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Crônicas-->NÃO FALAMOS MAIS A LÍNGUA DE NOSSOS AVÓS -- 17/07/2017 - 01:34 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
NÃO FALAMOS MAIS A LÍNGUA DE NOSSOS AVÓS
O novo crioulo popular brasileiro

João Ferreira
Julho de 2017

Parece que é verdade. Nossa língua materna mudou muito. Novos tempos. Globalização. Ambiente multicultural. Maior difusão do inglês. Coexistência de várias culturas e etnias. Negócios. Viagens internacionais, políticas culturais. Estamos falando um novo crioulo no Brasil. Não tenhamos dúvida disso. Um novo crioulo nas ruas e nas redes sociais. Ao falar de "crioulo" nesta crônica, estou me referindo ao "crioulo" como termo correspondente a "dialeto linguístico".
Para começo de conversa, gostaria de dizer como surgiu a inspiração para este crônica. Encontrava-me num destes dias de julho, tomando um café no andar superior do Schopping Iguatemi do Lago Norte, em Brasília, quando notei que um animado grupo de crianças brincava alegremente num "playground" instalado bem em minha frente, no piso embaixo. Era um "playground" bem montado e gracioso, com cores verde e laranja, e tinha, para entretenimento das crianças, entre as opções, uma cesta de basquetebol, um pula-pula, rampas, cubos e bolas. Tudo muito seguro, com as crianças se movimentando felizes, assistidas por uma curadora treinada em pedagogia esportiva e recreação infantil.
Olhando as crianças e o "playground" veio-me à cabeça a fixação no estrangeirismo ou empréstimo em causa. A palavra, "playground" surgia na minha cabeça dentro de um esquema que me levava ao capítulo dos empréstimos, barbarismo e estrangeirismos como se estivesse num laboratório de linguística, sentindo-me aí, um aluno fanático de filologia. Aprofundando, parecia-me estar a descortinar, no processo, o uso crescente de uma nova linguagem invadindo o Brasil moderno. Era um novo estilo do agrado dos mais jovens falantes brasileiros, que apenas respondia a uma tendência semelhante que está crescendo nos arraiais da globalização. Novo estilo igualmente vivo em Portugal e demais países da lusofonia, em países europeus e outros. Em meu pensamento, via estar-se a constituir um "novo crioulo popular " no seio da comunidade nacional. Esse foi o primeiro pensamento. Mas depois, no decorrer de minha estadia no Shopping Iguatemi pude confirmar e aprofundar as bases de minha tese, que passavam a enriquecer minha crônica. Verifiquei que, por todo o lado, diante de meus olhos, se sucediam os cartazes e tabuletas comerciais com as palavras "sale", ou "off", em especial destaque, acompanhadas, de perto, pelo percentual do desconto, de 50 a 70%. Percebi que a palavra liquidação estava sendo aposentada, na prática. Quase tudo "sale", quase tudo "off". Na minha deambulação, fui encontrar um café onde havia "mix de nuts", "chips" de batata, "brownie", "cookies" e uma lista dos "snacks da casa". Caminhando, mais adiante, achei uma loja que vendia sanduíches "frango grill". Ao fim e ao cabo, convenci-me que tudo isto era apenas uma pequena passarela que mostrava apenas a ponta do iceberg, em termos de estrangeirismos e empréstimos ingleses em nossa língua. Depois, num pequeno esforço de memória vieram-me à cabeça ainda expressões que todos conhecemos: "happy hour", "happy end", "self-service", "strip-tease", "topless", "selfie", "match", "happening", "flash", "tape", "spray", "mouse", "scanner", "backup", "outlet", música "gospel", "blues", "country", "rock", "heavy metal", "dopping", "diet", "louange", "fake news" e tantas outras. Entre a população da média e alta burguesia como nas redes sociais, é fácil perceber a dimensão do uso, que chegou até às estrelas da Globo. Em depoimento na revista "Veja", Isis Valverde falou neste final de semana do uso da palavra "hater": "Hoje, - diz a diva - até porteiro tem hater." (Cf. Veja nº 2530,pág. 89). Para que procura saber o significado da palavra, reproduzo a informação que encontrei na Wihipedia:"Hater" é um termo usado na internet para classificar pessoas que postam comentários de ódio ou crítica sem muito critério". Se ultrapassarmos o universo das lojas em Brasília e pensarmos na riqueza de elementos linguísticos que residem na cabeça dos pró-americanos que vivem no Brasil e vão aos Estados Unidos, com frequência, fazer compras e, juntamente com as mercadorias, trazem também termos e "linguagens yankees" que vão espalhando e firmando por aí, veremos que a lista é muito extensa. Se juntarmos ainda os empréstimos que podem ser colhidos nos grandes centros das cidades de S. Paulo, do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, de Belo Horizonte, do Recife, de Manaus, de Montes Claros (pólo de emigração para os Estados Unidos) e pedirmos a ajuda da internet e das redes sociais, poderemos realmente nos convencer de que está havendo um nova mixagem na língua portuguesa, graças aos novos empréstimos, que hoje são recebidos com a naturalidade, como se estivéssemos numa "aldeia global".
No nosso entorno podemos observar como nas belas ciclovias de Brasília cidadãos e cidadãs circulam com "bike" própria ou alugada; como em nossas escolas meninos e meninas são atormentados por impiedosos"bullyings"; como os jovens gostam de jogar "games" com amigos. Aprofundando lembranças, vem a memória dos dos velhos tempos da ditadura quando os universitários marchavam nas paradas de protesto com cartazes em letra garrafal "Yankee go home". E como em nossa sociedade mais educada há sempre alguém que opta por uma reclamação em termos "light". E assim, não restam dúvidas de que vamos caminhando para selar a existência real de um "novo dialeto crioulo no Brasil" - o "crioulo global". "Crioulo" entendido como " variedade linguística coexistente com outra"(Cf. Moderno Dicionário de Língua Portuguesa Michaelis (São Paulo: Melhoramentos, 1998). Miscigenação, mestiçagem, ou mistura linguística. Tudo muito ao natural, graças aos computadores, celulares, ao avião, às viagens internacionais, à cultura "global", algo que contrasta com o que acontecia cinquenta anos atrás, quando os linguistas eram puristas rigorosos, verdadeiros guardiães da Língua e não permitiam "invasões" no vernáculo. Era comum, quando chegava uma palavra tentando invadir o vernáculo, concluir que a solução era aportuguesá-la. Vestígios desse tipo de solução está na palavra "soçaite" (dicionarizada) derivada do inglês "society" e também em "boate" (dicionarizada), proveniente de "boîte"(francês) - e em "flerte"(dicionarizada), de "flirt" (inglês). Hoje, a linguagem falada e escrita vai enriquecendo, se sustentando, convivendo democraticamente, sem purismos, mas, pedindo emprestado, talvez como sempre foi, mas sem que possamos fugir à "escancarada realidade de que se está formando um novo crioulo" falado e escrito, entre as várias linguagens utilizadas pelo povo brasileiro.

João Ferreira
Julho de 2017
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