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Crônicas-->QUANDO A VIDA ENSINA -- 11/04/2019 - 01:01 (SALETI HARTMANN) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


     Meu pai contava, sempre com uma certa tristeza na voz e no olhar, que sua vida familiar, na infância e na adolescência, sempre foi bastante pobre, tanto econômica, quanto culturalmente falando. 

     A vó Victorina cozinhava os produtos que eram plantados pela família, principalmente, o feijão, que era feito em uma panela grande, para alimentar diariamente, a família numerosa. Outros produtos que a família cultivava, eram preservados para a venda. 

     Além da experiência de pobreza na família, meu pai nos relatava a miséria encontrada tempos depois, durante a guerra, na Itália, onde famílias e cidades inteiras passavam fome, depois dos ataques e bombardeios dos soldados inimigos. 

     As pessoas das cidades bombardeadas, depois dos ataques, eram abandonadas à própria sorte, e adoeciam, com a falta de água e alimentos. 

     Principalmente, velhos e crianças sofriam com essa situação, pois eram duplamente dependentes de que alguém conseguisse alimento para eles. 

     Os soldados brasileiros, cujo batalhão meu pai fez parte, fizeram recuar os inimigos em algumas cidades por onde passavam. Batalhões inimigos se apossavam das cidades, e o povo ficava refém. Montese, foi uma das cidades que o batalhão brasileiro libertou do jugo inimigo.

     Logo que se instalaram em Montese, os soldados conferiram a miséria em que vivia a população. Muitos deles ficavam com pena dos moradores e doavam parte da sua comida, para atenuar a fome. Meu pai foi um destes soldados que dividia tudo o que ganhava de alimentos e água, com as famílias que mais precisavam. 

     Meu pai nos relatou que, certo dia, estando num momento de aparente folga, com outros soldados e capitão, algumas crianças da vila vieram chamá-lo, pois tinham uma surpresa para ele. 

     O capitão e os outros soldados, pensando nas forças inimigas, alertaram-no para não ir junto com as crianças, pois poderia ser uma armadilha. 

     Meu pai, mesmo assim, confiando naquelas crianças, seguiu-as até o centro da vila. Qual não foi a sua surpresa, quando os moradores – aos quais tinha ajudado com alimentos – ofereceram para ele uma deliciosa sopa, que tinham feito em grandes tachos, e que seria distribuída para o resto dos moradores. Fizeram a sopa com as sobras que os soldados lhes davam. 

     Dessa forma, meu pai vivenciou a miséria total de perto o suficiente para jamais esquecer o quanto ela é dolorosa. 

     Quando voltou para casa, no final da guerra, vinha sem um braço, que ficou no campo de batalha e foi enterrado na Itália. Casou com minha mãe – eram noivos durante 9 anos, e ela o esperou durante o tempo em que ficara longe. Tiveram 11 filhos – 6 mulheres e 5 homens – sendo que, atualmente, uma irmã nossa é falecida. 

     Pois bem, quando ainda era criança, e depois de adolescente, assistia às obras de caridade que meu pai fazia, sempre lembrando da sua própria situação cruel diante da miséria e da pobreza. Visitava pessoas doentes ( principalmente, idosos); todos os finais de semana fazia compras de alimentos e roupas – também roupas de cama, no inverno – e distribuía para diversas famílias pobres que conhecia. 

     Em muitas dessas visitas, ele nos levava junto, pois queria que soubéssemos que milhares de pessoas e famílias vivem em completa miséria e também abandonadas, tanto pela sociedade como pelos governos. 

     Queria nos ensinar a Caridade e o Amor ao próximo necessitado. 

     Confesso que esse aprendizado eu carrego comigo e me emociono sempre, diante das lembranças tristes do meu pai. 

     Mas, me emociono, principalmente, diante da força que ele demonstrou, e do coração enorme que ele tinha, durante o resto de sua vida. 

     E também fico emocionada pela força e resiliência das pessoas que, em plena miséria, ainda tinham ânimo para dar um sorriso e agradecer a Deus por alguém ter se lembrado delas. 

     A Vida é uma escola, que ensina a todos, de várias formas, que o Amor e a Caridade são valores para todos os dias e todas as épocas, enquanto a Civilização não tiver atingido um grau satisfatório de AMOR FRATERNO, sem estar movido a ideologias de qualquer ordem. 

     Na escola, aprendemos a importância dos Valores nos relacionamentos humanos. Mas, a VIDA ensina de forma cruel e definitivamente a urgência da aplicação desses Valores na vida real, não apenas como teoria nos bancos escolares. E, quando a Vida ensina, o aprendizado se realiza como chamas de fogo gravadas na pedra bruta.

Saleti Hartmann

Professora e Poeta

Cândido Godói-RS

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