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Cartas-->CARTA DE UMA LEITORA AO ESCRITOR SUICIDA -- 15/12/2001 - 18:16 (Paccelli José Maracci Zahler) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
CARTA DE UMA LEITORA AO ESCRITOR SUICIDA (DANDO-LHE UMA LIÇÃO DE VIDA)

Paccelli M. Zahler

Prezado Escritor Suicida,

Bem se vê que você não sabe o que é viver tampouco o que é passar por dificuldades. Ah, se tudo fosse tão simples assim como sua carta deixa transparecer!Almejar algo, lutar por ele, não ser bem sucedido, então me mato, me despeço do mundo e ponto final.
Se todos pensassem dessa maneira, os cemitérios estariam lotados e as funerárias cheias de dinheiro, patrocinando eventos e programas de rádio e televisão.
Você pode não estar gostando desse início de conversa, contudo, depois que eu contar a minha história, certamente vai mudar de idéia.
Nasci no interior, em uma família de disciplina muito rígida. Qualquer travessura que eu e meus irmãos e irmãs fizéssemos era duramente punida pelos meus pais.
Um dia, em uma brincadeira inocente, quebrei alguns bibelôs de minha mãe. Eram bibelôs tão preciosos para ela pois vinham passando de avó para neta desde os tempos em que viviam na Europa.
Ela ficou tão furiosa e bateu tanto em minhas mãos, que elas ficaram necrosadas e tiveram que ser amputadas. Eu tinha apenas 6 anos de idade. Chorei muito ao perder as minhas mãozinhas porque não podia mais pegar as minhas bonecas de pano, não podia subir em árvores, dar as mãos às minhas amiguinhas nas brincadeiras de roda.
Um dia, falei para a minha mãe: “Mamãe, devolve as minhas mãozinhas, eu prometo que não vou mais quebrar nada dentro de casa. Eu as quero de volta para poder fazer as coisas que os meus irmãos, irmãs e amiguinhas fazem”.
Vi que os olhos de minha mãe foram ficando cheios de lágrimas e, a partir desse dia, ela não conseguia mais olhar nos meus olhos. Foi ficando triste, trancava-se no quarto, não comia.
Um determinado dia, chegaram uns homens vestidos de preto, colocaram minha mãe dentro de um caixão e a levaram embora. E nunca mais a vi.
Meu pai procurava me tratar com todo o carinho, bem como meus irmãos e irmãs. Cerca de três meses depois da morte de minha mãe, eu ouvi um estampido. Corri para o escritório e lá estava o meu pai, sangrando muito, emitindo um ronco estranho e com os olhos embaçados. Chamei por seu nome e seu olhar parecia distante. Foi levado para o hospital e de lá não mais voltou.
Por muitos anos fiquei sem entender direito o que tinha acontecido. Meus irmãos e irmãs cresceram, se formaram, arranjaram emprego e me cercaram de carinho. Enquanto isso, minha avó Márcia foi me ensinando a conviver com as minhas limitações. Sempre me dizia que Deus tirava por um lado e supria as nossas necessidades por outro.
Incentivada por minha avó, comecei a treinar a escrita com os pés. Graças a uma professora particular, avancei em meus estudos. Mais tarde, aprendi a pintar aquarelas segurando os pincéis com os dedos dos pés. Tais atividades, foram me abrindo as portas para um novo mundo. Eu escrevia, lia, pintava, fazia amizades, recebia incentivos de toda sorte e, neste momento, estou digitando esta carta com o dedão do meu pé direito.
Pelo teor da sua carta de despedida como escritor, percebo claramente que você dispõe de duas mãos, duas pernas, olhos, língua e um cérebro muito criativo, o que significa que praticamente as suas limitações não passam de meros caprichos comparadas com as minhas.
Será que vale tanto a pena mutilar-se, sair do mundo, quando se tem um corpo perfeito? Vale a pena ficar correndo atrás da glória por simples vaidade?
Ah, meu rapaz, aproveita bem o teu corpo que é perfeito!Cria, escreve, envie suas mensagens via internet para quem quiser lê-las sem se preocupar com editoras e livros impressos ou críticas de pessoas anônimas que não lhe conhecem, não farão parte nem falta em sua vida.
Vive a vida em sua plenitude pois, para quem não tem limitações físicas, não existem desafios que não possam ser vencidos.

Um grande abraço,

Ana Cláudia.
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