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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->EPÍLOGO -- 19/07/2002 - 07:44 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Nove meses após os acontecimentos narrados, nasciam os dois pimpolhos do casal. Naturalmente, foram festejados com o máximo de alegria, tendo recebido, na pia batismal, os nomes de Jeremias e Ezequiel. Foram padrinhos do primeiro Leonel e Rute e do segundo Judite e o recente marido.

Na festa que se seguiu, os petizes recepcionaram inúmeros convidados. Só não pôde comparecer Maria, internada desde algum tempo para tratamento de insidiosa infecção, grave prenúncio de que iria manifestar-se a doença fatídica.

Estiveram, contudo, os filhos e os pais, conformados com a derrota perante o destino avesso. Haviam entendido os princípios das leis cármicas de causa e efeito e admitiam a reencarnação como essencial para o progresso espiritual. Não freqüentavam centro espírita, mas ouviam atentamente as explicações de Fernando, toda sexta-feira, quando liam, em casa, O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. Fora o meio de estender as reuniões iniciadas pela leitura da célebre mensagem de Roque e da Tia Ana.

Dolores não comparecia, mas se dedicava à benemerência com muito afinco, havendo permitido que se destinasse soma equivalente às antigas doações de Jeremias ao Departamento de Assistência do “Jesus de Nazaré”. Nos últimos tempos, recolhera-se para enfrentar a gravidez da dupla gestação. E orava muito, para que todos se esclarecessem quanto aos desígnios de Deus.

Fernando manteve a loja e ampliou o atendimento no campo da construção civil, criando várias filiais, cujas gerências destinou aos irmãos. Ao pai e à irmã, comprou excelente sobrado, registrando a escritura em nome dela. Viviam com muito maior tranqüilidade e conforto, fazendo a ronda da casa certo pretendente, visto com bons olhos. Coisas de novela.

De Timóteo não se teve mais notícia. Correu à boca pequena que um marido ofendido fora a Roma pesquisar-lhe o paradeiro. Quis fazer escândalo, mas calou-se de uma hora para outra, dando motivo para os diz-que-diz da “sapaiada”. Mas como “sapo de fora não chia”... A verdade é que foi viver em Paris, perto de moderno hospital para tratamento da AIDS, deixando a família muito bem amparada financeiramente. Mistérios do poder.

João leva avante o projeto de dotar o Centro Espírita de creche. Não quer receber ajuda senão do voluntariado das mulheres pobres. Se fosse para pagar, transformaria a instituição em mera fonte de arrecadação de dinheiro. Censura, aliás, que estendia a colegas de outros centros, por se esquecerem de que a mediunidade fora o fundamento sobre que Kardec erguera o edifício do Espiritismo, sob as luzes do “Espírito de Verdade” e companhia.

Tendo consultado o guia do Centro, este se manifestou no sentido de que a paciência é apanágio dos santos e que os homens estão muito longe da perfeição. Exaltou o esforço dos confrades espíritas e determinou que cada qual cuidasse de seu tugúrio com o máximo de amor. Deus haveria de ajudar a todos. E quem não fosse digno, teria mais trabalho ainda, pela graça inexcedível de Jesus.

Quando Fernando pagou a última quota em atraso dos impostos, transformou a empresa em sociedade anônima, retendo sessenta por cento das ações. As demais doou aos empregados, segundo critérios de antigüidade e responsabilidade de funções. Houve ciumeiras mas todos tiveram de reconhecer que a sociedade capitalista, para chegar a tal ponto de distribuição de riquezas e bens, terá de aguardar bom tempo ainda.

Os filhos de Jeremias, formados, assumiram o controle administrativo da fábrica e da loja, dispensando o concurso do avô. Mantiveram a mãe no gerenciamento geral dos negócios novos, espécie de “free lancer” na divulgação das etiquetas, encarregada dos acontecimentos sociais do marketing. Por conta disso, apareceu na televisão e esteve nas páginas das revistas especializadas. Enquanto saudável, foi feliz o mais que pôde. Chegou a supor não ter sido contaminada pelo marido, mas nem Fernando nem Leonel quiseram pô-la a par do resultado das pesquisas.

Fernando não aparece mais no Centro. Restringe-se ao papel de mecenas anônimo. Mas não se desligou da doutrina, tendo sido liberado pela esposa para as sessões íntimas no apartamento de Francisco, este, médium cada vez mais acessível ao plano da espiritualidade.

A essas reuniões, comparece regularmente o espírito de Jeremias. Vem lamentar a queda moral que sofreu ao tomar conhecimento da extensão do drama conjugal. Passou por alguns meses de atribulada correria pelas trevas, tendo-se valido do conhecimento fragmentário das obras de Kardec, para restabelecimento do equilíbrio psíquico. Varou dois meses de internamento em instituição hospitalar, sob a vigilância de Roque, e desabrochou para a assistência à esposa de ânimo revigorado. Chegou a pedir para acompanhar Timóteo no isolamento a que o Vaticano o condenou, mas não lhe foi permitido, por nada saber a respeito da evangelização sob o prisma do socorrismo. Desconfiou de que as entidades ao derredor do Padre não lhe dariam oportunidade para a prática do bem, mas respeitou a deliberação dos mentores.

Quando Dolores reassumiu completo domínio sobre si mesma e depositou confiança irrestrita no marido, logo após ter descoberto a gravidez, contou-lhe as impressões fugidias da infância e as revelações do sonho em que o pai lhe aparecera indiferente, enquanto a mãe, dando-lhe as costas, chorava. Fernando julgou tudo muito sério, tendo concluído que algo houvera acontecido durante a infância que lhe deixara tão grave estigma emocional. Acrescentava sua imperícia sexual de marido ignorante e se punha de sobreaviso para possíveis conseqüências temperamentais.

Após muitas conversas íntimas, chegaram à conclusão de que o sonho era a transformação de fato impossível de ser compreendido, quando se é muito criança. O mais provável era que tivesse presenciado os pais em ato sexual, confundindo os suspiros da mãe com choro. O pai estaria indiferente à filha, pela atenção que dava à mãe. Daqui as crises relativas às suspeitas de defloração.

Pensaram em interrogar a velha senhora mas acabaram por entender que o importante era a superação do episódico pela assimilação do essencial. A vida dera forte guinada na direção do amor e do prazer, de forma que as questiúnculas infantis deveriam permanecer como tais. Sem possibilidade de interferência nas decisões racionais do adulto. Acima de tudo, concordaram que o sonho fora bom aviso do inconsciente.

Fernando desconfiava de que os espíritos benfeitores tinham metido sua colher de prata na panela, porém, guardou para si a intuição. Na próxima reunião mediúnica, consultou os amigos da espiritualidade e obteve confirmação para as suspeitas. Tão completas que até pontos esquecidos por Dolores foram esclarecidos, como a presença dos seres monstruosos, a fumaça que não aparecia, o caixãozinho com a criança dentro e o rio que corria para o alto. Mas também recomendaram que se calasse a respeito, já que os dramas conscienciais tinham alcançado projetar para o campo da vontade as advertências da má formação psíquica.

Em matéria de grossa novidade, a tia Ana trouxe notícias da mãezinha querida de Fernando. Estava mais que bem, missionária das forças do Alto, em vilegiatura de estudos por esferas superiores. Mandava suas bênçãos de muito amor e a recomendação de que mantivesse firme a fé espírita. Haveriam de se encontrar no Além, para confraternização no divino amor.

Durante a festa de batizado, João fez questão de brindar a memória de Jeremias. Algumas pessoas não compreenderam a razão de tão inusitada lembrança, pois tinham como certo que dera causa à moléstia de Maria. Mas houve regozijo no plano espiritual com as vibrações positivas encaminhadas ao amigo pelos compadres, por Leonel e esposa, pelos sogros e pelos antigos parceiros de aprendizado mediúnico.

Muitos outros episódios importantes se deram nesse período, mas ficaríamos acanhados em levar avante a obra, cujo objetivo maior foi alcançado, ou seja, o de estabelecer corte na vida dessas pessoas, para demonstrar que todos estamos sempre evoluindo, pela benevolência do Pai.

Se Joaquim estivesse conosco, iria pedir que abríssemos conta em sua agência de investigações (aliás, muito próspera, tanto que já adquiriu as quotas dos demais sócios), para localizar Timóteo. Se tivermos tempo, qualquer dia voltaremos para relatar os acontecimentos que levarão esses irmãos à luz. Até lá, oremos por eles e por todos os que se deixam vitimar pela AIDS. Acreditemos que esse carma de dor flui para a regeneração da humanidade. E amemos a Deus com todas as forças de nosso coração e com toda a lucidez de nossa inteligência. Deus, verdadeiramente, é Amor.

Indaiatuba, de 26.04 a 15.07.94.
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