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Crônicas-->Professor Cid Teixeira de Abreu -- 03/12/2017 - 20:27 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos







 
 Conheci Cid Teixeira  de Abreu em 1978, em Caxias do Maranhão, quando  me hospedei num hotel – já não me lembro do nome – mas como esquecer o serviço de cozinha do hotel? “Restaurante  Panela de Ouro.” Nome sugestivo, uma vez que ouro simboliza o que é bom – e caro!  E eu, inadvertidamente, confundi a diária – linguagem de hoteleiro que inclui apenas dormida e café da manhã...
Foi um espanto, na hora de pagar a conta: foi-se toda minha remuneração de bancário, durante um mês de trabalho para pagar 15 dias de hospedagem, num hotel de luxo. Mas, esta é minha história. A história  de Cid começa, quando  ele ‘ofendeu’ uma moça e pôs nela uma barriga. Seu pai, um austero tabelião, impôs-lhe a condição de casar-se para limpar o nome da família, de ambos os lados. Cid (18 anos) fugiu na calada da noite e foi parar em Belo Horizonte.  O baixinho de cabeça chata e rara inteligência, logo conseguiu um emprego de vigia na construção civil. Aquele não era seu sonho. Na verdade, queria estudar e o fez.
Contou que  tinha por abrigo e moradia a obra em construção que vigiava. Aconteceu, por ironia do destino, que o prédio pegou fogo durante sua ausência e quando Cid chegou, alguns burocratas da empreiteira já estavam no local.
- Senhor Cid, onde estava quando o incêndio começou?
- No culégio. (Ele pronunciava “o” com som de “u”.)
- O Senhor estuda?
- Sim!
- Pois passe amanhã no escritório da empresa.
No primeiro expediente, lá estava ele, imaginando estar prestes a ter seu nome na lista de  desempregados.
- Estamos rescindindo seu contrato de vigia... e assinando a carteira como funcionário do escritório.
- Ufa, que alívio! – pensou Cid – achei que estava...
Finalmente, alguns anos depois o acadêmico de filosofia, torna-se professor de uma faculdade na capital de Minas. Com efeito de um casamento malsucedido, ele volta  descasado à terra natal. Foi aí que o conheci candidato a vereador de Caxias. Seu slogan de campanha era: “CID Conhece a doença da CIDade” – uma alusão ao Código Internacional de Doenças. De fato, muitas cidades brasileiras continuam doentes, porque, lamentavelmente, um país que elege bode para vereador e ratos para os mais altos escalões da política nacional, não vota em filósofos, em sábios, nem intelectuais. Ruy Barbosa, Enéas, e Cid Teixeira de Abreu sabem disso.  Então, foi assim que o conheci. E quando deixei o hotel Excelsior, Cid também o deixou. Depois disso, moramos meses na pensão de Dona Zenaide, até o dia em que me casei com uma mineira, por procuração. Eu nem sabia que fosse possível não estar presente em meu próprio matrimônio... Mas Cid sabia. Ele tomou todas as providências relativas à parte forense, mandando lavrar uma procuração pública em meu nome. Daí, me casei no Eclesiástico com efeito civil.
Hoje, me vem à memória a figura deste filósofo que em 2004, partiu para a eternidade, e por que hoje? Ora,  hoje fazendo o enxugamento da obra “Estrela que o vento soprou," resolvi dialogar com a palavra que outrora sua boca proferiu: “... a terra não comerá minhas lembranças.”
E não comeu mesmo.
Em Caxias, a rua do cisco é a mais limpa, e a rua Direita é torta. Era na rua Direita o bar de seu Artur, bem em frente da praça, cujo nome não me recordo. Seu Artur saudava os fregueses, dizendo uma loa e ainda  participava do impugna – um jogo de palavras entre intelectuais que consistia em impugnar uma palavra, ou porque estava pronta ou porque não existia. A disputa no jogo da sabedoria era organizada: havia uma pilha de dicionários de diversos autores e papel semi-impresso com as regras do jogo e o timbre: “Recanto dos Poetas”. Só valiam as palavras dicionarizadas.
Ali marcavam ponto, Adalberto Lima, que sou eu. Cid Teixeira, Arthur Cunha, Edmilson Sanches e outros tantos. Este último, não bebia, era adolescente, e menor-aprendiz em banco estatal. No fim do jogo, saíamos dali com a cabeça cheia não apenas do etílico sorvido, mas também da sabedoria absorvida. Não apostávamos dinheiro. Apostávamos   saber.
***

Texto: Adalberto Lima.
Foto dos poetas  Cid Abreu (à esquerda) e Wybson  Carvalho.
Créditos da imagem: Edmilson Sanches.

 






Adalberto Lima




Enviado por Adalberto Lima em 03/12/2017

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