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Crônicas-->O amigo do suicida -- 13/06/2019 - 21:24 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Amauri não gosta dos dias quentes. E esse calor de hoje, se precipitando diante dos últimos dias de inverno, que só acaba dentro de dez dias, o aborrece ainda mais, embora nem tanto quanto o fato de estar pensando no clima enquanto se lembra do motivo de ter vindo aqui hoje. Mas admite, não vai tardar a chegar o momento em que não vai adiantar muito manter Marvin em seus pensamentos, pois, o que tinha que acontecer, aconteceu, como ele já havia dito a si que aconteceria um dia. Evidências de que iria acabar assim não faltavam, mas, por que não admitir, independente do quanto lhe dói, ele está contente que a dor do amigo tenha chegado ao fim.

Do lado de fora do cemitério do Araçá a cidade segue, cuidando de seus próprios assuntos, sejam eles quais forem. Ela permanece alheia à dor de Amauri, mesmo porque não poderia ser de outro jeito. O que ele seria, se comparado a outros assuntos que ocorrem enquanto ele sofre, além de simplesmente um organismo que não acrescenta nada à máquina da vida, que continua a funcionar mesmo que Marvin e mais tantos outros, neste exato momento, estejam deixando de fazer parte dela? Como a prostituta que não tem tempo a perder com quem só está ali pra jogar conversa fora e não lhe dá um motivo pra tirar a roupa e notar a conta mais cheia poucos minutos depois, ela deixa claro que não tem qualquer interesse em quem partiu para outro plano e prossegue cuidando de seus afazeres e de tudo que diga respeito a ela, direta ou indiretamente.

Ele chegou há pouco ao local. Estava ali, unicamente, porque é um lugar onde gosta de estar, onde não há ninguém vivo por perto para perturbá-lo e ele pode ficar a sós para pensar sobre a vida por algum tempo. Agora pensa apenas que o amigo com quem morava não estaria mais lá, que havia dado fim à própria vida e que isso lhe fez pensar que o cenário ao seu redor parecia realmente não fazer muito sentido.

Caminhando em meio às sepulturas ele subitamente se lembra do setembro amarelo, das campanhas contra o suicídio e de outras imbecilidades em voga naquele mês. Incrível como se fala tanto na preservação da vida e nem um pouco em se melhorar a qualidade dela. Os incautos, idiotas, ovelhas em geral parecem cair fácil nesse tipo de estratégia de marketing ou simplesmente estão ocupados demais tentando encher os próprios estômagos para pensar no assunto, só se lembrando que estão vivendo num buraco sem assistência médica, segurança ou educação que preste quando estão passando por alguma situação em que todos esses itens se façam necessários. Parece que faz parte do modo brasileiro de viver, agir feito um bobo alegre e sorrir o tempo todo ainda que tudo esteja desabando, até o momento em que se nota que a própria vida está a pouco tempo de chegar ao fim e que o próprio alicerce da casa já está corroído, não apenas o acabamento. O que dizer de um povo em que o sistema de saúde só começa a tomar alguma providência quando o paciente já está nas últimas, não havendo qualquer providência para evitar que ele chegue até lá?

Até irônico ele estar filosofando sobre o assunto. Não gostava de pensar nisso, embora não permanecesse alheio ao momento que o País vive. Mas é em Marvin que ele pensa agora. Nos momentos que passaram juntos. Amigos de infância, confidentes, dividindo muitas vezes até a mesma mulher, noitadas obrigatórias, brigas, shows, viagens, dividiram incontáveis momentos sendo como irmãos um para o outro. Havia o resto da turma, mas os dois sempre caminharam juntos, seja no momento do trabalho, da dor, ou do porre. Lembranças boas são incontáveis, mas ele sempre percebeu no amigo uma insatisfação constante com a humanidade, em especial com o cenário que o cercava.

Mulheres não faltavam, o emprego era satisfatório, mas a própria existência parecia enfadonha, estúpida, se sentia fazendo parte de um jogo do qual não havia pedido para participar. Escrevia e tocava violão, Amauri tocava bateria, mas ambos nunca levaram a música adiante por estarem ocupados demais com trabalho, limitando-se ao som de garagem no fim de semana com um ou outro amigo. Opositor natural da igreja, havia lido de tudo que pudesse a respeito do assunto, e dizia sem cansar que cristãos só se apegavam a essa crença porque não a conheciam a fundo. Seja como for, ele se mostrava cada vez mais um conhecedor das coisas como elas realmente são, ao menos de acordo com sua própria concepção, e chegou ao ponto de dizer que em pouco tempo talvez notícias a seu respeito que não seriam muito agradáveis logo poderiam ser ouvidas.

Pouco tempo depois, ao chegar em casa, Amauri encontrou o amigo pendurado no quintal, perto da lavanderia de casa. Lembra-se da sensação no momento, um misto de conformismo com uma agonia que parecia tão eterna quanto repentina. No fundo não estava tão espantado, afinal, já era quase evidente que Marvin iria acabar assim. Chamou a ambulância, as providências de praxe foram tomadas, mas de nada adiantou, pois já chegou morto ao hospital.

Amauri não esperou para que qualquer providência fosse tomada. Não queria nenhum imbecil perguntando se o morto era seu amigo, dizendo que sente muito, entre um sem número de frases feitas para os quais ele não tinha paciência e muito menos interesse em ouvir. Enquanto uma parte de si era preparada pra ser enterrada ele simplesmente saiu de lá, acendeu um cigarro e se dirigiu ao cemitério, onde se encontra agora. A sensação de observar as sepulturas do topo da escada que leva à parte baixa do Araçá é estranhamente revigorante, e lhe faz respirar fundo e pensar sobre sua própria existência daquele momento em diante.

Não se sente triste por Marvin; ele, agora, se encontra além de qualquer dor, de qualquer problema. Não será mais cobrado por qualquer dívida, sofrerá por qualquer sentimento não correspondido ou terá que se preocupar com a própria sobrevivência num país governado por seus inimigos. Na verdade, chega até a ficar contente por saber que ele está livre e que não verá o que esse país ou o próprio mundo devem se tornar nos próximos anos. Ele, por outro lado, está agora praticamente sozinho, a despeito dos poucos colegas e até alguns amigos não tão próximos que possui.

Não vê uma traição, tampouco uma covardia, na atitude do amigo. Apenas uma escolha. Nascer é uma imposição, a vida não bate à porta de ninguém e pergunta se queremos fazer parte dela, simplesmente nos vomitando ao mundo da forma que achar melhor. Não vê nisso obra de um Deus, pelo menos não nos moldes da doutrina cristã, que prega a existência de uma entidade superior e perfeita, mas que acabou se arrependendo de sua própria criação, embora saiba que, sim, existem forças no universo infinitamente superiores ao ser humano e que o próprio animal seria uma delas. Agora, supor que alguém seria obrigado a continuar vivo até que algo maior decidisse que é sua hora, sendo que ninguém senão ele mesmo sabia de suas dores e alegrias, é, no mínimo, falta de bom senso.

A estrada vai ficar mais longa de hoje em diante. Mas saber que o amigo pode estar melhor lhe serve de consolo. Não devia ser egoísta pensando apenas no próprio sofrimento, embora admita que tudo deve ficar mais dificultoso daqui para frente... 

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