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Cartas-->CARTA ABERTA PARA O FELIPE -- 11/07/2012 - 02:27 (João Ferreira) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos






CARTA ABERTA PARA O FELIPE

João Ferreira
10 de julho de 2012

Prezados leitores
Se tiverem paciência para conhecer toda a história desta carta, leiam, por favor, a estocada que um leitor, de nome Felipe, me dirigiu anarquizando meu pequeno ensaio sobre "o Sentimento do Mundo" de Carlos Drummond de Andrade, publicado em Usinadeletras na seção "Ensaios".

Por achá-lo injusto, e privado de objetividade, e sobretudo por não apresentar os pontos textuais das falhas de meu artigo, resolvi escrever esta carta para colocar o leitor a par do ocorrido. Sobretudo para conhecimento daqueles meus leitores que lêm meus textos!
Depois de tomarem conhecimento da diatribe do Felipe, leiam minha resposta.


3. E, para conferir - se for o caso-, não deixem de ler a matéria questionada, ou seja, o artigo sobre "o Sentimento do Mundo" de Drummond - um dos meus artigos mais lidos na Internet. Para informação do leitor, lembramos que foram feitas, até ao presente momento, 13.607 leituras desse artigo,  prova irrefutável do carinho  que o leitor da Usinadeletras tem tido para com esse meu trabalho.

I
A diatribe do Felipe
[Transcrição]

Felipe 07/07/2012 16:00
"É muita cara de pau o sujeito escrever, de forma mal articulada e sem profundidade nenhuma, uma análise tão pobre e, ao mesmo tempo, tão presunçosa. O tal do João Ferreira presta um desserviço ao coitadinho do leitor, que continuará sem entender bulhufas da obra do Drummond."

2. Meu comentário à diatribe do Felipe

O que seria natural é que meu artigo sobre "O Sentimento do mundo" de Carlos Drummond de Andrade merecesse um debate no melhor estilo acadêmico, com razões a favor ou contra, mas fundamentadas e distintamente discutidas. Mas não foi esse o caminho escolhido pelo Felipe. Sem qualquer preâmbulo e sem a mínima cerimônia, Felipe se julgou o rei do mundo e preferiu enveredar por um discurso inteiramente estranho e agressivo onde a temática foi esquecida e colocada em destaque a pessoa do analista de "O Sentimento do Mundo". Estranho já que a crítica objetiva deve visar antes de tudo o texto. E o texto para ser criticado deve ser denunciado parte por parte para que se identifiquem as partes falhas ou os possíveis méritos. Não foi esse o caminho pretendido por Felipe. Sua breve mas dura diatribe fala de coisas que pertencem ao capítulo da teoria crítica e da retórica. Parece porém que não é essa a habilidade do Felipe, que se caracteriza por sua fragilidade, preferindo usar termos abstratos em vez de descer á profundidade do texto que critica. Em primeiro lugar, só para o leitor poder entender melhor, Felipe fala que minha escrita é mal articulada. Mas não me informa qual é para ele o segredo de escrever um "discurso articulado". Fala também que meu escrito "não tem profundidade", mas não me diz quais são "os requisitos que sustentam um discurso profundo". Fala que minha análise "é pobre", mas não me diz "quais são os traços da minha pobreza crítica" nem teoriza sobre "as qualidades de uma crítica que possa ser chamada de rica". Fala, enfim, que minha análise é presunçosa. Mas não diz "quais são os traços concretos que encontrou no meu texto que indicam presunção". Fala do "desserviço" que meu artigo presta ao "coitadinho do leitor" mas passa adianta e certamente nem se lembra do "nobre do leitor" que ele quis sacrificar com o inútil serviço de suas palavras amargas e vazias em vez de mostrar objetivamente os erros ou as falhas do meu artigo. Fala do "coitadinho do leitor" e com essa expressão mostra-se infeliz ao presumir que a cabeça de todos os leitores são cabeças vazias dignas de dó e piedade. E quando se refere ao fato de o leitor "continuar a não entender bulhufas" de Drummond depois de ler meu artigo, poderíamos contra-atacar dizendo que uma boa leitura poderia mostrar o duplo sentido de sua frase, pois na verdade, "de sua crítica também não saíu bulhufas" de nenhum conhecimento concreto sobre a obra de Drummond...
Como remate final para este comentário, eu diria que, independentemente da frustração do Felipe em ler meu artigo, houve uma vantagem: a vantagem de o leitor voltar a ter oportunidade de ler meu texto franqueado em Usinadeletras para que ele possa formar diretamente seu juízo com independência.
Uma coisa é certa. Meu artigo foi elaborado diretamente sobre o texto de Drummond. Não há intermediários nem frases feitas nem juízos condicionados a favor ou contra Drummond em meu artigo. A textualidade drummondiana é a fonte. E só as fontes diretas garantem a fidelidade crítica. Já o ensinava Afrânio Coutinho quando dizia que "literatura é texto".Não há que procurar por isso no texto crítico de minha autoria posições ideológicas tomadas, comunistas ou não, a favor ou contra Drummond. Eu sei que há pessoas ligadas a posições ideológicas que não perdoam a leitura independente. Lamento, mas minha missão é apenas literária. Meu estilo é de crítica literária. Eu escrevo crítica literária. Não crítica ideológica. Meu texto é versátil, não é dogmático. Admite a interpretação do outro. Desde que seja fundamentada e crítica do texto. Só o fato de haver uma leitura direta já é uma prova do exercício benéfico da leitura de Carlos Drummond de Andrade. A leitura direta tem a vantagem de mostrar, poema por poema, a poesia de Drummond, com as devidas notas.
Eu gostaria de discutir diretamente o livro. Mas em termos sérios. Em termos acadêmicos e críticos. Se o Felipe tiver fôlego e quiser voltar ao tema, com outra atitude, terei todo o prazer em comentar Drummond e o livro "Sentimento do Mundo" em pauta, objeto desta missiva.
O que não dá é adotar uma gaguez agressiva, hipócrita que se esconde de tudo, até da coragem de deixar um e-mail para poder haver o direito de uma resposta a um panfleto deixado na rabeira de um artigo sério e bem comportado.
Aguardo sua resposta, Felipe.João Ferreira

III

O "SENTIMENTO DO MUNDO"

DE CARLOS DRUMMOND E ANDRADE (1902-1987)

Artigo de João Ferreira publicado em "Ensaios" de Usinadeletras"

25 de junho de 2005


“Alguns anos vivi em Itabira, principalmente nasci em Itabira.Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro” (Confidência do Itabirano.In: Sentimento do mundo, 19)
-Provisoriamente não cantaremos o amor que se refugiou mais abaixo dos subterrâneo. Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços, não cantaremos o ódio porque esse não existe, existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro, o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos, o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas (...)
- “Trabalhas sem alegria para um mundo caduco...onde as formas e a ações não encerram nenhum exemplo. (Elegia 1938)...Caminhas entre mortos e com eles conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito. A literatura estragou tuas melhores horas de amor... Elegia 1938
-“Não. Meu coração não é maior que o mundo.É muito menor. Nele não cabem nem as minhas dores” (Mundo grande, 75)



Se pensarmos em seus aspectos globais, o Sentimento do Mundo de Carlos Drummond de Andrade é não apenas um livro interessante mas um livro superimportante. É claro que nem todos os poemas são extraordinários. Mas todos têm aspectos bons. Há poemas simples, ocasionais, sem maior importância. Mas há aqueles poemas em que o poeta mergulha no mundo, entra de cabeça e vasculha as profundidades. Com sua sensibilidade, emoção e inteligência ele sempre capta aspectos e relevância para se comunicar com o leitor. Mais relevantes quando a linguagem vem em forma poética. Drummond era um jovem quando escreveu e publicou este livro . Tinha 33 anos quando começou a escrever e 38 quando o publicou. O mundo estava em guerra havia um ano. Em “Mãos dadas” nos assegura que a matéria do livro será o tempo presente.”Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro(...) O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”. A expressão “Sentimento do mundo” em Drummond não será rigorosamente uma weltanschauung, uma concepção ou visão de mundo, em sentido global, da forma como os filósofos entendem isso. O filósofo se aplica à reflexão sobre o mundo dos seres e da existência. E quando sistematiza seus conhecimentos nos dá uma teoria mundividencial, um cosmorama, uma visão e mundo. W. Dilthey escreveu um livro sobre as concepções de mundo. Um pouco no sentido filosófico. Carlos Drummond de Andrade é um poeta. A sua intenção poética nos encaminha até um sentimento do mundo. Parece que há uma diferença. Aqui não se verifica a pretensão de uma racionalização mas sim e apenas o discurso de um poeta que oferece vários flashes poéticos circunscritos ao tempo subjetivo que viveu e ao espaço brasileiro que lhe serviram como experiência de mundo. A poesia do livro de Drummond traz-nos a escrita do que o Poeta elaborou frente aos fatos e aos fenômenos que presenciou e viveu, ou que o sensibilizaram. É por isso mesmo uma obra importante o “Sentimento do mundo” de Carlos Drummond de Andrade.” Publicado em 1940, com uma tiragem de 150 exemplares apenas, distribuídos entre os amigos, reúne poemas escritos entre 1935 e 1940 e inaugura, segundo Salviano Santiago, uma nova fase na poesia de Carlos Drummond de Andrade. É um livro do tamanho do talento do poeta de Itabira. Este sentimento do mundo é gerado na psique de um eu problemático, disperso e solitário. “Confidência do itabirano” apõe a marca do eu poético que a autoria dos versos. Drummond confessa-se um poeta triste e orgulhoso:”Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro”, habituado ao sofrimento, com lembranças de sofrimento, sofrimento que ironicamente diz que o diverte: “o hábito de sofrer que tanto me diverte”...Ao núcleo subjetivo de Drummond, orgulhoso e triste, se agrega uma experiência pessoal, brasileira e internacional também problemática. No livro, Drummond não semeia certezas, felicidades, vaidades. O mundo não é para ele uma terra prometida. Ele dá preferência principalmente à problematicidade, às ironias, às análises tensas, às reflexões profundas sobre a vida evanescente, à evolução e revolução, ao ceticismo. A par disto, há também poesia mais rara onde se colhem aspectos líricos da vida, alegrias de aurora, sentimentos da fragilidade da criança que chora, sons afinados de cavaquinho... que vêm do morro...
Para termos do livro uma visão de conjunto é fundamental portanto procurar entender que tipo de poeta temos diante de nós. Tentar entender o que é o sentimento do mundo para Drummond; qual é o teor do eu poético que compõe estes versos, qual é a marca drummondiana da terra. O entendimento de sua ideologia ajuda a entender seus poemas: tanto a elegia 1938 e o tom elegíaco de alguns poemas, como sua utopia, seu desencanto, sua desilusão, seu pessimismo, seu materialismo, estoicismo, epicurismo e determinismo. Na Elegia 1938 verificamos uma desconstrução da utopia:“Trabalhas sem alegria para um mundo caduco/ onde as formas e as ações não encaram nenhum exemplo/ Praticas laboriosamente os gestos universais/ sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual”. Drummond dá ao poema o tom triste da elegia: “Caminhas entre mortos e com eles conversas”. O poeta ergue a voz da consciência crítica frente à indiferença da massa, o que lhe provoca a sensação de que há que “adiar para outro século a felicidade coletiva”.Em “Poema da necessidade”, o discurso tem uma enunciação fundamentalmente determinista e apocalíptica. “Canção de berço”, um dos poemas mais interessantes e fortes do livro merece uma análise atenta, pela profundidade. Pertence à estirpe das Odes de Ricardo Reis, o heterônimo pagão de Fernando Pessoa. Um poema que mistura o tom do ceticismo helênico de Pirrão de Eléia s.III antes de Cristo) ou de Sexto Empírico (séc. I-II depois e Cristo), onde avulta a ataraxia ou a imperturbabilidade: “o amor não tem importância(...) Mas também a carne não tem importância(...) Também a vida é sem importância (...) A vida é tênue, tênue,. Tênue. O grito mais alto ainda é o suspiro, os oceanos calaram-se há muito(...)Os beijos não são importantes/ No teu tempo nem haverá beijos.Os lábios serão metálicos/ civil, e mais nada, será o amor dos indivíduos perdidos na massa e só uma estrela guardará o reflexo do mundo esvaído(aliás sem importância”...). Com esta marca, “Canção de berço” torna-se um poema muito importante. Por ele, Drummond transmite a mensagem de que desde o berço o destino está marcado: o amor, a carne, a vida e os beijos não têm a importância imediata que a sociedade de consumo lhe dá. No poema é elaborado um tipo de conhecimento baseado no determinismo e nas experiências negativas centradas num tipo de discurso dogmático: “o amor não tem importância(...) nem a carne não tem importância(...)”. Tudo isto, à primeira vista parece uma antífrase profetizante que nos mostra um poeta descrente da autenticidade do amor a partir dos comportamentos mecanizados e formalizados adotados pelos homens de seu tempo, que priorizavam a mecanização sobre os sentimentos puros e naturais.Esse discurso poético, além de um tom determinista parece não estar longe também de uma formulação que se parece com a filosofia estoica guiada basicamente pela ataraxia ou indiferença, de mistura com um certo ceticismo pirrônico. Quando se diz que não tem valor o amor, a carne, a vida, os beijos, o verso transforma-se num discurso fenomenológico de um lado e determinista de outro. Tudo o que acontece é mera fenomenologia do acontecer e pouco mais: “só uma estrela guardará o reflexo do mundo esvaído”.
Mas esse é apenas um dos aspectos da poesia do livro.
Apesar de triste itabirano, Drummond tem um enorme sentido social e uma vontade de que a utopia da fraternidade e solidariedade seja possível no mundo. Nesta sensibilidade enquadramos o poema Menino chorando na noite que classificamos como um poema de ternura, enquanto nele se sublinha a força da criança, como símbolo de vida, tendo em vista sua dor e os cuidados que a ele são prestados.
Há sucessivos aspectos que nos dão vários tons de poesia política e social, onde é possível destacar a presença de uma esperança, por vezes frustrada, por vezes oscilante, mas que existe. Operário no mar é um texto discursivo em prosa, sem aparato versificatório e de um grande sentido poético. No fundo aparece como uma grande parábola poética que mede a distância entre o operário e o burguês, e declara uma nítida separação de classes, como se percebe na passagem: “Ele sabe que não é meu irmão”. Um poema em prosa carregado de símbolos: “Esse é um homem comum, apenas mais escuro que os outros, e com uma significação estranha no corpo, que carrega desígnios e segredos no mar”. Pela leitura fica clara a distância entre o eu poético burguês e o operário. Mas há uma mudança, uma ligeira metamorfose: em seu caminhar frontal e “firme”, a figura do operário se impõe. Caminha, é insistente em suas lutas e transforma muita coisa, quase faz milagres. É uma alusão à luta trabalhista, a qual, com o tempo, conseguirá suas vitórias, entre elas, o derretimento de gelos, a derrubada de preconceitos, e o milagre da aproximação, a humanização.
“Canção da moça-fantasma de Belo Horizonte” é uma alegoria de uma mundana-fantasma representando as vicissitudes da vida ingrata das mulheres de rua. A originalidade está na forma de representação e na forma poética feliz com que Drummond realizou o projeto alegórico. Com esse projeto, Drummond consegue mexer com o imaginário popular e mundano sempre atento aos percursos do amores marginais ou clandestinos. O espectro da moça-fantasma assume a narrativa em primeira pessoa numa intenção de apresentar uma mensagem necessária como se fosse uma purgação: “Agora estou consolada, disse tudo que queria, subirei àquela nuvem, serei lâmina gelada”.
No que toca ao privilegiamento formal da poesia, podemos citar dois poemas. Primeiro, “Brinde no juízo final”, onde Drummond mostra a sobrevivência da poesia, e dos “poetas honrados”, além da morte e de todas as catástrofes. No poema No cinqüentenário do poeta brasileiro o Poeta de Itabira faz uma homenagem aos 50 anos de Manuel Bandeira abrindo com esse poema um espaço para homenagear o maior poeta brasileiro desse tempo, no entendimento de Drummond. Trata-se de um poema terno e profundo: “Este incessante morrer que nos teus versos encontro é tua vida”. (...) a violenta ternura, a gravidade simples, a acidez e o carinho simples, a fidelidade a si mesmo, a fraternidade, o poeta acima da guerra e do ódio, a acidez e carinho que (...) a sua pungente, inefável poesia, ferindo as almas, sob a aparência balsâmica, queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las (...) Por isto sofremos pelas mensagens que nos confias.
“Tristeza do Império” é um poema social de crítica aos ideais burgueses,
Em “Morro da Babilônia” temos fundamentalmente um poema social. Se por um lado, por vezes, na noite, as vozes que vêm do morro provocam terror, por outro lado, também, as vozes do morro não são necessariamente lúgubres pois dele vem de vez em quando o som de um cavaquinho bem afinado, “que é uma gentileza do morro”...
Em “Congresso internacional do medo” Drummond com verdade e ironia coloca o medo como o grande dominador de nossa sociedade: “Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo do subterrâneos. Cantaremos o medo que esteriliza os abraços...” Em Os mortos de sobrecasaca enaltece o “soluço de vida” que destila um simples retrato.
No poema “Privilégios do mar” Drummond destila uma ironiazinha sobre a segurança no mundo: O poeta cria uma situação em que um grupo bebe cerveja no terraço de um edifício enquanto todos olham o mar. “O edifício é sólido, o mundo também (...) O mudo é mesmo “de cimento armado”(...).
Podemos beber honradamente nossa cerveja”.
Achamos “Bolero de Ravel” um poema fantástico. Seu valor intrínseco está na capacidade contrastiva que o poeta estabelece entre a alma ativamente aplicada ao desejo e à vida e o obstáculo, a distração ou o barulho que prendem ou abafam a entrega profunda à vivência a ser protagonizada pelo homem vivo. A dinâmica da vida é destacada com leveza e verdade: “A alma ativa e obcecada/ enrola-se infinitamente numa espiral de desejo/e melancolia/ Infinita, infinitamente/ As mãos não tocam jamais o aéreo objeto/ esquiva ondulação evanescente/ Os olhos magnetizados escutam/ e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa/ está presa...Os tambores abafam a morte do Imperador”.
Desejo infinito, indefinido, alma cativa obcecada, mundo evanescente...O barulho da vida abafa esta “verdade da evanescência” a que somos submetidos....
“La possession du monde” leva um titulo em francês. É nada mais nada menos que uma ironia forte a um cientista estrangeiro que larga sua teoria científica para aderir ao apelo tropical de um mamão...
“Os ombros suportam o mundo”, são um poema profundo de grande significação ontológica e existencial. Seu núcleo é o que o poeta chama de “absoluta depuração” e nele está presente mais uma vez o clima estóico e depurado da vida. Com a sombra de Ricardo Reis e tudo, das doutrinas da Stoá e até e Epicuro...”Chega um tempo em que não e diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor.Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco. Em vão as mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos. Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança...”
Há no livro sátiras bem construídas e bem humoradas como “Dentaduras duplas” que através das dentaduras chega a focalizar a evanescência da vida que se vai aos poucos: “admiráveis presas, mastigando lestas e indiferentes a carne da vida”.
“A noite dissolve os homens” é um importante poema de sentido sociológico e político. Ele se destaca pelo contraste que estabelece entre a noite “mortal, completa, em reticências que dissolve os homens” e a esperança da aurora que será o termo da espera: “Minha fadiga encontrará em ti seu termo... minha carne estremece na certeza da tua vida... “
“Madrigal lúgubre” é um tocante e trágico poema em tempo de guerra. “Mundo grande” merece leitura atenta. E “Noturno à janela do apartamento” é o último poema do livro.
Para uma seleção especial de poemas, aconselhamos, entre outros, a leitura especial de: “Canção de Berço.Madrigal lúgubre.Bolero de Ravel.Canção da moça-fantasma de Belo Horizonte.O operário no mar.Ode no cinquentenário do poeta brasileiro.Os ombros suportam o mundo .. A noite dissolve os homens.Mundo grande.Mãos dadas”.


Ficha Bibliográfica

ANDRADE, Carlos Drummond. Sentimento o Mundo. 6ª edição. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record, 2005.


João Ferreira
25 de junho de 2005

 

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