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Artigos-->A BUSCA DO SUCESSO ESPIRITUAL -- 01/03/2005 - 13:58 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER







A BUSCA DO
SUCESSO
ESPIRITUAL



GRUPO DO REFORÇO II



Todos os Espíritos mais ou menos bons, quando encarnados, constituem a espécie humana. E como a Terra é um dos mundos menos adiantados, nela se encontram mais Espíritos maus do que bons; eis porque nela vemos tanta perversidade. Façamos, pois, todos os esforços para não regressar a este mundo após esta passagem e para merecermos repousar num mundo melhor, num desses mundos privilegiados onde o bem reina inteiramente e onde nos lembraremos de nossa permanência neste planeta como de um tempo de exílio.
Kardec, Allan — O Livro dos Espíritos, item 872.




Edição da CASA DO MÉDIUM

Rua Cinco de Julho, 1184
Indaiatuba — SP

ÍNDICE

Reencontro ............................................
Dedicatória ...........................................
1. A concentração ........................................
2. A recompensa ..........................................
3. Crença no poder mediúnico .............................
4. A melhor hora .........................................
5. Em busca de novidades .................................
6. Sem perda de confiança ................................
7. Acidentes de percurso .................................
8. Dos preconceitos ......................................
9. Dos médiuns intuitivos e mecânicos ....................
10. Trabalhando com amor ..................................
11. Da ansiedade dos mortais ..............................
12. Um passo adiante ......................................
13. Perante uma folha em branco ...........................
14. O trabalho em si ......................................
15. Magnetização e perece .................................
16. Espiritismo e competição ..............................
17. Quando o hábito não faz o monge .......................
18. Tópico importante .....................................
19. Perversidade sutil ....................................
20. Trabalhando nos bastidores ............................
21. Perante as tentações mundanas .........................
22. A prece ...............................................
23. A alegria é fundamental ...............................
24. A tendência narrativa .................................
25. Um caso de polícia ....................................
26. A hora da decisão .....................................
27. Das ilusões terrenas ..................................
28. As oportunidades se renovam ...........................
29. Aos filiados ao Movimento Espírita ....................
30. Aos simpatizantes do Espiritismo ......................
31. Os benfeitores pessoais ...............................
32. Mensagens estranhas ...................................
33. Perto da luz ..........................................
34. Primeiras conclusões ..................................
35. Jesus está presente ...................................
36. Derradeira mensagem ...................................




REENCONTRO

Aspirávamos pelo momento glorioso de volver a este lugar tranqüilo (ver Almas Comuns, Grupo do Reforço II), sob a orientação dos mestres de superiores dotes espirituais, para as informações do etéreo que nos cabem.
Nada pode ser comparado, neste momento de nosso progresso intelecto-afetivo, aos textos mediúnicos que somos capazes de elaborar e de transmitir. É, pois, com muita alegria que presenciamos a vontade do médium em servir-nos com muito carinho e dedicação.
Mas esta data não irá marcar nenhum feito especial, senão que estamos apenas definindo a regra dos ditados, qual seja, a de que nenhum pretexto nos servirá de apoio para censurar qualquer atitude do auxiliar encarnado.
Conhecemos bem os problemas que o afligiram neste passado mês e estamos contentes por tê-lo disposto, na ânsia de efetuar sua parte nos trabalhos de cada dia.
Entretanto, havemos de ir bem devagar, um pouco mais a cada dia, para melhor caracterizar os objetivos de nossas mensagens. Por hoje, aceite apenas este pequeno trecho e volte amanhã apetrechado intelectualmente para ampliarmos a nossa participação.




DEDICATÓRIA


A um jovem que sofre por amor.

Instados pelo amigo encarnado, obrigamo-nos a comparecer com algumas ponderações a respeito de sua atual condição emocional. Não nos tome as palavras, entretanto, como a configuração mais exata dos padrões filosóficos do etéreo, em relação às providências afetivas que deverá tomar para dar continuidade à sua vida. Iremos sugerir alguns pensamentos que você desenvolverá por meio dos roteiros inerentes à sua personalidade, conforme os valores humanísticos que melhor lhe configurem a realidade como conjunto de fatos sobre os quais se pode exercer domínio.
Ponha-se atrás no tempo. Você, há alguns meses, teria sido capaz de imaginar a riqueza emotiva de suas reações perante o relacionamento que acredita estar desfazendo-se? Para nós, a sua resposta tem noventa e nove por cento de chance de ser negativa. Afaste-se para antes do seu nascimento, quando era apenas um espírito em vias de envolver-se na densidade corpórea. Poderia hoje afirmar que não solicitou das autoridades e benfeitores espirituais uma prova que o expusesse tão dramaticamente perante si mesmo? Agora é de cem por cento a possibilidade da negação.
Se estiver suspeitando que iremos diluir-lhe os sentimentos no tempo, que decorre inexorável para os mortais, vai enganar-se. É essa a observação mais comum das pessoas experientes nessas mesmas decepções amorosas. Mas nossa perspectiva se abre para o conhecimento das aptidões e as suas nos revelam que deverá o amigo cultivar a lembrança dos momentos bons, mesmo que se sinta muitíssimo mal, por haver criado, no íntimo de sua vivência consciencial, seqüência de vida plena de realizações em função da sonhada família.
Abra os olhos para o plano da espiritualidade e veja na criança concebida um ser merecedor de nova oportunidade carnal, segundo prismas particularíssimos, como sói acontecer a cada um. Não terá pedido, evidentemente, a separação dos progenitores; mas terá de aprender a conviver com o fato, para crescer nos aspectos espirituais de que tenha maior carência. Aos pais, cabe a difícil tarefa da orientação em condições que repugnam à sociedade em geral. A você, o encargo de minimizar quanto possível a sobrecarga que essa mesma sociedade irá colocar sobre os ombros daquela criatura. Mas esses são problemas que deverão oferecer estímulos para a prática evangélica mais pura, de sorte que a criação dessa entidade se dê com muito amor.
Sub-repticiamente, elevamos a bom nível a perspectiva do tempo futuro, mas não no sentido de considerar esse aspecto como saneador dos sofrimentos de hoje. É que Deus colocou nos seres humanos a capacidade da sublimação dos males, dependendo de cada um de nós a suplantação das deficiências que nos prendem irremediavelmente a nós mesmos, enquanto seres frágeis, porque (não podemos ocultar) estamos existindo nestes círculos de expiações e provas. Fôssemos mais evoluídos e teríamos meios de entendimento mais eficazes. Em todo caso, os recursos da aprendizagem se prendem também (e principalmente, quando se trata dos encarnados) aos processos da dor.
Felizes os que têm o discernimento de atribuir ao Pai a sabedoria de nos haver criado perfectíveis.



1

A CONCENTRAÇÃO


Não podemos solicitar dos encarnados que prestem atenção a todos os movimentos da alma que não estejam essencialmente decorrendo dos mananciais da inteligência do indivíduo, ou seja, aqueles que provêm das influências sãs ou malsãs da espiritualidade. Assim sendo, muitas vezes se perdem inspirações promissoras, porque não há confiança mútua entre o emissor e o recebedor das mensagens. Para que frutifiquem os contatos entre os planos, preciso será sempre que os encarnados depositem confiança em seu discernimento doutrinário, para conceber o nível de desenvolvimento da entidade, não deixando jamais de atender aos reclamos que seja capaz de reconhecer como não produzidos pela própria vontade, ainda que possa desconfiar de animismo.
Este mesmo texto não prescinde de conhecimentos das teses espíritas desenvolvidas desde Kardec, porque se impregnou de conceitos e de nomenclatura afeta à ciência dos espíritos. Por isso, devem os mensageiros escolher, por seu turno, quem esteja capacitado para o apanhado de ditados técnicos. Se aos encarnados recomendamos que não deixem de atender aos do etéreo, a estes reforçamos a tese de que devem estabelecer forte vínculo vibratório com quem esteja apto ao entendimento dos pensamentos e demais conhecimentos que envolvem os textos de melhor nível.
Hoje, apesar da familiaridade do médium com todos os termos que lhe passamos ou lhe solicitamos, notamos a existência de certa distância entre nós, porque forçados fomos a ficar afastados das atividades mediúnicas pelo sucedido com o amigo, que (vamos deixar registrado) se viu atropelado no passeio público, necessitando de repouso para restaurar o corpo magoado, o qual ainda agora não está em perfeita ordem.
Mas vale o exercício como meio de volvermos a nos entender, de sorte que qualquer texto que lhe passarmos poderá objetivar a renovação dos projetos das turmas que perpassam pela Escolinha de Evangelização. Eis que vamos determinando alguns aspectos cediços, tão-só para confirmação de que estamos sempre presentes, desejosos de servir-nos da boa vontade do amigo.
Vá escrevendo, pois, mas não dê importância à manifestação que lhe estamos ditando, eivada se encontra de problemas de composição de outras ordens. Quando sentir que as mãos já não obedecem ao cérebro na escritura das frases, uma vez que a terminologia não corresponde precisamente aos pensamentos que lhe perpassam pela mente de maneira tão veloz, pare o trabalho de vez, para não facultar ao inconsciente que assuma as diretrizes da mensagem. A voracidade com que muitos médiuns se apresentam para os ditados não se coaduna com a necessária placidez mental que se exige para que as obras adquiram consistência e signifiquem alguma coisa para os leitores. Este mesmo texto, como facilmente se pode reconhecer, tem o seu mérito, em função das circunstâncias em que se encontra o médium, mas pouco propiciará aos estudiosos (ainda que neófitos nas plagas do Espiritismo), porquanto muitíssimas obras existem que cobrem este tema com rigor científico e beleza literária aos quais não estamos suficientemente propensos pelos parcos recursos de que dispomos.
Por outro lado, se atentarmos para o teor dos dizeres, poderemos observar que não está exercitando-se apenas o encarnado mas também os membros desta equipe, entusiasmada, aliás, pela facilidade com que nossos movimentos intelectuais estão recebendo corpo lingüístico, na passagem pela mentalidade do intérprete.
Fiquemos por aqui neste impulso, que corremos o perigo de desandar a maionese, o que, de fato, vem ocorrendo, pela defasagem que notamos crescer, à medida que os intentos dos mensageiros se voltam para a expressão metafórica.
Fique o bom amigo com Deus e receba o nosso mais profundo agradecimento.
Apenas para finalizar, devemos referir-nos aos temores íntimos de que seja possível perder o élan mediúnico. Ora, para quem digitou O Livro dos Médiuns, de Kardec, o sentimento carece de sentido. Não é verdade?



2

A RECOMPENSA

Para se sentir recompensado, o médium deve abstrair-se das conseqüências possíveis das transmissões. Tornando o pensamento claro: deve sofrear os impulsos de ver proveitosas as mensagens para os leitores encarnados. Antes, deve obter a consciência de que está simplesmente prestando um serviço, cujo mérito maior está na fidedignidade da tradução dos pensamentos expostos por meio de meras vibrações (chamemo-las assim) eletromagnéticas. Esse impulso recebido em ondas pelo cérebro deve representar um ato completo ou perfeito em si mesmo, sem nada que venha a ocasionar de sutil posteriormente.
Pode parecer que estejamos contradizendo-nos pela própria natureza da manifestação, plena de intuitos literários ou, ao menos, dentro do sistema lingüístico regido pela norma culta. Na verdade, para os mensageiros, interessa o exercício, não tanto para futuras formulações doutrinárias junto aos encarnados, mas para que sintam o ponto de desenvolvimento intelecto-afetivo em que se situam. Claro que estamos relacionando os pensamentos expostos a espíritos de certo progresso e de algum conhecimento. Se se trata de pessoal muito atrasado, os objetivos serão bem outros e, se os comunicantes são gente de muita expressão nos círculos mais aperfeiçoados capazes de contato, irão fornecer recursos para a interpretação dos textos, segundo ponto de vista equilibrado pelos informes evangélicos de amplitude acima da inteligência comum dos que ainda necessitam da carne para expiação de débitos ou para aperfeiçoamento de virtudes.
Estamos, pois, muito à vontade para o ditado, favorecendo a impressão do amigo que nos ajuda (ou que nos lê) quanto ao desempenho possível para este grupo em fase de aprendizagem bastante elementar dos roteiros programáticos que soem ser ministrados para os recém-chegados das trevas (com a obrigatória estada nas câmaras de tratamento para a desinfecção dos vícios mais grosseiros e dos conceitos mais burlescos e desassombrados).
E qual haverá de ser a recompensa do médium, neste caso?
Nada, durante a existência corpórea, deve ser colocado de lado, pura e simplesmente. Tudo deve ser analisado e as conclusões devem ser testadas no dia-a-dia das reflexões filosóficas, que não se admite que as pessoas passem pela vida sem preocupações de caráter transcendental. Talvez os textos não contenham as idéias muito explicitadas nem o andamento das frases seja o mais conveniente para o prazer da leitura. A rusticidade dos dizeres, no entanto, não deve atemorizar aquele que deseja ser induzido à meditação. Não são poucos os livros recentemente impressos que não estimulam para a prática de superior confecção estética, porque se deixam impregnar pela pragmática noção de que quanto mais fácil, mais proveitoso.
Se bem que com outro significado, os nossos escritos vão parecer-se muito com esses que vimos de criticar (perdoe-nos o galicismo), mas não porque almejemos a mediocridade, senão porque é justamente esse o conceito que fazemos de nós mesmos. Se quiséssemos elaborar algo de superior quilate, iríamos perder-nos, porque nos falta cultura, a impedir que projetássemos de imediato um texto de qualidade.
Mas eis que temos a nossa recompensa, porque vamos aquilatando com muita veracidade a nossa condição inferior, principalmente porque temos tido contato com obras de nível bastante elevado, conforme nos recomendam os mestres. Por outro lado, fugimos de constituir-nos em embaraço para o médium, sabendo perfeitamente que teríamos maior sucesso se realmente dependêssemos de seus atributos culturais.
Resolva você, bom amigo, qual o lucro que obteve deste momento de imersão no plano da espiritualidade em que nos situamos, focalizando, de preferência, o tônus emocional que imprimimos ao conjunto das mensagens. Se julgar que algo de bom conseguiu extrair, agradeça a Deus em fervorosa prece. Ao contrário, se nada vislumbrou que pudesse ser-lhe de utilidade, recomendamo-nos para suas orações, pois sempre usufruiremos em paz do recolhimento sadio dos seres bem intencionados.
Fique com Deus!



3

CRENÇA NO PODER MEDIÚNICO

É de todo louvável que as criaturas humanas se dediquem com muito afinco ao intercâmbio entre os planos material e espiritual. Existem inúmeras modalidades de entendimento desse contato, mas o que nos entusiasma sobremodo é a fé em que se acharão entidades aptas à manifestação, muito embora, em grande número de oportunidades, o que se pretenda é a elucidação de fatos facilmente deslindáveis pelos métodos ao alcance dos encarnados. Por outro lado, pedem-se explicações e auxílios impossíveis de serem fornecidos de modo específico, impedidos que estão os do etéreo de resolver os problemas afetos à humanidade.
A principal função dos espíritos que se comunicam é preparar os indivíduos para o adentrar na espiritualidade com desenvoltura intelectual e denodo emocional. Para tanto, inúmeros grupos em todo o mundo se preparam convenientemente para as informações e orientações que esclareçam as diretrizes ou leis estabelecidas pelo Pai para que todos nós possamos crescer em virtudes, facultando-nos o ingresso nos círculos seguintes, sempre mais adiantados, no caminhar quase sempiterno para a plenitude da felicidade.
Sendo assim, é perfeitamente justo que muitos requeiram dos instrutores assistência quanto aos temas que lhes parecem coadunar-se com os objetivos acima referidos. É por isso mesmo que volvemos com freqüência aos mesmos assuntos, buscando caracterizar facetas novas, que possam ajudar na decifração dos tópicos não totalmente compreendidos. Esta mesma dissertação segue muito próxima de desenvolvimentos anteriores de parceiros da Escolinha, com enfoque adequado ao ritmo que vimos empreendendo aos textos.
Caberia reafirmar o incentivo à convicção de que somos nós, espíritos, que estamos a elaborar e transmitir este arrazoado. Entretanto, não se justificaria, se assim o fizéssemos, o próprio título que encima a mensagem. Não é verdade? Pois, se estamos enfatizando a boa vontade dos mortais, sua fé nos que se comunicam, dando ênfase à clarividência com que encaram os temas mais complexos, estabelecendo por sua iniciativa o confronto entre os textos e os redatores, não há de se esperar que ponhamos a semente da dúvida na mente do leitor.
O parágrafo anterior serviu-nos para evidenciar que não iremos também menosprezar os nossos esforços nem muito menos enaltecer o fruto do nosso trabalho. Vamos realizando a tarefa como obrigação humanitária, o que compete a nós na qualidade de divulgadores da obra da Escolinha, mas também vamos desenvolvendo as lições que nos estão sendo ministradas, procurando torná-las acessíveis à compreensão dos que estão chegando ao campo do espiritualismo que Allan Kardec, inovando, resolveu chamar de espiritismo.
Dentre os elementos mais importantes dessa doutrina, evidentemente, encontra-se a mediunidade, sendo básico, portanto, que os neófitos profitentes vão entendendo os mecanismos deste contato entre as esferas carnal e espiritual, para que fujam da crença mais ou menos cega oriunda das informações de terceiros. É preciso que se deixem admirar pelo fenômeno, para incrementarem o desejo de absorver os conhecimentos relativos a ele. Mas é muito mais importante reconhecer quando se trata, verdadeiramente, de espíritos de bom nível moral, interessados no adestramento dos pendores mediúnicos dos que se apresentam melhor dotados para a tradução das vibrações energéticas ou fluídicas emanadas da espiritualidade.
Em suma, caso se tenha despertado o interesse do amigo para este ramo do saber doutrinário, não deixe de ler O Livro dos Médiuns, através do qual Kardec, na qualidade de codificador das mensagens dos espíritos superiores que o procuraram por meio de muitos médiuns, em diferentes partes do mundo, estuda em profundidade os tópicos mais importantes, para que se dê começo aos trabalhos de relacionamento entre encarnados e desencarnados.
Pede-nos o médium para que ressaltemos a utilidade dos cursos que são ministrados nas casas de benfeitoria espiritual, os chamados Centros Espíritas. Evidentemente, a experiência, como em qualquer ramo do saber, não pode ser esquecida. Entretanto, não se espere que todos os problemas de intercâmbio possam ser resolvidos, sem que se parta do interesse e da confiança em que a vida haverá de ser melhor com o novo aprendizado. No mínimo, que se adquira a convicção de que a morte não é o fim, ampliando-se, ao contrário, a complexidade e a riqueza do campo existencial.



4

A MELHOR HORA

Quem não deseja que os fatos ocorram de maneira favorável não se preocupa em escolher o momento propício para que a realização venha a ser o mais próximo possível da perfeição. Um exemplo simples nos revelará a veracidade destas palavras: qual é o horário conveniente para dormir? Se não fosse pela natureza oferecer-nos o dia e a noite, talvez o sintoma do sono fosse o mais claro indício de que é chegada a hora de dormir. Mas é na humanidade que temos essa universal consciência de que se deve aproveitar a escuridão da noite para o sono. Animais existem que são notívagos e muita gente dá preferência a descansar de dia. Mas são exceções e nós não devemos raciocinar pelo avesso.
Qual será a melhor hora para morrer? Não estamos referindo-nos ao horário que se assinala no relógio. Fazemos referência à época da vida, pois a resposta somente pode ser uma: será o momento em que todos os recursos biológicos se desvanecerem, porque a morte natural por velhice é ou deveria ser o destino de todos. Mas até esse momento supremo pode não ser o mais conveniente, tendo em vista o mau desempenho durante o transcurso vital. Se o sujeito tiver ficado velho à toa, não tendo aprendido os mínimos ensinamentos evangélicos, essa hora há de ser a hora da morte, mas não podemos considerar a melhor, como também não seria o melhor momento para se assimilarem os conhecimentos que deveriam ter sido motivo de atenção. No máximo, será a hora do arrependimento ainda em vida, porque, depois do trespasse, o renascer no etéreo não haverá de ser o instante mais azado para esse tardio sentimento.
E qual é a melhor hora para começar? Criado o interesse, reconhecida a importância dos eventos, vamos dar início aos trabalhos no mesmo instante. A partir de agora, por exemplo, vamos obter a máxima concentração no discurso que estamos lendo, mesmo que previsível e inteiramente compreensível. No entanto, pensamentos outros podem surtir pela inferência de temas correlatos, despertando para desenvolvimentos mais consentâneos ao nosso nível intelecto-sentimental. Talvez seja esta a melhor hora para a reflexão, para a meditação dita transcendental, para a busca dos valores eternos, como forma de aplicação filosófico-doutrinária dos conceitos que se vão formulando em nossa mente.
Será esta a melhor hora para suspender a peroração? Quase com certeza podemos afirmar que muitos dos que nos lêem aguardam por outras informações, descontentes com a sugestão de que devem dar curso às próprias intuições, quando estão diante de um volume que se estende por numerosas páginas adiante, premissa de que algo de valioso se possa conter, para dar seqüência aos impulsos que os conduzirão à descoberta de caminhos mais amenos ou eficazes para a aquisição de desenvoltura espiritual.
Não será, pois, esta a melhor hora para a recomendação de se praticar a caridade, a menos que o façamos em relação aos próprios sentimentos, tendo em vista que emitimos freqüentes vibrações de caráter negativo contra pessoas vivas ou mortas que algo tenham feito para desagrado nosso. Pensar o melhor para todas as criaturas, rogando ao Pai, através dos espíritos superiores, que lhes dê assistência em todas as atividades, também será possível neste exato instante, dado que todo o tempo pode ser utilizado para melhorar o padrão vibratório da mente.
Então, podemos concluir que a melhor hora para a prece é o momento presente? E se estivermos prenhes de raiva, de inquietação, de dores físicas ou morais; se estivermos diante de uma desgraça; ainda assim deveremos buscar aliviar o estado emocional através de uma descarga de caráter puramente espiritual?
Talvez esta não seja a melhor hora para responder, uma vez que consideramos a melhor para perguntar. Em todo caso, se o caro amigo leitor fizer sua a interrogação acima consignada, que estabeleça a resposta que melhor se adapte aos seus anseios de perfeição. Quanto a nós, julgamos que esta é a melhor hora para a transmissão mediúnica, por uma série de fatores favoráveis que não nos cabe analisar, tão fácil é de se imaginar quais sejam.
A melhor hora para comer há de ser sempre aquela em que estamos com fome. Transforme, bom amigo, a fome física em espiritual e avalie se não lhe falta entender algum aspecto do espiritismo concernente aos problemas que julga de impossível resolução. Ou você acha que todos os assuntos podem ser elucidados atualmente? Então, por quais razões Jesus não nos disse tudo, nem os espíritos o fizeram a Kardec, prometendo, no entanto, que o entendimento seria induzido mais tarde, em mais avançado ponto evolutivo do espírito humano?
Fique com a obrigação de pensar melhor do que nós a respeito do tema, agradecido ao Senhor pela faculdade que lhe foi dada de abstração e de compreensão dos fatos da existência.



5

EM BUSCA DE NOVIDADES

Não podemos recriminar os leitores que vêm até nós com o intuito de descobrir algo novo nos desenvolvimentos mediúnicos. Mesmo que pouco tivermos para dizer, ainda assim muita coisa vai parecer novidade absoluta, dado o grau de conhecimento espírita de cada um. Por isso, torna-se difícil concatenar um texto que elimine a curiosidade, como forma de contato espiritual, algo como o brinquedo de uma hora que amanhã já não vai interessar.
Os fatos codificados nas obras principais do Movimento, aquelas produzidas por Kardec sob assistência direta dos espíritos encarregados de elucidar os princípios doutrinários e filosóficos, não deveriam mais causar surpresas, tantos anos faz que se encontram sendo divulgados. No entanto, a todo momento deparamo-nos com pessoas ou extasiadas ou profundamente suspeitosas de que aqueles raciocínios com base na fenomenologia mediúnica sejam o supra-sumo do conhecimento possível ou a maior fraude que a inteligência desenvolvida pela metodologia científica poderia apresentar.
Esqueçamo-nos por instantes de que sabemos muito ou pouco. Fiquemos na decifração mais arguta das intenções dos textos, muitas vezes simplórios, outras vezes misteriosos ou, ainda, translúcidos. Teriam os mensageiros atuais o mesmo dom de transmitir as noções mais verdadeiras, aquelas que constituíram a base sobre que se ergueu o edifício do Espiritismo? Pelo menos, devemos saber que se trata de gente em fase de aprendizagem, mas com a obrigação de conhecer as diretrizes que deram origem ao Movimento Espírita em todo o mundo, já que se dissemina por todo lado, como necessidade para as explicações que perpassam as mentes dos encarnados neste momento de profundas reflexões metafísicas, fundamentadas nos testemunhos impressos de várias obras místicas, esotéricas ou exotéricas.
Não nos percamos pela nomenclatura. Busquemos o dicionário e simplifiquemos a terminologia pelo entendimento de seu significado. Tornemos elementar o mais possível o texto em seu aspecto lingüístico e avaliemos, como nos for acessível, se as informações a respeito dos fatos no campo da matéria estão de acordo com a realidade. Após esse estudo (sem o qual não haverá avanço na área metafísica), vamos entreter-nos com as intuições que formos capazes de distinguir como produto da influência espiritual provinda dos benfeitores e amigos do etéreo desejosos de entrar em contato conosco.
Neste ponto, sempre haverá de ser útil advertir para as criações do imaginário, que, por serem produzidas dentro de nós mesmos, ganham muita força, como se estipulassem para si mesmas uma contextura de verdade. Serão verdadeiras sempre, mas como os sonhos que nos envolvem quando dormimos. Poderão ter significado, como aqueles, mas exigem interpretação muito mais sutil e inteligente do que as explicações que fornecemos a respeito dos pontos essenciais doutrinários, como a reencarnação, a mediunidade, a existência de vida no universo além da terrena, a escala dos espíritos segundo seu grau de desenvolvimento moral e intelectual, por força da aplicação das leis que fundamentam o proceder evangélico, o que torna os seres cada vez mais virtuosos e, portanto, aptos a elevar-se rumo às esferas de maior felicidade...
Eis que repetimos os conceitos principais, os chamados cânones, para que feneçam as expectativas de se encontrarem pontos diferentes dos enunciados, por exemplo, em O Livro dos Espíritos, a obra fundamental para quantos pretendam iniciar-se nestes estudos. Aliás, os que se aprofundam para além da compreensão média da população se sentem coagidos a freqüentes leituras completas desse livro, pela percepção de que sua compreensão não se havia feito com o mesmo discernimento que a experiência, as discussões, os seminários de estudos e o contato com outros compêndios lhes prodigalizaram.
Se o amigo, ao chegar a este ponto do texto, conseguir afirmar que não encontrou nenhuma novidade no desenvolvimento do tema, pode dar-se por muito feliz, embora a nossa intenção tenha sido a de lhe ministrar elementos (fugidios, talvez) que pudessem constituir-se em pontos de meditação. Fique, a nível de provocação, consignado que o estamos aguardando na Escolinha (para o que não temos pressa alguma), para juntos elaborarmos mensagens mais de acordo com o padrão que vem julgando o mais adequado para influir no ânimo dos encarnados. Estaremos nós curiosos para conhecer de que tipo será a contribuição que iremos receber?



6

SEM PERDA DE CONFIANÇA

Imaginemos que o caro leitor ou leitora se veja na condição de ter de suspender o trabalho mediúnico por algum tempo. É o que se verifica muito comumente com inúmeros servidores da seara espírita. Acreditaria, nesse caso, não mais voltar ao seio da comunidade espiritual que lhe vinha dando assistência?
A resposta não poderá conter a mínima hesitação, no sentido do saber intelectual e sentimental de que as entidades que se beneficiam do labor dos encarnados, uma vez caracterizadas como benéficas à vista do teor das comunicações, não abandonam jamais quem não as despreza nem dá preferência para mensageiros menos sábios mas hábeis em iludir pelas falácias mentirosas que a ingenuidade possa acatar.
Ser ingênuo, entretanto, após longo período de atendimento junto às mesas evangélicas, estará mais para a maldade ou a insatisfação, uma vez que pode ocorrer de alguns estarem ansiosos por desenvolvimentos de caráter superior, cansados da obtenção de mensagens desprovidas de pensamentos sublimes, no dia-a-dia dos problemas afetos aos seres sofredores. Este mesmo texto, dependendo do nível de aspiração do médium, poderá parecer extremamente simples ou tremendamente complexo. Você se alegraria ao recebê-lo?
Eis que profligamos os sentimentos de repulsa que se podem atribuir aos espíritos que mantêm o serviço de comunicações etéreas aberto. Em sendo gente especial, preocupada com o avançar teórico dos pupilos encarnados, jamais se perderá a boa vontade honesta de quem quer que seja o indivíduo que se presta a colaborar com os irmãos dos dois planos existenciais.
Quando Kardec advertia para a vigilância sobre a personalidade dos mediadores, era no sentido de oferecer o máximo de resistência aos instintos permeáveis pela influenciação dos obsessores, sempre ávidos pela captura dos descuidados através dos seus pontos mais vulneráveis, quais sejam, o orgulho, a vaidade, a presunção de ser o mais eficaz, em suma, o egoísmo deletério dos que desejam impor-se à sua comunidade como únicos ou melhor dotados. Estes que se deixam envolver pelas sugestões megalômanas é que devem temer a perda de confiança dos benfeitores espirituais, devendo desconfiar de pronto que o seu medo de afastamento daqueles deve estar sendo promovido exatamente pelos que lhes insuflam as idéias de grandeza.
Quem se mete a cooperar com a espiritualidade deve estudar com afinco as características dos bons comunicadores, para não lhes oferecer resistências descabidas. Mas devem também capitalizar as informações a respeito dos maus conselheiros, esforçando-se por esclarecê-los ou encaminhá-los para a assistência evangélica dos grupos que se organizam nos Centros Espíritas para tal finalidade, as chamadas sessões de desobsessão.
Aqui caberia comentar o valor da prece aos protetores e demais guardiães pessoais ou familiares. Mas quem está seguro de que vem praticando, na medida do possível, os ensinos de Jesus, principalmente quanto a amar o próximo como a si mesmo, sabe que os seus amigos estão sempre presentes, porque as vibrações se enfeixam em ondas de simpatia e se harmonizam segundo a capacidade de fazer o bem dos que se reúnem em torno do ideal socorrista.



7

ACIDENTES DE PERCURSO

Dissemos, na comunicação anterior, que não se pode perder a confiança nos seres do etéreo que participam dos atos mediúnicos, nem estes podem abandonar os médiuns que trabalham com amor e sabedoria.
Entretanto, muitas vezes, por razões as mais diversas, os médiuns se afastam da mesa de trabalho, o mesmo se dando com os espíritos ou grupo de espíritos. É óbvio que os desencarnados estão muito melhor aparelhados para constatar o que se passa com os humanos, o que fazem com absoluta percepção das causas dos afastamentos. Por outro lado, é muito mais difícil de se conhecerem as razões que obrigam aos do etéreo a deixar de freqüentarem os seus médiuns.
Quando o encarnado está suficientemente informado dos métodos da evocação, poderá solicitar esclarecimentos aos benfeitores, os quais jamais se negarão a eles. É bem verdade que existe o risco de falcatrua pelos espíritos malévolos, quando se desvia o encarnado das diretrizes morais recomendadas, o que Kardec colocava na categoria de provas para o aprendizado oportuno, inclusive com a permissão dos guardiães.
Em todo caso, nunca haverá de ser demais enfatizar que não se pode prejulgar os motivos, tantas são as atribuições daqueles que se empenham em servir à humanidade em ambos os planos da realidade. Assim sendo, é muitíssimo raro manter-se o médium assistido por espíritos de escol, aqueles que pouco freqüentemente comparecem para as mensagens de paz e orientação em caráter evangélico superior, definindo com precisão um roteiro dissertativo, narrativo ou descritivo de alto poder de informação moral ou técnica, relativamente a temas específicos.
Ao se analisarem as mensagens que ora se lêem, deve-se estar atento para o caráter mais genérico das apreciações que efetuamos a respeito dos assuntos, nada que alguém bem intencionado e com medíocre capacidade de organização textual não esteja apto a realizar. Não nos falta vontade de levar aos mortais noções mais adiantadas, como as que se ministram em cursos acadêmicos, junto às instituições de ensino de terceiro grau na Terra. Acontece, porém, que não temos permissão para adentrarmos profundamente na discussão dos tópicos doutrinários ou filosóficos, porque facilmente cairíamos no domínio opiniático, no fruto das impressões pessoais, no desejo de acertar pelo discernimento que vamos paulatinamente adquirindo, uma vez que não somos mestres nem estamos por eles autorizados a reproduzir as suas palestras e lições.
Cabe esclarecer, para que se não desconfie de que estamos apenas aflorando os temas, porque desejaríamos enganar os incautos construindo a fantasia de uma Escolinha de Evangelização, que os ensinamentos que recebemos se coadunam com a realidade que vivenciamos no etéreo, em diversos aspectos diferente da estrutura material que dá forma ao pensamento humano, como se perceberá se fizermos referência, por exemplo, aos meios sensórios de que dispõem os nossos corpos.
Quem se lembrar de que o perispírito se mantém mesmo quando a entidade está encarnada, existindo, portanto, intacta a capacidade de absorção da realidade espiritual por parte de todos, o que facultaria o entendimento das explicações que levássemos a cabo, reproduzindo aquelas que recebemos, deve também estabelecer como parâmetro que o espírito se liberta da densidade corpórea durante o sono, momento em que se põe em contato com os mestres etéreos (chamemo-los assim), para o prosseguimento das atividades neste campo. Ocorre, porém, que existe uma limitação ponderabilíssima, qual seja, a de que a memória não se faculta integral, porque o cérebro humano não está dotado dos mesmos recursos do corpo espiritual (perispírito), sendo-lhe impossível assimilar as estruturas e sistemas de forma consciente, para a recordação que se pleitearia.
Acontece que existem programações próprias aos seres encarnados, conhecimentos que lhes faltam e que devem ser adquiridos durante a vida, pela especificidade do trabalho (aqui considerado como o universo das atividades inerentes ao seu sistema orgânico e psíquico). Do contrário, teria sido em vão a oportunidade dessa dor ou dessa missão. Note-se que, se os missionários vêm para ensinar aos menos apaniguados, também aprendem a proceder como professores.
Cremos ter deixado claro que os acidentes de percurso ocorrem necessariamente em virtude da natureza da condição humana na Terra, bem como aqueles do etéreo devem ser imputados à condição existencial dos espíritos.



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DOS PRECONCEITOS

Um dos maiores problemas para quem comparece às aulas de doutrinação no plano da espiritualidade é a sobrecarga de conceitos puramente humanos, como, por exemplo, o de que todos os homens estão sujeitos a um destino inflexível, pela determinação do carma ou do darma. Vamos assim chamar a programação elaborada pelos mentores e protetores dos indivíduos em conjunto com eles mesmos, anteriormente à encarnação e para a qual se preparam todos os que são chamados ao orbe terrestre.
Fica difícil para os instrutores retirar da mente dos discípulos a noção de que não poderiam deixar de fazer o que fizeram, porque suspeitam de que era esse o princípio de vida que possuíam, o que transferem para a órbita espiritual, como sendo a denominada personalidade. Se fosse exatamente assim, ninguém poderia alterar o rumo da vida através do aprendizado dos recursos intelectuais e sentimentais à disposição em todas as coletividades humanas. Poderíamos concluir, levando a extremos o raciocínio, de que a educação pelos pais e pela escola não exerceria nenhuma influência sobre as decisões e que o livre-arbítrio não mais seria do que fruto da imaginação.
Outro preconceito arraigado na mentalidade espírita em geral (ligado evidentemente ao anterior) é o de que nada ocorre no mundo por acaso, sempre havendo um impulso das autoridades ou dos responsáveis pelos destinos humanos, para que os encarnados sofram o impacto dos acontecimentos mais necessários a pô-los à prova ou a facilitar-lhes o desenvolvimento das boas qualidades missionárias. No entanto, não apenas não existe a programação do suicídio (para citar um acontecimento drástico), como ainda correm todos os protetores da pessoa envolvida no drama a ver se conseguem desviar-lhe o intento do hediondo crime. Mas suicídios ocorrem e não se dão por acaso, porque podemos perlustrar a série de causas que lhes deram origem. O acaso está em que, para os que se virem perturbados pelo perecimento do companheiro, haverá necessidade de adaptação emocional e de compreensão das razões que desfecharam a tragédia.
Tornando mais clara a explicação anterior, podemos dizer que as balas perdidas matam quem não devia morrer. Entretanto, para o progresso espiritual, haverá necessidade de estudar os meios de superação das crises inesperadas. Se é bem verdade que os aviões e os meteoritos podem cair como os raios e, por isso mesmo, todos em terra estão sujeitos a esses acidentes, também não se pode admitir que se elaborem projetos de vida que se irão cortar rente, bem junto às raízes do desenvolvimento ainda em fase inicial, como no caso de bebês que são devolvidos ao plano espiritual sem nenhuma oportunidade de absorção de valores novos.
Se nos disserem que, para muitos, a morte prematura não significa senão uma provação derradeira para ingresso em nível espiritual mais elevado, poderemos responder que esse pensamento se ajusta às mil maravilhas para o consolo oportuno de quem sofreu a perda de entes muito queridos. Contudo, tal idéia irá cristalizar-se como única ou definitiva e, quando o sujeito se põe diante dos mestres da Escolinha, apresentam a noção tão inamovível que, freqüentemente, acontecem crises profundas de credibilidade quanto à sabedoria dos professores.
Leitores espertos estarão questionando a exposição, desejando argüir-nos quanto ao fato de que iremos fomentar a dúvida como norma mais habitual de raciocínio, como se dá no princípio de qualquer pesquisa científica. Mas é isso mesmo o que pretendemos defender, ou seja, que se deixe sempre aberta uma porta lateral para as saídas emergenciais, quando estivermos sendo postos em xeque pelo arrazoado mais cerrado da argumentação dos mestres. É sempre muito bom oferecer ao antagonista a possibilidade de estar correto, ainda que sacrifiquemos a autonomia intelectual através do sufocamento dos pruridos emocionais que se apresentarão a nós com a força da convicção.
Para suplantarmos a tendência de estabelecimento de preconceitos, saibamos evitar a suspeita de que somos capazes de entendimento absoluto dos conceitos. Rezemos pela cartilha dos mentores de Kardec, os quais preveniram os humanos a respeito de sermos seres perfectíveis. E o que nos torna perfectíveis? A capacidade espiritual de assimilarmos as facetas da verdade que não havíamos percebido ainda. O próprio Kardec começará o seu estudo dos fenômenos espirituais (que logo passou a chamar de espíritas) perto dos cinqüenta anos de idade, tendo tido a necessidade de abandonar todo um ideário filosófico. Sobre esse aspecto, muito pouco se tem escrito. Por que será? Estará embutido na atitude algum preconceito?



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DOS MÉDIUNS INTUITIVOS E MECÂNICOS

Poucos temas mereceram do Codificador e dos espíritos que o assistiam tantas explicações, de sorte que repetir o que se encontra nas diversas obras deles será sobremodo arriscado, em virtude de podermos não abranger todos os tópicos ou de não exprimir com exatidão a verdade sobre os diferentes servidores dos mensageiros espirituais. Mas precisamos ressaltar um aspecto importante, dado que seremos interrogados quanto às constantes demonstrações de conhecimento da obra de Kardec.
Terão os componentes do grupo lido os livros ou se valem das informações que conseguem captar do cérebro do médium?
Ambos os procedimentos existem, especialmente porque um complementa o outro. Quando expendemos uma idéia subsidiada pelas informações disponíveis aos humanos, buscamos o apoio doutrinário diretamente nas nossas recordações das leituras que efetuamos por dever curricular. Dificilmente, nesse caso, transmitimos o ponto, sem referendar a passagem através da memória do escrevente, já que tem ele o dom de nos acompanhar de maneira intuitiva e não-mecânica.
Se guiássemos a mão do encarnado, insciente ele do que se passasse durante a sessão, teríamos de suplantar a dificuldade de estabelecer um texto similar ao conteúdo contido em Kardec, deixando-o à vontade para, a seguir, correr atrás de confirmar as informações nas obras citadas. Este fato também ocorre quando o médium é intuitivo, mas a verificação de inteiro teor é que fica para depois, uma vez que, no momento da transmissão, é bem capaz de julgar da procedência ou não da citação.
Qual desses sistemas é o melhor, em função da verossimilhança textual, tendo em vista as intenções dos do etéreo?
Kardec registrou que o melhor é obter os ditados por meio dos médiuns intuitivos, por razões especiais, entre as quais a maior facilidade com que o trabalho se faz, pelo menos quanto à rapidez da comunicação. Os médiuns mecânicos são (ou eram) mais morosos e pouco contribuíam de imediato para o aperfeiçoamento lingüístico dos textos.
Vão querer saber se existem médiuns poderosos entre os mecânicos e fracos entre os intuitivos? Pois existem, o que nos faz concluir que cada um oferece recursos próprios de desenvolvimento técnico, tendo em vista o retrospecto de seus estudos e o aparato de suas virtudes.
Para os que se imaginam apanhando ditados escritos, que são os mais comuns e os mais completos (também no dizer de Kardec), fica a recomendação do aperfeiçoamento teórico e da dedicação esclarecida quanto às entidades que se servem de sua pena para as composições originais com que pretendem estimular os leitores à prática das virtudes evangélicas e ao aprendizado das diretrizes doutrinárias. Para tanto, dois cuidados são imprescindíveis: a) que se caracterizem corretamente como bons os espíritos, do contrário o tempo será perdido, uma vez que os imperfeitos não serão admoestados nem instruídos; b) que se vigiem os servidores encarnados quanto à prática do bem, para não serem censurados malevolamente por obsessores, os quais sempre se animam quando apanham gente desprevenida.
Nada do que estamos dispondo apresenta novidade para os que tiveram ensejo de freqüentar os cursos de conhecimento da mediunidade ministrados nas casas espíritas. Ousamos desenvolver estes pontos porque aspiramos a entregar o compêndio às mãos leigas das pessoas interessadas em aprender diretamente nos textos dos companheiros desencarnados. Perdoem-nos o atrevimento quantos trabalham na seara espírita.



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TRABALHANDO COM AMOR

Não são poucos os encarnados que desejariam apresentar-se para o serviço mediúnico isentos de temores, todavia suspeitam de que os que se comunicam possam apresentar-lhes percalços morais difíceis de decifrar. Quanto mais complexa a textura lingüística, maior a incapacidade de se adentrar pelo foco irradiador da luz espiritual. Dessa forma, textos por demais sagazes quanto à apresentação de novidades técnicas ou científicas, desenvolvimentos plenos de citações de autores de nomeada, ainda que se ofereçam subsídios para a descoberta das fontes, comunicações em que os aspectos morais tomam formas diferentes, à vista de exemplificação narrativa em que os diálogos se enchem de expressões sacrossantas, vão somando na desconfiança dos que não alcançam interpretá-los a contento.
Se os dizeres confundem os leitores menos espertos pela escolaridade deficiente, que se acrescentem anotações esclarecedoras por parte dos mais enfronhados na doutrina espírita, mas não se deixe jamais de estimular o trabalho dos que o fazem cheios de amor no coração. Trabalhar em prol do progresso das pessoas obriga os médiuns a despenderem de seu tempo não apenas para a transcrição dos ditados, como ainda para a avaliação dos méritos, segundo a capacidade dos leitores. Sendo o texto por demais intricado em seus diferentes aspectos, caberá reconhecer se traz o sinete da verdade, segundo as informações contidas nas obras básicas.
O que não recomendamos (e nisto colocamos toda a ênfase de nossa advertência) é que se menosprezem as iniciativas honestas, singelas ou não, para que as pessoas tenham condições de se desenvolverem, observando com rigor e comedimento as produções que forem pondo à luz dos mortais. Talvez muitos diretores de reuniões mediúnicas temam o engodo dos irmãos menos adiantados, mas, se destinarem algum tempo para a leitura e o comentário judicioso do que for arrecadado durante os atos psicográficos, irão paulatinamente oferecendo aos que se querem médiuns oportunidades de crescimento técnico, pela contemplação lúcida do próprio ministério.
Que diria o amigo se se deparasse com um arrazoado deste tipo, fruto de sua concentração nos pensamentos que lhe perpassam rápidos pela mente? Se considerasse que, em pouco mais de meia hora de trabalho, damos por terminada a tarefa, recolhendo-nos ao nosso tugúrio para prosseguirmos na preparação das futuras dissertações, isto o deixaria impressionado? Se você comparasse estas mensagens com redações suas, elaboradas sem pesquisa e sem prévia conjectura a respeito da temática a ser posta no papel, poderia reconhecer nas nossas mais qualidades que defeitos; ou seria o inverso? Em suma, que espécie de composição lhe produziria o maior bem-estar mental, pela importância que terá para suas reflexões e a de seus parceiros espíritas?
Se você se lembrar do título e responder que todas as que se fizerem com amor é que levarão as honras de seu prazer intelectual e sentimental, aí deverá acatar o aviso que acima dispusemos quanto à necessidade de se profissionalizarem no difícil ramo da psicografia a serviço dos espíritos graduados dentro da escala de valores em que se define o nível de superioridade, tendo em vista a média das comunicações.
Eis que se caracteriza o intento desta turma de proporcionar ao leitor instrumentos úteis para a concatenação dos conhecimentos específicos, em função de tornar o encarnado um ajudante esclarecido das forças da espiritualidade preocupadas em favorecer o resguardo individual e coletivo do assédio das entidades mal intencionadas nos dois planos existenciais.
Suspeitar-se-á de luta entre os de além-túmulo? Trataremos desse tema em momento oportuno. Por enquanto, queremos fixar na mentalidade humana que espíritos existem que se interessam pelos mortais, buscando integrá-los desde já em grupos de estudo e de trabalho, pela purificação das intenções através dos ensinos evangélicos de Jesus. Quem nortear o procedimento pelas virtudes maiores da fé, da esperança e da caridade, amando o próximo como a si mesmo, não poderá realizar obra de pequena importância para sua redenção.



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DA ANSIEDADE DOS MORTAIS

A premência do tempo faculta aos espíritos encarnados a perspectiva de que a morte cerceará os planos das realizações mundanas, dando origem à necessidade de trabalho, por exemplo, no campo da benemerência, área sempre aberta às tarefas dos abnegados, tantos são os sofrimentos que se espalham pelo orbe. Se o indivíduo crê em que sua melhoria no plano da espiritualidade depende desse esforço caritativo e, ao mesmo tempo, seus critérios de análise do comportamento lhe provocam a suspeita de que mais poderia fazer, de igual modo que se dá no setor dos trabalhos remunerados, também no âmbito do companheirismo humanitário cria ele um fator de estresse, pela ânsia de vir a se dedicar com maior proveito à minoração dos males alheios.
Entretanto, tal procedimento pode ser eliminado da consciência, ainda que se acuse o sujeito de não proceder em inteira harmonia com o ideal postulado para o efeito do progresso. Como fazê-lo? Simplesmente favorecendo o concurso de ajuda dos espíritos protetores, a quem cabe dar as orientações para a correção das atitudes, o que significa dizer que aquele que deseja doar-se para os semelhantes, também tem de saber receber a dádiva dos que algo mais lhe possam propiciar.
Não estamos querendo estimular outra espécie de ansiedade, qual seja, a provocada pelo desejo de aperfeiçoamento constante no campo da benemerência passiva. Queremos, sim, que o amigo reflita a respeito da inexorabilidade da passagem do tempo, de modo que adquira a noção da eternidade, percebendo na criatura o ser independente do vestuário carnal ou perispirítico. Não se trata de pensar como será daqui a um, dez ou cem anos. Trata-se de admitir que os sentimentos têm de conquistar a perfeição agora, dentro da capacitação que as condições ambientais estruturam.
Se a comparação dos atos que você é capaz de realizar com os feitos das pessoas que você mesmo considera melhor dotadas lhe demonstrar a sua inferioridade, que isso sirva de estímulo para o exame do ser que você é, no sentido de tomar as providências mais corretas do ponto de vista evangélico, para se transformar em entidade de luz. É dentro dessa perspectiva que a ansiedade sempre haverá de ser um tópico causador de empecilhos, além de cabalmente demonstrar que você está preso aos princípios menos sadios de uma congregação social constrangedora, a qual tudo lhe cobra e pouco lhe retribui.
A ansiedade, a depressão, a angústia e demais reações de natureza aviltante da personalidade são defeitos a serem extirpados, o que poderá parecer, inclusive, contraditório, uma vez que os que estão sob o domínio delas vão, em vivo círculo vicioso, gerar mais ansiedade, depressão etc. No entanto, se dissermos que Jesus, como qualquer outro espírito superior, não se encontra sob o guante dessas desagradáveis sensações morais, não iremos sugerir que algo deve subsidiar a contextura elevada de sua personalidade, apesar de muito trabalhar em prol dos sofredores?
Quais serão as virtudes a serem propugnadas para a superação da dificuldade? Responda-nos você, prezado leitor, segundo o modelo que lhe pareça o mais condizente para facilitar o processo evolutivo de seu espírito. Se não tiver nenhuma idéia, poderemos pedir-lhe para pensar na fé e na esperança, porque a caridade não se pode fundamentar em nenhum propósito egoístico, já que, sem amor, a benemerência perde o significado moral. Qualquer que seja a sua resposta, produza-a em paz, na segurança de quem sabe que Deus é pai de infinita misericórdia e abre o seu coração a todos os filhos, oferecendo-lhes a assistência dos mais evoluídos.
Se a cada um se dá segundo as obras, é preciso saber que a caridade também se exerce para a própria pessoa, sem acusações e sem desculpas, apenas através do sacratíssimo desejo de ser cada vez mais perfeito. Se você for capaz de dizer: — Eu sou um filho dileto do meu Pai que está nos céus! —, também afastará de si os sentimentos opressores que a convicção da inferioridade lhe inculca na alma.
Medite sobre isto!



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UM PASSO ADIANTE

Temos cumprido um roteiro muito próximo dos livros estimulantes para o emprego do tempo em função do sucesso, como se dá entre os que se dedicam a produzir textos que visam à auto-ajuda dos leitores, segundo a moderna tendência neurolingüística. É claro que o fazemos com o nosso discernimento mergulhado nos conceitos espíritas que vamos absorvendo junto à Escolinha de Evangelização.
Queremos agora enfatizar outro aspecto dentro da mesma diretriz de apoio das determinações de melhoria do procedimento moral, qual seja, o de colocar o amigo leitor à vontade para abrir o coração e exprimir todos os problemas concernentes às pessoas mais próximas.
Quando estamos examinando a possibilidade de ingressar em uma congregação eletiva, como é a casa de atendimento evangélico espírita, cabe-nos analisar as possíveis reações dos familiares e dos amigos, no sentido de não ofender-lhes os princípios religiosos, por exemplo, como no caso de filhos que têm pais filiados desde há muito ao Catolicismo ou ao Protestantismo. Como nenhuma atividade deve ter o cunho declarado da subversão de valores, também não podemos recomendar que a freqüência ao núcleo espírita fique oculta por mentiras ou disfarces. Se houver a necessidade das explicações (o que julgamos que haja sempre, porque poucos são tão liberais a ponto de aceitarem que os parentes, no dizer deles, se percam ou se pervertam), que sejam dadas sem qualquer envolvimento emotivo, sem agressividade, sem a demonstração de que a cobrança dos demais esteja pondo em xeque a autonomia intelectual de quem está à procura da verdade, ainda que não se tenha firmado a convicção, uma vez que esta se adquire após imensa série de experiências, estudos e reflexões.
Como cada caso apresenta características muito próprias, generalizarmos as soluções não nos parece obter sentido lógico. Por isso é que solicitamos aos que se encontram em semelhante situação que compareçam perante os orientadores espirituais, intuitivamente ou em consulta durante reunião mediúnica de aprendizado doutrinário, para receberem conselhos particulares, a fim de que não se perca o generoso impulso do trabalho mental ou material em prol dos necessitados.
Bastaria isto para nos darmos por satisfeitos quanto ao tema em desenvolvimento, no entanto, é preciso que haja muita firmeza no propósito de acatar o disposto pelos consultores, mesmo que se dê a recomendação para que se postergue o início das atividades no seio do movimento espírita, porque, segundo o que podemos prever, estarão os protetores mais interessados em preservar a harmonia familiar (inclusive conjugal, em certos casos).
Daqui pode nascer a observação quanto à perda do tempo material.
Já fizemos referência ao fato de o próprio Allan Kardec ter dado início à sua peregrinação pelos conhecimentos produzidos mediunicamente por volta dos cinqüenta anos. Acreditamos que ninguém com essa idade continue sob a vigilância moral dos pais ou mesmo dos companheiros de lutas. Caracteriza-se o adulto pela responsabilidade com que administra a própria vida, participa do crescimento espiritual dos parceiros e administra a educação dos mais novos. Em todo caso, em havendo resistências quanto à freqüência aos Centros Espíritas, ao menos que se procure a concessão dos demais para as leituras mais importantes. Cremos estar chovendo no molhado, se os próprios frustrados é que estão perlustrando estas páginas.
Por outro lado, caso se sinta algum titubeio, quanto às crenças tradicionais, nas pessoas do círculo de possível influenciação, que sejam convidadas para partilharem da aventura da descoberta dos conhecimentos e valores estabelecidos pela espiritualidade, o que seria o mais justo e compreensivo, no sentido de se manter o bom relacionamento íntimo. Talvez se surpreenda o amigo com as reações positivas e com a capacidade de discernimento de quem já meditou a respeito dos problemas espirituais, a partir das perguntas de praxe: quem sou; de onde vim; para onde vou?
Não há que ver: se não for agora, mais tarde, todos irão encontrar-se no ambiente etéreo, uma vez que as pessoas que se congregaram em família, se não se amam verdadeiramente, vão ter de fazê-lo em função das recomendações do Cristo. Não é verdade? Eis um bom argumento para se desfazerem os mal-entendidos e a má vontade dos que agem com prepotência sentimental ou que se impõem pela inadequação dos princípios que se propugnam fundamentados na benquerença e no perdão, em perversa chantagem emocional. Apesar de Jesus ter consignado que veio para separar os pais dos filhos etc., portando a espada da verdade e o escudo da virtude, ainda assim optamos por recomendar prudência para a manutenção da paz no lar.
Toda atividade moralmente honesta haverá de somar no momento em que existir tempo para o aprendizado dos conceitos espíritas. Que sirvam estas observações como parâmetros no aconselhamento que cada pessoa vinculada ao Espiritismo quotidianamente se vê na contingência de ministrar.



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PERANTE UMA FOLHA EM BRANCO

Muito freqüentemente, os companheiros médiuns se deixam envolver por problemas de caráter material, de sorte que ficam distantes do ponto de magnetização desejável para se configurar a melhor condição de intercâmbio dos fluidos e correntes energéticas, com a finalidade da transmissão das mensagens.
É também costumeiro que, à vista do diapasão vibratório do emitente, em sendo reconhecido como de baixo teor moral, os encarnados se subtraiam ao serviço, temerosos de envolvimento sutil nas malhas de ardilosa argumentação, a qual, no momento, não teriam meios de refutar, dada a insistência obsessora com que atuam os espíritos menos perfeitos. É claro que estamos a referir-nos ao trabalho escrito (mesmo em mesas coletivas), porque a manifestação oral sempre apresenta a possibilidade de catequese pelo dirigente da sessão.
Mas que fazer quando o trabalho não se realiza e a folha permanece em branco?
Não mais do que confiar em que os protetores estejam empenhados em suplantar a falta de vigilância do encarnado, passando-lhe, através da intuição, as causas e as soluções do problema. Quase sempre, ao término da reunião, quando os parceiros tomarem conhecimento da participação infrutífera, terão sido dadas as explicações para o desperdício das qualidades anteriormente comprovadas. Quando o grupo é coeso e se mantém equilibrado, a compreensão da ausência da mensagem não repercutirá como de afastamento dos mensageiros. O pessoal terá discernimento para conceber a idéia de que muito pior teria sido a segunda hipótese, qual seja, a de que poderia ter havido uma escrita malévola, sem a prescrição oportuna dos tópicos doutrinários mais propícios à orientação do espírito malfazejo.
Todo o cuidado, entretanto, se recomenda, no sentido de que não venha a se tornar useiro o servidor em favorecer o desleixo mediúnico, pela necessidade de preocupar-se com seus problemas, tanto se encontra envolvido emocionalmente, como no caso de doença em família, de perdas subitâneas de posses ou do emprego, fatos realmente graves que recomendariam que não se juntasse aos demais ao derredor da mesa, mas que ocupasse um lugar na platéia, para a meditação compartilhada com os beneméritos espirituais. Em último caso, se a turbulência moral for excessiva, recomenda-se que o sofredor nem compareça à reunião mas que assista às palestras e receba os passes de revigoramento dos fluidos em desarranjo.
Nessa situação mental, a maior necessidade é a de revitalizar a crença nos amigos dos dois planos aptos a ministrar os conselhos ou a compreender a extensão da dor, oferecendo o resguardo da prudência ou a expressão dos melhores sentimentos, discutindo, quando for o caso, os pontos polêmicos questionados pelo médium, para que se faça a luz, segundo a teoria espírita e os ensinos cristãos.
Em havendo boa vontade, ainda que não sejam afastadas as razões materiais, o médium encontrará disposição para apanhar os ditados que lhe estavam destinados, porque os amigos da espiritualidade possuem recursos energéticos próprios para condensação fluídica capaz de fazer o trabalhador imergir em si mesmo, esquecendo-se dos traumas que o fizeram alhear-se anteriormente. Se pudéssemos buscar exemplos na experiência deste que nos serve, iríamos pontilhar a dissertação de casos em que se manteve longe por semanas, tendo regressado em plena atividade, jamais volvendo ao seio da família sem algumas linhas em que se explicavam as reações íntimas, para tranqüilidade dele e dos demais.
Para finalizar, ressaltaremos o fato de que, sempre, os benfeitores irão pronunciar-se a respeito da condição sentimental ou intelectual do mediador, bastando que dê curso aos pensamentos que lhe surgem, registrando-os ainda que de maneira precária. Dessa forma, terá em que se apoiar para as reflexões mais profundas, quanto ao auxílio que estará negando, predispondo-se, em seguida, a voltar para a próxima sessão com entusiasmo renovado.
Afinal de contas, a espiritualidade, quando em harmonia com as diretrizes do Senhor, não terá pressa jamais em apresentar o fruto de suas pesquisas, porque sabe muito bem que, seja qual for o desenvolvimento textual sob sua responsabilidade, sempre se encontrarão, na literatura mediúnica, mensagens de maior concentração teórica, de maior beleza de linguagem, de mais adequada ajuda aos leitores. Não é verdade que o primeiro a quem se dirigem os comunicadores é o próprio médium? Pois, então, que se estabeleça a prioridade do trabalho nessa observação e se meçam os conselhos pela momentânea fragilidade moral, filosófica, científica ou religiosa do mediador.



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O TRABALHO EM SI

Não é muito o que podemos acrescentar para melhor caracterizar a satisfação que deve envolver todos os momentos das atividades benemerentes de quem se dedica ao auxílio dos semelhantes, por amor deles e de Deus. Adquirida a certeza de que nenhum pensamento ou ato possa machucar o objetivo evangélico, haverá mansuetude no coração de quantos aspirem a cumprir os altos desígnios do Senhor para as almas mais puras.
Não estamos, é evidente, falando dos espíritos excelsos, cuja ascendência moral sobre todos nós é gritante. Referimo-nos aos homens comuns que compreenderam as palavras de Jesus e os ensinos da doutrina espírita e agem em consonância vibratória com seus anjos guardiães, sob amparo da plêiade dos espíritos evoluídos, cuja mentalidade está devotada ao bem comum, seja na Terra, seja na dimensão em que se encontrem.
O título do texto pode fazer pensar em que deva haver sacrifícios na prática do amor, porque o termo trabalho se enche de conotações específicas do relacionamento profissional dos humanos. Mas fizemos de propósito chamar assim a todas as atividades físicas (materiais) ou psíquicas (espirituais), como seja tudo aquilo que deve o pai providenciar para o conforto e o bem-estar dos filhos, por exemplo. Trabalhar, nesse sentido, é tornar o ambiente doméstico o mais feliz possível, não faltando jamais a compreensão e a sabedoria, ainda que faltem a comida e o agasalho.
Eis que vamos ampliando o significado destas manifestações, a ponto de canalizar para elas os mais altos pensamentos filosóficos e religiosos, de forma a cercar o materialismo consumista do século com o ideal de fraternidade humanitária que reina nas esferas mais evoluídas. Se vamos alcançar ou não esse maiúsculo desejo dos avatares (espíritos superiores encarnados em missão), é de menor importância, porque não mantemos a ilusão de infiltrar-nos nos corações de todos os homens, como também aqueles não conseguiram. Aliás, se lográssemos feito tão admirável, não encontraríamos o que fazer, porque haveria tão-só a ressonância desta aspiração cristã, instalados que estariam neles os conceitos universais das virtudes e das leis de Deus.
Estamos executando, porém, a nossa tarefa, o que necessariamente significa que consideramos que muito há para realizar-se neste campo missionário, porque a humanidade se renova em ondas de gerações de espíritos imperfeitos, os quais se encarnam para o reencontro com a dor com vistas à expiação, quando se purgam os defeitos e os vícios. O que nos estimula a esta peregrinação pelos ensinamentos do Cristo são os acréscimos que os encarnados vão acumulando junto aos débitos anteriores, tantos são os infelizes que mergulham fundo nos crimes mais hediondos ou nos costumes mais bárbaros, desrespeitando o direito do próximo à evolução; tantos são os processos postos em prática para a coação intelectual e sentimental.
Se é verdade que, dia a dia, a humanidade vai descobrindo como melhor aproveitar os recursos da matéria, para o desenvolvimento das técnicas aplicadas à indústria do conforto, também não podemos olvidar que muitos seres vão dar com os costados nos cemitérios, sem extraírem nenhum proveito da encarnação, por causa do muito rancor que sedimentaram em suas almas. É justamente esse o ponto que gostaríamos de destacar, para que a nossa participação junto ao mundo dos mortais possa obter algum sucesso, sempre no sentido de facultar aos leitores a prerrogativa das considerações metafísicas, desligando-os das estruturas sociais contingentes.
Sempre haverá de ser melhor ligar-se o indivíduo às religiões de culto exterior, a não aceitar a vida espiritual como normativa para o procedimento mundano. Entretanto, o trabalho religioso ou filosófico deve ser vigiado de forma muito estreita, para que não se confundam os fiéis e solicitem ao Criador apenas vantagens de caráter físico, eliminando das preocupações os ganhos evangélicos necessários para o progresso no âmbito da espiritualidade, após o desenlace carnal. Se se sentir melhor aquele que se dedicar às oferendas financeiras solicitadas pelos sacerdotes e pastores, ótimo para ele. Todavia, alertamos para o fato de que deve estar atento para o emprego daqueles recursos em obras de benemerência, para soerguimento dos que sofrem as desditas da injustiça social, porque transferir a responsabilidade do desvio dessas dádivas aos que as pedem e recebem poderá representar, futuramente, uma aflição de caráter moral, por se haver facultado a alguém o desperdício das oportunidades de melhoria.
Ser bom, ser honesto e ser caridoso; ter fé, ter esperança e ter comiseração; espargir amor, espargir paz e espargir luz são trabalhos que honorificam os seareiros do Senhor, mas do serviçal exigem discernimento para a aplicação das diretrizes evangélicas mais condizentes com a necessidade dos irmãos. Por isso é que reforçamos a nunca esquecida solicitação de que nos perdoem o atrevimento, porque, na ânsia de fazermos o bem, podemos incidir em erros de apreciação quanto ao ponto de adiantamento daqueles que estimamos carentes de incentivos espirituais. Não se passa assim quando tornamos os dizeres complexos, através de terminologia sofisticada? Pois valha o exemplo para a reflexão do amigo, mui especialmente se trabalha em qualquer setor da sementeira espírita.



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MAGNETIZAÇÃO E PRECE

É de dupla mão o caminho aberto pelas orações, uma vez que o encarnado pede, suplica, roga e agradece, de acordo com a maior ou menor intensidade com que se manifestem os impulsos para se ligar ao Criador. Qualquer que seja o poder da fé, no entanto, ao lado dele se postam os protetores, que são amparados por corrente de espíritos cada vez mais adiantados, de sorte que a contrição com que é dita a prece vai estimular uma resposta de paz e de amor, que desce, em forma de bênção, dos círculos aptos à retribuição energética, em ondas de fluidos cósmicos de alta freqüência.
Por isso, nenhuma boa intenção se perde, obtendo resposta muitas vezes superior à própria condição espiritual do solicitante. O que não se pode esperar com convicção é o atendimento específico do rogo, porque, em sendo os espíritos elevados, têm conhecimentos de fatos que os próprios interessados ignoram, ao menos no estágio presente da consciência. Mas a resposta vem com acréscimos de benemerência, mais ou menos perceptíveis segundo a capacidade de compreensão do mortal, que dará aos eventos subseqüentes as conotações mais adequadas, tendo por base a natureza das realizações morais ou intelectuais, a partir dos pensamentos, sentimentos e intuições com que se depare na intimidade da alma.
Todo momento de oração corresponde a uma seleção de emoções, seleção favorável ao envolvimento do encarnado pelos fluidos que os protetores são capazes de condensar em torno de sua pessoa, como se o deixassem dentro de um globo preenchido energeticamente, a chamada magnetização, que tem dois objetivos: o de proteger quem se concentra em nome do Senhor do assédio das entidades interessadas em perturbá-lo, que sempre existem, gratuitas ou não; e o de possibilitar a integridade da recepção daquela bênção supra-referida.
Não são raros os casos, no entanto, em que, em virtude de o meio espiritual ser muito grosseiro pela influência de entidades muito imperfeitas, que emitem vibrações perniciosas, formando densa atmosfera de pensamentos impuros (sentimo-nos sem jeito para a descrição crua desse mal-estar produzido com o propósito de prejudicar os semelhantes, tão grande é o ódio que perpassa os corações dos que se julgam injustiçados), que muitos são conduzidos, durante o sono, para regiões menos perigosas, onde a assistência dos benfeitores se dá tranqüila, favorecendo o progresso merecido por quantos venham agindo segundo os preceitos evangélicos. Diria uma pessoa afeita aos pensamentos religiosos, que Deus é pai de misericórdia e sempre encontra meios de amparar os bons.
Resultante do presente desenvolvimento, acreditamos que os leitores devam prestar mais atenção (se descuidosos desse aspecto) nos sentimentos da hora em que se dirigem ao Pai ou a alguma entidade de superior condição para a devida intercessão. Levadas a sério as informações, há de decorrer daí uma série de reflexões, cujos elementos apenas se sugeriram, para oferecer aos amigos a oportunidade de desvendarem alguns pontos enigmáticos, ainda que estudem as obras de Kardec e outras mediúnicas.
Por exemplo, não é verdade que se desconfia, em geral, que as orações coletivas realizadas nas igrejas, templos, mesquitas, sinagogas e outros recintos sagrados, não alcançam a concentração mental requerida para o efeito da retribuição dos espíritos de luz? Não é esse o problema que se apresenta para quem não se deixa envolver pelas palestras e pelas solenidades transmitidas através da radiofonia e da televisão? Temos de esclarecer que, quando os indivíduos não estabelecem comunhão de sentimentos, os guardiães velam pelos pupilos, propiciando-lhes as mesmas condições de atendimento que oferecem quando se fecham em seus quartos para orarem em secreto, como recomendou Jesus.
Parece-nos que não haverá hesitação em concluir pela contaminação dos benefícios nos grupos mais coesos, em que os requisitos da humildade, da bondade e do amor ao próximo e a Deus estejam impregnando a maior parte ou a totalidade (o que é quase impossível) dos congregados. Nessa situação, ocorrem fenômenos magnéticos de muita beleza no círculo espiritual circunjacente, como se as bênçãos de Deus se condensassem em luz, em cores e em formas, demonstração física a evidenciar o congraçamento religioso entre as esferas, certeza que se adquire de que está o povo caminhando em segurança pelas sendas abertas por Jesus.
Eis que palmilhamos pela estrada dos informes de caráter mágico para quem está afeito apenas à realidade apreendida pelos cinco sentidos do corpo. Entretanto, se existir boa vontade para a concepção de que a vida também apresenta facetas intrigantes, difíceis de comprovação científica, como seja a coerente idealização de que outras dimensões existam em esferas de essências diferentes das corporificadas dentro da energia plasmada molecularmente para a formação do Universo tangível pelos aparelhos sensórios dos seres vivos, então a mente humana poderá abrir-se para a lógica da doutrina espírita, aceitando de modo pacífico os seus pontos principais: reencarnação, mediunismo e evolução espiritual.
A partir destas apreciações, não se louvem os que preceituam a transcendentalidade de todas as criações da imaginação. Tenham fé em que Deus ouve as preces compungidas e exerçam o direito da esperança de se sentirem felizes por praticarem o bem. O mais virá por acréscimo de misericórdia do nosso Pai que está no céu, conforme se registra nos livros sagrados do cristianismo.




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ESPIRITISMO E COMPETIÇÃO

Não temos acompanhado de perto os problemas de dissensão dentro do movimento espírita. O que sabemos extraímos da mente deste nosso mediador, de forma que, não tendo ele interesse em vasculhar os meandros das associações e federações, lendo tão-só um ou outro artigo do jornalismo especializado, não nos oferece subsídio para comentários sobre os acontecimentos. Mas vamos um pouco além nas considerações, tratando o fato em si.
Imaginemos que o médium estivesse impregnado por determinada tendência dentro da organização espírita secular (chamemo-la assim, data venia), como agiríamos nós relativamente às ânsias de apoio que se evidenciariam por parte do encarnado? Teríamos de fomentar a tendência à cisão doutrinária, para manter o trabalho ativo, em função dos itens programáticos da turma do plano espiritual, ou deveríamos exaurir todas as possibilidades de interferência na discussão, para lograr dissuadir o companheiro encarnado de se manter de guarda levantada contra os litigantes da outra facção?
Eis que se caracteriza a temática da mensagem, para provocar reações íntimas de exame, não das razões ou ponderações que tornam o ponto de vista do leitor plausível e, portanto, vencedor, porém, da desunião visceral que se promove no seio da comunidade. Qualquer briga no âmbito do espiritismo pragmático e operante repercutirá, necessariamente, no histórico das atividades de cada um, de sorte que, futuramente, a consciência irá cobrar, com o costumeiro rigor, o preço da ranzinzice, o estipêndio da má vontade, o salário da maledicência e as economias da inflexibilidade do egoísmo, do orgulho e da vaidade, porque não se deu a espórtula do perdão, a moeda da solidariedade, o dízimo da fé em que a justiça do Pai sempre há de prevalecer sobre a vontade das criaturas.
A sociedade, como está estruturada hodiernamente, estabelece por princípio que haja competição para existir progresso. Sendo assim, valoriza em excesso o esquema egoístico de defesa dos interesses pessoais ou de grupo, em evidente descompasso com as palavras de Jesus, que propugnou, inclusive, que os inimigos convivessem em derredor de um ideal comum, qual seja, o amor a Deus e ao próximo, para que prestes tivessem o ensejo de verificar que o progresso de todos está fundamentado na ajuda integral de uns para com os outros, o que somente se pode alcançar se desaparecer a figura do adversário, do desafeto, substituída pela do parceiro, do amigo, do coadjuvante da obra do Senhor.
Arder no fogo do inferno é figura medieva, quando os religiosos acumulavam os poderes canônico e temporal, com domínio absoluto das consciências, de forma que se exortava o povo através do ostracismo religioso dos dissidentes, quando não eram queimados, desde logo, em praça pública, ou arremessados no rio, com um conveniente peso amarrado às pernas, mantendo-se a promessa dos caldeirões de azeite fervente.
Pode parecer muito rigorosa a comparação, mas é mais ou menos isso o que se passa na atmosfera mental dos companheiros em litígio, todos ávidos pela oportunidade futura de se tornarem os missionários da luz que promoverão a descoberta e a redenção dos rivais de hoje, lá no ambiente lúgubre das trevas. E não haverá ninguém de nos desmentir, que foi exatamente assim que agimos e demos com os nossos burros e toda a nossa carga na água revolta do amor-próprio elevado megalomaniacamente às paragens da mais nociva noção de superioridade pessoal. Mas não há de ser pela confissão do erro que se achará a desculpa dos que se viciam, contumazes, na arte de viver perigosamente nos limites da provocação evangélica.
Perdoe-nos você para quem o tema não diz respeito. Mas, caso não tenha pensado suficientemente a respeito, que julgue oportuno fazê-lo a partir das presentes instigações, preparando-se convenientemente para as querelas a que todos estamos sujeitos no dia-a-dia das atividades junto a pessoas de formação intelectual, emocional, social, psíquica, religiosa ou cultural distinta da nossa. Será que estamos imunes da aquisição de antipatias, tendo em vista o teor das proposições? Quanta gente não haverá que esteja pensando que deveríamos cuidar de nossa evolução, ao invés de enviarmos mensagens enfronhadas no comportamento dos encarnados, como se estivéssemos preocupados mais com o cisco alheio do que com a trave que nos ofusca a visão.
Abre-se a perspectiva textual para ponderações relativamente a nós mesmos iguais às que preconizamos no início da dissertação, ou seja, não terão justas razões quantos nos acusarem de intromissão no procedimento sob responsabilidade exclusiva de quem age em função das prerrogativas do livre-arbítrio? Que autoridade arvoramos nós para manter o tom discursivo pelo diapasão da pregação moral?
Fiquemos assim: tudo em que estivermos incidindo em erro, podem os leitores apontar, sem medo de causar contrariedade a nenhum elemento do grupo. Em contrapartida, que sejam acatadas as recomendações de prudência no disparar de farpas contra as idéias alheias, pelo receio fundamentado de acertar-lhes o coração. Que são algumas colocações não rigorosamente filiadas ao pensamento espírita, perante milênios de obscurantismo, quando os valores que subsidiavam o proceder humano propunham a execração pública e o expurgo, chegando-se ao extremo da excomunhão, ou seja, de se fecharem para sempre as portas da casa de Deus aos infelizes?!
Tolerância e simpatia se juntam para o efeito de se reconhecerem os méritos da coragem e da inteligência, que sempre alguma boa qualidade todos temos, ainda que não defendamos pontos de vista compatíveis com a doutrina dos espíritos superiores. Um dia qualquer, todos chegaremos lá e nos reuniremos sob as bênçãos do Pai. Nós pagamos para ver.



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QUANDO O HÁBITO NÃO FAZ O MONGE

Sempre que se predispõe ao trabalho junto à mesa de reuniões espíritas, o médium tem a sensação de ser a primeira vez que é envolvido pelo magnetismo dos protetores. Conta a seu favor longa história de sucessos? Pois a sua toga não lhe dá o direito de escolha dentre os que o procuram para o serviço de mediação entre os planos.
É evidente que, por imposição dos benfeitores, tendo em vista que o terrestre se enquadra em bom núcleo de seareiros, como vem respeitando as diretrizes de comportamento moral superior, nunca lhe há de faltar assistência, mesmo quando o mensageiro não seja o melhor dotado das qualidades evangélicas.
Não é verdade que, nas sessões de desobsessão, os problemas só não se agravam porque o ambiente se mantém em freqüência de alta solidariedade com os sofredores? Não se encontram casas espíritas em que se age por amor do Pai e, portanto, em favor dos necessitados, que sejam assediadas pelas turbas furiosas dos espíritos perversos. É que se forma uma proteção magnética em torno dos trabalhadores, segundo o padrão vibratório dos espíritos guardiães melhor formados nas diretrizes da benemerência cristã, impedindo que se degenere a sessão, perturbação que ocorre, por exemplo, nas reuniões cujos objetivos sejam a desordem moral ou a falência intelectual.
Contudo, têm acesso garantido as entidades que buscam esclarecer os afilhados, desde que os conduzam com a prudência que cada caso está a exigir, o que vai desde as recomendações pessoais mais mansas e conciliadoras, até às amarras e presilhas do forçado, pois, para tanto, existem recursos de coação, inclusive para sedar os que se alucinam no desespero das descobertas mais dramáticas.
Do ponto de vista do médium, recepcionar um ser tão carente significará estar em franca decadência de imantação ou evidenciará que está sendo abandonado pelos amigos individuais? Se forem esses os sentimentos suscitados em tal situação, então, deve preocupar-se, porque estará falindo na confiança que deve depositar na assistência jamais negada anteriormente. Ao contrário, a partir desta descrição dos cuidados do grupo dos espíritos, deve concentrar-se o colaborador encarnado no atendimento mais pronto possível dos sofredores, porque está a merecer proteção muito especial.
Não se pode pretender selecionar as comunicações, como não se pode fazer restrições aos trabalhos mediúnicos nem estabelecer quem, onde e quando se dará a transmissão das mensagens etéreas. Quem desse modo estipular o critério, assumindo a responsabilidade da condução dos serviços e dos servidores, se não acatar as advertências que, com certeza, irá receber, vai terminar em pleno animismo, quando não nas mãos dos obsessores.
Estas recomendações vêm a propósito da comunicação anterior, quando desenvolvemos a tese de que a união entre as pessoas espíritas deve prevalecer sobre as opiniões. Quem nos ler ingenuamente, concluindo que estaríamos limitando a peroração ao âmbito doutrinário, deve buscar expandir os pensamentos para todas as situações de conflito, porque as discussões teóricas sobre aspectos específicos da filosofia ou da ciência espírita pouca coisa representam em matéria de sobrecarga de consciência para purgação no Umbral. Utilizamos o recurso de falar a respeito de uma situação única, com o objetivo mais ou menos claro de estimular o leitor a transferir o texto para situações mais pungentes, atingindo a culminância das guerras entre os povos. Se as Trevas estão reservadas para os figadais inimigos dentro do movimento espírita, o que se destinará para os homicidas e demais criminosos?
Estamos prevenindo os médiuns, porque poderão enfrentar textos que não dizem tudo definitivamente ou o fazem metaforicamente, na esperança de causar reflexões mais abrangentes, para que o ensino se aproxime das luzes dos mestres, na esteira da verdade evangélica espargida pelo Cristo—Jesus. Valha-se você das leituras das obras de Kardec, onde a metodologia e a epistemologia se conduzem de maneira científica, talvez um pouco arcaicas desde que fundamentadas nos roteiros dos meados do século XIX, mas sempre rigorosas na descrição dos fenômenos e na prescrição das atividades.
Teria este nosso médium disposto que o teor da comunicação se vincasse exatamente pelo modo que se realizou? Diz-nos ele que não gosta de se ver metido na estrutura temática e que, por isso, se sente coagido a divagar, perdendo a concentração. Entretanto, cá estamos dando seqüência ao ditado, elidindo a dificuldade, pondo a mente do médium em condições de receber o influxo de nossos pensamentos, segundo o prisma emocional que nos estimula ao trabalho, para que os termos se registrem o mais próximo possível das vibrações próprias da natureza espiritual de nossa personalidade. O monge está vestindo o seu hábito, mas, se o retirar, não perderá a condição de médium.



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TÓPICO IMPORTANTE

Ao nos referirmos à necessidade das leituras, já apontamos as obras da Codificação de Allan Kardec como imprescindíveis para o conhecimento da Doutrina dos Espíritos e a extensão dos temas desenvolvidos pelo mestre. Ponto característico da filosofia que se impregna no saber mesclado de cristianismo e cientificismo é o item da perene evolução dos seres, situando-se os humanos em patamar acima de muitas outras criaturas, notadamente as que se denominam de irracionais.
De fato, conjugam-se o evangelho de Jesus e as teses evolucionistas dos séculos XVIII e XIX para o efeito da necessidade das práticas mais saudáveis para o corpo e para a mente, caso se pretenda que a espécie humana progrida, bem ainda os espíritos, no âmbito da moralidade superior, aquela para oferecer melhores recursos a estes, à medida que se vão fixando no íntimo dos seres as virtudes mais elevadas. Caso a raça humana degenere (o que jamais ocorrerá ao setor espiritual), por força dos vícios e da contaminação ambiental pelos elementos mais nocivos à vida, haja vista os casos de crianças de malformação cerebral, aí deveremos todos nós correr atrás dos prejuízos, rogando aos mentores galáticos (e não mais planetários) que nos permitam migrar para outros mundos corpóreos, no intuito de restabelecermos as condições ideais que ainda possuímos na Terra.
Voltando aos escritos de Kardec, a visão do pedagogo francês, com certeza influenciado pela convivência com as crianças e os adolescentes, se fortificou na crença de que, com a melhoria da civilização em seus aspectos materiais através das descobertas e das invenções, os povos iriam capitalizar os ganhos intelectuais e morais, estabelecendo-se de maneira mais igualitária, mais fraterna e mais livre, segundo os padrões revolucionários de sua pátria, de sorte que não mais divisava na linha do futuro do que o aperfeiçoamento das instituições e a felicidade dos encarnados.
Hoje, com a perspectiva histórica dos últimos cento e cinqüenta anos, podemos ser menos otimistas relativamente à facilidade com que se aproveitarão os encarnados dos avanços tecnológicos que caracterizam o momento atual, porque os que vão adquirindo as virtudes maiores vão recebendo oportunidades de ocupação existencial em dimensão menos votada à dor e ao sofrimento, o que ocorre muito freqüentemente aos moradores deste planeta.
Quer dizer que a evolução humana é uma falácia?
Absolutamente não! Recusamo-nos a admitir que Kardec pudesse estar errado, ainda porque recebia o influxo das informações de Espíritos muito adiantados. Contudo, temos de reforçar a idéia de que qualquer progresso de caráter moral depende exclusivamente do próprio indivíduo, porquanto exige dele que estude e que pratique, segundo o preceito estabelecido pelo Espírito de Verdade: primeiro amar e depois instruir-se. Ora, a assimilação integral dessa verdade evolutiva não se dá de um século para outro. Basta possuir uma noção do valor da prédica do Cristo e comparar com o que a Igreja que se estabeleceu em nome dele realizou ao longo destes dois milênios, para concluir que a Doutrina Espírita irá enfrentar a dureza da mentalidade rústica dos encarnados sem escolaridade, sem que precisemos fazer referência à baixa condição material da grande maioria.
De início, falávamos a respeito das leituras necessárias. Agora estamos demonstrando que são poucas as pessoas aptas a realizá-las com grau de aproveitamento excelente. Por isso, vicejam as seitas e cultos menos intelectualizados, justamente aqueles que prometem aos fiéis a cura dos males físicos e o ingresso diretamente no reino do Senhor, mediante a aceitação da palavra bíblica, que se repete sem exame de caráter científico, rejeitando-se a necessidade de reencarnação para aperfeiçoamento e expurgo das mazelas atuais.
Quem se dedicar com afinco aos textos de Kardec (para só citar os mais importantes) irá, talvez, aborrecer-se com a insistência do mestre em que a responsabilidade do evoluir não pode ser atribuída a outrem. E se você, bom amigo, está duvidando de que esteja tão remota a transformação da Terra em paraíso carnal, com certeza será porque está bastante avançado no palmilhar da estrada estreita dos sacrifícios em prol da humanidade, encontrando-se, desde já, feliz pelo entendimento superior das leis cósmicas, a ponto de merecer a luz dos benfeitores espirituais da categoria dos que deram assistência ao Codificador. Ao contrário, se você se limitar ao conhecimento de textos como os nossos, é bom realizar um extenso exame de consciência, porque é quase certo que esteja perdendo o seu precioso tempo.
Então, para que servirão estas lúgubres dissertações quanto ao destino individual e coletivo dos homens?
Talvez para fornecerem subsídios para as suas próprias reflexões, no preparo das aulas que esteja cursando em alguma casa de assistência espírita. Pensamos que, neste aspecto, estamos realizando um trabalho honesto e conciso, apropriado para a seriedade das discussões pungentes que se travam quando o tema busca a sabedoria segundo o prisma das informações etéreas. Ou não?



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PERVERSIDADE SUTIL

Não temos muita certeza da necessidade do desenvolvimento deste tema, tão bons têm sido quantos nos vêm apoiando em nosso trabalho, inclusive pelas leituras prévias dos rascunhos e pelas sugestões para melhoria dos textos. Iniludivelmente, o resultado de qualquer mensagem mediúnica, após a configuração gráfica e a impressão, adquire aspectos francamente materiais, de sorte que, como qualquer produto humano, passa a integrar o conjunto dos bens culturais de que dispõe a sociedade. Ora, nada que se tenha em mãos deixa de ser avaliado, ainda que nos aspectos meramente formais, como a qualidade do papel, o esmero editorial, a correção ortográfica, a lisura doutrinária e demais itens que soem preocupar os críticos encarnados.
Se fôssemos ficar atentos para todos os tipos de observações, dificilmente iríamos estabelecer este vínculo lingüístico com a inteligência dos encarnados, restringindo-nos às informações passadas de forma intuitiva, pensamento a pensamento, no íntimo das mentes e dos corações. Entretanto, cá estamos arriscando tudo, ao confeccionarmos as mensagens e ao transmiti-las, submetendo-as ao processo mediúnico, o qual, por menor perturbação que ocorra, sempre haverá de filtrar os elementos, retendo alguns na malha da magnetização nunca completamente perfeita, de forma que os dizeres vão estabelecer, de certo modo, as nuanças admitidas pelos médiuns como imprescindíveis para o bom desempenho dos companheiros do etéreo e outras que eles mesmos não consideram de forma consciente, tão intimamente integradas estão às suas personalidades.
Quer dizer que este mesmo texto está eivado de imperfeições devidas às deficiências do instrumental de que nos servimos?
Certamente, como ainda possui méritos que não se podem atribuir aos autores do plano da espiritualidade.
E a que vem a perversidade do título? Estariam os deste grupo descontentes com as interferências subjetivas do trabalhador humano?
Bem longe disso. O nosso sentimento está muito mais próximo da alegria e da felicidade do que das agruras provocadas por percalços e deturpações das idéias que viemos compor em forma de dissertação. O que nos afeta profundamente é a incidência crítica dos encarnados que não mantêm o compromisso de estudar as teses espíritas com todo o rigor que vimos apregoando como necessário para ascender intelectualmente às esferas subseqüentes, onde o conhecimento é a moeda corrente para o exercício pleno da cidadania.
Dissemos que agradecemos a ajuda dos amigos que se integram no grupo, coesão que se estabelece em todos os sentidos, para que todos possamos progredir através da assimilação das lições dos mestres e do desempenho das tarefas que nos são designadas como as mais propícias, de acordo com o nosso ponto evolutivo. Eis que revelamos um dos tópicos mais importantes para os que freqüentam instituições educativas como a nossa Escolinha de Evangelização, em claro encaminhamento das reflexões do amigo leitor para a aplicação inteligente dos conceitos às próprias atividades, em todas as situações de vida, seja no relacionamento fraterno, seja na vinculação comunitária, seja na solidariedade universal, como ainda nos contatos com as entidades da espiritualidade, pela prece aos sofredores ou pela solicitação de auxílio aos amigos e demais guardiães.
Caso estas informações não repercutirem como verdadeiras na mente ou no coração do leitor, caracterizar-se-ão os movimentos vibratórios de não-adesão aos sentimentos e pensamentos dos comunicadores, convertendo-se a crítica em desagrado, em antipatia ou em franca repugnância pela disposição das idéias, segundo a freqüência fluídica em descompasso com a do encarnado. Então, mesmo que não sejamos culpados pelo resultado díspar das reações almejadas; ainda que o mediador se tenha esforçado ao máximo para interpretar todas as ondas de transmissão, unindo-se a nós pela energia que põe a nosso serviço, abrindo os recessos da memória para que possamos selecionar os dizeres e a contextura das frases, reunindo as forças em prol da melhor tradução das mensagens; posto que o leitor tenha vindo com o máximo de boa vontade para conhecer os temas que desenvolvemos, porque sabe que a perda de tempo significará para qualquer de nós grave ônus, entravando-se o progresso; apesar de tudo, as desconfianças de que podemos estar sendo enganados ou estarmos enganando-nos a nós mesmos, mensageiros, médium ou leitor, irão sedimentar uma atitude negativa assaz sutil em sua perversidade, porque põe em segundo plano a esperança, a fé e a caridade, olvidados quase por completo a misericórdia divina e todo o trabalho de cooperação evangélica dos espíritos de luz.
Não seremos entendidos plenamente, porque todos os vícios de transmissão e de recepção se contêm no texto resultante deste esforço. Mas o que precisamos enfatizar é que a felicidade deve provir da consistência existencial de cada um, na convicção pelo intelecto, sem distúrbios emocionais, de que somos a obra sagrada de Deus, na qualidade de criaturas provindas do Verbo, embora cristalizados momentaneamente pela rigidez corpórea (inclusive perispiritual) que obriga os espíritos a preocupações transitórias, como se em dormência estivéssemos. A liberdade que preconizamos não se fará à força, em nenhuma circunstância ou ambiente, mas se produzirá com naturalidade, como o fruto que germina sempre após a maturação do caule, na estação mais apropriada, segundo as suas próprias características.



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TRABALHANDO NOS BASTIDORES

A maior parte do pessoal que se oferece às atividades de ajuda nos centros espíritas fica na retaguarda, possibilitando a que uns poucos se destaquem pela performance administrativa ou pela pregação doutrinária. Os que se especializam nos mecanismos da mediunidade se sentem propensos ao recolhimento, porque rejeitam a suspeita de que tenham méritos especiais, em virtude de prestarem um serviço passivo, do qual pouco há para vangloriar-se.
Entretanto, em derredor da mesa de reuniões dos médiuns, os companheiros sabem muito bem quem melhor capta as mensagens, no sentido de propiciar aos benfeitores mais adiantados nas sendas dos conhecimentos espíritas a oportunidade de manifestarem as suas preocupações e o seus incentivos, com vistas a que o grupo se aperfeiçoe, adquirindo condições de variar o mais possível o atendimento evangélico.
Podemos dizer que, mesmo os mais ativos e os mais arrojados, porque muitos existem que não se perturbam com as falácias dos imperfeitos, dos gozadores, dos arruaceiros, sabem muito bem que aqueles irão receber dos guias da casa (permitam-nos a terminologia pouco comum nos centros kardecistas) a raspança que se faz recomendável, pelo grau de dificuldade que a participação provocou. Esses irmãos falastrões desafiam o recato e se mostram de corpo e alma, para a felicidade dos que se contentam em atuar de maneira discreta, dando-lhes a faculdade de se permitirem calar, já que existe quem domine o ambiente.
Eis que construímos uma realidade bastante freqüente nos recintos de confraternização espírita, onde a maioria silenciosa, após cada atividade, se despede dos parceiros com desejos muito precisos de se tornarem integrados no grupo, sendo aceitos e mesmo solicitados, porque a função assistencial do movimento requer as habilidades mais diferençadas.
É de todo plausível que os mais prudentes permaneçam em segundo plano, isto no que diz respeito aos relacionamentos de caráter social. Todavia, temos de proclamar que todos os que labutam em prol da harmonia e da paz, sempre que sentirem que algo está a demandar alguma atitude mais drástica dos responsáveis, deve levar o tema à discussão do setor envolvido, para que o problema não cresça e não venha a causar transtorno de monta.
O sucesso dessa participação, no entanto, não deve acender ganas de imitação dos extrovertidos, porque a dinâmica do grupo está assente nas personalidades evidenciadas, devendo permanecer na obscuridade quem não possui o traquejo das observações sagazes e oportunas, para que não ocorra de se sentir diminuído por eventuais fracassos conceituais, fato que preceitua ao tímido que examine a consciência para a condenação da ousadia, havendo, inclusive, o risco de se envergonhar a ponto de abandonar a casa, o que haverá de ser um desastre, tanto para ele mesmo, que incrementará o sentido negativo do que tenha realizado, como para os demais, que se julgarão culpados por não se terem prevenido quanto à susceptibilidade emocional do companheiro.
Se analisarmos detidamente a presente dissertação, veremos o quão rudimentar é ela, distante dos parâmetros que nortearam a confecção das anteriores e paupérrima quanto às noções espíritas, porque não demos ênfase aos elementos morais subjacentes, com claro relevo das atitudes e procedimentos mecânicos, como se os ensinamentos de Jesus e os de Kardec se ofuscassem, na tentativa da valorização do comportamento estereotipado pelas excelências sociais, segundo as prescrições dos costumes dos encarnados. Não falamos em amor, em respeito ao direito alheio, em justiça, em compaixão, em perdão... Falamos tão-só em trabalho, como se as leis se resumissem em um dogma único, esquecidos de que existem vicissitudes humanas que impedem superior desempenho em qualquer ramo de atividade, embora exista boa vontade e espírito de cooperação.
Deveríamos ter ficado na penumbra, permitindo aos mais desenvoltos que se manifestassem através do costumeiro brilho intelectual. Eis que personalizamos a contradição em nós mesmos, porque nos posicionamos nas últimas fileiras, vindo, porém, à frente para observações infelizes, porquanto o resultado da redação não propiciará ao leitor que se imagine na condição de mensageiro, de palestrante, de dirigente, de organizador, neste sistema de prévia crítica, a desencorajar os tímidos, justamente os mais necessitados de apoio emocional, porque lhes falta a confiança nos próprios dons; dons que todos temos igualmente em potencialidade, porque somos todos irmãos por parte de Deus.
Mas vencemos a barreira inicial, ajudados que estamos sendo por todos, numa demonstração de que agora será possível raciocinar sobre algo concreto, como a composição em vias de encerrar-se. As idéias não adquiriram coesão segundo a temática proposta? Haveremos de restaurar cada mínima intuição, promovendo-a a pensamento acrisolado no cadinho da meditação filosófico-doutrinária, pelos padrões metodológicos que nos foram ensinados. A conclusão do texto aponta para um grau de perfeição mais elevado do que o desenvolvimento havia deixado expresso? Reformularemos a lógica do encadeamento silogístico e providenciaremos para que não se imiscuam insinuações a respeito de maquiavelismo, por força de termos o caráter evidentemente prejudicado pela notoriedade que vamos ganhando através da formulação das mensagens.
Voltaremos para a coxia e nos adaptaremos ao serviço importante, porém, obscuro de apontar as falas das personagens aos atores em cena. Não é justamente assim que o leitor esperava que encerrássemos o texto?



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PERANTE AS TENTAÇÕES MUNDANAS

Não tenha o leitor a falsa impressão de que estamos tentando transformá-lo num santo, nem que aspiremos a evangelizar as suas atitudes, a ponto de torná-lo absolutamente diferente das pessoas do seu círculo de amizades. Qualquer mudança nesse sentido, ainda que se melhorem todas as facetas de sua personalidade espiritual, com as devidas repercussões carnais, você deverá a si mesmo, porque somente a pessoa se pode responsabilizar pela própria evolução.
Se você tiver a intenção de perguntar se as más ações não podem ser atribuídas às influências deletérias dos espíritos ou companheiros perversos, responderemos que examine a consciência relativamente aos atos de que possa se acusar como indignos, para avaliar o quanto se comprometeu por conta própria, devido a malformações de seu caráter. Da mesma forma que não iremos elogiá-lo pelo desenvolvimento das boas qualidades, também não lhe iremos colocar a pecha de inferior. É esse o pensamento que deve você formular quanto àqueles que julgar culpados de levá-lo aos vícios e aos crimes (permita-nos exagerar ao máximo as expressões, porém, sabemos que apenas você terá condições de caracterizar os atributos ruins de sua personalidade).
Fundamenta a atitude por nós preconizada a virtude do perdão, embora pleiteemos insistentemente que todos os aspectos envolvidos no transe da perversidade sejam esmiuçados pelo intelecto, a fim de dar-se a cada problema a exata dimensão no campo da moralidade. Se estas palavras não tiverem o condão de conduzi-lo pela senda da observação empírica e da reflexão filosófica, atenha-se a buscar nos livros sacros os exemplos dos procedimentos que o Cristo vergastou em sua sublime peregrinação carnal. Ler os Evangelhos talvez devesse ser a última recomendação desta turma, não apenas porque o conhecimento deles é obrigatório para quantos desejem ultrapassar os limites do comportamento prejudicial ao desenvolvimento dos recursos morais disponíveis, como ainda porque deveríamos estar prevenidos quanto ao fato de que os leitores destas peças mediúnicas devem contar-se entre as pessoas mais dignas de serem chamadas de irmãos e irmãs.
Assim, tendo em vista o valor que se consagra ao dinheiro, vamos começar a pensar mui seriamente em quanto estamos submetidos às vilanias que dele decorrem, tanto no aspecto de consegui-lo, como no do aplicá-lo. Há também que voltar a atenção para as relações hierárquicas dentro do lar e da oficina, e junto à sociedade em geral, especialmente no que se refere à disposição do humor com que recebemos ou damos ordens e ao tratamento civilizado dispensado a cada pessoa com quem se contata. Por fim, há necessidade de se vigiar de modo muito estreito quais são os sentimentos que nos são costumeiros ao recebermos notícias do plano espiritual, quer quando sofremos a desdita da perda de entes queridos, quer quando nutrimos antipatia pelos que partiram.
A ostentação dos bens acumulados também deve ser uma preocupação relativa aos ganhos junto às casas de atendimento espiritual ou material, porque devemos considerar que, embora não demonstremos orgulho ou vaidade aos que giram em nossa órbita de atuação corpórea, é de fácil percepção para as forças do etéreo que não agimos com total naturalidade ao fazer o bem, sempre visando ao lucro e não propriamente ao alívio dos que se apresentem carentes de palavras, de ações ou de benfeitorias materiais.
Vamos, rapidamente, fazer menção a este mesmo trabalho que vimos realizando. É claro que pretendemos aperfeiçoar-nos em vários sentidos, quer na pregação proveitosa para o leitor, quer no domínio das técnicas mediúnicas, quer, ainda, na apreciação das condições de aprendizagem que temos levado a cabo pela sadia influenciação dos professores. Entretanto, sempre estamos um pouco ansiosos para verificar se cada um que toma o livro nas mãos se julga capaz de melhorar-se, fim último de qualquer mensagem espírita. É claro que, caso nos frustremos quanto a essa expectativa, obrigatoriamente teremos de reformular os textos, dando-lhes outra envergadura doutrinária, mais condizente com o nível mental daqueles encarnados. Aí, não nos podemos deixar envolver por ganas de resolver todos os problemas, já que, como dissemos, a responsabilidade da melhoria dos leitores não é nossa. Basta-nos, nessa situação, conhecer como estamos dando-nos com nós mesmos, pela consciência exata da extensão e da compreensão (terminologia filosófica) das definições que propugnamos para cada termo com elevada carga conotativa dentro dos princípios espíritas.
Haveremos também de convir em que muitíssimas obras deste gênero existem ao alcance dos mortais, de forma que poderemos sempre insistir em que se cotejem os desenvolvimentos, para a fixação na personalidade dos que melhor poderão conduzi-los na senda aberta pelos ensinamentos cristãos e pelas reflexões surtidas da codificação kardequiana.
Esses mesmos cuidados é que estamos estimulando quanto à análise e à crítica de cada pequenino ato e pensamento. Haverá de ser muito complicado, evidentemente, mas, um dia ou outro, no seu ou no nosso plano existencial, tudo terá de passar pelo crivo da razão, segundo a perspectiva da isenção dos maus sentimentos, sob o influxo dos anseios evangélicos, estes, sim, preciosos em função do progresso espiritual.
E se não atinar o amigo com a diretriz desta recomendação, pela complexidade dos temas e pela infelicidade da composição a obscurecer-lhe o entendimento? Sempre existe uma porta aberta por onde adentrar no conhecimento: a prece por mais luz e o agradecimento pela que se tem.



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A PRECE

São incontáveis as mensagens dos espíritos a respeito deste tema. Nem poderia ser diferente, que é o que mais se exige de quem não esteja inteiramente afeito aos serviços de caráter evangélico, pairando ainda muito longe das virtudes que o conduzirão às terras do Senhor. Sendo assim, não se espere muito desta equipe, muito mais propensa à repetição e à imitação, do que à criação de algo nobilitante, capaz de trazer ao leitor a paz necessária para recitar os louvores ao Criador, os agradecimentos aos servidores mais elevados ou o reconhecimento plácido e generoso dos favores que se recebem diuturnamente dos benévolos protetores familiais. Além de tudo, encontram-se orientações específicas nos Evangelhos, quer no que respeita à maneira pela qual devem ser ditas as orações, como ainda o magnífico exemplo oferecido pelo Nazareno, a mais bela página de amor que a criatura possa endereçar ao Pai.
De qualquer forma, pegando o bicho pelo rabo, como se costuma dizer, podemos discutir um ou outro aspecto que nos parecem provocar certas dúvidas entre os menos freqüentes nestas vibrações de desprendimento pessoal, em proveito de outras pessoas, ainda quando o que se pede visa ao próprio solicitante, na intenção clara de aliviar as apreensões dos seres amados, ao se ver na iminência de grave acontecimento. De fato, na emoção da raiva ou do rancor altamente estimulada, o que ocorre com mais freqüência do que deveria, embora muitas vezes o sujeito disfarce com palavras mansas, cheias de aparências de compreensão e de perdão, o amigo poderá compreender sobre que iremos estender as nossas considerações.
A primeira condição para que as preces surtam efeito está em que os sentimentos sejam sinceros. Dizer uma prece, ainda que se leve um tempo longo concentrado, sem que a mente se deixe seduzir pela necessidade do próprio ato, como ocorre, muitas vezes, aos sacerdotes e pastores que automaticamente repetem as fórmulas consagradas, será ocasionar outros motivos para futuras reflexões de caráter analítico do procedimento incorreto, porque, nesses momentos em que se deveria obter o auxílio das forças lúcidas do etéreo, justamente aquelas encarregadas de assistir ao bom desempenho dos encarnados, apenas se alcança cercar-se de espíritos folgazões, perspicazes na observação do quanto de falsidade sutil lhe está eivado o coração.
Quando a pessoa está irada e demonstra aos demais através de atos e de palavras agressivas, dá a impressão de autenticidade. Da mesma forma, quando se curva perante o altar e, em silêncio, expõe a sua religiosidade ao público, também passa a idéia de que se vale das preces para o contato com as forças da espiritualidade. Desconfia-se mais destas do que daquelas, mas todas poderão estar falcatruando com as suas reações, na esperança de formar imagem meramente social. O resultado haverá de ser o mesmo na intimidade da alma, ou seja, a consciência, ainda que bem mais tarde, irá revelar as intenções subjacentes, de forma que tudo o que se fez de maneira pouco sadia, espiritualmente falando, terá de ser refeito, segundo roteiro mais coerente com a pregação do Mestre Jesus.
Mas estas primeiras considerações vão perder-se para os que tenham verdadeiro amor pelas pessoas por quem rogam e profundo respeito pelas entidades a quem endereçam as orações. Aqueles maus atributos ficam em segundo plano, quando o requerimento é estampilhado com os selos das virtudes, mesmo quando exista o temor de não se estar sendo o mais possível congruente com os conhecimentos intelectuais, como ocorre quando a pessoa redige um texto e vai descobrindo a fragilidade dos dizeres e da composição, porque sabe, por haver estudado, o quanto os mais talentosos extrairiam do código lingüístico.
O nosso exemplo se faz claríssimo, quando insistimos em ser originais e estabelecemos um argumento que julgamos decisivo para alcançarmos o objetivo honesto de receber amparo das entidades de luz, para pessoas doentes ou em decadência moral, e, ao mesmo tempo, nos recordamos do pai-nosso, naquele instante posto de lado, para que as expressões digam respeito à situação que nos afeta. Nesse caso, o fato de nos julgarmos inferiores (sinceramente) até poderá ser contabilizado pelos guardiães como bom reflexo da personalidade, já que nada se perde que possa ser transformado em energia ou vibração em prol seja do ser necessitado, seja de nós mesmos, quando nos enganamos quanto ao fato de aquele estar carente de assistência. Na verdade, as crises que nos agitam da parte dos seres amados podem muito bem estar sendo provocadas por expiações sob controle dos protetores, segundo planejamentos aprovados pelas próprias pessoas, sendo nós os necessitados de apoio, por não estarmos compreendendo verdadeiramente que o exercício da misericórdia divina esteja exercendo-se. Em havendo compunção, o sentimento da solidariedade será revertido para nós.
Entretanto, se, após lermos a explicação acima, pleitearmos pelo irmão, tendo em vista a nós mesmos, aí se torna muito mais complexo o exame da atitude, porque estaremos incidindo, possivelmente, em falhas evangélicas de vulto. Dizemos possivelmente porque o conhecimento dos intrincados silogismos que advêm das filigranas do raciocínio podem causar o sério problema da reminiscência constante da infiltração de malícia no peditório, de sorte que se cruzam na mente os pensamentos com a velocidade da suspeita, obrigando-nos a exaurir todas as formas de rejeição da maldade, antes de configurarmos o real sentimento que nos impeliu às preces.
Não sabemos se fomos demasiado longe para explicar o “livrai-nos do mal” da formosa oração de Jesus, mas cremos que a advertência poderá despertar para mais um aspecto subjetivo ainda não introjetado na mente do companheiro leitor. Outros existem igualmente de difícil percepção conceptual, mas não nos esforçaremos para exibi-los. Baste-nos a complexidade da composição de hoje.
Experimente agora dizer uma prece em nosso favor, solicitando aos mentores da Escolinha de Evangelização que nos amparem nos estudos, no sentido da compreensão dos deveres mediúnicos, mas faça-o sem nenhuma preocupação formal, extraindo as palavras do fundo do coração, concebendo o grau das dificuldades que temos enfrentado, tendo em vista as sublimes reações de seu próprio poderio emocional, pelo entendimento de nossas intenções como integradas nos ensinos de Jesus e de Kardec. Se você o fizer de imediato, é porque superou todo formalismo retrógrado de quem está mais preocupado consigo mesmo do que com o próximo. Louve o Senhor pelo modo que melhor lhe parecer: você receberá (nem precisamos dizê-lo) o influxo das bênçãos que se destinam aos melhores.



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A ALEGRIA É FUNDAMENTAL

Lendo-nos até aqui, vai parecer ao encarnado que a turma se constitui de entidades azedas, com alto teor de compenetração de responsabilidade, a ponto de elevar o trabalho à quinta-essência da perfeição máxima de que somos dotados, de modo que a sisudez tenha, necessariamente, de ser a característica exterior mais acentuada de nossas personalidades. Imaginar este grupo dotado de sorrisos e de gracejos, haverá de ser repulsivo para a maioria, embora se desconheçam os liames que nos prendem uns aos outros nesta classe.
Tal como a camaradagem existe nas turmas das escolas terrestres, aqui também o apoio que nos damos se deixa envolver por uma constante de alegria e bom humor, para que amenizemos as asperezas temáticas, conforme as agruras que nos dão os exercícios e demais tarefas curriculares.
Claro está que as brincadeiras buscam incentivar as colocações de problemas de caráter moral, de forma que se constituem quase sempre de charadas, de jogos de interpretação ou de adivinhações, extraídas das lições e das leituras obrigatórias. Mas nós achamos graça e nos interessamos por tais feitos lúdicos, em que não disputamos nenhuma supremacia intelectual, senão que nos colocamos todos sempre atentos para o acerto das respostas. Muitas vezes, os colegas tanto torcem e retorcem os enigmas que é preciso que os mestres venham em socorro para que os deslindemos sabiamente. Aí, corre uma espécie de vaia contra quem não interpretou direito os dados que forneceu, sempre no sentido de demonstrar amizade e companheirismo.
Se alguma vez alguém se sentiu magoado?
Eis a pergunta que temíamos, porque, de fato, houve duas ou três situações (dizemos duas ou três para exprimir que são poucas) em que os autores ou os descobridores se sentiram diminuídos pela falta de tato da proposição, quando se deveria saber o histórico de cada um (sempre à disposição de todos) para não se oferecerem tópicos em que escorregaram dramaticamente durante o transcurso de suas existências corpóreas ou no emprego do tempo e dos conhecimentos em resgates em que falharam. Mas esses episódios servem para que os mentores nos dêem orientações bastante específicas, tendo em vista o despreparo do grupo.
Deveríamos fornecer alguns exemplos de situações alegres, o que faremos agora, sem constrangimento, mas com a advertência para o fato de que o paladar de quem almoça as comidas do etéreo deve estar habituado ao tempero próprio desta dimensão.
Assim, houve uma vez em que eu mesma precisei contornar um caso que poderia ter desenvolvimento dramático, se a moçoila que se identificou com a personagem da historieta não compreendesse que ninguém queria expô-la ao ridículo.
Um dos colegas, em momento de recreação e descanso, enquanto não se apresentava o professor para a próxima aula, cismou de perguntar a respeito das aventuras extraconjugais, com o evidente intuito de colocar todo mundo à vontade para as confissões íntimas espontâneas. Fê-lo de modo a ressaltar os quiproquós das descobertas, insistindo no ponto principal de que os do etéreo, conhecedores de várias encarnações, deveriam demonstrar isenção emocional, uma vez superado o aspecto da fidelidade, tendo em vista que os casais não se mantêm unidos além do que se convencionou exprimir na fórmula terrena do “até que a morte os separe”.
A conversa ia animada, havendo diversos casais ainda presos por fortes vínculos amorosos dando seu testemunho e procurando demonstrar haver curado a gangrena espiritual produzida pelo ciúme, quando notei que a colega estava fortemente agitada. Aliás, não apenas eu percebi o abalo íntimo, mas meu companheiro de duas encarnações também. Trocamos sinais imperceptíveis, através dos quais lhe solicitei que colaborasse comigo, e interrompi a brincadeira, dizendo-me contrafeita com o rumo que estavam dando aos sentimentos legítimos dos encarnados que cumprem as obrigações conjugais, as quais incidem na educação que devem proporcionar aos filhos, ou cairão fatalmente na rede da imoralidade, porque a traição é altamente envolvente e dispara as reações corpóreas, produzindo as mais variadas espécies de doenças, além de, em muitos casos, perseguir o infortunado durante sua estadia no Umbral, porque se remorde de ódio contra a pessoa que lhe foi infiel.
Ia por aí na minha indignação, quando meu ex-marido, agora uma entidade por quem nutro as maiores simpatias, num elo mágico de entendimento superior, com quem espero progredir para as esferas superiores, fingindo-se surpreso com o meu discurso, resolveu descrever as minhas reações, demonstrando que conhecia os meus casos anteriores, as minhas ânsias materiais, os meus desejos puramente sensuais e os meus deslizes sexuais. Mas ele não deixou transparecer nenhuma emoção desagradável, considerando com total naturalidade os aspectos de minha inferioridade, para dar-me oportunidade de revelar o quanto evoluíra desde aquela época.
Aos poucos, cada colega foi observando que as nossas palavras tinham um sentido oculto e muitos foram colaborando com as narrações de episódios em que a surpresa da descoberta se fazia extremamente engraçada, pelas culminâncias trágicas com que se tencionava fazer pagar os crimes contra o patrimônio emocional que o egoísmo nos fazia acreditar ser uma dádiva divina, enquanto a tendência de posse se estabeleceu a partir de elementos meramente culturais durante a encarnação.
— Eu queria fazer com que engolisse as alianças!
— Eu pretendia que ele se encontrasse com o marido da amante, de calças na mão.
— Eu me lembrava das comédias e imaginava os revides mais esdrúxulos, com as pessoas menos prováveis, para a contrafação da raiva e diminuição da auto-estima do cara, que se sentia um barba-azul ou um paxá.
Demorou para que a amiga entrasse no ambiente descontraído, pois ninguém a forçou que o fizesse. Mas as pistas que deixamos terminaram por fazê-la raciocinar mais friamente, a ponto de se aventurar a nos pedir desculpas por não haver entendido que estávamos tentando auxiliar-nos mutuamente, perante uma situação de vida tantas vezes criada e que não há meios de desfazer, porque o passado não volve para que se apaguem as lembranças menos gratas. A conclusão óbvia é do crescimento evangélico, pela assimilação da virtude do perdão; mais ainda, pela compreensão de que as leis cósmicas se ampliam e se aperfeiçoam, segundo vamos ganhando terreno no caminho de Jesus.
Penso que o exemplo tenha sido mal formulado, muito mais reprodução da seriedade de uma aula do que do recreio dos alunos. Em todo caso, dada a dificuldade de se sentirem as pessoas contentes em todos os momentos da vida, que fique a noção de que a alegria ainda vai imperar no seio das comunidades espíritas, sorriso que não se despregará das faces quando nos virmos convidados a passar para a dimensão seguinte, onde o saber e o sentir ganham novas estruturas e a moralidade se rege diretamente pelas leis e não pelas nossas interpretações mais ou menos tendenciosas.



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A PROPENSÃO NARRATIVA

Pela última mensagem, parece ficar clara a conclusão de que os alunos aqui reunidos dão preferência à narração dos casos, tanto que a moça que realizou a transmissão saiu ufanosa pelo fato de ter ido muito bem, a ponto de oferecer o texto mais longo e, nem por isso, menos importante. Se nos deixássemos empolgar pelos acontecimentos que determinaram os dramas pessoais, iríamos encher muitas páginas. Mas o nosso comprometimento com o leitor visa a proporcionar-lhe a meditação conseqüente da análise e da crítica, segundo o ponto de vista dos ensinamentos que nos são ministrados na Escolinha.
Sendo assim, remetemos quem se interessa por histórias, para delas concluir evangelicamente, à leitura dos romances disponíveis nas livrarias especializadas, desde que ditados por espíritos de superior categoria.
Eis que chegamos ao nosso ponto: estarão todos os romances, novelas, contos e demais composições de fundo fictício, ainda que fundamentados em fatos reais, em biografias verdadeiras ou adaptadas, cumprindo os tópicos da doutrina espírita, como se encontram desenvolvidos nas obras da codificação de Kardec? Muitos, sim, pois seus autores tiveram a preocupação de refletir sobre os pontos teóricos situados empiricamente nos acontecimentos. Outros tantos escritores, contudo, na ânsia da divulgação da existência do campo espiritual imediato ao da matéria, onde existem os que animaram corpos densos e agora se encontram sob nova indumentária, o chamado perispírito, despejam histórias sobre histórias, com a finalidade de estimular os leitores a trilharem os caminhos abertos dentro do movimento espírita, isto quando, obviamente, estão bem intencionados. Há outro grupo de obras, felizmente em número ainda reduzido, porém, de potencial de penetração nas massas menos dadas aos estudos filosóficos e doutrinários, que objetivam quase exclusivamente o comércio e que resultam na fixação nas mentes de pensamentos altamente tendenciosos à superstição.
Se sairmos do âmbito da produção mediúnica e dos autores encarnados filiados ao Espiritismo, vamos deparar-nos com problemas espirituais muito mais sérios, porque se encontram narrados fatos incongruentes, quer no que respeita à realidade tangível, quer quanto às rígidas leis que se aplicam no plano transcendente em que pairam os que deixam a vida. Essas leituras conduzem a fantasia humana em verdadeira neurose dos desejos mais imponderáveis, justamente aquela criação individualizada como aspiração de realidade superior, bem próxima dos roteiros hauridos dentro das religiões que oferecem a salvação a troco de sacrifícios meramente materiais ou de aplicação interesseira em favor de um semelhante por quem não se chega sequer a comover, que dizer, então, a amar. O pior é que muitos autores insistem em que as pessoas devem quinta-essenciar a sua visão filosófica, excluindo o mundo circunstante e buscando ligar-se a forças da natureza que regeriam os destinos humanos desde a concepção até o ingresso final no reino de Deus.
O que estamos condenando é a falácia das conquistas esotéricas e, portanto, excludentes dos não-iniciados, o que, segundo nosso ponto de vista, contraria as lições máximas do amar a Deus e ao próximo, inclusive transformando os sentimentos de aversão a certas individualidades em poderoso elemento congressional, para a caminhada ascendente se dar enfim, porque, sem essa união fraterna entre as criaturas, não se abrem as portas do céu.
Caso nos leia alguém devotado a certos estudos ainda não de domínio universal, os quais, aliás, tendem, nos dias de hoje, a se multiplicar, pela facilidade econômica e pelo descrédito que se generaliza, quanto às igrejas constituídas, entre as pessoas mais cultas que ojerizam a convivência com quem não se empenhou, por razões próprias e ponderabilíssimas, ao crescimento intelectual como fruto da escolaridade oficial ou das aplicações do capital da inteligência nas bolsas do autodidatismo, que não se perca pela suposição que estamos condenando o seu modo de ver e de vivenciar a existência. Apenas queremos ressaltar que se deve atribuir a essa imersão no mundo da fantasia, ainda que com aspectos próximos do cientificismo contemporâneo, o seu valor intrínseco muito próximo do egoísmo, do orgulho e da vaidade.
Eis que condenamos os anacoretas e os eremitérios, como fórmulas de se eximir o encarnado dos compromissos do carma de auxiliar e de evoluir, em função das relações obrigatórias que a estrutura física e a contextura social determinam. Sabemos que nem todos estão capacitados ao exame das razões que trouxeram os espíritos de luz à revelação dos cânones doutrinários, mas acreditamos que um médio desempenho mental levará à compreensão dos tópicos essenciais da codificação kardequiana que evidenciamos nesta peregrinação redacional. Sabemos também que existem elementos constituintes da natureza espiritual e das leis que a regem que permaneceram sem esclarecimento, pela dupla condição de desconhecimento da parte dos informantes ou da impossibilidade de percepção dos mortais. Sabemos, finalmente, que existem explanações insatisfatórias fornecidas pelos espíritos, mas que deram aos homens do século dezenove um grau de confiança maior nas revelações, porque se imiscuíam aos conhecimentos da época. Estes dados hoje em dia podem ser considerados ultrapassados e se contam entre os pressupostos que falharam quando do desenvolvimento das ciências humanas.
Partimos da apreciação dos que nos condenam sem conhecer e chegamos ao pensamento crítico dos que rejeitam depois de observações íntimas dos próprios textos da codificação. Entretanto, não nos envergonhamos nem nos engrandecemos. Apenas aguardamos que os encarnados encarem os problemas que vão constituindo-se em obstáculos ao Espiritismo e que desfraldem a bandeira da verdade, ainda que muito tenham de trabalhar para limpar a doutrina dos preconceitos antigos e novos. Temos a existência toda pela frente.
Se alguém tiver conhecimento de algum caso em que se ilustrem as nossas teses, não se furte de relatá-lo aos amigos, sempre condicionando as conclusões às normas que dispusemos. Não somos inimigos da narração. É que não elegemos essa modalidade literária para as comunicações do grupo.



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UM CASO DE POLÍCIA

Íamos pela via pública, quando nos deparamos com um sujeito prestes a cometer suicídio. Era evidente o assédio dos espíritos raivosos que o tinham sob severa obsessão, tanto que não nos foi possível conjurá-los a que se afastassem, mesmo porque não fizeram nenhuma questão de nos ouvir.
Quem tem olhos de ver, veja; quem tem ouvidos de ouvir, ouça. Não é essa a pregação bíblica? O pior cego é o que não quer enxergar. Eis outro aforismo evangélico poderosíssimo. Assim, ia o enorme grupo ao encontro da infelicidade de mais um crime e de mais um arrependimento; de mais um remorso e de mais um resgate; e de maiores sofrimentos, dentro dos desazos caprichosos dos que não crêem que o Senhor os observa, porque jamais tiveram a sensação de que o bem traz sossego à consciência e conforto ao espírito.
Dissemos já que os nossos interesses estão vinculados às razões que promovem os acontecimentos, dentro da lei de ação e reação, segundo os princípios de causa e efeito. Que importância teria o histórico daquele relacionamento para o momento mesmo do sufrágio das virtudes, em termos de atividade coerente com os ensinos de Jesus? Não podíamos entreter-nos com os antecedentes nem com os motivos que levavam o desafeto encarnado ao ato extremo de violar o sagrado invólucro carnal que tomou um dia de empréstimo. Nem agora nos cabe relatar como foi que chegamos a dissuadir os do etéreo de sua perseguição, liberando-nos para a influenciação sadia quanto à conformação daquele que se via sem saída plausível no âmbito dos relacionamentos humanos. Mas cumprimos o compromisso de vir trazer notícias do etéreo, segundo o que se pede a nós, nesta fase da educação espírita.
Quer dizer que temos obrigações quanto a seres absolutamente desconhecidos, com fraquezas pungentes, incapazes de saber o grau de assistência que recebem dos protetores desencarnados?
Sim, conforme se agendou para nós, a partir dos princípios incrustados no socorrismo evangélico mais próximo da densidade corpórea, nos limites mesmos das trevas umbráticas, local meio enigmático para os que jamais tiveram qualquer noção de como se compõe a realidade neste setor dimensional tão parecido com o que se encontra no orbe terrestre.
Quando estivermos formados, aptos, portanto, a outros cursos mais avançados, iremos deparar-nos com a problemática do tempo, porque teremos de exercer o ofício da prestação dos primeiros socorros e estabelecer o elenco de um conjunto de atividades puramente teóricas, dentro das meditações sobre as leis cósmicas, segundo as estruturas que compõem os aparatos existenciais que nos dão contextura para a formação do perispírito mais adequado para freqüentarmos os ambientes, segundo este ou aquele plano.
O nosso caso de polícia não haverá de ser aquele que nos serviu de introdução para estes pensamentos, mas as informações que deveremos prestar relativamente às diversas moradas celestiais, o que, no tempo de Kardec, se referia aos corpos celestes do sistema solar, como Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e outros poucos. Fez ele questão de demonstrar conhecimentos astronômicos, indo fundo na caracterização material das diferentes atmosferas, tanto que concluiu pela impossibilidade de os corpos formados segundo os princípios biológicos da Terra serem capazes de sobreviver nos outros planetas.
Vieram os do etéreo, então, para evidenciar, pela lógica das ponderações, que, conforme a natureza imperante na zona externa dos planetas, se formariam os corpos dos habitantes. Pelas informações gerais, podia-se inferir que os marcianos, por exemplo, teriam uma sociedade extensa, tão ou mais populosa que a da Terra, o que implicaria na existência de cidades e de civilizações. Chegou-se mesmo a fornecer desenhos de paisagens de Júpiter, onde se situavam residências de personagens ilustres, tudo bastante parecido com o que se encontrava na crosta terrestre.
De lá para cá, porém, o avanço científico permitiu aos terrestres subirem aos céus em bólides da navegação aérea, chegando ao ponto de se efetuarem visitas à Lua, podendo constatar in loco que a suposição consignada em A Gênese, de Kardec, sobre o lado oculto do satélite, através de uma mensagem mediúnica, não correspondia à verdade. Outras astronaves, aparelhadas com câmaras fotográficas e cinematográficas capazes de transmitir imagens até aos laboratórios terrenos, também estão tornando muitíssimo claro que as habitações jupiterianas não estão exatamente implantadas na face do planeta, conforme as descrições que receberam o aval dos espiritistas da primeira hora.
Se solicitarmos ao leitor que nos dê um crédito de confiança, para levar-lhe a salvação, já que estamos observando que está prestes a cometer suicídio intelectual, por desacreditar da fidelidade das informações referidas, estendendo o raciocínio para todos os demais desenvolvimentos doutrinários e filosóficos, estaremos procedendo como no caso do sujeito assediado pelos obsessores e que afirmamos ter afastado do crime de lesa-natureza.
À vista da necessidade de consertar o que parece tão mal formulado nos primórdios da codificação, vamos insistir em que o pessoal do etéreo age sempre em função de apresentar aos encarnados razões passíveis de boa interpretação, segundo os elementos culturais disponíveis, atitude, de resto, esclarecida várias vezes nos roteiros sobre que se fundamentaram as obras de Kardec e que se remete até os tempos de Jesus, quando afirmava aos discípulos que nem tudo lhes podia ser desvendado.
Mas não vamos utilizar-nos dessa muleta de caráter universal, enquanto se dignificarem os encarnados por julgarem-se tão-somente perfectíveis e em evolução. Vamos apenas adiantar que as moradas do Senhor são infinitas e que ocupam o espaço tal qual é entendido pelos que residem na Terra, como ainda se encontram em muitíssimas outras dimensões existenciais, também em número infinito, as esferas ou círculos, como são conhecidas mais habitualmente, as quais se podem chamar pelos nomes dos corpos celestes, apenas para referência aos livros sagrados que nos passaram a antiga idéia dos diversos céus sobrepostos. Se formos capazes de abstração e tivermos capacidade para concluir que o plano espiritual não apresenta os mesmos conteúdos essenciais da matéria densa em que vivem os homens, formaremos pálida idéia das moradas do Senhor.
Não gostaríamos que fosse este desenvolvimento um caso de polícia, mas, se formos levados às barras do tribunal, iremos solicitar clemência e um esforço superior para a compreensão das leis cósmicas, que buscamos cumprir, conquanto seja muito grande a suspeita de que transgredimos as dos homens.



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A HORA DA DECISÃO

São poucos os momentos na vida em que se decidem definitivamente as coisas. Quando pensamos estar aptos a decidir-nos a respeito de algum tópico de importância, algo que irá desviar-nos do caminho anteriormente traçado, aí podemos observar, se formos argutos na análise dos acontecimentos anteriores, que já vínhamos tendendo a realizar tudo sob aquele mesmo ponto de vista. Por exemplo, quando nos determinamos ao casamento, parece que demos o passo decisivo num momento de coragem e desprendimento. Na verdade, por mais rápido tenha sido o período entre conhecer a pessoa a quem nos destinamos e aquele do conúbio, ainda assim, até mesmo antes do conhecimento, vínhamos tendo frêmitos de vontade de adquirirmos tal situação social, quer por observarmos os amigos, quer por sentirmos falta de uma companhia mais permanente, quer porque o conjunto dos fatores da vida, entre eles o profissional quase preponderantemente, nos estimulava à constituição de uma família e à criação de um lar.
O mesmo se pode dizer quanto à decisão de voltar-se para os estudos espíritas, segundo a diretriz de Kardec. Dificilmente a pessoa é impelida para as casas de atendimento evangélico por desfastio ou curiosidade repentina. Até quando o sofrimento adveniente da perda de algum ente muito querido induz ao ingresso no Espiritismo, para a possibilidade de um contato mediúnico ou de uma notícia sobrenatural (segundo o conceito dos leigos), mesmo assim existia a expectativa mais generalizada de que as informações hauridas aqui e ali sobre a doutrina espírita poderiam estar corretas, ainda mais quando pessoas influentes no meio em que vive a pessoa se dão a esses estudos e aos trabalhos de assistência junto ao departamento próprio do centro espírita.
Outro exemplo, este muito mais pungente, podemos extrair desta mesma leitura, quando a pessoa veio até nós trazida pelos mais variados impulsos mentais, mas sempre com o objetivo de esclarecer suas dúvidas no campo religioso impregnado filosoficamente pelas tradicionais questões metafísicas, quais sejam: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Deus existe? A alma existe? O etéreo existe? Podemos contatar os mortos? Ou, simplesmente, consta do ideário existencial do leitor a perspectiva de lúcido exame de todas as questões, sem preconceitos ou restrições de quaisquer espécies. Ou seja, o amigo ou a amiga possuem espírito científico, para o qual deve sempre imperar a verdade, ainda que desagradável ou sacrificial.
De fato, se deste texto, de repente (maneira de dizer), brotar a deliberação de ir a alguma congregação espiritista, não se poderá jamais dizer que o nosso empurrão tenha sido a determinante mais ponderável do ato decisório. Para chegar até aqui, foi preciso vencer alguns obstáculos mentais, morais e até mesmo materiais, que se colocavam de maneira bastante forte e que foram sendo derribados paulatinamente, da mesma forma que conseguimos ultrapassar os limites destas páginas, deixando de lado as críticas e criando o anseio de toparmos com algum argumento mais enérgico. Ora, para quem vem escrevendo as mensagens, tudo parece encaixar-se perfeitamente, porque a obra foi organizada com minúcias pelo grupo, sob a direção de mestres competentes e experientes. Esta é a certeza que devemos caracterizar para acender aquela luzinha cujo pavio se encontra devidamente mergulhado em azeite combustível. Melhor dizendo, para emprestar o fósforo e a caixa ou o isqueiro, que a vontade de acender o candeeiro nos parece prestes a se manifestar.
De qualquer modo, o progresso espiritual, após esta leitura, estará entre os tópicos do programa de vida do leitor, que deve estar atento para os itens em que os procedimentos não se filiam exatamente às normas evangélicas, colocando-se a pulga atrás da orelha sempre que a consciência aponta para maneiras mais cordatas de se tratar com as pessoas e com os problemas.
Especialmente, estamos interessados em ressaltar que nada na vida, e mesmo após a morte, depende dos outros, mas que tudo advém de nossa postura perante os fatos. Se estivermos empenhados em trabalhos que nos absorvem quase integralmente o tempo, preciso será estabelecer o valor humano dessa atividade, porque, caso não seja muito aproveitável do ponto de vista dos ganhos da benemerência dos amigos da espiritualidade, que por nós velam desde sempre, haveremos de estabelecer um derivativo que possa subsidiar-nos quando estivermos livres para a solidariedade e para a caridade.
Por outro lado, se nos cabe, pelas razões mais diversas, oferecer aos familiares e amigos condições de nos prestarem ajuda, porque impedidos de nos locomover, vamos esforçar-nos por tornar a vida alheia o menos penosa possível, alegrando-nos com a perspectiva de discutir com eles os valores evangélicos e os ensinos de Jesus aplicáveis ao nosso caso particular. Deixemos a rabugice de lado (o que será sempre muito difícil, se estivermos constantemente sob os pungentes efeitos da dor física) e roguemos ao Senhor que nos mande mensageiros de muita luz, para que possamos transformar o sofrimento em lucro espiritual. A maneira que julgamos mais propícia, nessa situação de coerção material extrema, já que o amigo entrevado teve a possibilidade de chegar até esta altura da obra, é a de ler os melhores textos mediúnicos, estudando-os em conjunto com pessoas empenhadas na mesma busca do sucesso espiritual.



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DAS ILUSÕES TERRENAS

Existem muitas conquistas puramente materiais que nos satisfazem o ego e nos dão a idéia de que estamos dominando os recursos disponíveis no âmbito da sociedade, por meio de nossa forte imposição intelectual. Tudo o que fazemos repercute de modo feliz no pensamento e nas emoções da coletividade, de forma que vamos ganhando projeção no seio dos grupos econômica e politicamente poderosos, facilitando-nos o ingresso junto às diretorias das empresas ou junto ao mercado consumidor, o que nos proporciona os convites à propaganda e a remuneração farta dos bem sucedidos.
Ficaria muito mais claro se déssemos exemplos, evidentemente. Então, pense o amigo leitor nos cantores que vão gravando e divulgando os seus trabalhos; nos jogadores de futebol e demais desportistas sempre com oportunidades novas de contratos; nos políticos sufragados pelas urnas e colocados em postos de comando público, onde, a par dos ganhos em função do desempenho no cargo, recebem todo tipo de ajuda daqueles que desejam formar nos quadros de influência sobre a população; nos sacerdotes que vão crescendo nas hierarquias eclesiásticas, cada vez mais e melhor servidos pelos congregados; nos palestrantes e autores das obras da moda, mesmo dentro do movimento espírita, que, esfuziantes, engrandecem a filosofia ou a doutrina de que se fazem porta-vozes, cada vez mais requisitados pelas empresas de marketing e pelas editoras, para a produção de mais novidades na pauta da categoria daquelas que se tornaram célebres.
Em cada setor da sociedade, encontram-se os seus luminares, os melhor postados, porque a pirâmide de valores existe para premiar os que desfrutam do apoio das bases, ainda que as pessoas de sucesso freqüentemente se escondam para o grande público, como no caso dos grandes industriais e dos comerciantes mais arrojados, cuja vida, quando em foco nas revistas ou seções especializadas dos jornais e dos programas de televisão, sofrem o desbaste dos problemas para a apreciação pura e simples das regalias materiais, justamente o ponto de toque universal, ou seja, aquela excelência que todos gostariam de usufruir.
Invertendo os pólos, mas sem descair da aspiração da maioria, até mesmo o fracasso das pessoas ilustres vira notícia, para o desfrute dos que invejam o poder de quem pode perder milhões sem ver abaladas as finanças ou desfazer os relacionamentos sem crises nos negócios. São essas pessoas felizes? Não se cogita normalmente de perguntar. Recebem elas propostas para ampliar os patrimônios? Então, tudo está cor de rosa no horizonte da quinta-essência social.
Aí, muita gente, desejando-se também esperta, contenta-se em ganhar menos, desde que sempre se possa comparar com os que não possuem tanto quanto. Ludibriam as altas aspirações e se perfilam perante as conquistas possíveis, na clara expectativa de conseguir sempre mais, engrossando as burras dos que bancam as apostas de toda natureza, que esse espírito de se tornar milionário de um momento para outro está impregnado em todas as nações. Enquanto a sorte não vem, a vida vai sendo vivida um pouco do jeito que dá, muito da ideologia onde se regalam os poderosos e o que sobra, na lamentação intramuros que somente os que se postam do lado de cá conseguem conhecer na essência.
Depois de tantas recomendações absolutamente otimistas realizadas nos capítulos precedentes, porque não nos afastamos jamais do objetivo de estimular o trabalho sob o tópico do amor incondicional à vida, ou melhor, à existência, pode parecer que estejamos aborrecendo-nos à vista das situações de penúria espiritual dos encarnados. Mas não é bem assim que deve responder o leitor, ao analisar esta composição. Deve ater-se ao fato de que é preciso saber o que decorre dos pensamentos positivos, em função dos conhecimentos fruídos da doutrina espírita, separando-os da fantasia de se haver feito o possível, com os elementos disponíveis.
Tomemos este escrito. Uma simples vista d’olhos nos advertirá quanto à fragilidade da exposição e da estrutura lingüística aplicada. Terá sido este trabalho o melhor possível para nós, neste momento? Certamente não. Mas nem por isso iremos arrancar os cabelos. Iremos, sim, estabelecer com rigor os aspectos inferiores e discutir longamente como fazer para, da próxima vez, apresentar um texto melhor formulado.
Se o leitor estiver pondo atenção no intento de transformar os dizeres em imagens e souber extrapolar os ensinos tão simples de cada período, firmando-se nos conceitos gerais, porque sempre haveremos de querer transportar as idéias para campos mais abrangentes, irá convencer-se de que a próxima hora será vivida mais plenamente, segundo as diretrizes de Jesus, ainda que a decisão se dê dentro da minúscula célula do ego, agora oferecido ao Pai em agradecimento e louvor pela grandiosidade da existência, numa prece de imersão no todo universal.
Se o amigo puder diferenciar entre a ilusão terrena e a realidade cósmica, irá estabelecer o critério da paz de espírito para sobreviver aos atrativos e solicitações da sociedade e irá eleger as virtudes cristãs como o objetivo mais saudável à disposição de todos, para o seu ingresso na esfera de mais amor que se seguirá ao desenlace.



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AS OPORTUNIDADES SE RENOVAM

Tudo na vida pode repetir-se, para o bem ou para o mal. Quem foi atropelado uma vez não está livre de outro acidente. Quem perdoa uma falta alheia sempre haverá de se deparar com outras situações de idêntica conjuntura evangélica. Se o sujeito morrer, em próxima encarnação vai haver-se com acontecimentos semelhantes ao que lhe causou a fatalidade. Contudo, o que tivermos aprendido com Jesus jamais iremos esquecer, porque, a cada nova aplicação do ensino, mais e mais haverá razões para nos alegrarmos com a deliberação feliz da absorção do mandamento de Deus.
Eis que, de repente, atinamos com um evento de média intensidade dramática, uma dívida pequena não paga, uma promessa de visita não cumprida, um favor não realizado, um esquecimento inoportuno de algo que, por não ter sido feito, irá provocar-nos algum pequeno sacrifício material ou de tempo, como no caso de alguém que quebra ou desarranja um aparelho e se escafede sem avisar. Aí, estaremos diante de uma surpresa, principalmente porque aguardávamos que o evento se realizasse a nosso favor e algo o dispôs contra. É justo que não aplaudamos a infeliz iniciativa das pessoas, mas torná-las inimigas ou colocá-las na geladeira sentimental, como se diz, talvez não seja a atitude mais conveniente para o desenvolvimento das virtudes que estamos implementando em nossa personalidade.
Se tivermos o dom da sinceridade e da clareza de raciocínio, bem ainda da faculdade de nos expressarmos com correção e propriedade, empregando os termos exatos para a maneira de reagir de cada pessoa, quase com certeza contornaremos a situação desagradável e iremos estabelecer, além de tudo, um clima de maior compreensão, sobretudo se outras pessoas estiverem a par do sucedido e esperem a nossa postura moral a fim de criticar, para aprender ou para repudiar, no reforço que sempre se deve dar ao procedimento que temos como o ideal.
Os exemplos nos vêm em enxurrada e está difícil de selecionar um que não seja ofensivo, dada a veemência com que se empenham os encarnados em tirar a desforra, em praticar o revide, em desejar, pelo menos, que o mesmo aconteça a quem nos houver prejudicado. Dizemos que é muito comum essa reação das pessoas, porque acompanhamos diversos casos de vingança de todo gênero, desde a mais sanguinolenta, rude e infantil, até a mais sutil, intelectualizada e amadurecida. São poucas as pessoas que não vimos reagir sem a emissão de dardos vibratórios de grosso calibre, na aspiração de provocar um dano imediato correspondente ao sofrido, como se a lei de talião do dente por dente estivesse em pleno vigor.
Claro que caberia uma digressão pelos meandros da jurisprudência humana, segundo os prismas do Direito estabelecidos para a nação, mas somente iremos fazer pálida referência ao fato de que a justiça institucionalizada, quando chega a cumprir os dispositivos legais (porque existem inúmeras maneiras de escapar ao castigo oficial) dispõe para quem for sentenciado as penas cominadas nos códigos, que nada mais são do que a compensação social.
Quem se dispuser a pensar com abertura espiritual, imaginando como seria o mesmo processo nos campos do Senhor, não poderá fugir à compreensão de que a vítima deve agradecer pela oportunidade de sentir o seu próprio gabarito moral e filosófico, requerendo ao Pai que dê ao postulante a desafeto o direito de entender os mesmos tópicos existenciais através da meditação sobre o fato a que deu origem, não precisando sofrer ele mesmo aquelas agruras.
Não é verdade que o amigo está de tripas reviradas ao ler estas considerações tão profundas, mas tão profundas que provocam a reflexão de que apenas em círculos mais avançados é que as criaturas agem dessa maneira? Pois vimos afirmar que, por mais penosa possa ser a sensação de impotência perante o sofrimento, jamais iremos corroborar qualquer procedimento que vise a deixar o semelhante em maus lençóis perante as entidades de mesmo nível espiritual.
Quando nos referimos à renovação das oportunidades, estávamos almejando a conclusão acima, qual seja, a de que não haverá progresso sem que o indivíduo se sinta totalmente senhor de si, na tomada das deliberações que tenham por objetivo oferecer, no dizer do Cristo, a outra face. Se podíamos ter iniciado por essa citação? Evidentemente, mas aí desencadearíamos uma série de raciocínios cristalizados nas mentes encarnadas, como se tudo viesse em seguida a resumir-se num sermão, desses tão indigestos, a causar mágoa nos traseiros, que os bancos, nessa hora, vão ficando cada vez mais duros.
Sinta-se bem, companheiro ou companheira, que a vida sempre voltará a oferecer motivos para estas mesmas reflexões. O que desejamos, e ao Pai rogamos que assim seja, é que o irmão ou a irmã se situem a cavaleiro do tema, aptos a se estenderem na narrativa de diversos casos em que souberam aplicar as noções evangélicas, com elegância e sem nenhuma afetação de superioridade. Quando estivermos todos juntos cá na Escolinha de Evangelização, teremos oportunidade de, com total franqueza, comentar como foi que enunciamos e recebemos estas comunicações.



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AOS FILIADOS AO MOVIMENTO ESPÍRITA

Quiséramos que estas fossem palavras de alerta, porque, do exame minucioso que procedemos junto a muitas casas espíritas, nos ficou o pensamento de que, embora sejam muitas as almas de eleição que labutam pelos ideais de Jesus, sob a luz dos espíritos que orientaram Kardec, muito haverá de ser feito para que cresça o Espiritismo.
Sabemos do prisma mais ou menos difundido de que o que importa não é a quantidade mas a qualidade, haja vista que o acesso ao pensamento espírita deve dar-se, fundamentalmente, pelo intelecto, porquanto os aspectos apenas emotivos se deixam desde cedo penetrar pelos fatos produzidos a partir das informações transcendentes e, quando cessam os fenômenos mais adequados para atrair os principiantes, o embasamento filosófico da doutrina exige dos humanos que reflitam mais sobre os aspectos científicos, para os quais se necessita de conhecimentos de nível escolar superior.
Mas as turbas precisam de amparo, porque, se forem deixadas ao seu próprio currículo, muito tempo mais haverão de perder nestas idas e vindas entre as esferas. Se há um aumento considerável do público simpatizante ao Espiritismo, como movimento que se rege por normas de procedimento mais justo e mais humanitário, não há o correspondente chamamento geral, sendo flagrante a diferença entre a população que comparece aos eventos mundanos e aquele pugilato que busca as casas de atendimento espírita.
Pelo caminho que estamos indicando, vamos avançando nós, nesta divulgação da existência do plano da espiritualidade, conforme as informações encontradiças em Kardec e nos autores de além-túmulo que forneceram precisas descrições dos círculos ao derredor do orbe e das atividades propícias ao desenvolvimento moral e intelectual, para que a evolução se dê mais rápida, tendo em vista o crescimento demográfico da humanidade prejudicar, em escala geométrica, o meio ambiente terreno.
Se não estamos afeitos à pregação segundo o proselitismo das demais seitas e cultos cristãos, que vão à praça apregoar as excelsas qualidades das igrejas e templos, também não podemos recolher-nos ao âmbito da influência eventual e esporádica. Temos de nos aproximar dos veículos de divulgação do século, penetrando fundo na mídia e incentivando a todos os que se postam em cargos de comando passíveis de se constituírem em modelos para os demais, na ânsia que todos sentem de serem os pioneiros em quaisquer ramos da atividade humana.
Sabemos que até no emaranhado mundo das informações através dos computadores existem várias entidades empenhadas em fornecer aos usuários desse sistema internacional os elementos fundamentais da doutrina e as notícias das suas realizações. Temos lido várias publicações jornalísticas, algumas de cunho vanguardeiro, esperançosas de acutilar os marasmáticos confrades, para que saiam dos nichos para os embates corpo a corpo nos campos de batalha doutrinária. Acompanhamos os esforços de muitas editoras e distribuidoras das obras dos irmãos encarnados e dos médiuns, muito embora nem sempre concordemos com os critérios de seleção dos textos, haja vista que não repercutem unanimemente nem mesmo junto aos que se situam nos cargos mais expressivos das federações e demais uniões setoriais das entidades juridicamente estabelecidas. Mas tudo isto ainda é muito tímido.
Por outro lado, claro está que qualquer iniciativa no setor demanda recursos financeiros. Por isso, estamos esperançosos de que venhamos a colaborar um pouquinho, oferecendo algumas páginas capazes de ampliar as fronteiras dos que se interessam pela temática espírita, para que mais pessoas de posses materiais venham a contribuir com parcelas cada vez mais significativas, em função da conquista dos corações e das mentes das pessoas de boa vontade, que muitas existem buscando melhor roteiro de vida.
Para quem lê Kardec, fica claro que o que vimos afirmando se subsidia no preceito do constante evoluir humano, até a confraternização universal dos espíritos em torno do Pai. Numa era anterior de prosperidade plena, cujo momento físico não sabemos definir, todos os que estiverem encarnados na Terra gozarão de paz superior, tal qual sucede em muitos mundos de que ouvimos falar nas palestras de nossos mestres. Mas quem se interessar desde já pela conquista dos valores mais elevados do cristianismo, conforme as diretrizes espíritas, não irá estar aqui, neste mundo de provas e expiações, naquela ocasião de luminosidade incalculável. É que as esferas mais adiantadas não oferecem tantos riscos nem tantos sofrimentos, porque inúteis para quem reconhece, nas leis do Senhor, a perfeição e, nos eventos materiais, os recursos indispensáveis para o progresso.
Haverá um dia em que cada um irá agradecer a oportunidade da dor e irá saber o quanto de méritos reuniu para deixar para trás os irmãos menos evoluídos, empenhando-se em tarefas mais abrangentes e importantes. No entanto, lá não arribaremos sem antes compreendermos e realizarmos o ideário do amor, confirmando, pelo trabalho, que fora da caridade não há salvação.
Quem se filiou ao movimento espírita está de parabéns, mas não deve jamais acreditar que tenha feito tudo. Ao contrário, a cada dia mais cresce a responsabilidade, porque aumentam os conhecimentos e se intensificam as emoções resultantes da felicidade de praticar o bem. E quanto mais se sabe, e quanto mais se vive em êxtase, maiores são os compromissos relativos aos irmãos carentes dos mesmos gozos.



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AOS SIMPATIZANTES DO ESPIRITISMO

Enganam-se se pensam que vamos forçar a conclusão de que devam tornar-se fiéis discípulos de Kardec. Quem se afeiçoa a uma idéia sem imersão nela, é porque tem outros interesses a sobrepujar a simpatia, que serve para atenuar o não definitivo. Não queremos ofender ninguém, mesmo porque é intento nosso transmitir o máximo de convicção a todos os leitores, para o que devemos sempre tornar o texto o mais próximo possível do nível de aspiração dos encarnados. No entanto, para quem julga as diretrizes espíritas perfeitas e se afasta de praticá-las, as nossas palavras não podem ser contemporizadoras.
Não é verdade que a reencarnação existe e que trazemos para o mundo denso da carne os problemas de nossa personalidade espiritual? Quem simpatiza com as notícias trazidas da espiritualidade deve conceber a assertiva acima como axiomática, pelo menos. A partir dessa premissa, as conclusões se tornam óbvias: os problemas se resolvem através dos eventos que formos capazes de embasar no evangelho de Jesus, ou seja, pela prática do amor ao Pai e aos semelhantes, tornando os inimigos, amigos, fazendo aos outros o que quereríamos que fizessem a nós. Daí a chegar ao plano da caridade é um pulinho, conforme a prescrição cristã de que o que é de Deus é dele e o que é de César é de César, o que significa que a cada um conforme os atributos que o caracterizam. Se o sujeito está no comando, deve ser obedecido; se está como subalterno, deve ser ajudado; se está em nível equivalente, deve ser respeitado.
Ser simpatizante da filosofia espírita e não segui-la nas recomendações vitais para o desenvolvimento espiritual haverá de ser, no mínimo, muito estranho. Assim, a idéia da evolução dos seres só ganha sentido se nos determinarmos a crescer em qualidades e a eliminar os defeitos. Ora, como fazê-lo a distância, sem envolvimentos pessoais, apenas por diletantismo?
Vamos falar ainda mais francamente.
Quem olha com bons olhos emite vibrações de bom calibre para o auxílio da cristalização do ideário espírita junto à humanidade. Mas, se as vibrações são úteis, não são suficientes. Há necessidade de se trabalhar em favor do sistema de benfeitorias aos encarnados e aos desencarnados, onde quer que nos encontremos. Por via do livre-arbítrio, podemos postar-nos em qualquer lugar conveniente para o emprego das faculdades e demais riquezas morais ou materiais de que nos vemos dotados. Em suma, podemos buscar a sementeira onde plantar a nossa boa vontade.
Eis que contornamos o edifício da verdade para chegar ao quintal das deliberações. Por outra, estamos tentando enfronharmo-nos na psique daqueles que não se decidem por ir mais fundo na contaminação evangélica junto ao plano da espiritualidade, por comodismo, pelo receio da perda do bem-estar e das regalias materiais, que são muitas neste século tecnológico.
Mas vamos dizer, a crédito dos simpatizantes, que estão, muitas vezes, na dependência de uma palavra de incentivo, de uma solicitação oportuna, de um pequeno impulso criativo, para firmarem-se nos conceitos da solidariedade atuante e da submissão à vontade do Senhor, que deve prevalecer sempre sobre a nossa. Contudo, se estes argumentos lhes parecem na linha do forçar, do coagir, do prender pela emoção, do estabelecer metas exteriores e não através da reação mais coerente com os sentimentos profundos, que se ojerizam perante o imperativo da labuta árdua nos campos da assistência e dos sacrifícios pessoais, simplesmente iremos orar para que assim não venha a ser sempre, quando estivermos reunidos em alguma parte do etéreo, para as programações de assimilação da verdade.
Ninguém irá sentir-se bem e confortado, se não estiver consciente de que tudo o que está fazendo vai promover o acréscimo das virtudes ou o atraso de sua cristalização na personalidade. Haverá de ser prioritário, portanto, que haja uma reflexão que avance sobre a mera simpatia e que estabeleça os critérios de vida mais propícios para a realização do que podemos denominar de carma, na configuração da plenitude existencial do darma, com perdão da terminologia avessa ao que é mais corrente na linha espírita kardequiana. Mas a verdade é que sempre estamos ávidos por asseverar os princípios mais importantes da doutrina, aqueles que quase se propõem como dogmas, tão importantes são para quem está prestes a aceitar o chamamento de Kardec.
Cabe prevenir que, para que não se tornem verdades por si sós, mas que se apresentem como produto da reflexão sobre a realidade e sobre a existência, esses fundamentos imprescindíveis se encontram amplamente discutidos, explicados e exemplificados nas obras da codificação espírita, leitura de que, sabemos, ninguém sai sem receber benéficos influxos doutrinários. Talvez esteja aí o ponto nevrálgico para que os simpatizantes se tornem adeptos e não mereçam mais o repúdio dos que se convenceram de que estão eles, de algum modo, fugindo da responsabilidade compromissada com os benfeitores espirituais.
Eis o derradeiro tópico, neste desenvolvimento um tanto ou quanto voltado para o intelecto, mas com estremecimentos emocionais: quem não aceita os fenômenos mediúnicos, sedimentando a dúvida quanto à integridade moral dos anunciantes do plano imediato ao carnal ou quanto às injunções psíquicas enraizadas no inconsciente dos indivíduos (a que os espíritas dão o nome de animismo) haverá de desconfiar de que a presente pregação não se harmoniza dentro dos parâmetros da filosofia tomada em si mesma, com a pureza racional do pensamento burilado pela lógica dos argumentos, porque necessário se faz crer em que este indivíduo que nos apanha o ditado (a quem chamamos de médium) está a falsear hipocritamente o texto, com intentos inconfessáveis e pessoais. Ora, a partir desse pressuposto, não podemos aceitar que os simpatizantes realmente nos dediquem sua simpatia, porque não compactuam com o preceito básico e elementar desta mensagem, porque desacreditam da espiritualidade.
Haverão de ver para crer? Então, pensem em que Jesus abençoou os que não viram e creram. Então, busquem a confirmação junto aos grupos que os receberão de braços abertos, para a apresentação das provas, dentro dos rudimentos da fenomenologia de cada casa de atendimento dos espíritos sofredores, por meio da palavra de conforto e da explicação de como agem os mensageiros do Pai, em nome do amor, para o progresso irrefreável de quem se dedica a compreender os ensinos evangélicos traduzidos pelos padrões do Espiritismo.
Se tiverem sido argutos na apreciação deste texto em confronto com todos os anteriores, deverão ter notado que elaboramos a imagem dos leitores como um grupo indefinido, sem referência cabal a quem está com estes dizeres sob os olhos. Fizemo-lo para respeitar aquele a quem a carapuça não serve e que está deliciando-se com a possibilidade de vir a obter subsídios para suas palestras, conferências ou simples conversas informais com os que caracterizamos como simpatizantes. Estaremos buscando ser simpáticos nós mesmos?



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OS BENFEITORES PESSOAIS

Se os humanos soubessem reconhecer aqueles seres que lhes dão amparo espiritual bem como a extensão do trabalho deles em prol da segurança de sua vida e do desenvolvimento de suas virtudes, procurariam ficar mais próximos pela prece e pelos cuidados para com os semelhantes. É que são designados como protetores apenas entidades de bom gabarito moral, ainda que o encarnado exerça papel civil de péssima expressão. Claro está que muitos se afastam contrariados, pelo exercício de maldade dos que fogem ao seu apoio e à sua orientação, porque se deixam imantar pelas más influências dos que sabem conduzir-lhes os desejos pelas sendas da perversão e dos vícios.
Como, entretanto, estamos diante de um amigo, que outra não seria a criatura a avançar tanto nestas páginas, devemos ressaltar apenas os aspectos positivos, crentes de que seremos levados em devida consideração. Sendo assim, caso o leitor não esteja acostumado aos dizeres da codificação, temos de afirmar, peremptórios, que, a todo momento, se imiscuem aos seus pensamentos mais puros as idéias que lhe insuflam os benfeitores, sempre no sentido do aperfeiçoamento do proceder moral, que a busca da plenitude da felicidade é constante em seu campo etéreo.
Estas premissas decorrem de nossa própria experiência, nós que não estamos em condições de ajudar ninguém especificamente mas que atrevemos a nos postar perante os encarnados com roteiros bastante precisos no âmbito dos interesses espirituais. Eis que não podemos ser chamados de benfeitores pessoais, estando muito mais propensos ao alunato do que ao mestrado. De qualquer modo, aproveitamo-nos deste ensejo para as considerações de praxe no setor do respeito aos maiores, que todos temos, porque até os benfeitores são orientados por outras entidades mais evoluídas, numa cadeia cujo término não sabemos onde se situa, dado que não podemos caracterizar os anjos, os arcanjos e demais espíritos de luz, conforme as diferentes denominações religiosas.
Sempre que estiver orando, saiba que tem ao seu lado, insuflando-lhe vigor fluídico, o bondoso mentor, para que as palavras não degenerem em solicitações descabidas, a demonstrar a preponderância do egoísmo sobre as disposições terminológicas da própria oração. Também as leituras edificantes recebem assistência espiritual, de forma que é de toda conveniência que se realizem meditações a partir das sugestões dos textos, para que as intuições sejam definidas ou como auxílio ou como resultado da própria aplicação mental à temática da pauta.
No caso do contato entre familiares, colegas e confrades unidos por laços de simpatia recíproca, é importante ter presente na lembrança que os benfeitores atuam em conjunto, de forma que as deliberações do plano terreno se situem no proveitoso campo da amizade, da solidariedade e do mútuo reconforto, quando, bem o sabemos, os problemas são o principal motivo das reuniões sérias. Quanto ao lazer comum, se cristalizado em prazeres sadios, sem se desvirtuarem as finalidades dos encontros, merecem a formação de um campo de força energético, para que as fraquezas e desbloqueios, à vista de alguns pequenos excessos de bebida ou de comida, não favoreçam a interferência de espíritos menos perfeitos, que sempre existem aqueles que não perdem a oportunidade de azucrinar a paciência dos invigilantes.
O mais que poderíamos acrescentar se encontra amplamente desenvolvido nos capítulos anteriores, nos quais se insiste em que as atividades benéficas atraem os bons e as malévolas, os maus, naturalmente. Quem pensa que sempre temos novidades em todas as pequeninas áreas de atuação dos espíritos que se encarregam das orientações dos procedimentos se engana redondamente, porque nada que poderíamos sugerir escapou aos evangelistas nem aos codificadores da doutrina espírita. Tomar o pulso dos encarnados para arrastá-los por caminhos bons é o que buscamos realizar, sempre que somos recebidos com amor. Quando nos deparamos com os que não nos aceitam, reservamo-nos ao direito de apaziguar os ânimos exaltados dos seus inimigos (o que todos nós possuímos, mais ou menos poderosos), para amenizar a obsessão, dando aos encarnados melhores condições para reagirem por sua própria conta.
Da mesma forma que se reúnem as pessoas, também se formam grupos de espíritos para todas as finalidades. O conhecimento deste fato não pode ser olvidado jamais, recomendando-se aos que sofrem quedas no tônus emotivo, à vista dos dramas inesperados, que não se deixem irar, enraivecer ou perturbar-se. Em último caso, quando as reações mentais se tornam incontroláveis, com reflexos corpóreos (as chamadas lesões psicossomáticas), a busca da solidão talvez seja a providência mais lúcida no momento, para que não se incrementem os débitos junto aos que deram causa ao distúrbio. Temos presenciado tragédias e as reações conseqüentes e podemos afirmar que existe uma gama muito extensa de respostas, desde o desespero mais pungente e irrefletido, até a confiança mais cabal na vontade e na justiça de Deus. Em qualquer circunstância, no entanto, as equipes de socorristas estão capacitadas ao atendimento emergencial, de sorte que nunca se deve duvidar da misericórdia divina nem da generosidade dos benfeitores.
Qual o procedimento mais adequado? Aquele que expuser a realidade psíquica à crítica da consciência, porque, em todas as situações existenciais, devemos buscar progredir no conhecimento das condições espirituais, para extinguir os defeitos e reforçar as qualidades. Nesse sentido, alegrar-se-á muitíssimo o assistente espiritual, porque se evidenciará para ele que o seu esforço não tem sido em vão. Quem tiver a sensibilidade de perceber esse glorioso instante de vitória, que não se esqueça de agradecer ao Pai, porque terá, verdadeiramente, afastado de nós os males e as tentações.



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MENSAGENS ESTRANHAS

Quantas vezes se deparam os mortais com textos não totalmente fundamentados em razões compreensíveis, como são aqueles em que se faz alusão aos mecanismos técnicos do instrumental mediúnico de que se utilizam os assessores dos espíritos que se comunicam, às câmaras de desopressão, aos filtros dos fluidos densos emanados dos seres menos perfeitos, às baterias energéticas em que se concentram as forças extraídas da natureza adjacente ao meio em que nos encontramos e a tantos outros recursos que só por pálida comparação podem receber denominações através da linguagem humana, como os fios prateados, por exemplo, que prendem os espíritos dos encarnados em visita às plagas etéreas, ou as chuvas de flores multicoloridas ou de luminosidade intensa que demonstram as bênçãos que estão a merecer as assembléias que exaltam o Pai, pela unanimidade do amor que proclama, em cantos dulcíssimos, o agradecimento das graças concedidas, a rogativa esperançosa e convicta dos favores necessários para o soerguimento dos que sofrem e o louvor à criação perfeita das entidades que evoluem em paz, em plenitude de felicidade.
Muitas vezes, nós nos atrapalhamos com os dizeres que pretendemos transmitir, não porque a linguagem humana não possua recursos expressivos condizentes, mas porque nós mesmos é que nos sentimos intelectualmente debilitados para a compreensão das sutilezas científicas ou filosóficas que muito a custo estamos assimilando, por força dos acres exercícios programados pelos mestres. Aí, quase sempre ficamos a lamentar a impropriedade dos pensamentos que trouxemos das peregrinações terrestres, pela incúria dos procedimentos que impediram que nos especializássemos ou que adquiríssemos cultura mais vasta, segundo os conhecimentos de cada época, que sempre existiram meios de evoluir através da instrução, o magnânimo segundo ensinamento do Espírito de Verdade. Se, ao menos, tivéssemos aprendido o primeiro, ou seja, o do amar ao próximo, vendo nele a figura do irmão necessitado de carinhoso afeto, sempre haveríamos de saber que as pessoas apenas se realizam espiritualmente se equilibradas pela compreensão dos ditames das leis do Senhor, durante seus momentos de fruição das emanações superiores da atmosfera vibrátil que agasalha os corpos para a serenidade das mentes.
Haverá quem esteja desconfiado de que tais êxtases em vida são impossíveis de adquirir, ou seja, a quinta-essência do conforto material com reflexos nas disposições psíquicas, para a concretização do ideal a que aspira quem compreende o gozo que só existe naquele paraíso que se perdeu pela tentação que nos assoberbou o coração e a mente, tentação que desde sempre veio transformando-se, qual imagem cambiante de Proteu, e que nos tem atormentado, encarnação após encarnação, para tocar-nos nos pontos mais sensíveis do egoísmo, do orgulho e da vaidade, com repercussões trágicas para o nosso progresso, pela ganância da felicidade corpórea, que só compreendemos como fruto do domínio sobre a dor, fecundado pelo sofrimento alheio, já que toda riqueza se sedimenta na força de trabalho dos que se sacrificam para uma sobrevivência precária, resumida em um pouco de comida e um cantinho para abrigo contra as intempéries, que é como a maioria dos encarnados passa o tempo.
Então, a pobreza de espírito da maioria aponta para a dissimulação das dores nas mantas da fé, pelas promessas, que se repetem nos templos, de que, embora esta jornada na Terra represente o descenso carnal, pela degeneração dos corpos, Deus, paternalmente, irá recompensar a fidelidade dos que contribuem para a manutenção das igrejas com o dízimo de suas posses terrenas, fazendo os homens retornar, após o final dos tempos, para o gozo entrevisto nos sonhos de grandeza fundamentados nas sensações provindas dos sentidos. E a lição espírita vai ficando cada vez mais distante das almas que se deixam ludibriar pela falácia dos pensamentos orientados para dar tempo ao tempo, enquanto têm curso os desejos de cada instante, pela satisfação momentânea da epiderme.
Não estamos esforçando-nos para confirmar o título por meio de dizeres inabituais, como a dar-lhe a prova pelo próprio contexto da mensagem. Absolutamente. É que existem aspirações superiores que se fundamentam em ideais hauridos no mundo transcendental, onde se encontram os espíritos, porque a natureza da composição desta esfera apenas consagra os mesmos princípios do prazer terreno, quando as entidades estão muito próximas mentalmente daquelas criaturas em que se cristalizaram as estruturas típicas da densidade do real deste planeta, favorecendo a idéia da morte como a de libertação das presilhas, sem o correspondente aguilhão da dor, tendo em vista os maus pendores não causarem outra preocupação senão aquela do desaparecimento puro e simples em meio do não-ser, pela decomposição molecular que se conhece a partir das experiências com os seres vivos em geral. Chega-se a estimar a morte porque todos os prazeres foram gozados materialmente e não se é capaz de imaginar que outros possam existir decalcados na vida espiritual.
Mas as nossas ponderações não devem atingir a quem nos está acompanhando, talvez um pouco surpreso de que estejamos desenvolvendo um tema tão diferente dos anteriores. Se, porém, avaliá-lo com argúcia, poderá perceber que não fugimos ao roteiro, na medida em que fornecemos as pistas de que o sucesso espiritual pode ocorrer no instante mesmo em que a pessoa se decide pela prática do bem, por amor a Deus e ao próximo, através do perdão das ofensas e dos ofensores, o que não deve ser exclusivo de quem se encontra encarnado na Terra, senão que deve ser uma lei cósmica, universal, ou, ainda, eterna, como diriam os mais acostumados ao jargão religioso. De qualquer modo, a felicidade existe para todos e o crescer em virtudes, tomando consciência de que o aperfeiçoamento se dá continuadamente, somente propiciará mais deleites ao gozo imaterial de se sentir a criatura mais perto do Criador.
Esperamos que estas últimas palavras não contenham nenhum ponto para estranheza do leitor e que tenhamos alcançado fornecer um texto que seria aprovado nas diferentes dimensões em que se situam os espíritos de luz. Talvez a composição fira os preceitos literários em voga e a argumentação não se tenha fechado em torno de premissas forjadas dentro da mais rigorosa lógica do pensamento filosófico, contudo, temos a convicção de estarmos perto de sermos bem sucedidos, porque, neste instante de encerramento, sentimos uma lídima paz interior, como sente quem cumpre as obrigações e sabe que está caminhando para a perfeição.
Eis que definimos um pouco melhor o que entendemos por buscar a felicidade dentro dos princípios espíritas.



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PERTO DA LUZ

Quem não sentiu já a impressão de conforto junto a alguém de maior força e poder, pelo menos no sentido material, aquela sensação de segurança que dá quem se apresenta com autoridade intelectual e social, como quando estamos em consulta médica, quando somos chamados a prestar depoimento em um tribunal, quando nos abraçamos aos nossos pais ou confortamos os nossos filhos? Aí, vão dizer que nem sempre a notícia médica é favorável, nem a sentença do juiz será de agrado, ou os pais estão em harmonia, ou os filhos seguem acatando as nossas palavras de prudência.
Com certeza, para cada aspecto positivo, haverá outro correspondente em sentido contrário, pois tal é a natureza humana a realizar-se psiquicamente. Isto não ocorre somente enquanto navegamos perto da costa, onde existe o perigo dos arrecifes. Em mar aberto, sempre haverá o risco das tempestades. Desse modo, temos de apelar para a natureza diferenciada de outra dimensão, onde a fragilidade corpórea não se presta aos cataclismos, porque inexistentes, nem o temperamento fica como joguete das vontades deterioradas pelos vícios e pelas falácias do poder e da glória.
Como é que reagirão os seres postados em círculos evolutivos de magnitude superior a este em que pairamos nós, os desencarnados que habitam o Umbral? Serão infensos aos elogios por haverem conquistado pontos importantes na caminhada rumo à casa do Pai? Não se sentirão mais completos que nós, que lhes enviamos as solicitações de ajuda e os requerimentos de proteção? Se fizemos referência ao bem-estar que gozamos perto de nossos pais, não terão eles o mesmo prazer que usufruímos ao dar amparo aos nossos filhos? Essa satisfação íntima não se disporá um pouco além da alegria, pelo fato terem a convicção da superioridade?
Perguntar, perguntamos muito. Teremos capacidade de responder? Certamente, os espíritos de luz o farão com propriedade, sem se perturbarem com o teor mais ou menos malicioso com que tenhamos perguntado, porque lhes interessa, acima de tudo, oferecer subsídios eficazes para nos imprimir à vontade o desejo de superação dos defeitos arraigados na personalidade.
Se nós lhe aparecêssemos, bom amigo leitor, neste momento de leitura e de reflexão, como é que nos receberia? Dar-nos-ia aquele abraço místico de quem se julga apaniguado pela deferência de atendimento de seres mais evoluídos ou nos permitiria apenas ficar postados ao lado, buscando sentir-nos como entidades capazes de oferecer algum auxílio particular, segundo os problemas específicos que o afetam neste mesmo instante?
Pois saiba que, constantemente, existem seres da espiritualidade que volitam em derredor de sua pessoa, na ânsia de serem percebidos intuitivamente, para o contato sadio das orientações necessárias ao cumprimento das diretrizes cármicas impressas em seu perispírito, como obrigação inadiável para esta encarnação. No entanto, apesar da certeza de que tal informação está correta, não são poucos os que carecem de fé na realidade concreta e que se determinam a considerar a presença dos benfeitores como mera possibilidade doutrinária ou filosófica, adiando indefinidamente a decisão de comparecer às reuniões mediúnicas para o esclarecimento de sua verdadeira condição vibratória.
Não vamos, porém, exagerar no pessimismo, porque faz bem pouco tempo que a humanidade vem recebendo este tipo de conhecimento, de forma que se pode afirmar ser bastante expressivo o número dos que aceitam a participação dos guias espirituais em suas meditações, havendo apenas alguma restrição ao entusiasmo no que toca aos que se dispõem a serem orientados nas casas de assistência espírita, onde o fenômeno mediúnico perfaz a condição do relacionamento mais direto e, portanto, mais dinâmico e eficaz.
Como acima salientamos, existem duas faces em cada moeda, de sorte que os que recebem a influência espiritual através da intuição, freqüentemente, dão de barato que tudo lhes advém do inconsciente, enquanto os que se colocam frente a frente com os mentores, nos centros espíritas, ao receberem conselhos nem sempre agradáveis, julgam que estão sendo vítimas do excesso de zelo daqueles que ultrapassaram as lindes dos sofrimentos físicos e que, portanto, já não compreendem mais a premência da realização vital dos encarnados.
Estamos referindo-nos às experiências práticas, dentro dos princípios materiais efetivos, e, mesmo aí, encontramos resistências. Que dizer, então, quando as recomendações da espiritualidade se estendem por laudas e laudas de papel, obrigando ao desgaste do tempo mais propício ao lazer ou ao trabalho junto aos departamentos de assistência social das entidades socorristas terrenas? Nesse momento, se não nos derem ouvido, haveremos de concluir que é porque não nos impusemos como espíritos de maior poder energético, uma vez que a nossa luz não nos possibilitou o desenvolvimento de argumentação persuasória, pelas razões mais variadas, quer no que respeita às condições intelectuais inferiores dos que nos lêem sem interesse em melhoria, quer porque a superioridade dos encarnados é tão flagrante que se entediam quando nos decifram os intentos de lhes programarmos as atividades concernentes ao estímulo das virtudes, porquanto, na verdade, são capazes de realizar textos mais coerentes com a pregação espírita haurida nas obras da codificação de Kardec.
Em suma, para não incentivarmos a desconfiança de que a mensagem tenha objetivos cujo alcance esteja no rol daqueles a que nos referimos quando lembramos que não nos habilitamos ao conhecimento das normas morais em curso nas esferas um ponto acima de nosso círculo existencial, vamos encerrando, colocando na prece o recurso emotivo de maior envergadura para o contato generoso entre os planos, momento de sublimidade carnal, quando os homens se unem diretamente ao Pai.
Não será essa a sensação que mencionamos quando elaboramos o frontispício da mensagem?



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PRIMEIRAS CONCLUSÕES

Talvez não devêssemos ir mais além em nossos comentários e orientações, tanto avançamos na teoria doutrinária, a ponto de oferecer roteiros de dúvidas para quem, sadiamente, segue nas pegadas de Kardec, segundo os princípios enunciados em suas obras, ainda que se afastando de muitas informações fornecidas por outros espíritos desde o passamento do Codificador. Se nos perguntassem, ao início das transmissões, se desejaríamos provocar distúrbios nas convicções dos encarnados, talvez até respondêssemos que sim, tendo em vista o imenso desejo de fazer o leitor mais douto nas razões que deverá enfrentar para o seu progresso no âmbito da espiritualidade, uma vez que todos deverão freqüentar as aulas em escolas como a nossa, para a descoberta dos liames que os prendem aos desejos meramente carnais, com o fito plausível e inefável de se desvencilharem das vestes mais grosseiras correspondentes à matéria densa em que vivem.
Mas esses foram devaneios de quem nada conhecia a respeito do andamento das transmissões, de forma que os resultados nos permitem chegar a conclusões diversas nesta altura dos trabalhos mediúnicos. A só citação de que existem outros objetivos para os que se distanciam na direção das esferas mais evoluídas deveria ter sido suficiente para orientar o amigo na senda dos cuidados para além dos conceitos que são capazes de absorver, pela desconfiança de que nem tudo foi nem pode ser dito. O mais é ficar atento ao procedimento cada vez mais de acordo com as normas evangélicas (e fim).
Entretanto, dissemos muitas coisas bastante significativas, dentro das diretrizes que nos impuseram os mestres, algumas das quais não inteiramente digeridas pelo grupo, outras meramente afloradas, tendo em vista os corolários de seus desenvolvimentos nos levarem para raciocínios impossíveis de compreensão para quem está encarnado. Misteriosos dizeres estes que nos fazem mais importantes do que realmente somos. A verdade é que tememos pela sorte das manifestações, de forma que consideramos que seja melhor que não venham a público, para que não se ofereçam resistências às demais obras da Escolinha de Evangelização.
De qualquer modo, preparamos a presente comunicação com o intuito de preservar o direito do leitor de se sentir frustrado, por não termos tido o discernimento de equacionar com propriedade a dimensão do trabalho. Eis que a humildade que nos enforma a redação deve ser transferida para todas as anteriores, mérito maior de quem se sente discípulo e não professor. Encarnados, todos os membros do grupo se reconheceriam muito melhor dotados, para o efeito da administração dos conselhos e das reprimendas. Agora, como espíritos, temos o horizonte ampliado pelo conhecimento das obras de muitas entidades mais evoluídas e vemos o quanto necessitamos crescer em virtudes de toda espécie, para podermos assimilar alguns pontos básicos para merecermos volver ao plano terreno em condições de progredir, ao realizar alguns dos objetivos que nos serão impressos nos perispíritos.
Eis que o sucesso das conquistas espirituais inclui, obrigatoriamente, a fase do mais rigoroso processo de exame da capacidade de realizações, para que não se invista em trabalhos cujo resultado não se é capaz de prever, como ocorreu conosco, na ânsia de nos apresentarmos junto a esta mesa mediúnica.
Sabemos que as atividades de benemerência dentro das casas espíritas se abrem em um leque bastante grande de possibilidades de atuação, de forma que muitas ações se impregnam, mais ou menos, das mesmas responsabilidades que temos para com estas mensagens, enquanto outras são efetuadas de maneira muito mais direta, na ajuda material a quantos estejam necessitados de comida e de agasalho. Claro está que nem sempre se pode fugir das funções mais delicadas que são atribuídas, por exemplo, a quantos possuem melhor nível escolar ou aos que têm o dom da palavra fácil e oportuna. Mas todos, independentemente do cargo administrativo que exercem, podem desempenhar papéis humildes, segundo a diligência da hora esteja a requerer.
Quem tiver lido apenas algumas das composições haverá por força de concluir que os redatores são pessoas altamente gabaritadas, quando, na verdade, tudo o que dispomos aos olhos dos mortais é discutido com os mestres e rascunhado diversas vezes, até que recebemos o alvará para a transmissão. Mesmo assim, no instante mesmo em que se dá a magnetização do médium, muitos conceitos precisam ser firmemente dispostos, para que não sofram as distorções muito comuns de quem não está devidamente treinado, como sói acontecer com as turmas de alunos. Por isso é que estamos assinalando que o amigo deve ler e refletir bastante a respeito destes dizeres, para não se deixar influir pelas primeiras impressões que, preciosas embora, nem sempre refletem o pensamento que ficou sutilmente nas entrelinhas.
Vamos considerar que estas precauções devam ser tomadas habitualmente e que o leitor nem precisasse estar perante o texto para ter consciência delas. De qualquer modo, não seria de esperar-se que uma equipe preocupada com seus deveres fosse passar por este setor de todo prudente e honesto? Então, fiquemos assim: o dia de hoje se perde para as realizações mais felizes do encarnado que nos lê, mas se ganha para nós, que nos comunicamos e que pomos a consciência em dia com as obrigações comezinhas de todos os grupos em fase de aprendizado mediúnico. Se quiser sentir-se bem, pense, caro amigo, em como você mesmo escreveria sobre as primeiras conclusões, se lhe fosse atribuída a tarefa.
Graças a Deus que você não é colega nosso? Espere para ver! Enquanto isso, vá preparando-se psicologicamente, elaborando rascunhos ou ministrando alguns ensinamentos em caráter formal aos que não têm nem mesmo esta sua condição de entender o código lingüístico aqui concretizado. Se tudo o que você fizer for realizado com prazer e satisfação, na confiança de ser amparado pelos benfeitores espirituais, sob a supervisão cármica de Jesus, pelo amor de Deus e do próximo, poderá contabilizar no demonstrativo de seu sucesso espiritual.



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JESUS ESTÁ PRESENTE

Que outra convicção pode obter do amigo encarnado seu ajuste à verdade cármica? Por mais sofra na Terra, sempre haverá de se lembrar da figura do Cristo a padecer na cruz os males da humanidade, pelo egoísmo de todos nós, pelo orgulho, pela vaidade, pela prepotência e pela presunção de que tudo podemos e tudo sabemos. Se a recordação do augusto sacrifício puder oferecer lenitivo para as dores de todos os irmãos, na certeza de que estamos expiando a maldade e desacertos de outras encarnações, que este pequenino trecho demonstre que realmente Jesus está presente, pela dolorosa via da encarnação que sofreu, apesar de espírito excelso, pleno de graça e de luz. E tudo façamos em louvor ao Mestre de Nazaré, pelas palavras que se deixaram registrar nos Evangelhos, sabedoria moral e faculdades superiores no domínio da densidade corpórea, pela cura das moléstias e pela obediência dos espíritos impuros.
Quando estivermos prestes a exercer auxílio de valor aos que sofrem, pensemos naquele amigo cireneu que se obrigou a carregar o cepo da cruz, porque Jesus esvaíra as energias, não tanto pelo flagelo físico, muito mais pelas considerações a respeito dos homens que não sabiam, definitivamente, o que estavam fazendo. Abandonado dos amigos e dos discípulos às mãos dos algozes, somente ele se sentiu corajoso para arrostar a crucificação. Mas, na última hora, se viu na companhia de dois facínoras igualmente condenados à morte, de acordo com a tradição bíblica, apesar de sabermos que a sua foi a única cruz a erguer-se naquela tarde no Gólgota. Em todo caso, aceitemos que tenha dito a um que estaria no Reino do Pai naquele mesmo dia, porque se arrependeu e acatou o castigo extremo como justo pela desfaçatez de seus crimes.
Sempre é o ensino mais adequado que se imprimiu nas páginas sagradas dos textos evangélicos. Não ocorreu, na realidade histórica, o fato narrado? Que importância terá o deslize ou mesmo a malícia dos escritores, se podemos extrair de cada palavra uma lição, porque o que vale não é a pregação senão o espírito com que é recebida e, mais ainda, a forma pela qual é aplicada, sempre em favor do cumprimento das leis maiores, que viemos repetindo desde o início de nossas sessões.
O mesmo raciocínio vale para os textos de Kardec, muitos deles ultrapassados pela ciência moderna ou pelas informações daquela mesma plêiade de espíritos que não descansaram desde a codificação e que continuam produzindo mensagens propícias ao entendimento humano, tendo em vista que o nível evolutivo vai num crescendo irrefreável.
Mas, se não podemos dizer que Kardec nos acompanha nos embates do dia-a-dia, porque desconhecemos a largueza de sua capacidade vibratória, é de todo plausível que concluamos que Jesus está sempre junto daqueles que o invocam em nome de Deus, conforme nos assinalou para quando nos reuníssemos em proveito dos semelhantes. Jesus, pessoalmente, sabemos que não vem, conquanto não lhe seja impossível atender aos reclamos dos seres que se tornam excelentes em virtudes, pelo aprendizado das normas evangélicas, em função do máximo que possam alcançar. Em todo caso, aproxima-se o Cristo através de seus representantes muito categorizados, missionários da paz, espíritos de muita luminosidade, habitantes em círculos muito elevados, cheios de moralidade e de amor, condoídos pelos sofrimentos conscientes dos que se sabem culpados e já resgatando as almas pelas informações de que estão adquirindo conforto por cumprirem as diretrizes doutrinárias com o coração sereno, praticando a caridade, por amor do próximo, na esperança de ampliar a sua fé na misericórdia do Pai.
Estamos esforçando-nos para apresentar Jesus ao amigo leitor, como se o mestre estivesse sempre disposto a levantar o moral dos que se deixam naturalmente abater pelas desventuras muito próprias deste mundo de expiação e prova. Abandonamos, por instantes, a oferta das premissas da felicidade anteriormente acenadas, para coonestarmos os sentimentos depressivos dos que sabem que muitos entes queridos estão sufragando atitudes que reverterão em mais dor, na necessidade de novas peregrinações terrenas. Será justo estimular a quem se sinta em condições de volver à carne em missão de apoio àqueles que lhe merecem o amor. Mas também devemos enaltecer a justiça de Deus, que jamais abandona os filhos, atribuindo-lhes sempre uma penalidade ao alcance da capacidade de suportar.
Quando você se vir a ponto de desfalecer moralmente, imagine Jesus chegando para abençoá-lo e dedique aos seres em piores condições uma prece de muita consideração e respeito por aquele que também provou das agruras da injustiça dos homens, ele, sim, consciente de todas as perfídias e maldades a serem quitadas através dos séculos seguintes. E, depois disso, lá no etéreo, de onde rege a evolução do planeta, a observar quantos crimes mais se cometeram e se cometem em seu nome, dificultando a absorção dos ensinamentos, tanto que precisou enviar muitos de seus prebostes para a formulação das diretrizes a que foi dado o nome de Terceira Revelação, o chamado Espiritismo, sob cuja bandeira trabalhamos.
E, a cada dia, em cada reunião mediúnica, os irmãos se congregam, sob os auspícios dos benfeitores espirituais, para debelarem o mal que reside em muitos corações e mentes dos encarnados ou dos espíritos errantes, não no fazendo senão por saberem que Jesus está presente, acompanhando e abençoando-lhes as atividades do bem.
Agradecemos, penhorados, esta oportunidade de dissertar a respeito de algo para o que não estamos precisamente preparados, mas que temos a noção de ser verdadeiro, porque, se nós mesmos nos empenhamos em favorecer o crescimento do amigo que nos lê, quanto maiores devem ser as preocupações dos que nos guiam os pensamentos e as emoções, para que forjemos as premissas e os argumentos, tornando a nossa obra condizente com os roteiros evangélicos que nos ensinam os professores e mentores. Não foi Jesus quem nos falou a respeito do pai que dá pão ao filho, estabelecendo a conotação quanto à magnanimidade do Pai celestial? Pois medite conosco, bom amigo, e extraia dos textos bíblicos as lições que estão a fazer-lhe falta, para que se lhe engrandeça a alma, se lhe ampliem os horizontes e se lhe melhore a atuação, sempre aberto para a recepção da luz que das esferas superiores se emana e da qual nos fazemos simples portadores.
Sinta sempre a presença de Jesus.



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DERRADEIRA MENSAGEM

Se estiver condoído o leitor por se deparar com as últimas páginas do opúsculo, do qual esperava muito mais, vamos pedir-lhe que preencha as páginas em branco ou as simples margens internas e externas com observações próprias, ainda que expressem não mais do que dúvidas e pontos que lhe pareçam obscuros. Se você quiser, verdadeiramente, elucidar os assuntos em suspenso, concentre-se em meditação serena, para que o grupo possa oferecer-lhe respostas intuitivas. Depois, agradeça ao Pai as sugestões recebidas e busque encontrar desenvolvimentos temáticos sobre os tais tópicos em outras obras, para avaliar com que segurança foi capaz de resolver os problemas.
Claro está que itens muito específicos, como, por exemplo, sobre a forma pela qual se dá a implantação do espírito em seu perispírito e quais os laços fluídicos que os prendem um ao outro, ou ainda como é que atua sobre os organismos a energia pura do campo espiritual, transformando-se o fluido cósmico universal em fluido vital, não terão outra resposta além daquela que você mesmo estiver apto a oferecer, uma vez que esta turma não prima pela superioridade científica nem será capaz de atrair irmãos das esferas mais adiantadas para as explicações cabíveis.
Vamos, então, receber o influxo das questões tradicionais, por falta de conhecimentos? Também não desejamos resolver os pontos que se encontram exaustivamente tratados nas diferentes obras de Kardec. Nem queremos influenciar decisivamente para a elucidação dos procedimentos morais, tantas têm sido as explanações e as mensagens de incentivo, segundo cada mínimo artigo de fé. Quem quer se afastar da preguiça trabalhe. Não é essa a recomendação mais geral dos benfeitores que redigem comunicações ou daqueles que se manifestam oralmente? Desejar a paz e aguardar que venham as orientações do etéreo haverá de ser ingenuidade, para não levantarmos as hipóteses de defeitos muito mais sérios.
Mas, e a alegria de ver um trabalho encerrando-se, com ares de vir a se constituir num manual precioso para os encarnados? Não deveriam os redatores demonstrar profundo contentamento, agradecendo o auxílio dos mestres, a paciência do médium e a boa vontade do leitor? E orar ao Pai por terem algum discernimento, tanto que pretendem deixar um rastro luminoso para que se dê o encontro dos mortais com Jesus?
Como gostaríamos de prosseguir juntos nesta viagem em torno dos processos mais eficazes para a conquista das esferas mais evoluídas! Em último caso, haverá de nos restar o recurso da prece, pela ênfase do agradecimento sincero, no louvor de quem trabalhou por nós e conosco, e pelas virtudes que ainda somos capazes de observar nos textos que compusemos. No entanto, um simples levantar de olhos para o horizonte da perfeição nos faz reconhecer o quanto nos falta para merecermos ser mencionados entre os autores da própria Escolinha de Evangelização.
Resta-nos, no final, evidenciar que estamos falando a verdade, segundo as discussões e conclusões do grupo, quando fizemos questão de ressaltar as qualidades de outros trabalhos, porque cada um se encarregou de trazer dissertação, descrição ou narrativa em que se pudessem constatar recursos mais avançados, mais complexos, mais elegantes, mais precisos, mais inteligentes, sob forma mais pura, mais modesta, mais sutil e mais eficiente na divulgação doutrinária do Espiritismo.
Trouxemos os textos até aqui e a mais não ousamos, porque os rascunhos que foram rejeitados pela classe não se apresentavam dignos do leitor que imaginamos ser você, intelectualmente bem dotado, sentimentalmente equilibrado, culto e convicto de que está tomando consciência dos deveres e obrigações que lhe impõem as palavras de Jesus, segundo o roteiro de Kardec.
Entretanto, também escrevemos para pessoas não filiadas ao movimento espírita, avessas mesmo aos princípios que regem as casas de atendimento espiritual de encarnados e desencarnados, porque se preocupam com o personalismo de seus dirigentes, muitos mais afeitos à realização dos próprios ideais do que voltados para a aplicação das diretrizes doutrinárias. Mas esta crítica não é nossa senão a que lemos nos corações de muitos que, entusiastas de primeira hora, se decepcionam com o cunho humano das atividades que se praticam nos centros espíritas.
Não vamos solicitar que os dissidentes se condoam pela inferioridade que sentem nos diretores das instituições oficiais e que retornem para o trabalho, esquecendo-se das proposições que contrariam o seu ponto de vista. Não o faremos nem por sugestão. Apenas, rogamos a quem esteja descontente que pense como nós o fizemos em relação à fragilidade do nosso desempenho junto a esta mesa mediúnica e saiba encontrar os defeitos de sua própria contextura psíquica, porque espírito de luz ninguém que esteja encarnado pode considerar-se, tão fortes são as irradiações energéticas da matéria a ocultar de nós mesmos aquela personalidade espiritual que é a nossa.
Façamos por entender os tópicos que se desenvolveram nas obras da codificação e mais aqueles que se acrescentaram depois, através de grande quantidade de obras mediúnicas. O mais virá por acréscimo de misericórdia do Senhor, para que obtenhamos, finalmente, o nosso sucesso cármico e ganhemos a oportunidade de transcender estes círculos atrasados, para emergirmos em plano de maior felicidade, aquele em que a paz do espírito se deixa impregnar pelo amor por nós da parte de Deus e dos semelhantes, porque nós mesmos nos esforçamos para suplantar as imperfeições da alma.
Tememos que do título que atribuímos à obra uma palavra tenha persistido e nos vá continuar impressa na consciência, e não será sucesso, nem espiritual, mas o substantivo busca, porque não podemos prescindir dessa ânsia de superação das condições da inferioridade, mesmo que habitemos outras dimensões de espectro existencial mais evoluído. Sendo assim, acreditamos que tão cedo não poderíamos concluir a exposição de nossos anseios doutrinários, que vão manter-se iluminados pelas chamas da sabedoria de Kardec e pela plenitude da graça de Jesus.
Graças a Deus!
Indaiatuba, de 04 de setembro a 30 de outubro de 1996.
Comentários

maria augusta da silva caliari  - 15/01/2012

Olá, caro Olivier, parabéns! Que teus espíritos protetores continuem te protegendo para continuares escrevendo com tamanha habilidade! Há muito,descobri que esse assunto me facina! Falar de Kardec,tentar imitá-lo é privilégio de poucos e és um desses!Abraços carinhosos da Maria Augusta.

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