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Contos-->O desabafo do diabo -- 13/06/2019 - 21:27 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Emanuela, uma vez mais, cumpria seu ritual diário. Era uma mulher temente a Deus, ainda que à sua própria maneira e, como tal, saía do local de trabalho às 18:00hs e, como em toda quarta feira, dirigia-se ao culto na igreja localizada à mesma avenida onde trabalha. Embora focada no trajeto e nas questões imediatas relacionadas ao mesmo, por estar em uma grande cidade, ela não consegue deixar de lado os problemas do dia a dia que, assim como acontece com outras pessoas, terminam por se tornar mais uma parte de si do que necessariamente questões a serem resolvidas.

Astolfo está fora da cidade. O trabalho com o caminhão mais uma vez o levará a outro Estado e ela vai estar sozinha com as crianças por mais uma semana. O mais velho vai estar nos treinos de futebol à noite e, aos 16 anos, não precisa da companhia da mãe. Quando não, estará na casa de amigos. Já a menina mais nova tem 14 e não sai da casa do namorado, o que fará com que ambos deixem o campo aberto para que Alex possa visita-la mais que uma noite por semana. Seus encontros são limitados aos sábados, quando todos estão fora e ela termina por depender do álibi de sua amiga Joyce, que, ao menos na teoria, passa a tarde com ela enquanto o marido descansa das longas viagens em casa ou está no bar com amigos. E ninguém melhor que o cunhado para ocupar o espaço que o caminhoneiro deixa vago por tantos dias em sua cama e em seu corpo.

Culpa? Era uma adúltera, sem dúvida, mas acreditava que o irmão do marido era a pessoa ideal com quem manter um relacionamento ocasional, uma vez que manter a cunhada satisfeita não era menos que uma obrigação. Ela não se lembra da passagem, mas lembra-se que na Bíblia já havia lido algo mais ou menos parecido, algo como alguém casar-se com a esposa de seu irmão morto no intuito de continuar sua descendência. O caso dos dois, sendo assim, talvez fosse um pecado, mas nada de extraordinário.

Quando se aproxima da igreja, no entanto, lembra-se do patrão. Emanuela precisava de sua última promoção e ele sempre se sentiu atraído por ela. Havia a necessidade de aumentar sua renda e conseguir fazer algo mais pela família, haja visto que Astolfo tinha pouco trabalho naqueles dias. Ela admite que gostou do que aconteceu, mas a intenção foi das melhores, tudo o que queria era agradar o chefe de modo a conseguir aquele aumento e, por que não dizer, satisfazê-lo não foi das tarefas mais difíceis. Mas ela não voltou a ceder, até porque o superior não a procurou mais. Sendo assim, havia se redimido de seu pecado e não tinha motivo algum para sentir culpa.

Agora, estava mais uma vez à igreja. Estranhamente vazia para aquele horário, ela pensa. Onde estariam todos? O pastor que pregava naquela hora era razoavelmente bonito e dava muita atenção a Emanuela, motivo pelo qual ela preferia já sair do trabalho e assistir ao culto antes de ir para casa. Não seria estranho que algo tivesse acontecido ao pastor e ele se atrasasse, mas a chance de que todos que frequentavam a igreja tivessem tido algum tipo de problema era muito remota. Sendo assim, onde poderiam estar?

- Talvez tenham encontrado algo melhor pra fazer hoje... Ou simplesmente não devessem estar aqui. Vai saber?

- Hã? – ao ouvir a voz, vinda da fileira de trás, Emanuela não consegue evitar de se assustar. O homem é bem vestido, elegante, e lhe chama a atenção tão logo olhe para ele, gerando um interesse considerável, ainda que abafado pelo susto, e contido pelo fato de que acabou de ver o homem pela primeira vez, além do fato de estar numa igreja que frequenta com o marido.

- Ah, me desculpe pelo susto. Estava de passagem e senti que hoje era dia de entrar neste lugar. E como só vi você aqui e que o culto não havia começado, não tive como não me aproximar.

- Tudo bem, não foi nada... Mas é estranho que não tenha ninguém aqui ainda. Geralmente eu é que chego tarde, devido ao trabalho, e o pastor já está iniciando a pregação. É a sua primeira vez aqui?

- Isso mesmo. Resolvi passar pra fazer uma visita, não dá pra ficar longe muito tempo, embora eu sempre esteja razoavelmente perto. Mas você, pelo jeito, vem aqui sempre, não?

 - Sim, nos cultos de quarta, depois do trabalho, e aos domingos, com meu marido. A palavra do pastor é ótima, gosto muito de vir buscar ao Senhor aqui, me faz sentir muito bem. – O homem sorri.

- E sentir-se bem tem tudo a ver com buscar ao Senhor, não é? Em troca de sua lealdade Ele te ofereceria tudo o que você busca para sua vida, se afastando de tudo aquilo que te faz mal. Amém.

- Amém, Jesus, glória a Deus! – Ela diz sorrindo, sem saber se a palavra ou o brilho angelical no rosto do homem é o que a faz sentir tão bem.

- Você crê nisso, Emanuela? Acredita de coração que o sangue de Jesus Cristo derramado na cruz é capaz de purificar você de todo o seu pecado e te trazer a vida eterna?

- Sim, sim, acredito... E você, não, pergunta, ela, eufórica. Sinto que você veio aqui com um propósito... Que não está aqui por acaso e que veio como um enviado do Senhor... – O homem sorri.

- Efetivamente, um enviado do Senhor é exatamente o que eu sou. Você percebeu isso pelo fato de eu ter chamado você pelo nome sem que você tenha se apresentado? – Agora, Emanuela engole seco, pois estava tão eufórica com o discurso do homem que sequer percebeu que não havia lhe dito como se chama. Sugestionada pela ocasião e por sua própria crença, ela agora acredita, mais do que nunca, que está diante de algo divino, talvez além de sua compreensão.

- Moço, quem é você? Qual o seu nome? – O homem sorri mais uma vez, notando uma expressão no rosto de Emanuela que mistura o temor reverencial à fascinação. 

- Já fui chamado de muitos nomes. E posso dizer que o seu Salvador temos uma relação muito próxima, pois eu tive um papel considerável tanto na Sua ascensão quanto na Sua queda. Sabe, é duro quando você é escolhido pra levar a culpa por tudo, ou pelo menos acho que deve ser, já que, no final das contas, é só parte de mim que acaba sendo responsabilizada. Seja como for, que diferença faz o que meros mortais pensam de mim, não é? – A expressão no rosto de Emanuela, agora, é de espanto.

- Do que você está falando? Levar a culpa pelo quê? Eu não entendo...

- Claro que não, muita informação de uma só vez... Mas vou explicar tudo, mesmo sabendo que não terá necessariamente ouvidos para ouvir. E, na verdade, vai ser mais divertido por você não os ter. Mas vamos começar falando de você, do seu patrão, do seu cunhado e do seu marido.  – Com uma expressão de dúvida no rosto, Emanuela respira fundo e permanece sentada, sem saber exatamente como reagir. Buscando se recompor, ela retoma a conversa com o misterioso estranho.

- Você me conhece de onde? E o que sabe da minha família?

- Eu sei tudo de todas as famílias. Podia passar o tempo falando sobre as tardes que você foi enrabada pelo seu chefe pra conseguir aquela promoção, sobre o caso esporádico que tem com seu cunhado e como ele faz com você coisas na cama que seu marido nem sonha que existem por achar que tem que te respeitar como esposa, mas eu prefiro contar alguns segredos sobre o meu pai que, ao contrário do que você pensa, nem de longe é meu inimigo. – Os olhos do estranho atingem uma coloração avermelhada como se o fogo do que se chama inferno passasse por eles. Emanuela agora fica paralisada pelo horror, mantendo-se sentada e sentindo que não poderia se levantar e sair por mais que quisesse, haja visto que as pernas parecem não responder.

- Ao contrário do que sua espécie pensa, e embora eu tenha tido alguns arranca rabos com meu Pai, eu nunca caí. A própria Palavra não faz qualquer menção a um anjo que tenha se rebelado contra Deus e sido expulso do Céu. “Queda do Rei de Tiro”? Nunca parou pra pensar por que se falaria a meu respeito por uma parábola enquanto todos os outros personagens bíblicos têm seus próprios nomes e estórias? E que, se eu fui realmente expulso, não poderia ter livre acesso ao Céu e ter com meu Pai?

- Vo-você é o... – Ela treme ao dizer este nome. A expressão no rosto do homem, outrora angelical, agora mostra um sadismo e crueldade que, somados ao brilho infernal dos olhos dele, compõe algo horrendo que Emanuela mal pode contemplar.

- Diabo? Sim, admito que é um dos muitos nomes que vocês me dão. Eu sou o cara que vocês têm que culpar por suas próprias escolhas, como se o livre arbítrio dado a vocês não existisse. E, apesar de possuí-lo, alguém sempre deve ser responsabilizado pelo que vocês escolhem e também pagar pelo que põem em prática. Você vem a este local e pede para ser perdoada por seus pecados, entregando a sua alma a Deus como a entregaria a mim em troca de favores menores, não se importando se alguém que, ao menos na teoria nada deve, tenha que ir pra cruz pra que suas falhas sejam lavadas com Seu sangue. A única diferença entre os que se dizem “servos de Deus” e os que venderiam a alma ao diabo é a soberba dos que dizem servir ao Altíssimo simplesmente por fazê-lo e achar que sua ingenuidade em ter fé irá salvá-los.

Ainda petrificada, Emanuela ouve as palavras do homem e sua mente caminha entre o medo e a dúvida. Chega a pensar em fazer uma oração, mas as palavras que ouve confundem sua mente de tal maneira que ela se pergunta se oração alguma teria serventia naquele momento.

- Não, não teria serventia alguma. Orar pra Ele seria praticamente o mesmo que orar pra mim, porque, no final das contas, nós três somos uma coisa só. Seu suposto criador, seu torturador e seu salvador. Você deposita suas culpas sobre mim, Ele paga por suas faltas na cruz e nosso Pai, que seria sua imagem e semelhança, continua sendo o detentor de toda vontade pura, bela e agradável. Sua vitória é consequência da misericórdia Dele, sua derrota é devido à sua falta de fé. Mas, no final das contas, nós três somos a mesma coisa, cada um assumindo seu papel e um rosto diferente de acordo com aquilo que desempenha, importunando, confundindo e castigando esta criação imperfeita que nunca viria a conhecer a verdade sobre nós. Mas você, como todos, deve ter passado batido pela parte em que ficou claro o arrependimento quanto à criação do mundo. Pode ser perfeito alguém que se arrepende e que, consequentemente, errou?

O terror toma conta do ser de Emanuela. Diante do fato de que suas convicções e de que tudo aquilo em que acreditava são subitamente esmagados pelas palavras do que acreditava ser o adversário do Pai Eterno, ela se derrama em lágrimas e sente a perdição tomar conta de seu ser. Logo, ela se acostuma ao sentimento e, conseguindo finalmente falar, volta a se dirigir ao estranho:

- Você é o mal em pessoa...

- Mal? Seria eu, então, oposição, ao bem? E, quanto ao bem, será que realmente existe ou não seria ele apenas um mal menor, mais aceitável, já que não existe perfeição nem mesmo no Deus que você acreditou ser onipotente, onipresente e onisciente? Teria lógica em testar Jó e Abraão se assim fosse?

Não conseguindo mais encarar o homem, ela olha em volta. Não vê ninguém e, ironicamente, ninguém apareceu na igreja desde que chegou lá. Mesmo o movimento na Rua da Consolação parece ter cessado, o que é praticamente inconcebível para uma hora como aquela. Finalmente, ela se levanta, com a respiração à beira de ofegar, e, como se não tivesse mais nada a perder, volta a olhar para aquele que chama de diabo:

- O que você vai... fazer comigo?

- Calma, Emanuela. Embora eu despreze os mortais, assim como as extensões de mim mesmo, não tenho porque não consolar você depois das revelações que torturaram sua alma. E é o que farei. – O diabo passa o braço por cima do ombro de Emanuela e os dois caminham em direção ao altar da igreja. Lá chegando ele a posiciona com os cotovelos sobre o altar, erguendo sua saia e arrancando a calcinha com um puxão. Em seguida, Emanuela, sem coragem de olhar por sobre os ombros e num misto de excitação e medo, sente algo que mais parece uma cobra gigantesca percorrer o espaço entre suas nádegas e se posicionar à entrada de seu reto:

- Deus disse a Moisés que ele só poderia vê-lo através de uma fresta, pois, se o visse de frente, certamente morreria. Você, por ter visto Deus de frente, hoje vai entender exatamente o que isso significa. – A cabeça do membro gigantesco penetra o ânus que, embora já bastante utilizado, parece estar sendo invadido pela primeira vez. Ela abraça o altar, buscando conter a dor, e, quando o pior parece ter passado, ela nota que a entrada parece não ter fim, tanto pelo comprimento como pela grossura do colosso introduzido em seu reto. Sem qualquer ressalva o diabo a viola e ela, perdida entre o físico e o psicológico, parecendo logo se acostumar um pouco mais à dor e conseguir, finalmente, absorver um mínimo de prazer da penetração, sente o gigante inchar novamente dentro dela, enquanto suas nádegas são atingidas por testículos gigantescos. A velocidade das estocadas aumenta e o demônio sorri, e ela, ao observar o vidro à frente, pode jurar vê-lo com uma coroa de espinhos e sangue escorrendo por sua testa até atingir suas nádegas. A ironia é tamanha que ela passa a rir, dizendo coisas sem sentido e chegando a pedir para ser currada sem dó, autodenominando-se a puta do diabo. Finalmente, ela nada mais vê, quedando-se inconsciente.

Como se o tempo houvesse parado desde que Emanuela entrou na igreja, os fiéis começam, finalmente, a adentrar o templo. O pastor chega logo em seguida, pedindo desculpas pelo atraso e caminhando em direção ao altar, atrás do qual, subitamente, todos ouvem risadas que chamam sua atenção. Sem saber o que significam os risos delirantes, tanto os fiéis como o pastor se aproximam, acelerando o passo ao virem uma mulher caída ao lado e, ao chegarem mais perto, vêm Emanuela deitada, numa mistura de pranto e riso, em meio a uma mistura de fezes, urina e uma quantidade alarmante de sêmen. 

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