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Contos-->O judeu errante -- 01/06/2019 - 21:31 (Pedro Carlos de Mello) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

O Judeu Errante

 

Porque o filho do homem há de vir na glória do Seu Pai, com os Seus anjos, e então retribuirá a cada um conforme o seu procedimento. Em verdade vos digo, alguns dos que estão aqui presentes não hão de experimentar a morte antes de terem visto chegar o Filho do Homem com o Seu Reino.

– Mateus 16: 27,28.

 

Disse-lhe Jesus: “Se eu quiser que ele fique até que Eu venha, que tens com isso? Tu, segue-Me”. Divulgou-se, pois, entre os irmãos, o boato de que aquele discípulo não morreria. Jesus não lhe disse que não morreria, mas sim; “Se Eu quiser que ele fique até que Eu venha, que tens com isso?”                                        – João 21: 22, 23.

 

            Eu me chamo Calebe. Era costume, há cerca de dois mil anos, dar às crianças nomes de animais. Em português, seria “cão”. Como sei falar português? Eu tenho um dom: consigo, automaticamente, falar o idioma nativo de cada país que visito. E venho fazendo isso há quase dois mil anos. Sim, acreditem, eu tenho exatamente 2023 anos. Sou do tempo de Jesus. Esse, vocês sabem quem é.

            Naquela época, eu era comerciante de peles de animais. Estava na frente de minha casa, fazendo propaganda do meu produto, quando vejo um cortejo ruidoso se aproximar. Um homem, que depois soube ser Jesus, caminhava lenta e penosamente carregando uma cruz, seguido de soldados e populares em alarido. Naquele tempo, era comum a crucificação de pessoas julgadas criminosas. Ao vê-lo passar, ainda fiz graça. “Ande, vamos, apresse-se”. Jesus, calmamente, respondeu-me: “Irei, mas você esperará minha volta”.

            Se ele pensou que estava rogando uma praga para mim, enganou-se completamente. Queria ele que eu errasse pelo mundo indefinidamente, implorando pela minha morte, até que ele voltasse ao mundo. Até hoje ele não voltou. Não sei se ele voltará. Enquanto isso, tenho procurado viver da melhor forma possível, aproveitando o máximo que este mundo pode dar.

            Quase todas as histórias que falam de mim, apresentam-me como um sofredor, que não aguenta mais viver, que já fez de tudo para morrer e não consegue. Não é bem assim. Adoro viver. Não é uma maldição, é uma bênção esta vida longa. Não falo em imortalidade porque realmente não sei se não morrerei um dia.

            Nesses quase dois mil anos, tenho vivido experiências memoráveis. Muitos desses acontecimentos são de conhecimento de vocês, pelo que lhes conta a História. Não sabem vocês, todavia, que eu estava lá, que eu os presenciei, seja como mero espectador seja como um participante anônimo. Querem que eu lhes conte sobre alguns desses acontecimentos? É claro que querem. Serão poucos que citarei, obviamente. Não posso perder tempo (embora tenha todo o tempo do mundo). A próxima aventura me espera. Desculpem-me, mas não vou respeitar a cronologia. Acho que ficaria muito chato.

            Querem saber? Augusto, o Forte, rei da Polônia, era conhecido por ser o pai de mais de trezentas e cinquenta crianças. Querem a verdade? Algumas dessas crianças não eram filhas dele, não. Eram do papai aqui. Ainda bem que naquela época não existia exame de DNA.

            Gian Gastone, o último príncipe dos Médices, tinha um estábulo com quatrocentos escravos sexuais, homens e mulheres. Ele achava que era o único senhor, Mas eu, secretamente, também fazia minhas visitinhas.

            O Concílio de Constança atraiu, além dos clérigos, visitantes de toda ordem, como curiosos, mercadores, joalheiros, alfaiates, sapateiros, boticários, peleteiros (olha eu aí), confeiteiros, barbeiros, escribas, menestréis, acrobatas e muitos outros. Na ocasião, cerca de setecentas prostitutas também se apresentaram na cidade para oferecer seus serviços aos religiosos do Concílio e a quem mais se interessasse. De minha parte, posso dizer que não só me interessei como aproveitei bastante.

            Em 1772, em Marselha, na França, participei de um esplêndido baile à fantasia oferecido pelo Marquês de Sade. Muitos homens e mulheres estavam presentes. Sade distribuiu chocolates deliciosos, que muita gente comeu. Nesses chocolates, entretanto, o Marquês inseriu a “mosca espanhola” (cantárida), um conhecido afrodisíaco. Tomado em doses elevadas, provocava forte mal-estar, podendo até levar à morte, o que aconteceu com alguns convidados. Tomado em doses menores, o que ocorreu com algumas mulheres, provocava alta excitação. Essas mulheres ficaram alucinadas, rasgaram suas roupas e se ofereceram em desvario aos primeiros homens que encontraram em condições de satisfazê-las sexualmente. Providencialmente, eu estava entre esses homens.   

            Mas, continuemos. Nem só de sexo é feito o prazer do homem.

            Tive a suprema graça, hoje eu sei, de ler Dom Quixote recém saído da pena de Cervantes. Os moinhos de vento, que Dom Quixote combateu como se fossem gigantes, vi-os nascer na Pérsia, em torno do ano 700. Somente mais tarde, no ano de 1180, foi construído o primeiro moinho de vento na França.

Assisti a muitas peças de Shakespeare no Globe Theatre, em Londres.  O teatro, reconstruído recentemente, agora com o nome de Shakespeare’s Globe Theatre, é praticamente igual ao original. Fui lá conferir. Estive na abertura extra-oficial, em maio de 1997, em que foi levada ao palco a peça “Henrique V”.

Em Viena, dancei a valsa Danúbio Azul, composta por Johann Strauss (filho) ao som da própria orquestra fundada por ele. “Em Viena dançarei contigo...” escreveu Federico Garcia Lorca, no seu poema Pequena Valsa Vienense. Leonard Cohen transformou o poema na canção Take this waltz. Estive em Boston (não, não participei do atentado terrorista) em dezembro do ano passado e vi e ouvi Leonard Cohen, ao vivo, cantando Take this waltz, quase ao final do seu show.

Vi o verdadeiro sorriso da Mona Lisa, antes de Leonardo da Vinci imortalizá-lo na sua pintura. Como vi, posso afirmar: a musa retratada era, sim, a nobre florentina Lisa Gherardini, casada com Francesco del Giocondo. Estive no Museu do Louvre, em Paris, apreciando a obra de Leonardo, também conhecida como A Gioconda, um pouco antes de Napoleão retirar o retrato do Louvre para colocar no seu dormitório no Palácio das Tulherias, onde ficou por quatro anos. No caso da Mona Lisa, a arte não se limitou a imitar a vida. Eu que conheci pessoalmente Lisa, por mais encantadora que pudesse ser a sua pessoa, posso atestar: o quadro de Leonardo é muito superior em sua beleza. Leonardo deu atenção aos mínimos detalhes, o célebre sorriso não é somente o sorriso de Lisa, mas sim um atributo inerente ao encanto feminino. O historiador da arte Donald Strong sustenta que Da Vinci representou A Gioconda como símbolo da virtude triunfante sobre o tempo e, portanto, como a imagem da mulher virtuosa.

Quando estive em Veneza, em 1818, fiz algumas travessias, a nado do Lido até o final do Grande Canal, junto com o poeta Lorde Byron (claro que ele pensava que eu era um anônimo veneziano), que morou por um período no Palácio Mocenigo. Ah! Veneza! Veneza e Paris são as cidades de que mais gosto. Sempre volto a elas.

E por falar em Paris, deixem-me contar-lhes um fato que vai interessar a vocês, brasileiros. Corria o ano de 1906. No dia 23 de outubro, eu estava lá, no campo de Bagatelle, juntamente com uma multidão. Meninos, eu vi! O brasileiro Santos Dumont, diante de todos nós, em um dirigível mais pesado que o ar, alçou voo e, a uma altura de três metros, percorreu a distância de sessenta metros. De lá para cá, tenho acompanhado, entre surpreso e maravilhado, a evolução tecnológica da aviação.

Bem, acredito que já deu para vocês terem uma idéia sobre o que presenciei nesses dois mil anos. Não quero cansá-los com o relato de acontecimentos desagradáveis como guerras e outras calamidades, mesmo porque, sempre procurei evitá-las. Nem sempre consegui, é fato. Sobrevivi à erupção do Vesúvio. Estava em Pompéia no ano 79 do atual calendário. Foi minha primeira experiência de quase morte. Sobrevivi à peste bubônica, em 1348, que matou um terço da população européia. Sobrevivi a outras calamidades, como o terremoto de Lisboa, em 1755. Mas, estava escrito, eu ainda não podia morrer. Ainda não posso hoje. Jesus não voltou. Hoje eu diria a ele: “Não se apresse”.

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