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Crônicas-->AQUELE SENTIMENTO (MAURO VELASCO) -- 06/05/2014 - 16:00 (valentina fraga) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
MESMO QUE NADA SE ESCREVA, SEMPRE HAVERÁ ALGO GUARDADO PARA SE LER.

Cultivo desejos simples, desprovidos de grandiloquências ou mesmo de pequenos luxos. Não preciso de iate para navegar em oceano calmo à luz da lua, nem de motorista particular para abrir e fechar a porta do automóvel. Minhas pretensões são outras, menos floreadas, mais essenciais.
Gostaria de ser surpreendido, enquanto caminho nas ruas do centro da cidade entre meus semelhantes anônimos e apressados, pelo som de dois violinos tocando o Concerto em Ré Menor de Bach. Apreciaria sobremodo testemunhar a melodia inesperada abafando aos poucos o bulício dos veículos, lojas, bancos, lanchonetes e impondo um silêncio reverente diante da beleza, como o do devoto comovido no majestoso interior de uma catedral. Seduzido pela música, sentiria os pés levitarem, os ombros aliviados do fardo cotidiano, o espírito leve, os olhos úmidos, e pensaria que deve haver um sentido maior para todas as coisas, concluiria que, afinal, o mundo não é um caos definitivo e a vida está muito acima dos desencontros e desalentos da existência.
Outras vezes imagino que estou dentro de um táxi, com a cabeça repassando intrincados cálculos de riscos e oportunidades, atrasado para uma inadiável reunião de negócios da qual dependem o equilíbrio econômico do terceiro mundo e a tendência de alta das bolsas de Wall Street, quando de súbito, em meio ao tumultuado percurso dos veículos pela orla, olho através da janela e me deparo com o mar, as ondas batendo na areia, uma ou duas ilhas ao fundo e o escancarado azul do céu de outono. Seria tão bom sentir o coração repentinamente invadido por essa exibição vaidosa e sem pudores da natureza.
Poderia acontecer também de estar preso a uma cama de hospital recuperando-me de uma cirurgia qualquer, ainda com algumas dores incômodas, em frente a uma janela com vista para a poeira de um edifício em construção e tendo ao lado um parceiro de quarto a gemer o tempo inteiro. Aos poucos, começaria a reconhecer, para minha surpresa, o cheiro de pão saindo do forno, tal qual o cheiro matutino de uma padaria vizinha à casa onde cresci. Não seria só cheiro de pão, portanto. Seria cheiro de infância, de um cenário desfeito, de um mundo já extinto, de um tempo irrecuperável. O cheiro teria o poder de calar os gemidos do moribundo, colorir a paisagem da janela, eliminar as pontiagudas dores do meu corpo e, quiçá, da minha alma, e renovar as esperanças enfraquecidas.
São esses os meus despretensiosos desejos. Por que os acalento? Não sei ao certo. Mas, como o Riobaldo, embora não saiba quase nada, desconfio de muito.
Quando menino, resolvi empinar uma pipa que, pela primeira vez, tivesse sido toda feita por mim, sem ajuda, sem intromissões, sem parceria. Comprei papel, varetas e rabiola. Planejei o modelo. Recortei, montei, colei. De carretel e pipa em punho, fui para a pracinha. A tarde estava silenciosa, o céu aberto, o vento suave prometia servir de onda disposta a levar minha pipa para surfar nos ares. Em poucos minutos ela pairava soberana acima dos fios, tetos e edifícios. Não uma pipa comprada ou doada. Mas a que eu mesmo fizera.
Aquele sentimento de realização e contentamento, aquela sensação de plenitude e satisfação busco reencontrar no cheiro de pão a invadir o quarto do hospital, na visão do mar diante da agitada avenida e na melodia dos violinos interpretando Bach. Gostaria de reviver agora, nestes confusos tempos de frustrações tantas, a mesma emoção, ou algo idêntico que fosse, inclusive, uma consolação para a morte, a maior de todas as frustrações. Pois se houver de fato eternidade, não há de ser um acúmulo monótono e infindável de dias, mas a duração permanente daquele antigo sentimento infantil. Só isso merece, ou deveria merecer, o nome de paraíso.
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