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Ensaios-->NATAL -- 30/11/2002 - 18:05 (Thelma Regina Siqueira Linhares) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
É mais uma vez Natal! Estamos a celebrar o nascimento de Jesus Cristo, comemorado há mais de dois milênios. Bem verdade que o 25 de dezembro é simbólico, pois foi esta data fixada pelo Papa Júlio I, no século IV, para se festejar o nascimento do Filho de Deus feito Homem, fazendo substituir a então romana festa pagã do solstício, consagrada ao sol.

Entre nós, cristãos, o Natal se reveste de um significado especial porque, a título de exame de consciência, faz o homem sentir-se mais humano, vivenciando mais intensamente o mandamento novo do Messias: "que vos ameis uns aos outros. Como eu vos tenho amado, amai-vos assim também vós mutuamente". Jó, 13,34.

Por ser uma festa universal, o Natal caracteriza uma época, dando-lhe identidade própria. É o chamado ciclo natalino. Este ciclo engloba expressões diversas da cultura brasileira, em especial a nordestina, destacando-se entre outras manifestações folclóricas, a lapinha, o pastoril, o bumba-meu-boi, o fandango, as folias de reis.

Natal é uma festa de confraternização, de amor. Também é uma grande festa de alegria, de luzes de cores. O presépio, o Papai Noel, a árvore de natal, têm destaque entre os símbolos natalinos de todo o mundo. A troca de presentes e os votos de boas festas através de mensagens diversas são, igualmente, costumes universais. Estes elementos, tão diversificados em suas origens, foram incluídos nos festejos da época, através de um contínuo processo de aculturação, de tal forma que, hoje é quase impossível se conceber o natal sem Papai Noel, por exemplo.

O presépio corresponde à representação da cena de adoração do Menino-Jesus na gruta de Belém. Jesus, Nossa Senhora e São José são figuras humanas obrigatórias. Entre os animais, o burro e o boi. Podendo ainda figurar os três Reis Magos, pastores, anjos, ovelhas e outros bichos. Em geral, estas peças são confeccionadas em barro, madeira, gesso, palha ou outro material, através do artesanato ou industrialmente. E vão ornamentar igrejas, residências, locais de trabalho e vias públicas durante as comemorações natalinas. A criação do presépio é atribuída a São Francisco de Assis que, em 1223, teria armado a primeira lapinha. No Brasil, já no século XVI, foi o presépio trazido pelos jesuítas, no início do período colonial, difundindo-se, a partir de então, o costume de se representar a adoração do Deus-Menino.

O Papai Noel é um elemento relativamente novo nas comemorações natalinas, da maneira especial no Brasil. Foi introduzido no início deste século, tornando-se mais conhecido a partir de 1930, como figura formal e de iniciativa oficial. Atualmente deve sua popularidade, em particular e de modo significado, à publicidade para fins comerciais de que tem sido alvo. Na Europa, sua origem se confunde com as lendas de São Nicolau. Segundo a tradição, a cada fim-de-ano, o bom velhinho deixa o Pólo Norte num trenó puxado por renas douradas, numa velocidade do pensamento, carregando um grande saco cheinho de brinquedos, embora sem condições de presentear as crianças do mundo inteiro – afinal não possui varinha de condão... Sua imagem, conhecida em quase todos os recantos da Terra, através dos modernos meios de comunicação, corresponde a um velhinho gorducho, de barbas brancas, que usa roupas vermelhas e longas botas pretas. É ansiosamente esperado pelas crianças que aguardam receber dele seus presentes de natal, alguns, inclusive, pedidos por meio de cartinhas e bilhetes endereçados ao Papai Noel.

A árvore de natal é, principalmente, um elemento decorativo que, através do colorido de bolas, velas e luzes empresta um ar mais festivo à alegria das comemorações natalinas. Entre nós, é um hábito deste século. Segundo Luís Câmara Cascudo, a primeira árvore de natal foi armada na capital do Rio Grande do Norte – Natal – em 1909. Desde então, tornou-se cada vez mais comum, sua presença nas festas de fim-de-ano. A introdução da árvore de Natal nas festividades do nascimento de Jesus deveu-se a São Vilfrido que, segundo a tradição, indicou o abeto ou pinheiro como árvore do Menino-Deus, a partir de um fato que, a seus olhos, pareceu milagre. Mandando cortar um grande carvalho, o qual teve seu tronco atingido por um raio que o partiu em pedaços, ficando ileso um pequeno abeto, plantado a seu lado e que foi considerado, pelo santo, como símbolo de paz e de inocência. O uso do pinheiro foi largamente difundido na Alemanha antiga, de onde surgiu o costume de iluminá-lo. Conta-se que Lutero, usando velinhas multicoloridas, fazia lembrar, na árvore de natal, o céu estrelado do qual descia o Menino-Jesus para abençoar as crianças.

Como festa de confraternização universal, sobressaem no Natal, a troca de mensagens e de presentes. Embora de caráter acentuadamente comercial, esta manifestação do ciclo natalino, merece incentivo e louvor, enquanto motivação a uma melhor e mais intensa comunicação e fraternidade entre as pessoas.

A troca de cartões de boas festas vem sendo muito difundida. Os cartões, em sua maioria, apresentam como estímulo visual, motivos alheios à realidade brasileira, constituindo verdadeiras anomalias à nossa tropicalidade. São pinheiros e picos nevados, renas puxando trenós, chaminés... que nada têm a ver com as paisagens físicas e culturais do país. Fugindo a esta regra geral, merecem incentivo e divulgação, os cartões natalinos desenhados pelos xilógrafos Stênio Diniz e Abraão Batista, ambos de Juazeiro do Norte, Ceará. Inspiram-se em motivos bem nossos: a Sagrada Família é uma família de retirantes nordestinos; a árvore de natal e suas bolas multicores são substituídas por cajueiros e cajus; o sol tropical e a vegetação de cactos compõem a paisagem desses cartões, efetivamente, bem mais representativos da cultura nacional.

A troca de presentes tornou-se um costume natalino universal, a partir do século XV quando, na Inglaterra, ficou estabelecida a noite de 24 de dezembro para se dar e receber presentes. A prática do amigo secreto ou amigo oculto é cada vez mais difundida no Natal brasileiro – seja em família ou entre colegas de estudo ou de trabalho. A brincadeira se constitui na troca de presentes através de um sorteio, prévio e sigiloso entre os participantes que curtem a expectativa do presente e a descoberta e identificação do amigo secreto.

Estes são alguns elementos característicos do natal de nossos dias. Natal comemorado festivamente, com muitas luzes, árvores de natal e bolas coloridas. Natal de Papai Noel, de mensagens de boas festas, de trocas de presentes. Natal de propaganda. Mas, Natal é, e acima de tudo, festa de confraternização, de amor e de paz. Feliz natal!

(Linhares, Thelma Regina Siqueira. "Natal". Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais; Centro de Estudos Folclóricos. Folclore, 117, dezembro de 1981)

Colaboração da autora para a Jangada Brasil, 2001. (www.jangadabrasil.com.br)

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