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Crônicas-->O ABORTO -- 04/03/2016 - 16:10 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos





  Terça-feira e quero esquecer Marina. Desejo produzir muito sem essa mulher.

   Comprei dois filmes de vinte e quatro poses. Saio com a máquina fotográfica. Pego outro ônibus que desce a avenida Kennedy. Estou do outro lado da região em que me diverti na sexta. Desço da lotação em um ponto movimentado. São duas de uma tarde quente. Entro na primeira ruela e desta vez fotografo apenas as casas pintadas. Escolho os melhores ângulos. Descubro uma casa de cor lilás. Na periferia, aqui e ali surgem construções de cores exóticas. Passo em frente a um fusca sem as rodas. A carcaça do automóvel é sustentada por paralelepípedos. O que pretende o dono com aquela ferrugem? Tiro uma foto de frente. Quero mostrar a humilhação do veículo diante dos vizinhos. É um pedaço de carro como tudo aqui são pedaços dos bairros ricos.

   Algumas mulheres descobrem a câmera e fazem pose. Pedem que eu as fotografe. Querem saber o preço. Se eu revelava na hora. Não! Elas riem. Eu fotografo e saio. Volto à peregrinação e não presencio nada de extraordinário. Clico aleatoriamente. Quem sabe não surpreendo meninos com recheadas carteiras na bunda.

   Ando três quadras. Viro à esquerda. Fotografo Kombi sustentando telhado. Portão preso por arame. Caixa- d`água aberta para a chuva. Tudo são admiráveis arranjos.

   Sigo duas quadras e estranho uma rua. Ela parece uma rampa. Não vejo uma continuidade ou muro. A rua despenca. Tão abrupta que imagino um abismo. Se fosse um rio, eu estaria próximo a queda-d`água, porém não há água ali, apenas uma falha seca, o declive quase na condição vertical, o início de uma ladeira pedregosa que abre a cratera que agora vislumbro. Um amplo buraco. Lunar.

  Quem poderia criar um local tão incompreensível? Mais do que uma cratera é uma imensa espiral. As curvas da espiral são as ruas sem calçamento. Imagino também uma fenda de vulcão, inativo há tantos séculos, construíram casas em suas encostas.

   Eu visualizo daqui o sobrado amarelo que passarei daqui a meia-hora, após percorrer estas beiradas e chegar ao ponto fixo da espiral, ao centro do Vesúvio, o portal através do qual a lava retornará um dia.

   Fotografo. É um funil. Quero a imagem que melhor defina o lugar. Aquilo é uma espiral, saca-rolhas, casca de caracol, boca banguela.

   Tiro a foto e desço. Impossível se perder. Todas as portas estão abertas por causa do calor. Mulheres conversam debruçadas sobre os muros. Outras deixaram cadeiras em frente aos portões.  As mulheres aguardam um vento que não chega. E não chegará. Ele passa por cima. Aqui é um forno. Imagino o verão e crianças desidratadas socorridas nos postos de saúde.

   No meio da descida, um velho de barba branca sai de sua casa e quer saber se eu era da prefeitura. Não utilizo este pretexto. Digo que sou recenseador do governo brasileiro. Minha função é fotografar e contar as casas. Tirar fotos para os arquivos federais. No ano 2050 conhecerão a periferia de São Paulo graças as minhas fotos. O sujeito arruma a gola da camisa. Penteia os cabelos com a mão esquerda. Alisa a barba. Bem amarela na altura da boca. O gestual demonstra o seu orgulho por ser finalmente objeto de pesquisa do governo. Por isso afirma solene:

- Pode tirar a foto.

  Fotografo e o velho inspira-se e afirma que este presidente, o Sarney, é um bom governo. Ele é a árvore de uma raiz muito boa: do Sr. Tancredo Neves.

  O homem fala do Tancredo. “Morreu para deixar um sucessor, um herdeiro valente, um continuador de suas obras”.

   Desconverso e pergunto sobre a sua vida.

- O senhor mora aqui sozinho?

   O homem é viúvo. A mulher morreu no ano passado. Eu lamento o ocorrido e para atenuar lembrança que despertei, afirmo que perder a esposa é muito triste.

   O viúvo abre a boca e acena com a cabeça. Sim é triste. Depois examina o jardim da casa, onde um ajuntamento de flores vermelhas e encardidas decerto lhe trazem alguma recordação. Examino o seu rosto. Os fios da barba, espalhados no rosto, espetam a casa, o jardim, o muro. Concluo que deixar a barba secar daquele jeito foi o cumprimento de uma promessa. Um pedido de força para não perder a cabeça.

   O homem diz que trabalha como marceneiro. Mostra-me um armário perto da porta. Tinha uma marcenaria maior em outra casa. Comprou antes de separar-se da mulher e vendeu logo que ela morreu, no ano passado, mas já estavam separados. Conta que o casamento durou sete anos e não tiveram filhos. Os filhos foram o motivo do fim do casamento. Ela não lhe dera um herdeiro. Ele queria. Ela dizia o mesmo e quanto mais falava em gravidez mais a gravidez sumia. Ele fez um exame, mas não apareceu nada. Achou que fosse um defeito da idade. Casou com cinquenta e quatro anos, que não é mais idade para ser pai. O exame deu negativo.

   Ele me pergunta o nome. Não quer ser tão íntimo de um desconhecido. O seu nome é Waldemar.

   O marceneiro continua. Quando saiu o exame a mulher, vinte anos mais nova, veio com uma história de que, antes de conhecê-lo, engravidou de um namorado lá em Salvador. Ela não quis a criança e nunca explicou o motivo. O certo é que pagou pelo aborto. O namorado não pagou nada. Uma amiga emprestou o dinheiro e as duas foram parar na porta do dentista, que não era dentista. Minha mulher sentiu muita dor. O dentista raspou tudo o que o dinheiro da amiga pagou. Ela estava no terceiro mês.

   Waldemar senta em uma cadeira. Coça novamente a barba. Demora a confessar que na hora da história do aborto ficou com pena da ex-companheira até se lembrar dos anos de casado, do exame de esperma, de achar que tinha câncer no saco. O passado da esposa explicava tudo e o passado lhe deu um ódio porque ele sabia, quando uma mulher engravida é porque gosta do homem. Gosta do cheiro. Mulher tem um nariz que só Deus conhece. Ele pensou muito nisso. O corpo funcionou com o outro, não funciona comigo. E ficara dois dias medindo a traição, o prazer que a companheira teve com pai do aborto e a ideia de ter feito tantos planos para um filho que não viria e um dia veio de um estranho.

   Waldemar termina dizendo que por ciúme, expulsou a esposa da casa. Não bateu na sua cara porque não era covarde. Ela pegou a mala e saiu de cabeça baixa. Levou seis meses e ela morreu de câncer do peito. E quando ele soube do falecimento e também durante o velório, ficou com pena e raiva de novo, porque mal ela saíra naquele dia e ele descobriu que ela era a sua vida e queria tê-la de volta de qualquer jeito, mesmo sem filho, com apenas um seio que o tumor levara, mas não sabia como pedir.

   O viúvo despejou a história. Eu não quis prolongar o assunto. A sua culpa era enorme. Nenhum homem merece esta madeira, que não se pode lixar e você lixa.

   Elogiei o armário da sala. O senhor é um bom marceneiro e saio dali. Fique com Jesus.

   Desejo que o Todo-Poderoso permaneça com o viúvo, se bem que eu tenha dúvidas. A ajuda divina aos homens apaixonados pela ex- mulher é uma intervenção sem data marcada, principalmente se a ex- mulher estiver morta.

   Retorno meio atordoado. Ainda pude ver o velho puxando um cigarro do bolso. Por isso a barba amarelada. A fumaça do cigarro queimava os pelos do rosto.

   Paro em um bar e compro um chiclete. Quero afastar o mau hálito. Não encontrei sinais divinos aqui, embora haja um desejo de cola de sapateiro no ar.




 




Trecho do livro: "DEUS, A FERIDA E A PERIFERIA"


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