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Crônicas-->NO CALÇADÃO JUNTO AO PARQUE -- 20/07/2012 - 08:51 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

NO CALÇADÃO JUNTO AO PARQUE
Crônica urbana
João Ferreira

Estava no calçadão junto ao parque. Do lado de lá, a mata. As árvores pregadas no chão, sensíveis e respeitadoras ficavam no lugar que lhes fora destinado. Na rua passam carros. Todos com muita pressa. Nos prédios vizinhos a visibilidade das janelas.Umas fechadas. Outras abertas. Mas ninguém vinha ver. Ninguém tinha olhos para observar a rua e tentar olhar,  descobrir e ver. Havia trilhas do outro lado da pista. Naquela hora desertas. Os céus abriram as comportas da noite. A aragem era fria, de  pleno inverno. Começava a ficar gelada a noite. Silêncios profundos. Todo o mundo recolhido em casa. Em boas casas, ao lado. Em volta, o silêncio, a indiferença. O lago manso e estendido ali pertinho. A ponte Braghetto bem perto, ainda infernal com movimento rápido em direção ao Lago Norte, ao Torto e Sobradinho. Motoristas apressados querendo chegar aos destinos. Era hora de recolhimento. Os  biguás e as garças brancas do lago Paranoá já estavam recolhidos. Não se ouvia mais o quá-quá-quá dos patos. As aves aninhadas dentro do parque  ultimavam as providências para se defenderem dos predadores. Os preás resguardados nas tocas. As tilápias e os tucunarés com espaço livre passeando no lago e se alimentando. As crianças haviam voltado da escola muito tempo atrás. Agora já tomaram banho. No momento estão brincando, jogando seus joguinhos de predileção vestidos de pijaminha de flanela com figurinhas coloridas. A boa esposa recebeu o marido com um beijo e  preparou o leito com lençóis novos e limpos para se amarem e dormirem descansados. Os seguranças dos prédios vizinhos já colocaram uma cadeira junto à entrada da portaria para fazerem de estátuas varando a noite. Há bares na cidade que neste instante têm uma sopa quente para cidadãos que chegam esfaimados. Os frentistas do posto ali do lado trabalham de uniforme e têm um teto que os protege da chuva. Têm mais coisas. Têm um recinto, têm patrão, têm família, têm um chão onde todos os dias se movimentam como se fosse em casa, têm até o cheiro da gasolina. Conversam com os colegas, olham os fregueses que abrem as carteiras para pagar e veem as empregadas domésticas carregando sacos plásticos vindas da padaria. Há um mundo animal, biológico, social, político organizado. Há vida. Por contraste, até a própria grama tem seu terreno onde assenta raízes. Os ratos têm seu porão. Só aqui estranhamente não há relação. Um homem do povo, um terrantês deserdado, está prostrado no chão. Em plena noite. Estendido ao comprido. Corado, vermelho. Com uma garrafa de litro aberta ainda meia. Uns restos de arroz num prato de isopor. Não há como perguntar quem é ou o que é. Está entregue ao chão e curvado, de calção surrado, de camisa rasgada. Sem identidade. São 21 horas e o inverno julino enregela os ossos. Ele está ali. Como ser anônimo, entregue à sorte, no calçadão da rua. É impossível passar ali e não ver. E está como uma realidade a ser desvendada. Cercada pelo silêncio. Sem diálogo. Como lixo. Como resíduo abandonado. Diante desta realidade que se nega a dialogar você pensa que em se tratando de um tronco você encontra a robustez. Um animal tem reações. Aqui não há nada. Apenas corpo inerte. No pior estado.Mas há sempre algo que nos faz aproximar. Estava diante de um ser que emitia sinais de uma longínqua humanidade. Uma aparência de ser humano existia. Mas só aparência. Uma bebedeira extrema. Um abandono. Mas um rosto que era o símbolo de toda uma humanidade carente, exposta, abandonada. Dentro de mim, vários sentimentos. De mais imediato, a compaixão. Também uma revolta política contra a humanidade e contra os movimentos sociais pelo esquecimento, pelo abandono. E era tudo. Nada mais me restava. Não tinha como solucionar. Não havia sinais para diálogo. Havia somente um corpo torturado. Um ser humano humilhado em pleno inferno. De meus olhos, intensamente, a compaixão. De minha alma, o socorro. E antes que o diabo chegasse e agravasse mais a situação, abri um cobertor e cobri-o para mitigar a noite do desgraçado. Só isto. E enquanto eu iria dormir em cama burguesa ele ficaria ali bêbado, meio bruto, de olhos bovinos carregados. Antes que me afastasse, ainda conseguiu sentir de leve a ponta do cobertor quando lhe tocou a mão.
- Tem aí uma moedinha,patrão?... E fechou de novo os pesados olhos numa noite fria de julho para continuar a viver as últimas cenas de vida torturada.
João Ferreira
Brasília, 20 de julho de 2012
 

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