Usina de Letras
Usina de Letras
                    
Usina de Letras
34 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 56827 )
Cartas ( 21161)
Contos (12584)
Cordel (10012)
Crônicas (22151)
Discursos (3132)
Ensaios - (8955)
Erótico (13388)
Frases (43348)
Humor (18383)
Infantil (3751)
Infanto Juvenil (2630)
Letras de Música (5464)
Peça de Teatro (1315)
Poesias (138025)
Redação (2918)
Roteiro de Filme ou Novela (1053)
Teses / Monologos (2394)
Textos Jurídicos (1923)
Textos Religiosos/Sermões (4766)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Crônicas-->Moda de viola -- 18/06/2019 - 11:59 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
 
Na fazenda Campo Grande, a aurora chega, quando o bezerro apartado berra,  suplica, pedindo sua cota do leite guardada nas tetas da mãe.  Vai um dia, vem outro, mal descansa, e outra vez o  sol se  levanta sonolento  no balde de leite do vaqueiro e vai dourando de luz  planícies e montes.  Com o  dia amanhecido, Euzébia tange a galinha que bica comida na mesa. ‘Sai trem desgramado, vai quebrar a imagem do santo!" 
À  tarde, pálidos raios do ocaso tocam  o crepúsculo das lembranças no   coração de Corina. Belos tempos em que a juventude lhe sorria, quando em noites de lua clara, a peonada se reunia  no alpendre. Feliz, a mulher do fazendeiro  morria de paixão, ouvindo “Saudade de Mirabela”, que o marido, inventado de cantor, tocava na viola que Zé Coco fazia, com as próprias mãos, e um toco de canivete. Naquele dia,  Generoso Batista  disse aos cafuçus:  ‘Hoje não toco.’ Foi quando Tunico Oliveira se manifestou recitando Ferreira, em pé de verso, guardado na memória desde a mocidade. 
 
Dim, dão... Dim, dão...
 
João Grilo foi um cristão que nasceu antes do dia,
criou-se sem formosura, mas tinha sabedoria
e morreu antes da hora pelas artes que fazia... 
 
— Atalho o frango nêgo mole!
— Não me interrompa, patrão. Ainda quero trastejar uma cantiga que assuntava pai imitando Leandro Gomes do Pombal. 
 
Quando cachorro falava, gato falava também
Gato tinha uma bodega como hoje o homem tem
Onde vendia cachaça encostado ao armazém. 
 
A meninada ria. Corina aplaudia,  mas, naquela noite, Nhá Santa não serviu café nem chá. No dia seguinte, mal se põe o sol, já o céu aparece  salpicado de estrelas e  se  assemelha a uma veste de princesa tecida por mãos de fada. 
As horas avançam velozes cavalgando a lua de São Jorge. A bicharada, de hábitos noturnos, passeia. O rato foge da coruja que pia, e arrepia de medo o cabelo da meninada. Suas  pálpebras pesadas  pedem descanso. Tunico Oliveira  se despede e sai.  Demais camaradas também se vão. Os meninos que brincavam de cabra cega na calçada, agora dormem a sono solto, até que nova aurora se levante  no bico da passarada. 
— Vai chover, disse Xandão.
— Nessa sequidão medonha, o amigo profetiza chuva para o sertão mineiro? O patrão vai tirar o gado para o Gorutuba. Alugar pasto, salvar o rebanho.
Era verdade.
Os anos cinquenta repetem a seca de 32 no céu rendado de nuvens esbranquiçadas. O sol escaldante consome a pastagem e bebe a água do rio.  O Saracura não corre; o  Lambari secou, e rio Juramento fraqueja. A serra outrora verde mostra-se agora acinzentada.  O ar treme. Freme e se contorce de dor a natureza. Fome e sede ameaçam o plantel de gado. Mas na  casa do coronel Generoso ainda tinha muito legume guardado em tonéis de zinco. Na cozinha, flocos enegrecidos de picumã, descem do teto, confundindo-se  com a linguiça que defuma na fuligem do fogão a lenha.
Eram oito horas da manhã, quando Euzébia foi à varanda atraída pelo vozerio que ouvia, enquanto dava um ajutório na cozinha da patroa de seu marido.
— Venha ver, senhora!  O terreiro está coalhado de gente!
— É o povo chegando para a procissão. Abata três galinhas e dois frangos. Faça um tacho de arroz com pequi, disse Corina.
— E feijão?
— Pobre não gosta de feijão. Faça pirão, maxixe e quiabo. Cozinhe um caldeirão de nabo. Saco vazio  não segura em pé.
 Fazer comida para mais de trinta pessoas era serviço demais para uma só.
— Nhá Santa... Nhá Santa...
— Espere, estou rezando...
A cozinha se movimenta.
Cuidadosamente, Euzébia retira a penugem dos frangos. Corina cuida do maxixe. Nhá Santa lava o quiabo picado, e  põe limão. A panela baba. A chaminé respira cheiro de sementinha de coentro verde, alho e sal socados no pilão. Nhá arruma a mesa grande. Talhares postos, doze cadeiras acomodam os comensais. Depois mais doze pessoas se sentam à mesa e se revezam. Mais doze, enfim, se fartam. Os meninos comem na cozinha, e os grandes  que são cria da casa, sentados no chão, recebem a boia em prato esmaltado. 
É hora da procissão.  
Peregrinos tomam a estrada. E se vão. Rezam. Cantam. Suplicam. E voltam molhados. Pingos miúdos caem no telhado, correndo e escorrendo nas cabecinhas dos pirralhos vestidos só da cintura para baixo. Viúvas da seca entoam canto de lamentação e mães choram seus filhos ausentes. Paulista em Taubaté nascido, Alexandre Guedes puxa a reza e se recorda das Aves-cheia-de-graça que dizia, no colo da mãe, quando criança. O sino toca. Mulheres cantam hinos, invocando os santos de devoção. Guedes, intercede, pedindo que se abram os reservatórios do  céu sobre o Norte de Minas.
Era dia de São José.
Fiéis, ajoelhados pedem  chuva. Despejam sobre a cruz da capela de Santa Catarina as garrafas de água que levaram. Vaqueiro Alexandre Guedes  se inclinou até o chão, pôs a cabeça entre os joelhos e disse a João Velho: “Vá e olhe para o lado de Sete Passagens.” O ajudante foi e voltou dizendo: “Não vi nada.” Sete vezes  Xandão mandou que ele fosse olhar. Na sétima vez, o ajudante voltou e disse: “Eu vi subindo da serra uma nuvem pequena, do tamanho da mão de um homem, como nos tempos do profeta  Elias.” 
Imediatamente, o ribombar do trovão, dá sinal  de que o céu ouviu as preces penitentes daquela gente sofrida. A multidão fez silêncio para ouvir a voz de Deus. Lágrimas de agradecimento se misturavam às gotas miúdas choradas em peneira fina. A procissão se desfez. Fiéis retomaram a estrada, a cerca de légua e meia de casa.
— Quem é o anjo gordo que puxou a reza? — Quis saber Corina.
— O anjo gordo, careca,  e sem asas é o Xandão; chegado de Taubaté e contratado,  como vaqueiro da fazenda Campo Grande.
— É casado?
— É. Mas a mulher não acompanha. 
— Que pena, um homem tão bom!
Naquele ano, choveu pouco no Norte de Minas, e a luta para salvar o gado era interminável. Levantava um animal aqui, caia outro ali. Levantava um ali, caia outro acolá... Até barrigueira para o animal ficar em pé, Generoso fazia. Aprendera a salvar gado nas grandes secas do Nordeste, dando papelão molhado e garapa de rapadura às reses mais fracas. Muita gente fazia o mesmo e salvava parte do rebanho.  Quem não tinha papelão, oferecia cacto sapecado, levemente queimado, para eliminar os espinhos.
— Papelão para vaca parida? O pasto está minguado, o leite também, mas você pode comprar torta de algodão e dar ao gado.
— Nada não, mulher! Quero que o leite saia embalado como ovo de galinha.
— E a garrafada de rapadura? É para o leite sair adocicado?
— Sê besta!...Rapadura é o melhor energético para levantar animal caído. 
Generoso não quis revelar que na seca de 1932 ele comeu macambira. Comera também sementes de maniçoba, apanhadas no esterco das vacas e nem  disse que era nômade como milhares de nordestinos, que abandonam suas terras, por causa da seca.
No outro dia, a tantos de março, mais  uma vez, a peonada se reúne no alpendre para ouvir moda de viola. 
 
Tiru-liru-liru, liru- liru liru-lão. Tiru-liru-liru, liru-liru liru-lão.
 
A seca de 32 não foi culpada sozinha, porque desde 27
 que ano bom já não vinha...
(Cantata nordestina dos anos 30) 
 
Corina pede que o marido toque Saudade de Mirabela.
— Primeiro toco meu amor por você.
— Tem música com este nome?
— Tem...
E  tocou Tristeza do Jeca.
 
 Nestes versos tão singelos. Minha bela, meu amor.
 Pra você quero contar. O meu sofrer e minha dor...
 
— Quem é o cantor? Quis saber Pururuca. 
— Num tá vendo que é o coronel, respondeu Turíbio Medonho.
Generoso riu, e em estrondosa gargalhada não pôde segurar o berro, quando a barriga subindo e descendo, chacoalhou. E a coalhada chacoalhada, respondeu com um trovão abafado: “A fôôôn so..."Corina beliscou as costas do marido: “Meu cravo, não leve a Tristeza do Jeca para debaixo das cobertas”. Os meninos riram. E um deles disse em voz alta: “Foi o coronel quem peidou.” Tunico Oliveira tentou consertar o vexame, e acrescentou: “Pururuca queria saber quem compôs Tristeza do Jeca. Não tenho certeza, mas deve ser Angelino de Oliveira, meu parente distante.”
— Né isso não. O menino está certo — emendou Pururuca — se ele não aponta o responsável, a culpa do pum caia em mim.
Houve uma trovoada de risos. E Pai Luís deixou cair a dentadura na xícara de café.
— Inté outro dia, patrão.
— Até.
Vaqueiros e agregados tomam o caminho de casa, levando no ouvido Patativa do Assaré, que  Generoso tocara fechando as cortinas de   mais uma noite de viola à luz do luar.
 
Tiru-liru-liru, liru- liru liru-lão. Tiru-liru-liru, liru-liru liru-lão.
 
Apela pra Março, que é o mês preferido /Do santo querido Senhor São José / Mas nada de chuva / Tá tudo sem jeito/ Lhe foge do peito O resto da fé.
 
 
 
Adalberto Lima
Enviado por Adalberto Lima em 18/06/2019
Comentários

O que você achou deste texto?        Nome:     Mail:    

Comente: 
Perfil do Autor Seguidores: 1Exibido 17 vezesFale com o autor