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Crônicas-->Florzinhas de ipê amarelo -- 29/08/2013 - 14:39 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Florzinhas de ipê amarelo na vala comum
João Ferreira
29 de agosto de 2013

Em pleno ar seco de inverno, parto para um ato filosófico que vai consistir em eu produzir um discurso tentando me aperceber de perto da dialética da vida, detalhes que tecem ou determinam a própria subsistência telúrica dos humanos. Estou no parque. Como ser atingido pela lei da gravidade, desloco meus pés sobre um imenso tapete de folhas secas, sementes e minúsculas flores de ipês amarelos, que jazem debaixo das altas copas de variadas árvores do parque. Angico, ipês e outras. Meus olhos se fixam nas folhas caídas agrupadas em montão, sobre a individualidade e a coletividades das folhas, sobre a fragilidade e as variadas formas e os variados estados delas. Desde a mais seca à menos seca, desde as folhas integrais, amareladas mas conservadas até ás as folhas fanadas, encostadas, abraçadas umas às outras, sentindo a sorte final se aproximar. Desde as que já se encontram compactadas debaixo das copas, ou esparsas pelos caminhos, pela estrada real e pela ciclovia, em pleno inverno, inconscientes do passo leve do João de Barro e de sua dama que passeiam indiferentes ao fenômeno telúrico da escatologia da matéria. No meio desta impressão visual e real, já se vai ouvindo o canto do sabiá, que é já um indício ensaiando a proximidade da primavera, as folhas, compactadas folhas, aguardando que a chuva próxima as visite, enxágue e amoleça e as precipite e as ajude a consumir e a se mesclarem com a terra andante nas enxurradas que virão, as folhas que descerão novamente ao seio da terra, se absorverão, entrarão no caldeirão do útero da terra e gestarão uma nova onda de vida, revitalizando raízes, alimentando caules e ramos, concorrendo para a brotação de novas folhas, de novas flores, de novos frutos, num desenho claro da orgânica da vida, do processamento dinâmico da vida oculta de que só nos apercebemos nos efeitos visíveis do crescimento, e na manifestação das formas. Este pequeno desenho é toda a prova da lógica da existência terrestre que nos tece, do contexto em que estamos, da forma como crescemos, sobrevivemos e sucumbimos. Indiretamente mostra a maneira inconsciente da maioria da humanidade, que vive sem se aperceber de que maneira está ligado à vida da terra, onde enraíza, esquecendo a sua lógica de sobrevivência biológica e cósmica. Há pessoas que apenas se revêm como seres moventes, seres mecânicos em ação, como se tivessem sido colocados num intervalo de vida, num espaço limitado sem que tendam a pensar o relacionamento do seu ser com a força universal da qual fazem parte, sem pensarem na origem, no início e no fim, que são os únicos polos que melhor nos explicam. Todo este desenho de situação nos leva a uma consciência maior de situação no mundo e permite que a poesia nos sirva para este desvendamento, para este descobrimento de variadas latitudes que nos descobrem em primeira mão como itinerantes de uma viagem que não tem uma estação nominal para a ela os homens se referirem como ponto de partida ou ponto de chegada. Ponto de partida, real mesmo, que termina por ser a própria vida e a inserção do homem no mundo. A partir da vida e de suas conexões com o contexto imediato e universal, o homem pode rever-se melhor e dirigir mais conscientemente sua vida que terá de construir na base do conhecimento e da consciência, para ser feliz.

Brasília, 29 de agosto de 2013
João Ferreira
Comentários

Lita Moniz  - 03/09/2013


De Portugal, devastando velhos caminhos, velhas lembranças, não poderia chegar a mim um texto melhor para dar continuidade e este peregrinar por estes montes.
Seguido o velho Caminho via Chaves para Santiago de Compostela sentem-se na natureza todos estas conexões, se perguntarmos a um peregrino o que veio aqui buacar, sem titubiar dirá: un encontro com a Mãe Terra, uma viagem ao interior de nós mesmos. Aqui neste texto está também essa viagem.
Parabéns aqui de Montalegre de alguém que não perdeu a alma de pastora que por aqui em mim nasceu.
Lita Moniz

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