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Crônicas-->Heróis do medo -- 09/11/2017 - 09:31 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
A cidade dorme. Espectros bruxuleantes vagueiam 
Vultos   passeiam na praia. É noite em Copacabana.
  A  noite desce sem luar e sem  estrelas;  tinge  o céu com o negrume da escuridão,  e tece o cenário dos heróis do medo. Temente, o próprio medo treme, e cambaleia. O Anjo Negro passeia, tocando com suas asas a imaginação das crianças. Que fazer? Emília tinha medo do homem que cada menino constrói dentro de si, a partir da interação com brinquedos monstruosos. Ela já não gostava dos filmes de terror, e acordava sobressaltada com  pesadelos, habitados por criaturas diabólicas, que outrora via na TV.  Considerava que monstro é criação de mente doentia: diabinhos que o autor transfere em forma de imagem para livros e revistas.  Se é verdadeiro dizer que os sinais sonoros e visuais descortinam emoções,  também é verdadeiro afirmar que este  mesmo conjunto de imagens e som leva a atitudes e condutas de acordo com a percepção, em torno da qual orbitam os sentidos do corpo. E pela primeira vez, a boneca de pano teve sentimentos humanos: desejou ser a rainha das  bonecas, ter muitos súditos e um grande exército para combater o inimigo que lhe perturba o sono.
— Quero ser como Bob que não tem medo de nada.
— Os homens escondem seus medos, quando estão diante das mulheres — disse Ravenala — faça o teste: quando Bob disser que não tem medo, olhe os lábios dele. Se tremerem em leve contração, está mentindo.
— Não são mais os olhos a janela do coração? — Quis saber Emília.
— O rosto é  o lado externo do coração; os olhos, ambos os lados; mas são os lábios que escondem ou revelam a verdade.
Teve vontade de dizer que o coração do homem modifica seu rosto, para o bem ou para o mal. Assim, não podem ser do Bem os brinquedos com faces monstruosos. Então, pensou em construir uma boneca com duas faces: uma com rosto feliz  e outra com rosto  triste. Mas, reprovou ela mesma seu projeto. “Melhor fazer duas bonecas: uma triste e a outra feliz e quando estivesse triste, brincaria  com a boneca triste... “Não! Isso a levaria a entristecer-se mais.” Sorriu zombeteira de seu projeto, e depois chorou profundamente com pena dos meninos que brincam com criaturas monstruosas, e têm suas noites perturbadas por pesadelos. “Por que não produzir bonecos à imagem e semelhança de santos? Assim, as crianças sonhariam com anjos, e não com demônios, fazendo diabruras em suas mentes.”
Embrulhada dos pés à cabeça, Maria Emília descobriu o rosto,  tentando  compreender o que pensava amiga a respeito dos monstros  apresentados às crianças como inofensivos brinquedos.
— Não existe monstro bonzinho — disse a boneca de pano — todo monstro que faz o bem, apresenta-se como justiceiro. Faz o bem a uma pessoa e o mal a outra em nome da justiça.  Conte uma estória para me fazer dormir!
— Posso contar a estória do Turco?
 — Não! O turco rapta crianças para vender na feira.
E  Ravenala desenhou uma ovelha gorda  numa folha de papel.
— Conte carneirinhos...
— Esta ovelha anda devagar. Devagar demais! O rebanho já passou...
Então Ravenala desenhou um rebanho pastando às margens da ribeira.
— Tens agora muitos carneiros e ovelhas. É só tocar para o redil, e contá-los na passagem da porteira. Todas branquinhas, bem branquinhas...Vá contando...
— Já  contei 99 e ainda não consegui dormir.
— É porque uma desgarrou-se! Não dormirás enquanto não encontrares a ovelha perdida.
A noite avança. Entre um e outro piscar de olhos, Emília refaz na mente o diálogo que presenciara entre   Ravenala e Robert: “O livro não pode ser escrito apenas com fiapos de conversa  apanhados na sala de espera de um aeroporto. Tampouco, com a lembrança assustadora de quando  o pé ficou preso entre o vão da plataforma e o trem.”  “Pense positivo, Robert! Posso tecer um conto na alça do intestino de outro...  amarrar uma crônica no rabo da saia de outra crônica... Quebrar estruturas, refazer caminhos, reconstruir estradas, enfim, estabelecer aliança entre a ficção e a realidade. Tornar realizável o impossível, porque o possível é meta dos acomodados. Ouça a voz do vento. Ele fala da rosa, e nada diz dos espinhos.”
Emília se mexe na caixa de sapatos em que dormia.
— Ainda acordada, Maria Emília?
— Não consigo dormir.
— É porque não encontraste a ovelha perdida. Se há uma ovelha desgarrada,  o pastor não dorme. Encontre a ovelha, antes que ela seja apanhada pelo lobo. 
— A ovelha afastou-se do caminho apontado pelo pastor. Deve estar ferida! Desenha um cajado. Quero um cajado com uma curva enorme!...
Ravenala rabiscou um cajado com a curva bem longa.
— Tome teu cajado. Puxe a ovelha que está à beira do abismo.
— Emília, Emília...
— Zzzzzzzzzz...
A boneca  dormiu e sonhou. Viu o paraíso perdido. E chorou: o mundo encantado estava em processo de desconstrução. Muitas bonecas foram  jogadas no lixo, porque lhes faltavam braço ou pernas; outras agonizavam arrastadas por  águas turbulentas da liberdade descontrolada.
 
Viu, então, levantar-se do mar a fera apocalíptica que tinha dez chifres e sete cabeças; sobre os chifres, dez diademas; e nas suas cabeças, nomes blasfematórios. 
 
Houve um estrondo como o ribombar de mil trovões, e o Anjo Negro cobriu  a terra com sua sentença de morte: “Tudo está perdido. Apagado. A  Verdade e princípio de fé; tudo está morto. Deus está morto.” Ouviu ainda  o tropel de muitos cavalos, e o tinir de espadas da corte celeste em luta contra as forças do mal. Acordou. Seu semblante pálido, revelava medo. Emília estava fria.
— Por onde andaste em teus sonhos?
— No paraíso perdido.
— Encontraste o fantasma da ópera?
— Quase isso.
— Então conta que mundo é este que habita teus sonhos!
— Nunca  viste uma boneca descartada porque tem algum defeito? Vi uma muito ferida. Tinha  chagas ainda abertas por mordidas do lobo. Devia sentir dor e solidão. Disse ser uma ovelha abandonada pelo rebanho, mas foi ela que se desgarrou. E já não sabia mais como encontrar o caminho de volta. 
— Ovelha nunca deve abandonar o  rebanho! Sozinha, torna-se  presa fácil.
— Há muitas ovelhas enfermas. Incautas, elas mergulham na escuridão e caem em profundo abismo. Gritam e seus gritos não ultrapassam a barreira dos muros abissais.
Emília falava com a voz arrastada.
— Vovó, vovó!...
— Que houve, minha filha?
— Emília morreu!
— Bonecas não morrem. As meninas  crescem, e guardam suas bonecas no armário.
— Emília morreu. Quero um velório com todas as honrarias que ela merece.
Corina entendeu que era preciso penetrar no mundo das crianças para compreender o recado que elas mandam aos adultos nas falas e diálogos estabelecidos com as bonecas.  Era hora de guardar a boneca de Ravenala, como ela, Corina,  guardara a sua quando ficara mocinha.
— Emília era apenas uma boneca de pano, minha filha.
— Sim, mas em cada retalho dela, tinha um pedaço de mim.
— Podes fazer tua Emília voltar  a viver outra vez.
— Ela está velhinha demais, vovó. E muito cansada!  Não pode nascer de novo.
— No mundo espiritual pode. No ficcional também.  A vida, enfim, é um mistério para ser vivido ou um enigma a ser desvendado. 
— Mistérios da vida real...mistérios no mundo da ficção... Por que há  tesouro escondido atrás da porta?
 — Ora, para ser descoberto. Agora durma, minha filha!
— Tesouro atrás da porta ou obra  inacabada? — Retrucou Emília com voz de quem fala dentro de uma caixa. Ela não sabia que Ravenala falava do quarto misterioso.
 — Toda obra humana é imperfeita e inacabada. Devemos levantar hipóteses, sem afirmar, ou afirmar e depois negar. Por exemplo: as ondas atlânticas que sepultaram Escobar podem  ser as mesmas que engoliram Fernão.
— Nunca me falaste de Fernão.
— Trata-se de outro mistério. Ainda não é hora de conhecer Fernão. Chegará a horam em que ele será levado em espírito ao dia de seu batismo,  e no  mergulho ao sobrenatural,  verá seu corpo assim que plasmado no ventre da mãe, curvado como beato em genuflexão.
Fernão sentiu muita  angústia, porque não era desejado e o sentimento de rejeição provocou nele   um bloqueio do desenvolvimento cognitivo. Ele cresceu, mas nunca quis ser adulto. Nunca quis ser pai.
— Que é desenvolvimento cognitivo — quis saber Emília.
—  É o processo  que passa por estágios como o que estás nele agora: Eu falo, tu ouves; tu falas, eu escuto. Toco flauta e danças minha música, mas quando te tornares adulta, a música que toco já não será mais agradável aos teus ouvidos, porque os ouvidos perderam a sintonia com o Tocador de Flauta. E dirás que a música que toco é lavagem cerebral. Depois, na velhice, recobrarás a harmonia,   e outra vez, ouvirás a voz do vento.

***

Adalberto Lima, fragmento de "Estrela que o vento soprou."
Adalberto Lima
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