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Contos-->No rastro da onça -- 05/12/2018 - 14:07 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
 

Vaqueiro Onofre gastou pedaço de noite planejado a incursão  na mata. Pensou no risco de serem surpreendidos por animal feroz: ‘ Onça é  bicho é astucioso. Anda sem fazer barulho e ataca de surpresa. No meio da mata, a onça é quase invisível. A parda, quietinha sobre as patas traseiras, parece um cupinzeiro... E a pintada... a malha da onça pintada, se confunde com o capim seco.’

O galo cantou três vezes. E três vezes Pururuca se mexeu na rede e não se levantou. Onofre perguntou ao patrão se podia dar um tiro pra cima.
— Atire! A próxima compra na cidade vai ser um sino, um sino para acordar vaqueiro na fazenda.
Corina aproximou-se trazendo café em um bule azul com bolinhas brancas. Nhá Santa chegou com um tabuleiro de biscoito frito,  ainda quente. E enquanto os vaqueiros faziam o desjejum, passou um vulto  correndo e se escondeu atrás do forno de fazer farinha.  Generoso mandou que dois homens fizessem uma varredura no terreno. Vasculhassem, inclusive,  o borralho... E riu. "Se não for assombração, é Pururuca do Curral de Dentro se escondendo da onça..."
Minutos depois, João Velho chega escoltando Pururuca. Foi só uma dorzinha de barriga, disse este último.
Onofre apressou-se.

— Tá na hora da onça...
Meeiros e enxadeiros não se apresentaram.
 — Cadê os roceiros? — perguntou o patrão.
—Nem sinal de vida!
— Melhor assim.
—Inté a volta!
—Até...
Corina enclausurou-se no quarto de casal. Abriu o oratório encavado na parede; tomou nos braços  uma réplica em bronze do Crucificado e pediu proteção para os homens investidos da missão de combater a onça. “ Meu Deus, meu Deus! Para que matar os bichinhos,  Generoso?  Os leõezinhos rugem por sua presa, e pedem a Deus o seu sustento.”
— Conversando com seus amigos invisíveis, Minha Flor?
— Estava pedindo proteção divina para os caçadores de onça.
— Então direcionou com atraso sua oração! Acabo de ouvir leõezinhos pedirem a Deus uma presa.
— Você não deixou o filho do Dr. Adilson  embarcar nessa aventura, deixou?
— Ele foi.
— Cruz, credo! Tu és louco? Mandar esses homens se embrenharem na mata atrás de onça em vésperas de finados?
— Dia bom, minha santa! Vésperas de finados é dia de todos os santos. Não vai faltar nenhum santo na companhia dos vaqueiros. 
 Vaqueiro Onofre saiu na frente, seguindo uma vereda de gado. Teve vontade de amarrar o cabresto da montaria do Júnior de doutor Adilson, na cabeceira de Xerém. Mas não atrelou. Preferiu passar severas recomendações ao cavaleiro afoito, chegado da cidade:
—Fique no meio dos outros, doutor. A onça se mostra ao da frente, mas ataca é o derradeiro.
— Vamos parar pra verter água. Disse João Velho.
— Faça da cabeça da sela. Tá escuro ainda. E d’agora em diante, ninguém desce dos arreios sem eu mandar.
A intenção de Onofre era surpreender bicho grande na furna da onça. Chegaram ainda escuro. Acenderam fogo na entrada da gruta e ficaram de tocaia.
— Vem  coisa aí, disse João Velho, quase em sussurro.
— É uma raposa! Ninguém se manifeste.
Fizeram absoluto silêncio, mas nada ouviram, senão o crepitar de galhos verdes ardendo ao fogo, e pequenos roedores que saiam da toca, correndo desembestados.
Arribaram.
Cachorro Graudez latiu longe encomendando tatu. Onofre ralhou e seguiram marcha. Mais adiante, o vaqueiro parou. Tirou o chapéu, beijou o escapulário de Nossa Senhora do Carmo e se benzeu. 
Os cachorros acuaram bicho no mato. 
Agora se espalhem de dois em dois — disse Onofre — o rapaz da cidade fica comigo. João Velho pode seguir sozinho ou fazer uma trempe com mais dois. Todo mundo amontado. É preciso varrer esse sovaco de serra, pisando miúdo, passando pente fino!
Pururuca não conseguia acompanhar os passos da montaria de José Lino. E atrasou-se. O companheiro  perdeu a paciência. Tinha diminuído a batida para o outro alcançar a marcha... ‘Atraso de vida, esse sujeito!’ 
— Chegue a espora no vazio do animal, vaso ordinário!  Nesse passo, não vou alcançar  nem o  rastro da onça.
— Cavalo fi’duma égua...
 —O cavalo é bom. O cavaleiro não presta. Só mesmo Pururuca pra reclamar de Torresmo. Na batida, não tem cavalo melhor.
— Nasci pra vaqueiro não!
— Se não acertar o passo, largo você pra onça comer...
Largar pra onça comer foi o mesmo que dar de pau na cabeça de Pururuca do Curral de Dentro, porque  lhe fez lembrar as carvoeiras de Tremedal. Ele tinha conseguido uma vaga como formiga, naquele formigueiro de fumaça e fogo.  Lá a coisa era feia! Mesmo de dia só se enxergava o branco dos olhos. Só se via vultos passando no meio da fumaça, como almas pagando elevadas penas no purgatório. Aquilo não era gente. Era tição apagado que andava... Os mortos, matados por qualquer desavença, iam para o forno da carvoeira. Não ficava  nem cinzas. O patrão pagava só  com mantimento, fornecido por ele mesmo a elevado custo. Fora isso, dinheiro, ninguém via. O jeito de sair dali com alguns trocados   era pegar araponga na mata e vender em Salinas. Mas os bichos se afastaram por causa do eucalipto. Precisava ir longe para encontrar uma araponga, um veado, ou qualquer caça do mato. Nem passarinho, de porte nenhum, se vê em mata de eucalipto. Pois foi naquele segundo domingo de novembro, que Pururuca apanhou sua gaiola com uma fêmea de araponga  e vazou o eucalipto. Muitas léguas depois da carvoeira, armou o alçapão e ficou de tocai, reparado,  pra ver se a chama atraia algum macho. Esperar por uma oportunidade de captura é como pescar: não se sabe a hora que o peixe vai morder a isca. Distraiu-se vagando, pensando na mulher que deixara em Montes Claros, de favor, na casa do pai dele. 
Depois de horas de espera, a chama  mostrou-se  agitada. Pulava desesperadamente, de um para outro lado da gaiola. E quando ele reparou direito... Sentada sobre as patas traseira, uma onça preta, acocorada, humilde,  feito cachorro pidão, espiava  a araponga pular. Também de cócoras, ele  estava. Levantou-se. Deu três pulos de tiziu: Subia e gritava. Descia. Subia e  gritava... No último grito, a onça abanou o rabo e saiu devagar, como se dissesse: ‘Tive medo não!  de barriga cheia.’    Enquanto divagava em suas lembranças, Pururuca atrasou o passo mais ainda, e ficou distante do parceiro. José Lino gritou, de longe:
— Roseta o animal, cabra mole!
—Tenho coragem de furar o bichinho, não! 
— Cadê a arma?
— Caiu na voçoroca.
— Por que não pegou?
— Dava não!
— Caiu em qual delas?
— Na voçoroca do  meio, no grande vale  que fica entre duas serras. Tem tudo que é bicho lá dentro.
— Vamos voltar. A onça deve ter sentido os cachorros e se escondeu lá.
— Volto não! Lá, volto não! Já vi onça olhando pra mim. Quero ver mais não!  Os mais antigos contam que já morreu muito animal lá dentro. Mas animal não conta. Gente conta. Três vaqueiros sumiram. Devem estar lá. Tem osso de tudo quanto é vivente. Se escapar da queda com vida. Não sai. Sai não! Fundo demais! Se cair na voçoroca, morre lá. Sai mais não. 
— Sê besta, Pururuca! Caindo com vida,  morro não! Tem água e caça. É só fazer fogo.
—Vai viver lá o resto da vida? Sai não, nem querendo... Se cair uma onça e escapar, tem que negociar espaço com ela. E se a onça  parir? A cria vai crescer!...
 — Para de pensar besteira! Como a onça vai apanhar cria sozinha na voçoroca! 
—Sei não, pode cair prenhe. Mexo com onça não,  seu Jose Lino!
—  Eta, homem frouxo! 
O xixixi da chuva  quebra, suavemente, o silêncio da mata.  Gotas miúdas caem, escorrem para o rio. Naquele tempo chovia, o sol se escondia semanas a fio. O trovão trovejava e trazia coalhada escorrida, escorrendo numa bola de pano, pendurada no travessão da casa.  A galinha ciscava em torno do paiol de milho. Cheio até o teto. Tempo bom, quando chovia. Menino enchia a barriga com mingau de milho verde, coalhada, rapadura e pamonha.
***
Texto: Adalberto Lima
Imagem: Wikipédia

 
Adalberto Lima
Enviado por Adalberto Lima em 05/12/2018
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