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Crônicas-->O guarda-costas -- 01/06/2019 - 21:49 (Pedro Carlos de Mello) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

O guarda-costas

 

            Para diminuir a frustração de não conseguir ler todos os livros que tenho, tomei a decisão, no início deste ano (2015), de ler um conto a cada dia, sempre de um livro diferente, de tal modo que, ao final do ano eu teria lido 365 contos de 365 livros visitados.

            A experiência tem se mostrado riquíssima. Estou lendo contos sobre os mais variados assuntos, curtos ou longos, dos mais diversos estilos, de vários autores brasileiros e estrangeiros. Alguns contos levam a outras leituras, que por sua vez levam a outras, num agradável círculo virtuoso. Obviamente, a leitura de cada conto gera um impacto diferente, de maior ou menor intensidade. Fico muito satisfeito quando me deparo com algo até então desconhecido e que quero ver a minha curiosidade saciada.

            Cito como exemplo o conto que li em 29 de março: La jaula de Faraday, do livro Quisiera tener la voz de Leonard Cohen para pedirte que te marcharas, do escritor espanhol Óscar Sipán. Na realidade, comprei o livro por trazer no título o nome do admirado compositor e cantor canadense Leonard Cohen. Inclusive, a capa do livro é ilustrada com o chapéu de Leonard Cohen. Vi, depois, que o título não corresponde a nenhum conto que o livro contém. A alusão será apenas compreendida após a leitura integral do livro, conto após conto.

            Em cada conto do livro consta como epígrafe uma citação representativa de um autor renomado. No conto La jaula de Faraday, há duas citações: uma de Thomas Mann, extraído do seu livro Sobre mi mismo, que diz que “um literato é, em poucas palavras, um inútil para qualquer atividade séria, um sujeito propenso ao sonho e à especulação, que não só não é útil, mas também rebelde para com o Estado” e a outra de Ramón Eder, do seu livro Ironias, que diz que “os escritores não servem para nada, exceto para dar sentido às coisas” (estas traduções e as que seguem são minhas).

            É com ironia, portanto, que o conto se desenvolve. Óscar Sipan relata que o escritor uruguaio Juan Carlos Onetti, jurado de um concurso de contos, comunica a Nelson Marra que o seu conto El guardaespaldas (O guarda-costas) era o melhor dos 352 contos apresentados, mas que, por motivos extraliterários, não podia ganhar. O jurado explica que teria vislumbrado a perseguição, prisão e tortura que o autor de tal conto sofreria pela ditadura uruguaia que imperava em 1974, e que preferira dar ganho ao conto La jaula de Faraday, de Agnese Martiny, a história de desamor do ascensorista, entre o segundo e o terceiro piso, da Torre Eiffel.

            Ao final do conto de Óscar Sipan, encontramos a seguinte nota: “Cumprem-se 30 anos da libertação do escritor uruguaio Nelson Marra, torturado e encarcerado desde 9 de fevereiro de 1974 até 9 de fevereiro de 1978, por ganhar o concurso de contos patrocinado pelo semanário Marcha com El guardaespaldas, a radiografia de um protótipo de torturador da polícia política dos países do Cone Sul da América. Depois de sua reclusão, Marra exilou-se na Suécia e logo em Madri, onde faleceu em 3 de dezembro de 2007. Juan Carlos Onetti foi libertado em 14 de maio de 1974 e se exilou na Espanha. Este conto pretende ser uma homenagem”.

            Então, na ficção, Nelson Marra não ganhava o concurso, mas na realidade, ele ganhou. Impressionado e curioso, quis saber mais sobre o assunto e, principalmente, queria ler o conto El guardaespaldas. Como é que um conto pode ter tal teor explosivo? Que país é esse que escrever um conto dá cadeia? E não só escrever, também dá cadeia ser jurado de um concurso onde o conto é o vencedor.

            A Internet, que costuma dar solução para esse tipo de questões deu-me algumas pistas, mas não foram suficientes. Soube que também foram presos o diretor do semanário, Carlos Quijano, o secretário de redação, Hugo Alfaro e a jurada Mercedes Rein. Uma viagem ao México e uma rápida fuga a Buenos Aires havia salvado o outro jurado Jorge Ruffineli e o editor Gerardo Fernández.

            Mas não achei o conto, que eu tanto queria ler. Soube que ele havia sido publicado, junto com outros contos de Nelson Marra, numa edição da Plaza & Janés, de Barcelona, em 1985. Procurei-o no site de livrarias da Espanha, da Argentina e do Uruguai que costumo visitar, mas a edição estava esgotada. Acabei encontrando no Mercado Libre da Argentina três ofertas do livro usado. Escolhi a que estava em melhores condições e mais acessível para a compra e tentei fazer a aquisição. Recebi a informação de que meu pagamento, pelo cartão de crédito, havia sido “rechazado”, mas ao mesmo tempo indicava o nome e e-mail do vendedor para que eu pudesse contatá-lo pessoalmente.

            Foi o que eu fiz, em 18 de abril. Informei-lhe que havia tentado comprar o livro, mas que não havia conseguido. Como eu estaria em Buenos Aires do dia 30 de abril ao dia 3 de maio para a Feira do Livro, combinamos que ele me entregaria o livro no hotel nesse período em troca do pagamento do livro mais os custos de entrega. Deixei o dinheiro (136 pesos, cerca de R$ 45,00) num envelope na recepção do hotel e aguardei, confiante, a entrega do livro. Ao final do dia 1° de maio, lá estava ele, o troféu, o livro El guardaespaldas.

            O conto mais a sua introdução têm 33 páginas, em pequeno formato. Guardei minha ansiedade e deixei para lê-lo quando voltasse para casa, o que fiz dia 7 de maio. Segundo palavras do próprio autor, que constam da Introdução, “o conto El guardaespaldas é a radiografia de um protótipo de torturador da polícia política. É um conto de vinte páginas que começa no momento em que o torturador é crivado de balas por um grupo da oposição. Enquanto agoniza, o torturador recorda sua vida”, (e continua a introdução) “uma vida sombria, miserável, sórdida, na qual se mesclam a pobreza, o oportunismo, a homossexualidade, a política e o desvario mental do sádico. O conto descreve o entorno do guarda-costas, as implicações morais do poder e a força plástica de uma linguagem imaginativa que eleva sua denúncia acima da repressão e do medo”.

            Extraio, ainda, o seguinte outro trecho da introdução:

 

            “A realidade é tragicômica. O coronel que ia julgá-lo – segundo conta o próprio Marra – queria saber mais coisas.

            ‘Estava obstinado em averiguar quem estava por trás de mim, politicamente, e quando me interrogou, pouco antes de condenar-me, perguntou-me com tom de suficiência:

            – Quem lhe influenciou a escrever isto?

            Olhei para ele fixamente e lhe respondi:

            – Creio que a influência principal é a de Mario Vargas Llosa.

            O coronel deixou o conto sobre a mesa e gritou ao ajudante.

            – Requeiram-me imediatamente à minha presença esse Vargas Llosa!

            Irritou-se muito quando tempo depois voltou o ajudante e lhe disse:

             – Dizem que esse Vargas Llosa é escritor, peruano, vive na Espanha e não tem nada a ver com os tupamaros.’”

 

            Vejamos um pequeno trecho do conto que tanta ira causou à ditadura uruguaia de Juan María Bordaberry:

           

            “Mas aí estavas tu, parado, olhando de longe, com a impunidade que te dava o cartão plastificado, o que te atribuía a nobre condição de guardião da pátria, das instituições. Estavas tu que, no princípio, era um tapado, mas que, com o tempo, te ensinaram a distinguir entre comunistas e tupamaros, entre sindicalistas e subversivos, entre machos e quase fêmeas, te ensinaram a distinguir, animal.

            Ensinaram-te tipos que falavam inglês e que tinham caras de inteligente, para que soubesse como ia se desenvolver a tortura, quanto tempo iria durar, se era a morte ou não, porque tu não sabias nada disso, tu só sabias meter a mão e tudo era igual, um dois um dois, no estômago, no fígado, uns quantos pontapés nos ovos dos filhos da puta que baixavam das viaturas policiais – isso, já quando tu eras chefe – e aos que tu esperavas, com teu bigode largo, com tua dentadura irregular, com teu aspecto de marginal, com teus tiques de boxeador elegante, amigo de presidentes e maricas.”

 

            Depois do conto, li outros artigos e textos que faziam referência ao assunto, como o de Alberto Mosquera, publicado na Revista del Centro de Letras Hispanoamericanas n° 1, de 1991. Escreveu ele que, “um prestigioso humorista dizia que, num país em que as liberdades nem sempre são respeitadas, fora organizado um concurso de piadas políticas, – e agregava – ‘primeiro prêmio: vinte anos.’” A realidade de Nelson Marra não foi muito diferente. Mosquera assinala o delito pelo qual Marra foi oficialmente processado pela Justiça Militar: “assistência às associações subversivas”.

            Alfredo Alzugarat, no seu livro Trincheras de papel: dictadura y literatura carcelaria del Uruguay, escreveu: “deste conto assinala-se seu estupendo vigor narrativo, a peripécia do corpo, o caráter metonímico do personagem que se iguala com o destino do regime. Em síntese, estamos ante o autorretrato de um ‘instrumento’ de poder dotado de características similares as de muitos mais, um tipo de personagem ante o qual podiam ver-se identificados qualquer dos censores e dos verdugos do poder repressivo, um texto acusatório que não só jogava por terra a imagem pública de ‘honestidade’ e ‘serviço à pátria’ que se pretendia inculcar publicamente, mas que também, de maneira oblíqua, dava razão justiceira à subversão.

            Novas leituras me aguardam. Lembro que tenho que ler os outros contos de Óscar Sipan, do livro Quisiera tener la voz de Leonard Cohen para pedirte que te marcharas, o livro Sobre mi mismo, de Thomas Mann, o livro Ironias, de Ramón Eder (será que vou encontrar?) e os demais contos de El guardaespaldas, de Nelson Marra. Além disso, continuarei a ler o meu conto diário e continuarei a ler os livros que venho lendo, sistematicamente. E a leitura destes, tenho certeza, me demandará novas leituras. É um processo sem fim.

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