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Crônicas-->ZÉ DO OVO PAGOU O PATO. -- 13/05/2014 - 20:12 (Henrique César Pinheiro) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Mil novecentos e setenta e um, sexta-feira da Paixão, os garotos da Rua João Cordeiro e vizinhanças encontram-se à noite na esquina da João Cordeiro com Alves Teixeira, local tradicional de encontro da juventude do bairro, naquele tempo. Onde ficam horas a fio a conversar sobre coisa de jovens. Se havia alguma tertúlia programa para sábado de aleluia; aonde seria e o que faríamos no dia seguinte, domingo depois de acordar e curar a ressaca; conversas sobre as garotas do bairro; as paqueras nas festas; praia, esse tipo de coisa. Tudo muito saudável.
Não se curtiam drogas. O mais que se rolava era cigarro, ou umas doses de cachaças, porque geralmente não tínhamos dinheiro para cerveja e uísque era coisa rara, ou praticamente não existia em bares, somente nas casas de milionários.
Naquela noite, depois do vai e vem das conversas. Alguém falou em roubar umas galinhas por que o dia seguinte era sábado de Aleluia, e, tradicionalmente dia da malhação do Judas. E também, de se roubar galinhas para tira-gosto, durante a malhação do Judas. Da sugestão para a aceitação foi um pulo. Sabe como agem os jovens, sempre por impulsos.
O problema era onde encontrar galinha, ali no bairro da Piedade. Embora Fortaleza fosse, na década de setenta, uma cidade relativamente pequena, de costumes antigos, era a capital do Estado e portanto, certos bairros não tinha mais aquele ar interiorano de outros bairros da capital. Onde estávamos seria difícil se encontrar um galinheiro. Mas, um de nós se lembrou de determinada casa na rua Pe. Chevalier, onde ainda existia um galinheiro, e melhor cheio de frango e franga.
Combinamos e ficamos aguardando a hora certa. Pois ainda era moda se botar cadeiras nas calçadas para conversar com os vizinhos até tarde da noite. As novelas da Globo ainda não ascenderam sobre as pessoas seu domínio total e os vizinhos se conheciam, melhor ainda, conversavam, não somente davam bom dia e boa noite quando se encontravam, como hoje em dia, e também não se orgulhavam, estufando o peito, quando respondia perguntas do tipo:
- Você conhece fulano de tal?
- Não! Na minha rua não conheço ninguém. Somente de vista, de bom dia e boa noite.
Depois disso, teríamos ainda que esperar a família dormir, para poder na calada da noite pôr em prática o plano.
Por volta de uma da madrugada fomos em busca das galinhas. Uns ficaram na entrada da rua vigiando, enquanto os demais foram pegar as penosas. O maior problema era a falta de especialista em roubou de galinha, ou outro tipo de roubo qualquer. Éramos neófito no assunto, ou seja, todos incipientes no submundo galináceo. E tudo foi improvisado.
Segundo especialistas no assunto, a quem contamos a história, roubar galinhas requer arte. Neste tipo de furto, roubar não é o termo adequado, no roubo há violência e no furto somente descuido, usa-se uma vara que vai sendo empurrada devagar sob os pés do animal, que ao sentir o contato da vara com os pés, os coloca em cima da vara sem problema e se fazer qualquer barulho. Daí é só ir puxando a vara bem para trazer o animal. Como não tínhamos tal arte, fomos na marra. Na hora H, na escuridão da noite, e tendo o cuidado de não fazer barulho para não despertar os donos das galinhas, pegamos dois animais.
Só na claridade, nos demos conta que não eram galinhas, mas patos. Assim mesmo, resolvemos comer os bichos no dia seguinte com cachaça. Um de nós se encarregou de levar os patos, matar e mandar cozinhar. Os patos foram cozidos numa padaria das redondezas. E à noite fomos para um bar, como nosso saboroso tira-gosto.
Bebemos e curtimos o tira-gosto. Depois fomos dançar nas famosas tertúlias de Fortaleza. No dia seguinte era o comentário entre nós. Os que não participaram, ficaram frustrados. Uma aventura, contada e recontada por dias. Enciumando aqueles que não participaram da aventura.
Tudo transcorreu normalmente no domingo. Ninguém desconfiava da nossa ação. Não vimos qualquer comentário por parte dos donos dos patos, já que um de nós era vizinho deles e ficou de olho o dia todo, para nos alertar em caso de qualquer problema.
Segunda-feira pela manhã a mesma tranquilidade. Entretanto, no início da tarde a coisa muda. Aparece na rua João Cordeiro a polícia, investigando o caso.
Aqui fujo um pouco do assunto para melhor esclarecer o caso. No bairro havia um sujeito, apelidado de Zé do Ovo. Tudo que ocorria nas vizinhanças culpava-se Zé do Ovo, muito afamado por suas presepadas. Nada de violência ou bandidagem: somente molecagens. Coisas de adolescentes.
Contudo, já fazia tempo que Zé do Ovo não praticava mais as molecagens de adolescente. Tinha conseguido emprego no Mercantil São José e mudara completamente seu comportamento. Já quase nem saí com a gente para as tertúlias, namorava firme.
No começo daquela tarde, quando a polícia chegou, Zé do Ovo estava na parada do ônibus, aguardando transporte para ir trabalhar. Avistado no ponto do ônibus pelos donos dos patos, foi logo acusado e a polícia imediatamente prendeu Zé do Ovo e foi atrás dos demais. Encontraram não sei como o Barão e mais uns dois, que não recordo quem.
Todos levados para a delegacia do 4º Distrito Policial, no São João do Tauape como suspeitos. Eu por minha vez escapei. Não sei o motivo e somente à noite quando cheguei em casa soube do ocorrido.
Na delegacia o delegado queria porque queria que os meninos pagassem os patos. E a confusão se estabeleceu. Todos lisos. Não tinham como pagar o pago. Entretanto, o delegado deu um ultimato: ou pagam ou ficam presos até aparecer dinheiro para pagar os patos. Discute-se daqui e dali e nada é resolvido. O delegado impassível não arreda pé, quer porque quer o pagamento dos patos ou a prisão da garotada.
Zé do Ovo preocupado com o emprego, pois se ficasse preso seria fatalmente demitido, é o mais revoltado. Revolta que não sensibiliza o delegado.
Por fim, vendo que os demais meninos não tinham dinheiro e somente Zé do Ovo poderia arcar com o prejuízo, o delegado o intima a pagar os patos.
Zé do Ovo, para não ficar preso, assume a despesa. E protestando diz para o delegado:
- Mas seu delegado, eu não roubei os patos, não comi os patos e vou pagar os patos.
- O delegado: ou pago ou fica preso.
Paga a despesa todos foram soltos e voltaram para suas casas. Zé do Ovo revoltadíssimo e os demais com o propósito de numa mais roubarem patos ou qualquer outra coisa.
Nossa única e última experiência no submundo. Ficou a lição.
Para o Zé do Ovo, entretanto, em outra fria se meteu. A história do disparate. Mas isso, conto depois.


HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO
FORTALEZA, MAIO/2014
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