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Erótico-->O amante da esposa -- 13/06/2019 - 21:22 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

A respiração de Claudionor finalmente retorna ao normal e ele começa a se acalmar. Sentado, agora encostado na parede da sala, ele observa o amigo caído com a cabeça partida ao meio e o cérebro esmagado, escorrendo para fora da cabeça como o pedaço de carne que saía em meio ao monte de gelo amontoado em sua geladeira antiga anos atrás, quando ambos ainda eram adolescentes. Ele se lembra deste detalhe ao observar o amontoado de miolos ensanguentados que agora vazam do crânio cujos pedaços se destacam em meio ao sangue que banha a cabeça, o chão e a chave de roda na mão do próprio Claudionor. Ele volta a tremer ao pensar que bateu com a referida chave contra o crânio do amigo até que tudo que havia dentro da cabeça jorrasse pra fora, num ímpeto desesperado de anular a existência daquele ser que chamou de amigo durante trinta anos, mais precisamente desde os tempos de colégio. Estava decidido que não passaria daquele dia e que o tinha de ser feito, seria feito. Ironicamente, em meio a tudo isso, numa linha que segue entre dois extremos, sendo ambos a dor pelo que havia acabado de fazer, bem como a causa disso, que lhe soava praticamente estupida, enfadonha naquele momento, e o alívio de ter finalmente eliminado algo que mais parecia um problema que qualquer outra coisa, a única coisa que ele consegue lembrar é de a winter’s tale, do Genesis, de 1968, e que era uma das canções favoritas dos dois.

Ele sequer conhece o lugar onde estão; um prédio abandonado no centro de São Paulo, um dos poucos que não havia sido invadido por moradores de rua, paredes sem reboco, fiação aparecendo, poeira pra todos os cantos, construção não acabada, enfim. Com a desculpa de que pretendia comprar um imóvel no local, de que se trataria de um investimento que ele gostaria de ter o conselho do amigo antes de investir, ele o atraiu até o local, onde já havia deixado a chave de roda devidamente escondida para que o homicídio pudesse ser praticado. Por que não uma faca, ele mesmo se perguntou, que seria mais fácil de ocultar e transportar? Então se lembrou dos restaurantes coreanos, onde cachorros eram abatidos na pancada antes de irem para o prato dos fregueses, no intuito da adrenalina liberada durante o espancamento tornar a carne mais saborosa para consumo. Ele não conseguiu pensar em associação mais adequada para o momento, afinal, qual a melhor forma pra se matar um traidor?

Foi Lisandra quem contou tudo. Aquela tarde de sábado havia sido totalmente atípica e ele passou o dia todo preocupado. Ela, no entanto, chegou em casa calma e sem qualquer sinal de tensão em seu rosto, até mesmo mais relaxada do que quando chegou em casa. Estava tudo certo que passariam o fim de semana na praia, que tudo devia estar pronto e que ele já havia feito reservas em uma pousada, mas ela, estranhamente, já estava arrumada quando ele acordou, e disse que iria sair e só voltaria mais tarde.

Claudionor não entendeu o ocorrido. Ela não atendia o celular ou recebia mensagens no aplicativo de telefonia móvel, motivo que o levou a se preocupar e se perguntar o que estaria acontecendo. Até onde sabia tudo ia bem, os dois viviam um clima que parecia mais ser um eterno namoro. Aquele típico casamento em que as responsabilidades eram dividias igualmente, as contas eram divididas e nada pesava pra nenhuma das partes, apesar de haver momentos difíceis. Indagando-se sobre o que poderia ter levado aquilo a acontecer, passou o dia no sofá, deitado, esquecendo-se até de comer, apenas meditando sobre a questão e tentando achar um motivo para a mulher ter saído daquela maneira e sequer cogitado dizer o que estava acontecendo.

Finalmente, à noite, ela retornou, exatamente da forma citada anteriormente. Questionada sobre onde havia estado, deixou a bolsa de lado, tirou os sapatos e, num tom tão despreocupado quanto inconformado com o questionamento do marido, ela não se conteve:

- Eu já tava de saco cheio dessa merda de passeiozinho romântico de final de semana! Eu fui atrás de um macho que faça alguma coisa que preste na cama, que sabe fazer eu me sentir viva de vez em quando, deu pra você entender??? Eu saí com o Danilo, ele tá me comendo desde antes da gente casar, tá bom? Meia-hora antes de eu casar com você ele me comeu de quatro no nosso quarto, eu subi no altar ainda sentindo a porra escorrer! Tá certo? E não foi só ele, os outros são...

Ele praticamente não prestou atenção ao restante da conversa, mesmo porque a esposa não estava lhe contando nada sobre o qual ele não possuísse alguma suspeita ou mesmo pelo qual pudesse se interessar. Os detalhes sobre tudo que é contado a respeito do carteiro, do pedreiro que veio arrumar o banheiro ou mesmo do vizinho do lado e dois ou três amigos dele praticamente lhe passam despercebido, entrando por um ouvido e saindo pelo outro. O tom de deboche dela enquanto fala sobre o assunto também é ignorado, como se apenas o que é falado sobre Danilo fosse digno de sua atenção. Os detalhes que ela dava sobre o sexo, bem como o fato de que já havia se entregado a ele desde a época do namoro e as explicações que dava para manter o caso e continuar casada com ele esticavam e contraíam cada fibra de sua mente de forma que ele nunca havia sentido.

- Essa merda romântica é boa, mas chega uma hora que eu preciso de uma folga pra não me sufocar disso tudo... E quem me melhor pra cuidar disso que o melhor amigo do meu corninho, diz ela, com tom de voz sarcástico, tentando conter uma risada. Não é nem só porque ele é melhor que você de cama, é também porque eu acho até poético que justamente ele seja usado pra me livrar desse sufocamento que você me impõe... Romantismo faz parte, mas eu tinha que fugir disso de vez em quando... Mesmo que isso implicasse você chupar o pau dele por tabela sempre que me beijasse...

Ele podia suportar o fato de que um estranho se aproveitasse dos favores sexuais e da necessidade da mulher, mas nunca que seu melhor amigo fizesse isso. Era um refém de quem mais amava, reconhece, algo do qual Danilo deveria ter ciência e se afastar da mulher e não usar a situação em seu favor. Sabe que a esposa, por aceitar conviver com ele, lhe deve tanta ou mais lealdade que o amigo, e que, se ele serviu do corpo dela como bem quis foi porque teve a permissão dela para isso, mas, ainda assim, era de se esperar que a amizade fosse levada em conta.

Tudo aconteceu de uma forma instantânea; sabia, em seu íntimo, que não conseguiria culpar a mulher ou viver sem ela, que era escravo do próprio sentimento e que não aceitaria deixar a situação como marido traído, por mais que o fosse. Entretanto, o ocorrido não poderia ficar sem resposta e ele, tão logo tivesse posto a situação na balança, já sabia exatamente como prosseguir, o que terminou por resultar na situação atual.

Ele continuará com Lisandra e ela, provavelmente, já estará calma e nem falará mais sobre esse assunto com ele. Danilo está morto e não vai mais tratar com desdém a amizade que ambos tinham. A expressão de terror em seu rosto pouco antes do pé de cabra transformar seu cérebro em patê permanece na mente de Claudionor e lhe é extremamente gratificante. Outros amantes deverão existir, é quase provável, mas nenhum deles há de soar como um traidor para ele, haja visto que não há laços de amizade com nenhum.

Ele finalmente se levanta, levando consigo a chave de roda, jogando-a em uma boca de lobo logo que sai do prédio. A fome bate e ele pensa em uma pizzaria onde talvez Lisandra aceitasse jantar esta noite... 

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