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Crônicas-->Uma Divina Comédia em Buenos Aires -- 17/07/2019 - 09:51 (Pedro Carlos de Mello) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Uma Divina Comédia em Buenos Aires

 

            Vim a Buenos Aires para a Feira do Livro. É uma das melhores feiras do livro realizadas, atualmente, no mundo. Mas queria, também, visitar o Palácio Barolo, pois não pudera fazer isso em outras oportunidades.

            Cheguei na noite de 7 de maio de 2013, ainda a tempo de ir à Feira do Livro e colher os autógrafos de Laura Restrepo, escritora colombiana, no livro que viera lendo durante a viagem, Doce Companhia, e do escritor argentino Daniel Balmaceda, no livro Romances Argentinos de Escritores Turbulentos, comprado na chegada, no aeroporto de Ezeiza.

            Ao acordar no dia seguinte, às 7 da manhã, no hotel, notei que ainda estava escuro. Nesta época do ano, na Argentina, o sol só nasce após as 7 horas e meia da manhã. Quando começou a clarear, observei a massa cinzenta dos edifícios da cidade (estava no 11° andar). Aparentemente, a vista não era nada diferente da de outras cidades populosas do mundo ocidental, como São Paulo, por exemplo. Mas eis que, observando melhor, não muito longe e exatamente à minha frente, vai tomando cor com a luz do sol, o Palácio Barolo, um edifício neogótico e neorromântico, que já conhecia por fotografia e que, justamente, pretendia visitar.

            O Palácio Barolo é um edifício histórico projetado pelo arquiteto italiano Mario Palanti, a pedido do empresário Luigi Barolo e está recheado de referências à Divina Comédia, de Dante Alighieri. Pretendiam os dois, com isso, além da obra em si, que se constituiria em um conjunto de escritórios, albergar, no hall central do edifício, as cinzas de Dante, pois a Europa, apenas recuperando-se dos horrores da primeira guerra mundial, estava sob risco de mais uma guerra. Então, na visão deles, nada mais natural que trazer as cinzas de Dante para a América. O edifício foi inaugurado no dia 7 de junho de 1923, mas nunca cumpriu seu objetivo: o corpo de Dante continua em Ravena, na Itália.

            Sabia que as visitas guiadas diurnas ocorriam somente às segundas e quintas-feiras, a partir das 16 horas, de modo que tive que esperar até o dia seguinte, dia 9, quinta-feira. Claro que, enquanto isso, aproveitei o máximo as livrarias e a Feira do Livro de Buenos Aires.

            Não deixa de ser emblemático que a cidade de Buenos Aires, cheia de referências ao seu escritor maior, Jorge Luis Borges, que era um grande entusiasta da Divina Comédia, tenha, entre seus monumentos, o Palácio Barolo, onde a Divina Comédia está representada.

            Transcrevo um pequeno trecho da primeira das sete conferências que Borges ofereceu no teatro Coliseo de Buenos Aires, em 1977, que tratava da Divina Comédia:

 

            “A Comédia é um livro que todos devemos ler. Não fazê-lo é privarmo-nos da melhor dádiva que a literatura pode dar-nos, é entregarmo-nos a um estranho ascetismo. Por que negarmo-nos a felicidade de ler a Comédia?”

 

            Bem, chegou a hora de fazer uma nova leitura da Divina Comédia. Vamos ver o que o Palácio Barolo tem para nos contar. Era meio dia da quinta-feira, quando me dirigi ao Palácio. O edifício localizava-se perto do hotel, de modo que fui caminhando. Comprei o ingresso e fui almoçar. Comi um bife de chorizo no restaurante Plaza Asturias, a poucos metros do Palácio.

            Cometido o pecado da gula, eu estava pronto para entrar no Inferno de Dante. “Deixai toda a esperança, vós que entrais”. O prédio está localizado na Avenida de Mayo, 1370. Foi construído no 13° quarteirão da avenida, onde estão os edifícios com números a partir de 1300, numa referência explícita aos anos em que Dante dedicou-se a escrever a Divina Comédia (de 1307 a 1320).

            O que o guia nos fala está no livreto Los secretos do Palácio Barolo, de Miqueas Thärigen. O edifício tem 100 metros de altura, correspondendo aos 100 cantos da Divina Comédia; possui 22 pisos, em referência às 22 estrofes de alguns cantos e 11 balcões frontais, em função das estrofes de outros cantos. O Círculo se associava à perfeição. O edifício está repleto de formas curvas e se cumpre a relação pitagórica que determina o número Pi (3,14...); a relação se dá pela divisão original do acesso mediante os elevadores (22 pisos : 7 elevadores públicos = 3,14...).

            Como em Dante, o passeio começa pelo Inferno, que está localizado no térreo do edifício e nos dois subsolos. No teto do hall central, há 9 abóbodas transversais sobre as colunas, representando os 9 passos de iniciação e as 9 hierarquias infernais. No piso, círculos de bronze representam o fogo do inferno. Os restos de Dante descansariam debaixo da abóboda central, onde hoje está localizada uma réplica da escultura original que se perdeu, uma estátua de bronze que representa o espírito do poeta apoiado sobre um condor que o leva ao Paraíso. A cúpula está inspirada no templo Rajarani Bhubaneshvar (Índia, século XII), para representar o amor tântrico entre Dante e Beatriz.

            O Purgatório vai do 1° piso ao 14°. Cada dois pisos representam um dos sete pecados capitais. Na Comédia de Dante, o Inferno era um abismo e o Purgatório, uma montanha. Os 14 andares correspondem a essa montanha. Nos portais, vê-se figuras de bestas do Purgatório.

            O Paraíso situa-se na torre do edifício, compreendendo os pisos 15 a 22. Tem 8 pisos, representando os 8 corpos celestes do sistema solar de Dante: A Lua, Mercúrio, Vênus, O Sol, Marte, Júpiter, Saturno e As Estrelas. No último nível do Paraíso, no topo do edifício, está localizado um farol (e pudemos ir até lá) que representa os nove coros angelicais, ou Deus. Sobre o Farol, no céu, está a Constelação Cruzeiro do Sul que se alinha com o eixo do Palácio Barolo nos primeiros dias de junho, às 19:45 horas. Do topo do edifício, pode-se ver toda a grandiosidade de Buenos Aires.

            Fundata est supra firman petram (Está fundado sobre sólida pedra). Esta é uma das 14 frases em latim inscritas nos portais de ingresso no hall central e corresponde, literalmente, à reforçada estrutura do Palácio Barolo, concebida para perdurar pelos anos vindouros. Ao final do passeio, ouço a seguinte declaração de um dos visitantes: “Esto no es simplemente un recorrido, es una aventura”. Eu complemento: “No solamente una aventura, pero, también, una ventura”. 

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