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Contos-->O Peido do Coronel -- 27/06/2018 - 18:29 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
O Peido do Coronel

Na fazenda Campo Grande, a aurora chega, quando o bezerro apartado berra,  suplicante, pedindo sua cota do leite guardada nas tetas da mãe.  Vai um dia e vem outro. Mal descansa e  outra vez o  sol desponta. Medroso, levanta sonolento  no balde de leite do vaqueiro e vai dourando de luz  planícies e montes.  Cai a noite  trazendo sono nas pálpebras pesadas do relógio de parede. Nove batidas compassadas e já é hora de dormir. Naquele tempo, chovia. O sol se escondia semanas a fio e os meninos se banhavam nas águas barrentas do rio.  

Com o  dia todo amanhecido, Euzébia tange a galinha que bica comida na mesa. ‘Sai trem desgramado, vai quebrar a imagem do santo!' À  tarde, pálidos raios do ocaso tocam suavemente as brancas asas de uma garça no crepúsculo das lembranças. A noite cai. A saudade invade o coração de Corina. Belos tempos em que a juventude lhe sorria, quando em noites de lua clara, a peonada se reunia,  no alpendre da fazenda, para ouvir estórias que Generoso  contava, e as músicas que ele cantava ao som de sua  viola. A mulher do fazendeiro  morria de paixão, ouvindo “Saudade de Mirabela”, que o marido, inventado de cantor, tocava na viola que Zé Coco fazia, com as próprias mãos, e um toco de canivete. Naquele dia,  Generoso Batista  disse aos cafuçus:  ‘Hoje não toco.’ Foi quando Tunico Oliveira se manifestou recitando Ferreira, em pé de verso, guardado na memória desde a mocidade. 
 
Dim dão, Dim dão...
 
João Grilo foi um cristão que nasceu antes do dia,
criou-se sem formosura, mas tinha sabedoria
e morreu antes da hora pelas artes que fazia. 
 
Nasceu de sete meses, chorou no bucho da mãe;
quando ela pegou um gato ele gritou: ‘não me arranhe’
não jogue neste animal que talvez você não ganhe.
 
— Atalho o frango nêgo mole!
— Não me interrompa, patrão. Ainda quero trastejar uma cantiga que assuntava pai imitando seu Leandro Gomes do Pombal. 
 
Quando cachorro falava, gato falava também
Gato tinha uma bodega como hoje o homem tem
Onde vendia cachaça encostado ao armazém. 
 
Com a balança armada para comprar cereais
E na bodega vendia, bacalhau, açúcar e gás
Bolacha, café, manteiga, miudezas  e tudo mais.
 
O peru vendia milho, o porco feijão e farinha
Com um cacho de banana, mais tarde o macaco vinha
Raposa também trazia um garajau de galinha. 
 
Guariba vendia escova que fazia do bigode
Urubu vendia goma, porque tem de lavra e pode
A onça suçuarana vendia couro de bode.
 
A meninada ria. Corina aplaudia,  mas, naquela noite, Nhá Santa não serviu café nem chá.
No dia seguinte, mal se pôs o sol, a noite caiu toldando a terra com a negritude de seu manto. O canto do pássaro se cala, a saudade invade a alma e faz morada no coração. O céu, salpicado de estrelas, assemelha-se a uma veste de princesa tecida por mãos de fada. A bicharada, de hábitos noturnos, passeia. As horas avançam velozes cavalgando a lua de São Jorge. O rato foge da coruja que pia, e arrepia de medo os pelos da meninada. As pálpebras pesadas  pedem descanso na cama. Tunico Oliveira  se despede e sai.  Demais camaradas também se vão. Os meninos que brincavam de cabra cega na calçada, agora dormem a sono solto, até que nova aurora se levante  no bico da passarada. 
— Vai chover, disse Xandão.
— Nessa sequidão medonha, o amigo profetiza chuva para o sertão norte-mineiro? O patrão vai tirar o gado para o Gorutuba. Alugar pasto, salvar o rebanho.
Os anos setenta repetem as imagens da seca de 32 no céu rendado de nuvens brancas paradas no firmamento. O sol escaldante consome a pastagem e bebe a água do rio.  O Saracura não corre; o  Lambari secou, e rio Juramento fraqueja em cumprir a promessa de irrigar a terra. A serra azul outrora verde, mostra-se agora acinzentada.  O ar treme. Freme e se contorce de dor a natureza. Fome e sede ameaçam o plantel de gado. Mas na  casa do coronel  ainda tinha fartura de legumes guardados nos tonéis de mantimentos. Na cozinha, flocos enegrecidos de picumã, descem do teto, confundindo-se  com a linguiça que defuma na fuligem do fogão a lenha.
— Venha ver, senhora!  O terreiro está coalhado de gente!
— Abata três galinhas e dois frangos. Faça um tacho de arroz com pequi, disse Corina.
— E feijão?
— Pobre não gosta de feijão. Faça pirão, maxixe e quiabo. Cozinhe um caldeirão de nabo. Saco vazio  não segura em pé.
 Fazer comida para mais de trinta pessoas era serviço demais para uma só.
— Nhá Santa... Nhá Santa...
— Espere, estou rezando...
A cozinha se movimenta.
Cuidadosamente, Euzébia retira a penugem dos frangos. Corina cuida do maxixe. Nhá Santa lava o quiabo picado, e  põe limão. A panela baba. A chaminé respira cheiro de sementinha de coentro verde, alho e sal socados no pilão. Nhá arruma a mesa grande. Talhares postos, doze cadeiras acomodam os comensais. Depois mais doze pessoas se sentam à mesa e se revezam. Mais doze, enfim, se fartam. Os meninos comem na cozinha, e os grandes  que são cria da casa, sentados no chão, recebem a boia em prato esmaltado. 
É hora da procissão.  Peregrinos tomam a estrada. E se vão. Rezam. Cantam. Suplicam. E voltam molhados. Pingos miúdos caem no telhado, correndo e escorrendo nas cabecinhas dos pirralhos nus. Viúvas da seca entoam canto de lamentação e mães choram seus filhos ausentes. Paulista em Taubaté nascido, Alexandre Guedes puxa a reza e se recorda das Aves-cheia-de-graça que dizia, no colo da mãe, quando criança. O sino toca. Mulheres cantam hinos, invocando os santos de devoção. Guedes, intercede, pedindo que se abram os reservatórios do  céu sobre o Norte de Minas.
Era dia de São José.
Fiéis, ajoelhados pedem  chuva. Despejam sobre a cruz da capela de Santa Catarina as garrafas de água que levaram. Vaqueiro Alexandre Guedes  se inclinou até o chão, pôs a cabeça entre os joelhos e disse a João Velho: “Vá e olhe para o lado de Sete Passagens.” O ajudante foi e voltou dizendo: “Não vi nada.” Sete vezes  Xandão mandou que ele fosse olhar. Na sétima vez, o ajudante voltou e disse: “Eu vi subindo da serra uma nuvem pequena, do tamanho da mão de um homem, como nos tempos do profeta  Elias.” No ribombar do trovão, o céu dá sinal que ouviu as preces penitentes daquela gente sofrida. A multidão fez silêncio para ouvir a voz de Deus. Lágrimas de agradecimento se misturavam às gotas miúdas caídas do céu. A procissão se desfaz. Fiéis retomaram a estrada, cerca uma légua de volta pra casa.
— Quem é o anjo gordo que puxou a reza? — Quis saber Corina.
— Gordo, careca e sem asas é o Xandão; chegado de Taubaté e contratado,  como vaqueiro da fazenda Campo Grande.
— É casado?
— É. Mas a mulher não acompanha. 
— Que pena, um homem tão bom!
Naquele ano, choveu pouco no Norte de Minas, e a luta para salvar o gado era interminável. Levantava um animal aqui, caia outro ali. Levantava um ali, caia outro acolá... Até barrigueira para o animal ficar em pé, Generoso fazia. Aprendera a salvar gado nas grandes secas do Nordeste, dando papelão molhado e garapa de rapadura às reses mais fracas. Muita gente fazia o mesmo e salvava parte do rebanho.  Quem não tinha papelão, oferecia cacto sapecado, levemente queimado, para eliminar os espinhos.
— Papelão para vaca parida? O pasto está minguado, o leite também, mas você pode comprar torta de algodão e dar ao gado.
— Nada não, mulher! Quero que o leite saia embalado como ovo de galinha.
— E a garrafada de rapadura? É para o leite sair adocicado?
— Sê besta!...Rapadura é o melhor energético para levantar animal caído. 
Generoso não quis revelar que na seca de 1932 ele comeu macambira e sementes de maniçoba, apanhadas no esterco das vacas. Também não disse que era nômade como milhares de nordestinos, que abandonam suas terras, por causa da seca.
A tarde cai. 
Mais uma vez, a peonada se reúne no alpendre para ouvir moda de viola. 
 
Tiru-liru-liru, liru- liru liru-lão. Tiru-liru-liru, liru-liru liru-lão.
 
A seca de 32 não foi culpada sozinha, porque desde 27
 que ano bom já não vinha... 
 
Corina pede que o marido toque saudade de Mirabela.
— Primeiro toco meu amor por você.
— Tem música com este nome?
— Tem...
Afinou a viola e  tocou tristeza do Jeca.
 
 Nestes versos tão singelos. Minha bela, meu amor.
 Pra você quero contar. O meu sofrer e minha dor...
 
— Quem é o cantor? Quis saber Pururuca. 
— Num tá vendo que é o coronel, respondeu Turíbio Medonho.
Generoso riu, e em estrondosa gargalhada não pôde segurar o berro, quando a barriga subindo e descendo, chacoalhou. E a coalhada chacoalhada, respondeu com um trovão abafado: “A fôôôn so..."Corina beliscou as costas do marido: “Meu cravo, não leve a Tristeza do Jeca para debaixo das cobertas”. Os meninos riram. E um deles disse em voz alta: “Foi o coronel quem peidou.” Tunico Oliveira tentou consertar o vexame, e acrescentou: “Pururuca queria saber quem compôs Tristeza do Jeca. Não tenho certeza, mas deve ser Angelino de Oliveira, meu parente distante.”
— Né isso não. O menino está certo — emendou Pururuca — Se ele não aponta o responsável, a culpa do pum caia em mim.
Houve uma trovoada de risos. E Pai Luís deixou cair a dentadura na xícara de café.
— Inté outro dia, patrão.
— Até.
Vaqueiros e agregados tomam o caminho de casa e levando no ouvido o aboio de Patativa do Assaré, que  Generoso tocara para fechar as cortinas de   mais uma noite de viola à luz do luar: 
 
Êeee vaca estrela, ôoooo boi fubá...
Adalberto Lima
Enviado por Adalberto Lima em 27/06/2018
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