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Erótico-->CORPOS SEM PECADOS -- 01/01/2016 - 03:02 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos



Domingo besta que se deita em minha cama. Anoitece e decido ver corpo de mulher. Vou ao prostíbulo que entrei há poucas semanas. Sou recepcionado pela discussão de duas prostitutas:



- Não quero saber! Vamos ser puta, mas vamos ser honesta.



Pensei que a honestidade fosse uma obra divina, que não fizesse parte do cotidiano das meretrizes. Também pensei que uma filha de Deus não pode servir a dois senhores. Procuro a mulher que cobicei da primeira vez. Ela está disponível. Sento-me ao lado. Pergunto o nome “Agora é Marylin”. Informo que estou pronto.

Entramos em um quarto minúsculo. Uma luz no teto foca o centro da cama. Os empresários do ramo talvez pensem: você não deve perder nenhuma contração muscular da mulher. Você ficara satisfeito.

Eu aceito o desafio. Jogo-me sobre o colchão. O outro é um corpo de fêmea, concluo. Estou ativo, embora saiba que ela não terá qualquer êxtase.

Nestes termos falam os crentes. Outros dizem ao clímax, ao prazer supremo, ao deleite. Crentes não pronunciam “gozar” , ejacular ou “cheguei ao orgasmo”.

A mulher tira a saia. Tira toda a roupa e fica de quatro na cama. Mexe os cabelos. Ela tatuou duas borboletas em seu braço esquerdo. A imagem me excita e arranco a minha roupa. Mergulho na cama. O dormitório vai se colorindo. Em um espelho fixado na lateral do quarto, vislumbro o perfil daquela fruta. Puxo as suas costas contra o meu peito e aperto os seus seios. Soltaram outras duas borboletas no braço direito. Beijo-lhe o pescoço. Ela acaricia a minha nuca com os braços virados. Parece abrir as asas. Os seios sobem, as borboletas chegam perto de meu rosto. Desço as minhas mãos até as suas coxas e deitamos na cama. Quanto tempo eu não sinto o contato de pele feminina. O toque é tão bom, embora não haja beijos na boca, nem declarações amorosas, mas uma evolução para desejos que se esfregam em meu rosto e querem confessar à prostituta o quanto eu estava feliz, que fazia muitos meses e eu necessitava soltar algum nome de mulher no espaço mal cheiroso daquele quarto. A mulher se antecipa.

- Você já gozou, amor?

- Gozei.

- Então tá!

A mulher sai do meu alcance, puxa um travesseiro, levanta os cabelos e se deita. Pergunto novamente o seu nome e se está tudo bem.



- Tirando o que tá mau, o resto tá bem.



A mulher reclama do calor. Anda quente. Trabalhar no calor não é bom. Homem não quer mulher suada.



- Você gostou? – pergunto pedindo uma análise da minha atuação.

- Você é que tem que gostar, amor.

Sim . Eu é que tenho que gostar. Pergunto a razão daquele nome. Não era Priscila? Marylin tava disponível e ela pegara.

- Os homens lembram-se dela e se lembrarão de mim Posso mudar o penteado.



Na hora cogitei que muitos travestis gostam desse nome: Marylin. Examino o seu rosto. A boca pequena e o nariz arrebitado são parecidos aos da Marylin americana.

Os travestis dessa zona de meretrício devem adorá-la. A mulher entra no banheiro e deixa a porta aberta. Liga o chuveiro. Toma um banho rápido, o que significa lavar apenas a própria vagina. Vejo um espelho comprido na parede do banheiro e concebo uma perfeita utilidade para a peça. As prostitutas podem contar suas estrias antes do próximo cliente. Marylin examina as pernas.



- Eu não costumo vir aqui.

- Eu percebi. Você está meio triste.

Digo que ando deprimido. Não ligue. É normal. Ela continua:



- Aqui também é normal. Quer dizer...eu só estou nessa casa porque quero pagar uma dívida. Lá na minha cidade eu disse viro puta, mas pago esta dívida.

-Normal? – pergunto.

- Semana passada um policial entrou aqui e quis transar segurando o revólver.

- Normal?

- Claro que não! Claro que não! Posso esfregar qualquer coisa na cara, menos um trinta e oito.

- Problema.

Converso com a mulher mais por educação do que por interesse. Poderiam esfregar um canhão no seu rosto que eu não ligaria.



- É difícil sofrer na paixão, não é? – ela me pergunta.



Eu me espanto com a constatação da prostituta. Pergunto se é tão evidente que eu estava na merda.



- Claro! A praga do amor desliga as pessoas... o rosto delas. Em vocês homens fica na cara...

-Você não tem jeito de garota de programa.

-Tenho sim. Tenho cara de puta.



Listo mentalmente outros sinônimos para puta. Encontro muitos. Tem a piranha, vaca, dadeira, dama da noite, cortesã, decaída, meretriz, mulher-dama, mulher-da-vida, prostituta, Madalena, quenga, perdida, rapariga.



- Eu gosto de rapariga. – responde a mulher como se escutasse a lista que eu elaborava.



Confesso que eu gostava muito da rapariga que ela via na minha cara.



- Eu sei. No fim fica a carcaça. O amor morre na carcaça, querido.



A conclusão bastou-me. Conto a minha angústia. O ricochetear pelas quinas da cidade. Eu nem sabia bem o porquê do meu comportamento.



- Você teve que sofrer. Desta vez.



Aquela conclusão me abala. Ela tenta explicar que os homens não sabem conviver com a falta de controle. Pensam que escolheram a mulher certa. A mulher decide. Decidiu pelo chute.



- Olha, ela poderia estar certa e se estivesse errada, não era a tua mulher.



Ela estava certa. Alguns acontecimentos consumados. Sai do puteiro. Agradeci a atenção. Marylin ri.



- Eu é que tenho que agradecer, amor. Volte outras vezes.



Lembro-me da frase de papai ao anunciar minha separação de Marina. “Era uma puta!” No entanto, foi uma delas, verdadeiramente do ramo, consagrada, a pessoa que mais me ajudou.

É muito difícil resolver os estereótipos. Encontrar um equilíbrio entre as perdidas e as mulheres de família. Não sei, mas tenho a impressão de que a prostituta ajudou-me

Eu poderia ter acrescentado uma gratificação, um couvert” artístico.

Ela me pediu para voltar. Não voltarei. Não posso alterar a boa impressão. Quebrar o vaso de porcelana: a imagem da mulher que compreendeu a minha dor. E isso depois de vê-la em plena atuação profissional, se defendendo.

Pude encaminhar certas ideias. Não as formei em um conjunto único. Volto para casa e ao abrir a porta e caminhar até o banheiro para lavar o rosto do erótico; salta-me o episódio da Beatriz do BBDC. Seus peitos pequenos agora me perturbam. Visualizo enormes glândulas mamárias. Dizem que os homens gostam de seios enormes porque são mais receptivos. Ora, nenhuma mulher é uma vaca. Recordo-me das deduções da puta. Ela tinha razão. Preciso gostar primeiro. Minhas necessidades amorosas, financeiras, sexuais, digestivas também importam.

Posso imaginar que alguns santos morreram sifilíticos.

Posso até imaginar o Evangelho segundo São Barnabé.

Eu me aceitarei em minha condição de apócrifo.

Quantas dissecações mentais. Elas não me abandonam.




Fragmento do livro "Deus, a ferida e a periferia" já exposto no site Usina de Letras


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