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Ensaios-->É Carnaval de Pernambuco -- 08/02/2003 - 17:22 (Thelma Regina Siqueira Linhares) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
O carnaval de Pernambuco continua sendo um dos mais festejados, animados e tradicionais do Brasil. Seu calendário, com certeza, se antecipa e se estende, muito além, do tríduo momesco. Alguns elementos já não são vivenciados, como por exemplo, o corso, o mela-mela, as batalhas de confetes e serpentinas. Outros, já sem a força que exerciam há algumas décadas, como os bailes dos clubes sociais e as fantasias luxuosas. Enquanto características novas vão sendo incorporadas e assimiladas como as fantasias simples compradas no camelô, os abadás e as camisetas que passam a compor o visual do folião de hoje. Este, sim, mantém a alegria, a irreverência e a extravagância de todas as épocas.

Várias cidades pernambucanas são consideradas pólos carnavalescos, apresentando peculiaridades nos festejos de Momo, destacando-se entre elas:
Recife – terra do frevo, do maracatu de baque-virado e dos caboclinhos;
Olinda – terra do frevo e dos bonecos gigantes;
Nazaré da Mata – terra do maracatu rural e
Bezerros – terra do papangu.
“Ei pessoal!
Vem moçada
Carnaval começa
No Galo da Madrugada!”
No sábado gordo de zé-pereira, as ruas do centro comercial do Recife são, literalmente, tomadas pelos foliões do Galo da Madrugada. Milhares de foliões. Comprovadamente, a maior agremiação carnavalesca do Planeta – conforme inclusão no Guiness Book. Esse destaque foi registrado em 1995 e vem se mantendo e batendo recordes desde então.
O Clube de Máscaras Galo da Madrugada fez seu primeiro desfile em 1978, para reviver os carnavais do passado e, ano a ano, vem crescendo e empolgando os foliões dos quatro cantos da Terra. No seu desfile oficial, os foliões resgatam as fantasias, muitas delas inspiradas nos modelos dos carnavais de outrora: palhaços, pierrots, colombinas, almas, havaianas, odaliscas e árabes. Além desses, o povo é parte integrante do bloco. Fantasiado ou não, usando camisetas alusivas ao Galo da Madrugada ou a blocos seguidores (Rabo do Galo, Galinha da Madrugada, Franga da Noite entre outros), o povão canta, dança, bebe, sua e vibra, desde à concentração, ao amanhecer, até à dispersão, quando o sol já se pôs...
Acompanhando os foliões, os carros alegóricos e os trios elétricos, com orquestras de frevo pernambucano, com muito metal e instrumentos de cordas. As freviocas. Cantores pernambucanos e convidados revezam-se nas dezenas de trios elétricos que acompanham o Galo da Madrugada, todos comprometidos com os frevos de Pernambuco.
O desfile do Galo da Madrugada começa na Rua da Concórdia, que já foi o centro do carnaval recifense do início do século passado e toma as ruas circunvizinhas dos bairros de São José e Boa Vista, em mais de quatro quilômetros de euforia. O rio Capibaribe, inclusive, faz parte do cenário momesco, onde o bloco A Galinha D’água faz seu carnaval aquático, congregando dezenas de catamarães, iates e lanchas caracterizadas.
Três figuras gigantescas não podem ser esquecidas: O Galo, que adorna a congruência da Rua do Sol com a Av. Guararapes e um casal real – o Rei e a Rainha do maracatu – que empresta majestade às águas do Rio Capibaribe. E a paisagem recifense, tão bela e tão própria, com suas pontes e rio, se veste de fantasia, colorido e animação, de um mar de gente compromissada com a alegria.

“O frevo é quente
Alegria de toda essa gente
Contente
Com muito orgulho de lá!”


O frevo é um capítulo especial no carnaval de Pernambuco. Talvez o que mais personaliza o ciclo carnavalesco no Estado.
Suas origens musicais remontam a meados do século XIX, no repertório das bandas militares. Naquele tempo, a figura do capoeira, munido de bastão e que vinha abrindo alas entre as bandas militares, tornava o frevo uma luta, uma guerra. Com feridos e até mortos. Já o termo frevo vem da corruptela frever, como o povo iletrado assim falava ferver, como significado de rebuliço, efervescência e multidão.
Frevo de rua (só instrumental). Frevo canção (com introdução orquestral). Frevo de bloco (executado por orquestras de pau e corda). Música e dança. Passista é quem dança, quem faz as coreografias do frevo. Dança individual, criativa. Com muitos passos já catalogados e ensinados, principalmente por Mestre Nascimento do Passo e pela garota Safira, representante da novíssima geração de passistas. Saca-rolha, parafuso, tesoura, corta jaca, dobradiça, ferrolho, boneco de Olinda são alguns exemplos desses passos consagrados. Mas não basta aprendê-los e copiá-los. A improvisação e criatividade estão sempre presentes num bom passista, que faz uso da sombrinha, pequena e colorida, que lhe permiti manter o equilíbrio nas manobras coreográficas da dança.

“É da coroa imperial
É maracatu
Ele é da casa real.”
As origens do maracatu nação ou de baque-virado remontam às referências de coroação dos reis de Congo e de Angola e são citadas em documentos do século XVII, em especial, nas festas religiosas católicas de N. Sra. dos Prazeres e N. Sra. do Rosário de Santo Antônio. Os reis negros, compareciam àquelas solenidades, sob um grande pálio, ladeados por sua corte. A bandeira e instrumentos de percussão eram indispensáveis em tais cerimônias. E sob severa vigilância das autoridades religiosas e policiais. Em meados de 1850, já se usava o termo maracatu ou nação para designar reuniões de negros, ainda escravos. Os cortejos se faziam presentes, também no carnaval, inclusive com a boneca – a Calunga – um dos elementos sagrados do maracatu. O chefe temporal e espiritual era o babalorixá dos terreiros de nagô.
Hoje, os mais antigos maracatus de baque-virado continuam mantendo as tradições dos antepassados africanos, destacando-se entre elas, os maracatus: Nação do Elefante (1800), Nação do Leão Coroado (1863), Nação da Estrela Brilhante (1910), Nação Porto Rico (1915) e Nação Cambinda Estrela (1953).

Outra característica do carnaval pernambucano e relativa ao maracatu é a Noite dos Tambores Silenciosos, que acontece a zero hora da segunda-feira, no Pátio do Terço, em reverência à N. Sra. do Rosário dos Pretos, protetora dos negros, desde os tempos do Brasil-colônia. Os maracatus de baque-virado, com seus reis, rainhas, princesas, príncipes, toda a corte, enfim, e os grupos de afoxés realizam os rituais, anteriormente restritos aos seus integrantes e seguidores, mas que arrastam cada vez mais participantes e curiosos.

Os caboclinhos ou cabocolinhos expressam toda a influência indígena da miscegenação brasileira. A coreografia dos seus integrantes é marcada pelo som dos estalidos das preacas (arco e flecha), acompanhados por gaitas ou flautim, caracaxás, tarol e surdo. As principais figuras são rei (cacique), rainha (cacica), perós (indiozinhos), porta-estandartes, pajé, curandeiro, caboclinhos e caboclinhas. Vestindo tangas e cocar de penas, usam muitos adereços: colares, pulseiras e braçadeiras.

“A la ursa quer dinheiro
Quem não dé é pirangueiro...”
A la ursa é, principalmente, brincadeira de criança, que aproveita para juntar um dinheirinho. Cantando o refrão e batendo em latas, a meninada percorre a vizinhança, para fazer a coleta e aproveitar a farra. Em especial, nos bairros mais populares e da periferia das principais cidades pernambucanas.


“Eu quero ver este ano
A juventude dourada
Camisa aberta no peito
Pulando sem preconceito.”
Os bailes nos clubes sociais do Recife caíram de moda na última década do século XX, embora, algumas tentativas de popularizá-los, novamente, sejam feitas. Mas sem aquele brilho e glamor que lhes eram tão peculiares. As noites de folia nos salões dos Clubes Português, Internacional, Nautico, Sport e Santa Cruz e suas matinês (para a criançada) faziam os frevos de Capiba, Nélson Ferreira, João Santiago, Jota Miquiles e Alceu Valença, entre tantos, muito mais vibrantes ao som das orquestras famosas dos maestros da terra – Duda, Zé Menezes, Guerra Peixe, Super Ohara, Banda de Pau e Corda e Quinteto Violado. Naquela época, muitos cantores da MPB eram convidados para fazer os carnavais dos clubes. Jair Rodrigues, Beth Carvalho, Zé Kete, Noite Ilustrada e Moacir Franco eram os mais requisitados.


“Ao som dos clarins de momo
O povo aclama com todo ardor
E Elefante exaltando as suas tradições
E também seu esplendor”
Enquanto Recife, nas décadas passadas, se destacava pelo carnaval de clubes sociais e desfiles oficiais, Olinda vinha fazendo, em suas ladeiras estreitas, o autêntico carnaval de rua - participativo, criativo e irreverente. Suas agremiações tradicionais, nas décadas de 60, 70 e 80, desfilavam sem passarelas oficiais e ingressos cobrados, concentrando foliões de todas as partes. Elefante (no domingo), Pitombeiras dos Quatro Cantos (na segunda-feira), Vassourinhas (na terça-feira) e o Bacalhau na Vara (na quarta-feira, organizado por um garçon - o Batata - para que esses profissionais, também, pudessem brincar o carnaval, mesmo que tardiamente... talvez, tenha sido o ponto de partida para a resistência do carnaval brasileiro que, na última década do século XX, em algumas cidades, ultrapassa o feriado de Cinzas e o início da Quaresma.)
E multiplicam-se os novos blocos e troças. A cada ano, novas agremiações são criadas. Muitas vezes, basta o som de um piston, desafinado até, para arrastar a multidão... E nomes criativos, irreverentes e, às vezes, obscenos ficam consagrados: Ceroula, Eu acho é pouco, Siri na lata, A corda, A porta, Segura a coisa, Segura o cu, etc. Alguns têm a versão infantil, com dia próprio de desfile: Ceroulinha, Eu acho é pouquinho.


Os bonecos gigantes caracterizam o carnaval de Olinda. Há mais de meio-século surgiu o Homem da Meia-Noite (1932), um dos mais antigos e populares dos gigantes carnavalescos. E muitos outros vieram: A Mulher do Meio-Dia (que no carnaval de 1990 se casou com o Homem da Meia-Noite, numa cerimônia complicada, por causa do fuso horário dos noivos...), O Menino da Tarde, A Menina da Tarde, O Turista, O Camisão, O Guarda-Noturno, Jonh Travolta, O Barbapapa, etc. Muitos deles foram criados por Sílvio Botelho, que passou a ser considerado o pai dos bonecos gigantes, dando-lhes mais leveza. Com mais de três metros de altura e vinte quilos de peso, o carregador de um boneco gigante é, literalmente, as suas pernas, obrigando-o a “olhar, comer e beber pela braguilha das enormes calças”, como já foi citado por Olimpio Bonald Neto.
Na manhã da terça-feira há o encontro dos bonecos de Olinda, no bairro de Guadalupe, ocasião em que dezenas de gigantes se encontram para delírio dos foliões.


Um outro aspecto peculiar do carnaval da Marim dos Caetés são as fantasias. Extremamente simples e criativas fazem a alegria do folião olindense – traduza-se oriundo de qualquer recanto da Terra, pois os turistas são maioria naquela cidade pernambucana durante o carnaval. Brincando lado a lado com o lorde (fantasia incorporada por um morador olindense, há anos) estão o banho no box, o ônibus, a nega maluca, padre, anjo, enfermeira, o lalau, burrinhas, etc. E muita máscara pintada no rosto.


Em cidades da zona canavieira, Carpina, Tracunhaém, Timbaúba, Timbira, Igarassu, Goiana e, especialmente, Nazaré da Mata, destacam-se os maracatus rurais ou de baque solto. Há algumas décadas foram considerados “maracatus descaracterizados, degenerados, de 2ª categoria”, conforme registrou Roberto Câmara Benjamim. Foram até proibidos de desfilar em lugares oficiais pelos organizadores do carnaval recifense... Suas origens são desconhecidas e os mais antigos foram fundados há mais de oitenta anos. Percebe-se a influência de vários folguedos. Neles destacam-se as figuras sujas (Mateus, Catirina, Burra, Babau, Caçador), os caboclos de lança, os caboclos de pena, as baianas, o rei, a rainha, o valete e a dama (protegidos por um grande guarda-chuvas), mestre e os músicos.
A figura símbolo do maracatu rural é o caboclo de lança ou lanceiro, que veste um ceroulão (calça de chitão), a fofa (calça frouxa com franja por cima do ceroulão), meias de jogador, camisa mangas compridas e em cores vivas e a grande gola toda bordada por milhares de lantejoulas e missangas. O surrão, com quatro ou cinco chocalhos, armados por galhos e que marcam o ritmo e o andar do caboclo de lança. Um lenço amarrado à cabeça e, sobre ele, um chapéu de palha ornado de fitas multicoloridas ou de uma única cor, de papel celofane. Empunha uma lança com mais de dois metros, recoberta de fitas coloridas. Não pode faltar um óculos escuros, um cravo branco seguro entre os dentes e um galho de arruda atrás da orelha. Tudo para manter o corpo fechado, pois o caboclo sai “atuado” para a brincadeira. Como percorre a pé longas distâncias, por estradas e atalhos, o som dos chocalhos no surrão anuncia, de longe, a sua presença.

“Vem, vem, vem
Fazer parte deste cordão
O Recife tem um lugar
Pra você dentro do coração.”
Como aqui foi registrado, especialmente para a Jangada Brasil (www.jangadabrasil.com.br) o ciclo carnavalesco em Pernambuco é muito rico em ritmos e cores.
Frevo. Maracatu. Caboclinho. Coco. Ciranda. Urso. La Ursa. Papangu. Máscaras.
Que são vivenciados e divulgados para o mundo ao vivo e a cores.
Mas o bom, o bom mesmo, é fazer parte. Ser um na multidão. Se não for este ano, quem sabe no próximo, pois
“Pelas ruas do Recife
Todo ano tem
Quatro dias de folia
E alegria tem
Pra mostrar que o frevo e animação
Marcam o passo no compasso
No mesmo cordão.”


Referências Bibliográficas
* CASCUDO, Luiz da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro.
* SOUTO MAIOR, Mário e SILVA, Leonardo Dantas. Antologia do Carnaval do Recife.
Recife: Editora Massangana. 1991.
* BONALD NETO, Olímpio. Os Gigantes Foliões em Pernambuco. Olinda: GCI Gráfica e
Editora Ltda. 1992.
* LIMA, Cláudia Maria de Assis Rocha. História do Carnaval. Edição Especial . Ano III.
1998.
* SILVA, Leonardo Dantas. Histórias do Carnaval do Recife. 1998.
* Encarte Cultural Brincantes. 1998.
* Jornais locais: Diário de Pernambuco. Jornal do Commércio. A Folha de Pernambuco.
* Micromonografias da série Folclore. FUNDAJ-Fundação Joaquim Nabuco.
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