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Cartas-->Uma Carta para Luana de Lemos -- 12/10/2007 - 18:32 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

UMA CARTA PARA LUANA DE LEMOS
12 de outubro de 2007


Respondendo ao desafio: O que vocês Poetas aprenderam com a vida?

Querida Luana

Que bom você ter tido essa lembrança de desafiar os Poetas com uma pergunta inteligente! Você quer saber o que é que os Poetas aprenderam com a vida.Colocada a pergunta, vou tentar responder à minha maneira.
Para dizer o que preciso de dizer, terei de lhe solicitar liberdade total de entendimento e de expressão para expor a problemática que em torno dela se apresenta ao meu espírito. É uma pergunta interessante. Aparentemente restrita, ela torna-se uma pergunta de larga amplitude. E isso porque revela em si mesma a relação possível que há entre o cidadão e o Poeta, a convivência e por vezes separação que há entre as duas entidades. Deixando de lado generalidades, eu preferiria encarar sua pergunta de uma maneira frontalmente honesta. Por esse motivo, começaria por dizer que eu não sei verdadeiramente se os Poetas aprenderam ou aprendem com a vida! Depende do entendimento e da ponta do fio que vamos puxar para animar o debate.
Eu diria, para começar, que em alguns casos, o poeta pode até aprender com o cidadão. Mas a vida, a grande vida, é uma carga íntima e quem dela vai se apoderar é certamente o Poeta. Ele é a parte mais evoluída da consciência do cidadão. E porque ele é íntimo da vida, a perspectiva mais verdadeira é que a coisa deve ser vista de dentro para fora. Quando falamos de vida espiritual, o Poeta e a Vida fazem uma coisa só. Ele participa da intimidade da vida, em seu mais alto nível. Conhece seus segredos, atua em convênio com ela, entra nas batalhas entre a vida e seus adversários que tentam desagregar ou destruir sua base vital. Dentro desta perpectiva não diremos que a vida vai aprender com o poeta. Mas o cidadão pode. A vida, em sua base biológica, espacial e temporal vai se desenvolver e se elevar em convívio com o Poeta. A Poesia é mais do que uma técnica de alinhar palavras ou de obter um ritmo dentro de uma frase chamada poe´tica. A Poesia, em sua essência íntima, é a energia de uma alma, é uma sensibilidade olhando o mundo, descrevendo o mundo, cantando o mundo ou lamentando o mundo. É a vida que se beneficia ou se dessacraliza com o exercício poético. Bem diferencialmente, dependendo muito do tipo de consciência poética de que falamos. Em alguns casos, não tenho dúvida de que o cidadão aproveita muito mais da vida quando tem um poeta espiritualizado dentro dele. Porque na indissociável união existencial do poeta com o cidadão, é o poeta que lê o mundo para o cidadão. Supondo-se que ele passa a ser a alma, a sensibilidade e a razão e até a má consciência de quem convive com ele. É o poeta que sensibiliza o cidadão. É o poeta que dá linguagem de elevação ao cidadão. É ele que contorna habilidosamente momentos de agresssividade provocados pela violência da cidade terrestre . É ele que lê na vida o lado lírico com que se amansam feras e se encantam as crianças! É difícil, sim, separar o poeta do cidadão. Eu sei. Mas o nível superior da pessoa está no Poeta. Porque é ele que é visionário e detentor de forças espirituais fortes que comandam todo o processo de espiritualização de vida humana. Mesmo quando o poeta é apenas um virtual escritor. Mesmo quando é apenas um ser humano que brinca com a palavra, ou alguém que escreve como quem joga, como alguém que se preocupa apenas com armações e jogos de palavras. Mesmo nesse caso, o poeta comanda a vida dentro da pessoa. E quando se trata de poeta atuante, seu papel é indiscutivelmente maior.
Poderemos recorrer a várias considerações para justificar isso. A primeira delas é que a vida espiritual não tem senão a voz que lhe damos. Se a vida é forte através da ação, é muito mais forte ainda através da palavra, do sentimento, da inteligência ou da vontade. Os Poetas são expressões altas da vida. Aparecem quase sempre com a força de um Mestre expondo a força da alma! Os Poetas mostram suas emoções perante a vida e o mundo. O poeta mora dentro da vida. Não fora da vida. Por isso, ele se vê e deve ser visto a partir de dentro. Ele é parte da vida. Na unidade de sua pessoa, o poeta comanda a vida, porque ele é expressão da vida. A vida é sua lingaugem. Sua especialidade é o trato com a palavra. Seja de maneira lírica, seja de maneira dramática seja em nome da epopéia. O eu lírico ou amoroso que nele comanda é a voz da vida que trata através da vivência e da palavra. A poesia em sua elaboração íntima e em sua expressão escrita é a voz interior da vida. Ou, dito de outra maneira, é a habilidade de dizer. A poesia contém uma habilidade retórica, e real. Mas a essência da poesia é a vida. É a inteligência emocionalizada, como diria Álvaro de Campos. Entre poesia e vida,ontologicamente, não há fissuras. Por isso rigorosamente, os Poetas não aprendem com a vida. Eles são a vida. São expressão de vida. São modos de vida. Seu problema não está em aprender. E sim em expandir e desenvolver esse grau de energia latente que é o lado nobre da existência. Pela palavra, o poeta expressa os indícios de vida que nele clamam e buscam se expandir! O Poeta dá vazão à vida. Aprofunda a vida. Dá testemunho da vida. O poeta lírico canta a natureza e as belezas que a vida sofregamente lhe entrega. O Poeta quando autêntico, puxa para a arena a lírica pujança nele escondida se contrapondo a um mundo contraditório de extermínio e de violência.
Por outro lado, juntamente com esta alma poética que é a alma que produz a poesia, há o cidadão, o sujeito social, que coabita com o Poeta. Então viria a pergunta novamente. Será que este cidadão, em contato com a vida superior do Poeta, aprende alguma coisa? E por que não perguntar mais diretamente: será que o cidadão aprende algo da vida nesta convivência com o Poeta? Sim,eu acho que sim. Tudo dependerá de cada pessoa e de cada cidadão onde mora um Poeta. Triste seria se, morando na casa de tão distinto fidalgo, o cidadão nada aprendesse com ele. Se isso virtualmente e casualmente acontecer, que seja, no mínimo, um bom cão de guarda, defendendendo a voz de seu Mestre, o Poeta.
Jan Muá
12 de outubro de 2007
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