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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->56. DOLORES EM CAMPO -- 18/07/2002 - 06:37 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

— Você não pode imaginar, Dolores, quem estava embolsando o dinheiro de Timóteo. Aliás, o nosso dinheiro.

— Como assim?

— Graves novidades. Confirmaram-se as minhas suspeitas. Deus me perdoe, mas não resta dúvida que foi Timóteo quem contaminou Maria.

O assunto entediava Dolores. Mas sempre lhe sobrava a morbidez da curiosidade que se planta na alma humana, quando se trata de vasculhar a desgraça alheia.

— Como pode ter tanta certeza assim?

— Joaquim confessou toda a manobra. Trabalhava para Timóteo e “sacaneava” as amantes.

— Quem lhe contou?

— Ele mesmo. E o Padre Donizetti confirmou tudo.

— Que Padre Donizetti?

— O que está no lugar do Timóteo, que está voando para o Vaticano.

— Para o Vaticano?

Dolores ia de surpresa em surpresa. Nunca poderia imaginar que Fernando alcançasse saber tanto, em tão pouco tempo.

— E Maria já sabe disso tudo?

— Não sabe de nada. Combinei com Leonel e com o velho padre, que você não conhece porque foi ao Guarujá...

Dolores deu-lhe um cutucão nas costelas, sorrindo:

— Não mexa nas minhas feridas.

— Pode deixar que aí não vou mexer mesmo.

— Menino!

A felicidade da noite fora longamente meditada e criara raízes nas emoções. Renascia o matrimônio com bases sentimentais mais sólidas. Podiam falar sobre assuntos sérios, pessoais, em tom de brincadeira. Ninguém iria ofender-se.

— Combinei que eu (ou nós: você e eu) iremos providenciar as informações.

Dolores havia refletido sobre isso durante a manhã. Pensava que Maria não estaria segura emocionalmente, caso as conclusões de Fernando viessem a ser verdadeiras. Temia pelo pior. Que desandasse a fazer besteiras. Que acusasse publicamente o padre, colocando em risco toda a família, os filhos. Que enlouquecesse. Que se suicidasse. Mas ia mais longe, na desconfiança de que Fernando pudesse parecer a ela como o salvador da pátria, como o homem que lhe dava o ombro para chorar. Não o abraçara naquele transe de dor? Ficara-lhe a impressão da possibilidade. Afinal, não era ela experiente nesses relacionamentos? Chegando a esse ponto, pediu perdão a Deus, pois via o quão longe ia a imaginação na estruturação das maldades. Mas não seria impossível que tudo pudesse acabar assim. Se fosse sozinha confortar a amante desesperada (desprezava agora o termo “viúva”), talvez a chamasse à razão mais positivamente, sem achaques sentimentais.

— Que você acha se eu for esta tarde falar com ela? Só as duas. Sem testemunhas.

— Será que ela foi ao médico hoje cedo?

— Foram os três. Liguei para saber como estava. Dona Isaura me informou que o Doutor Venâncio ficou muito aborrecido quando soube do verdadeiro drama. Disse que não estava preparado para esse tipo de doença. Recomendou que procurasse os médicos do hospital. Daria assistência, mas o tratamento não estaria sob sua responsabilidade. As coisas estão muito mais complicadas. De qualquer jeito, Maria foi assumir as funções de diretora das empresas. Com o pai como assessor.

— Temos, assim, outros temas que justificam a minha presença. Além do mais, quero ler as mensagens dos guias espirituais. Quero mostrar-lhe que existem esperanças outras, além da permanência no Purgatório inventado pelos padres. Você sabia que durante alguns séculos a Igreja só admitia o Céu e o Inferno? Pois é. O Purgatório é invenção medieval...

— Que vem isso ao caso, querido? Não queira me doutrinar. Guarde as informações para momento mais oportuno. Se eu for sozinha, darei a notícia mais importante. Se ela se interessar pelos detalhes, pelo plano espiritual, como você diz, pelos espíritos, em suma, isso é com ela. Que fale com o contador. Como o marido. Como você mesmo.

— Está certo. Como sempre, você é bem mais categórica. Vamos almoçar que estou morrendo de fome.

— Letícia caprichou no almoço. Você vai ver.

Enquanto comiam, deixaram-se envolver pelo clima deprimente da conversa. Os acepipes estavam deliciosos, mas não entusiasmavam ao paladar. Os elogios foram mecânicos. O sorriso forçado.

Assim que se levantaram da mesa, Dolores imediatamente ligou para Maria. Queria marcar o encontro.

— Dolores, à tarde não posso. Joaquim pediu demissão e me deixou sozinha. Vou ter de recorrer aos antigos auxiliares de Jeremias. Os negócios estão atrapalhados. Parece que Joaquim andou fazendo alterações descabidas. Pelo menos na opinião do contabilista. Há pedidos prestes a se perderem e há fornecedores ameaçando não cumprir os contratos pela novidade de certas exigências. Os funcionários estão descontentes. Se não fosse papai, não saberia desenredar a malha tecida em tão pouco tempo.

— Sobre o Joaquim, eu também tenho novidades. Aliás, Fernando, que foi quem fez os levantamentos que você pediu, para localizar Timóteo.

— Foi para o Vaticano.

— Quem lhe disse?

— Ele mesmo. Ligou antes de partir. Chamam-no para importante missão evangélica. Parece que precisam de alguém com seu discernimento, com sua competência, com sua experiência. A idéia do bispado só despertou as autoridades para as excelências desse espírito de escol.

— E a doença?

— Ele está muito bem. Depois conversaremos.

— À noite, você pode?

— Vamos deixar para amanhã. Após a missa de sétimo dia. Você não se esqueceu, não é?

— Estou com o “santinho” aqui na minha frente. Foi uma bonita homenagem.

— Eu fiz distribuir logo. Aproveitei os “boys” desocupados. Deu para espalhar para todos os parentes e muitos amigos. O Padre Donizetti se encarregou do pessoal da paróquia. Você não viu no quadro de avisos da igreja?

— Eu fui à missa no Guarujá. Estava descansando com Judite. A semana passada foi muito puxada.

— Então, ficamos assim. Amanhã, depois da missa.

— Tchau! Cuide-se.

— Cuide-se você também. Recomendações ao maridão.

Dolores estava furiosa. Como se atrevera a comadre a falar do Timóteo com tamanha intimidade? E do “maridão”? Tinha feito de quem tanto se solidarizara, simplesmente, uma alcoviteira. Para alguém com tão graves problemas, até que a vida parecia muito cor-de-rosa. E as lágrimas do dia anterior? E o pranto sentido? E o desmaio da mãe? E a preocupação com os filhos? E o desrespeito ao pai e ao restante da família? Incompreensível!

Fernando ficou sem entender o nervosismo da esposa. E ficaria sem entender até à noite, quando ela iria desabafar.

— E então?

— Só vai ter tempo amanhã, depois da missa. Você vai poder ir?

— É de obrigação, você não acha?

— Nem tanto, para quem não é mais católico.

Fernando estava ficando perplexo. As mudanças de humor foram rápidas demais. Mas não iria colocar lenha na fogueira. Percebeu que, se brincasse, poderia provocar a fera adormecida.

— Venha ver no escritório os livros que eu trouxe.

— Se forem livros espíritas, esqueça.

— Você é quem vai dizer o que são.

Ainda estavam embrulhados do jeito que recebera da livraria.

— Pode abrir. É um presente que estou dando a mim mesmo. Mas você vai poder ler. Se quiser...

Dolores abriu o pacote rasgando o invólucro. Deu com os títulos sugestivos. Educação sexual. Técnicas do Orgasmo. A Mulher Frígida.

Fernando apressou-se a esclarecer:

— São obras científicas. Não confunda com pornografia.

— Você acha que sou tão ignorante assim? Vejo que está precisando mesmo ler estas obras. Quem sabe conheça melhor as mulheres.

— Só me interessa conhecer uma.

— É bom mesmo!

Fernando enlaçou a esposa, sentando-a no colo. Abriu um dos livros nas ilustrações.

Naquela tarde, chegou bem depois das três à loja.

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