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Crônicas-->Gelo e Fogo -- 10/07/2019 - 16:52 (flavio gimenez) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Eu não conseguia ver as coisas direito na paisagem nublada de um dia fátuo e enevoado. Sei que o dia convidava à solidão, sombria solidão soturna de um sol debruado em gris; pássaros graves gritavam no campo de grama opaca de luz e orvalhada de geada desfeita, gotas de suor da natureza que insiste em brotar mesmo no vazio do Nada absoluto. 

 Meus passos soavam como o caminhar em galharada, tão secos os ramos desgarrados das árvores batidas de vento em lufadas enxutas e disformes. Restos de folhas secas, plantas aflitas com braços erguidos de frio e surpresa combinavam sua aridez à minha; pouco tempo restava, então, para que eu atingisse a meta, seguindo o fio da meada das rotas dos pobres bichos que andavam em manada à busca de ares menos inamistosos. Eu seguia, então, o fio de minha Penélope que me guiava através do eclipse com seu riso e charme, em verdade minha única riqueza ali era saber que ao fim de tudo, eu cingiria sua cintura em meus braços, eu beijaria suas faces rosadas e me aninharia em seu ninho de calor e graça. 

Calor, ah, calor, graça abandonada enquanto o ar rarefeito se compacta em nuvens de palor e ondas de partículas esgarçadas de luz e prata! Quantos dias andei assim, à roda, seguindo os rastros de bichos erráticos para enfim determinar num compasso que não andava mais que em círculos esparsos de espirais de bruma que eu via partirem do Infinito ao Não? Tal era a importância da rota tracejada, dos mapas que eu recebera em mãos de minha musa, em meio ao frio das fontes congeladas de meus tempos sem perdão...! 

Estendo a mão à frente, capturo um instante (talvez seja a dor, talvez o amor distante, talvez o sonho, o delírio final) e quem sabe encontro a placidez de suas finas mãos entre as minhas, geladas de tamanha nevasca. Amor, ah, o amor que nunca degrada, orgulho que sabe a paixão, mas que sobe em ânsias ao rosto, acima do chumbo dos cirros e nimbus, bem além da fúria destemperada... 

Esperem!...Vejo que chego quase ao fim da jornada, eis que vejo uma bruma coagulada, um algodão sobre um espelho, a superfície de uma lagoa esperada; o frio levanta vórtices, eu vejo que a sombra do mundo talvez repouse ali, bem no meio da fonte que se espalha em regatos; meu amor, chega enfim a hora de lançar loas ao sol que nos escapa, talvez, por questão de segundos, uma réstia que adorna o céu acima, a jóia que se refestela por sobre os campos de colunas de vapor! 

Não lhe vejo, só contemplo o rosto que sonhei por meses, por anos, por séculos, por vidas inteiras em que me furtei a lhe procurar; sei que as vidas não me pertenciam, como não pertencem a mim os seus passos, enfim...E da fria superfície do lago, evolam os perfumes da aurora em que sempre vivi ao seu lado...

Agora eu sei que, apesar de chegar ao prumo, nunca encontrei o seu rumo, nunca estive tão longe do que eu achava ser meu. Nunca houve jóias mais ilusórias que estas...Mesmo os mapas agora desfeitos...Mesmo as quimeras mais voláteis... 

Ergue-se do fundo o cálice, eivado por mão misteriosa, dourada sabe-se lá por quais magias; sei que é a ele que eu queria, é na sua borda que bebo agora, é em seu corpo que estreito os dedos, é de suas lonjuras que eu sorvo minha saudade. 

Acho, então, que chegou a minha Hora.

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