  estágios necessários à sua  purificação, de molde a poder apresentar-se diante de Deus.
 
Arualdo pensou alto: "Nome engraçado: Fernão de Noronha Capelo."
 
— Conheceste Fernão?
— Foi ele quem   me ensinou a alçar os primeiros voos. E continua ensinando a pai Onofre. O velho é cabeça-dura. Fez besteira. Mas se arrependeu no último momento, por isso, foi sugado para o alto,  antes de cair no  abismo. Ainda não pode apresentar-se ao Altíssimos. Mas tem garantia de céu. 
— Venha comigo, disse o padre Davi.
 
Passaram  por uma ponte que dá acesso a uma elevação montanhosa coberta de grama. Daquele ponto, tinham uma visão completa do universo. 
 
— Estás vendo aqueles índios que acabam de chegar no céu?
— Já vi esta cena antes. Não aqui. 
— São aqueles mesmo que se embrenharam enfileirados, mata a dentro, feito filho de perdiz. Tu os viste, quando eles   saíram de Campo Grande. Agora  concluíram o estágio de purificação assistida. São teus irmãos!
— Não mudaram nada! Os pequenos estão do mesmo tamanho...
— É bom que seja assim.
No céu há crianças, velhos, adultos, e gente  de meia-idade, gordos, magros... Mas a aparência pode ser mudada, de acordo com a vontade individual de cada um. Quem for gordo e quiser ser magro, no céu será magro. Não vês Jeremias? Na terra era baixinho feio, mas aqui tem pose de herói grego.
— Aqui só tem gente bonita.
— No céu tudo é bonito.  Todos se revestem com a beleza do Criador. Tua irmã  Chanana acaba de viajar para uma ilha. Ela, Chanana, assumiu a  forma de uma gaivota. Uma gaivota muito bonita!
— Chanana está no céu?
— O céu não é um lugar. É estado de espírito vivido santamente na presença de Deus. Não é um lugar. Basta uma palavra, um pensamento ou um desejo justo e já  estamos aonde queremos ir. Quanto a Chanana, poderás vê-la daqui a pouco. Ela está em missão. Volta logo.
— Tenho poucas lembranças de Chanana!
— Ela  era muito pequena, quando abandonaste Campo Grande com teus irmãos, e enfrentaste a mata, até à morada de teus ancestrais: a tribo do velho Cuiarana-Araruê em Goiás.
— Meu avô  já era morto, quando chegamos lá.
— Sei. Foi por isso que Apinajé abandonou a tribo.
— Minha mãe nos contou essa história.
 
Ouviram um coro celeste semelhante ao ruído de muitas águas e ao ribombar de trovão. O som  assemelhava-se ao da cítara. Anjos cantavam  diante do trono. 
 
 Padre Davi  percebeu que   Arualdo  já sabia  o suficiente sobre o outro lado da vida. E deu o estágio por concluído. O índio estava curado. Purificado. Pronto para se apresentar diante de Deus.
 
Durante o estágio, também  Turíbio Soberbo curou as  feridas de sua alma causadas pelo remorso de abater gado na  fazenda do patrão.  O padre lhe ensinara a Turíbio que  tudo o que se move e vive serve de alimento ao homem.  E pela força desta mesma palavra, foi retirado o sentimento de culpa do  patrão  por todos os bois mandados para o abate.
Enquanto caminhava com o padre, Arualdo reviveu cenas de sua infância e juventude na fazenda Grande. Viu um homem que tirava o chapéu e abria a porteira para que os animais passassem. Contava do primeiro ao último. Depois punha o chapéu, para guardar o resultado na cabeça.
 
—  Vejo um homem semelhante ao doutor Generoso, fazendo a apartação do rebanho.
— É ele, mas não agora. Aqui não tem passado nem futuro.
 
Tudo é hoje. Hoje você quis visitar a fazenda Campo Grande. Hoje você foi lá. Hoje aqui é o ontem de lá. Aqui tudo é  hoje. O que viste e ouviste foi a recepção de chegada do  Generoso no céu.
 
O gado mugiu. 
Nhá Santa gritou: " Atalha o frango, nego mole!"
 
Ela  gostava quando a meninada de  Campo Grande a chamava de “Mãe Preta”. Talvez fosse esperteza deles para receberem algum agrado, porque logo, Nhá  oferecia um beiju, uma pinha ou um pedaço de rapadura. Alguma coisa Mãe Preta guardava para mimar  quem aparecia na hora que ela mais precisava: “Meu filho, vá buscar uns pau de lenha pra mãe preta”. E rapidamente o menino chegava com um feixe de gravetos. Ele  sabia que o agrado era certo.
 
O vaqueiro aboia o gado.
Tunico Oliveira calcula  por baixo: mais de quatrocentas reses. Veríssimo confirma. Maximiano fica calado. "Basta, João Velho! Já tem muito gado no pátio!"
 
 
Era festa no céu.
Tinha boi na brasa e todo tipo de guloseima, mas não houve nenhum abate.
 
— Convidaste tia Du pra o churrasco?
— Qual delas?
— As duas: a mãe de Smith e a Do Carmo Lopes.
— Do Carmo  está aí, faz tempo!
— Du Marques está atrasada. Não larga Zeca por nada. Diz que estava com muita saudade... Chegará mais tarde.
— Por que não vem com o Zeca?
— Zeca está na academia.
 
Du Marques demorou muito a sair de Montes Claros. Não queria largar o Hotel Sonia, ali ela viveu um céu com Zeca, mas ele viajou primeiro. Saiu mas não saiu... Estava sempre por ali recebendo a clientela. Foi preciso que Du dissesse: “Vá meu filho, apresente-se a Jesus. Espere lá por mim.” Ela demorou uma eternidade. Viveu quase cem anos, isso no calendário dos homens, porque no tempo celeste representa uma fração de hora.
 
Chove lá  fora.
— Não sabia que chovia no céu.
— É chuva de bênção.
 
Corina avisa que a mesa é posta.
— Eu não tinha sentido fome, desde que cheguei aqui.
— Esqueces que nos transportamos para Campo Grande, meu Cravo? Hoje é festa do Vaqueiro. Olha como está cheia a capela que construímos.
— Tem mais de quinhentas pessoas.
— Só a descendência de Tião Caburé dá essa quantidade.
— Não devemos chamar as pessoas por apelido.
— Ora, minha rosa, estamos em Campo Grande. 
—  A fazenda Campo Grande gerou em minha alma toda boa lembrança que tenho de mim — repetiu ela.
— Achei que fosse Mirabela.
— Cada coisa em seu lugar e em seu tempo. 
— Verdade. A vida é uma ficção da realidade desconhecida.
— Meu cravo, como se não bastasse rasgar teu latim no meio do pasto, queres agora filosofar em festa de vaqueiro? 
— Então me dê cá a viola.
 
E tocou Saudade de Mirabela. 
Seu repertório passou também por Luís Gonzaga, Tião Carreiro, até entregar a viola a outro. 
— Agora é com você, Alcymar Monteiro.
 
 O vaqueiro adoecendo joga seus couros na cama.
 Pelo campo o gado urra como quem por ele chama
Na porteira do curral berra toda bezerrama eheheh.

  ***
Adalberto Lima, trecho de "Estrela que o vento soprou."
Imagem: jaguariuna.sp.gov.br

***
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Adalberto Lima


Enviado por Adalberto Lima em 12/05/2018





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