Usina de Letras
Usina de Letras
   
                    
Usina de Letras
98 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 54601 )
Cartas ( 21043)
Contos (12053)
Cordel (9422)
Crônicas (20970)
Discursos (3102)
Ensaios - (9880)
Erótico (13102)
Frases (39648)
Humor (17532)
Infantil (3554)
Infanto Juvenil (2304)
Letras de Música (5408)
Peça de Teatro (1309)
Poesias (135308)
Redação (2862)
Roteiro de Filme ou Novela (1035)
Teses / Monologos (2371)
Textos Jurídicos (1912)
Textos Religiosos/Sermões (4143)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Artigos-->UM POUQUINHO DE LUZ -- 02/03/2005 - 07:02 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER
WLADIMIR OLIVIER











UM POUQUINHO DE LUZ





E OUTRAS MENSAGENS

PELA

TURMA DOS AMORES PERFEITOS




REDATOR ESPIRITUAL: JOÃO





Só pela regularidade e pela freqüência das comunicações é que se pode apreciar o valor moral e intelectual dos Espíritos com os quais nos entretemos, bem como o grau de confiança que merecem. Se é necessário ter experiência para julgar os homens, mais ainda o é para julgar os Espíritos.
Allan Kardec (Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos. Trad. de Júlio Abreu Filho. [s. ed.], São Paulo, EDICEL [s.d.] — Primeiro ano, janeiro de 1858, p. 8.)








Edição da CASA DO MÉDIUM

Rua Cinco de Julho, 1184
Indaiatuba — SP



ÍNDICE

Sem provocação ............................
1. Raízes do mal .............................
2. Quebra de sigilo ..........................
3. Cumprindo ordens ..........................
4. O poder da autoridade .....................
5. Naturalmente óbvio ........................
6. Sistema incompleto ........................
7. Onde estão os ensinamentos? ...............
8. Para que servimos .........................
9. Um dia perfeito ...........................
10. A apologia do mal .........................
11. Necessidade do bem ........................
12. Renitência no mal .........................
13. Arremetidas infrutíferas ..................
14. O medo de agora ...........................
15. Médiuns importantes .......................
16. Palestrantes menos ilustres ...............
17. A importância das avaliações ..............
18. Capacidade de entendimento ................
19. Cavalo de batalha .........................
20. Um dia proveitoso .........................
21. Mais que oportuno .........................
22. O papel do mensageiro .....................
23. Ainda vou melhorar ........................
24. Desajeitadamente ..........................
25. Por que tanta prevenção? ..................
26. Os meios-tons .............................
27. Ora, direis, perdeu-se o censo! ...........
28. Um sabichão na classe .....................
29. Uma tarde gloriosa ........................
30. A competição ..............................
31. Complexo de culpa .........................
32. As classes ................................
33. Constituindo os grupos ....................
34. As matérias de estudo .....................
35. A encarnação seguinte .....................
36. Sofreando o entusiasmo ....................
37. As ciências terrenas ......................
38. A miséria e o fausto ......................
39. A cooperação ..............................
40. Despenhadeiro abaixo ......................
41. A favor da correnteza .....................
42. Os anjos decaídos .........................
43. Partindo as nozes .........................
44. O final dos tempos ........................
45. Otimismo, enfim! ..........................
46. Respondendo aos críticos ..................
47. Soluções ..................................
48. Conceito de luz ...........................
49. Objetivo das últimas mensagens ............
50. Modéstia esquecida ........................
51. Raul ......................................
52. Rute ......................................
53. Natália ...................................
54. Ana .......................................
55. Renato ....................................
56. Agostinho .................................
57. Rosedá ....................................
58. Orlando ...................................
59. Alfredo ...................................
60. Cleide ....................................
61. Valdomiro .................................
62. Lourdes ...................................
63. Necessidade de descanso ...................
64. Algumas características da turma ..........
65. Valdir ....................................
66. Teresinha .................................
67. Considerações paralelas ...................
68. Nova intervenção do professor .............
69. Lucília ...................................
70. Convite à meditação .......................
71. Pontos polêmicos ..........................
72. Devagar se vai ao longe ...................
73. Discussões estimulantes ...................
74. Soluções ..................................
75. A colheita é obrigatória ..................
76. A parte científica do Espiritismo .........
77. Paulo de Azeredo ..........................
78. Nomes famosos .............................
79. Sistemas lógicos de exame das mensagens ...
80. Compatibilidade energética ou fluídica ....
81. A roda da sorte ...........................
82. Noticiário do além ........................
83. Carregando um peso extra ..................
84. Deus perdoa? ..............................
85. Querelas internas .........................
86. Limites da coragem ........................
87. A reconciliação ...........................
88. A quem interessa a verdade ................
89. Diante dos conselhos particulares .........
90. Perto da morte ............................
91. Para quem serve o texto anterior ..........
92. Pequeno atraso ............................
93. Não se exagerem os compromissos ...........
94. O medo de falhar ..........................
95. A pausa que refresca ......................
96. Um pouquinho de luz .......................
97. Histórias bem contadas ....................
98. A água benta ..............................
99. Peripécias mediúnicas .....................
100. Calmaria ..................................
101. Resultados previsíveis ....................



SEM PROVOCAÇÃO

Eleito pelo grupo, eis-me para a apresentação do texto que passaremos a ler, em seguida.
São estas algumas palavras simples, que a obra não requer grandes esforços para ser lida e compreendida. Cabe-me avisar que as normas que nos regerão o trabalho são as mais comuns e ligeiras, porque nos preparamos exaustivamente no sentido de realizar algo que não pusesse dúvidas nos cérebros dos encarnados.
Sem mais delongas, passo a referir o meu nome, João; o do mestre, Alfredo; do grupo, Turma dos Amores Perfeitos.
Há de ser notório que estamos muito à vontade para as apreciações que levaremos a cabo, experimentando os leitores desde logo o sabor acre das reprimendas explícitas, porque não teremos contemplação quanto a realizar algo que fira as almas em débito.
E quem é que se pode ufanar de que nada tem a temer, tendo em vista a pureza de suas virtudes?



1. RAÍZES DO MAL

O egoísmo é o defeito mais complicado para extirpar-se da personalidade.
Não desejaria avançar na análise dos processos de aquisição desse mal, porque inutilmente iria requerer dos leitores que me seguissem os raciocínios, caso se vissem retratados. Aos que não são egoístas, pouco lhes dará o fato de haver uma sábia explicação.
Os estudos da alma humana encaminham os seres para a superação de todos os males?
Não é verdade que a quietude deste ambiente íntimo de leitura traz à memória desenvolvimentos temáticos de mais nobre estirpe? Então, não quero assenhorear-me da atenção dos encarnados e lhes digo, sem humildade, que não vou satisfazer-lhes a vã curiosidade dos retratos que os isentam de participação emocional.



2. QUEBRA DE SIGILO

As razões que nos conduzem neste rancoroso desenvolvimento não se prestam a oferecer um texto que pudesse servir de roteiro para a superação dos vícios de mesmo naipe dos leitores.
No entanto, se lhes disser que estou cansado de ser pressionado pelo sentimento de culpa, vocês acreditarão?
Aos poucos, o grupo irá demonstrar o motivo de se haver denominado de Turma dos Amores Perfeitos. Por ora, baste-nos a referência explícita da debilidade consciencial.



3. CUMPRINDO ORDENS

A primeira idéia que deve estar passando pelo seus cérebros é a relativa à necessidade de virmos expor tão pouco nobres sentimentos, ou melhor, se não nos causa certa revolta esta exposição pública de defeitos tão graves.
Não haverá de ser pelo fato de estarmos a redigir com certa desenvoltura que se poderá concluir que haja méritos de monta na análise a que nos propusemos.
Se alguém concluir pela desfaçatez ou pelo caradurismo do grupo, deverá engolir a intuição. Na verdade, estamos apenas e tão-somente cumprindo ordens.



4. O PODER DA AUTORIDADE

Se nós nos rebelássemos, não seria justo imaginar que nenhum texto mediúnico estaria à disposição dos leitores?
Quem tem o poder de nos manter sob o guante da necessidade das transmissões que vamos efetuando é o nosso próprio arbítrio, porque concluímos que os mestres das muitas turmas de alunos desta Escolinha de Evangelização não podem exigir esta espécie de confissão direta ou indireta, que é a manifestação dos pensamentos e dos sentimentos perante os encarnados.



5. NATURALMENTE ÓBVIO

Assusta-nos o fato de estarmos perante os nossos escritos. Desejávamos exercer o direito a ter voz ativa junto ao médium e nos deparamos com sério problema de entrave da transmissão confusa que seria a transcrição ideal de nossa personalidade.
Mas está o médium colocando obstáculo?
De modo algum. Ele vai cumprindo a sua parte na tarefa a que se propôs, surpreso mas esperançoso, sabiamente predisposto a anular as mensagens, pelo poder que tem de tudo apagar de uma só vez.
Resguardado o retransmissor, ficamos a sós perante o público.



6. SISTEMA INCOMPLETO

Cada pequenina página representa o que de melhor somos capazes de elaborar segundo a premissa do mais simples e do muito oportuno.
Não se queira ver nos curtos textos algo mais nas entrelinhas. O que está dito é o que se encontra diretamente expresso através das palavras, expressões e frases. O mais estará para ser encontrado no grande número de mensagens.
Vão pensar que deveríamos anular tão formidável oportunidade de apresentação aos mortais. Mas cada qual tem de seguir um sistema, ainda que possa parecer incompleto.
Por outro lado, se for o caso, poderão os mais argutos deduzir que o volume dos ditados diários corresponderá ao que os outros grupos passaram em seus dias de trabalho.
Será que isso dará a nós o crédito de estarmos definindo-nos pelo melhor método de chamar a atenção de vocês?



7. ONDE ESTÃO OS ENSINAMENTOS?

Quem lhes disse que iremos ensinar qualquer coisa? Se alguém estiver desejoso de aprender, corra em busca das bibliotecas espíritas, cujas estantes estão cheias de obras de todos os gêneros literários, com os mais diversos ensinamentos morais, doutrinários, filosóficos e científicos.
Aqui só se resumem umas poucas idéias e o mais será este mesmo revoluteio mental de quem não se adaptou ainda à rígida disciplina das obras completas.
Se tivéssemos o dom das longas escrituras, vocês acham que nos limitaríamos a apresentações tão pobres?



8. PARA QUE SERVIMOS

Servimos para incentivar os irmãos de boa vontade a que se esmerem em suas vidas o mais possível, para não virem até este posto de trabalho, um dia, e buscarem desenvolver roteiro semelhante ao nosso, pela recordação de que tivemos a oportunidade de realçar as debilidades e não de enaltecer as virtudes.
Aí alguém irá dizer que os espíritos que se comunicam não têm gabarito para fazê-lo, de modo que preferível seria que nos calássemos.
Mas a nossa importância está justamente nesse fato, isto é, em que temos o ensejo e não vamos desperdiçá-lo.
Aplaude-nos o mestre e isto nos basta.
O mais virá por acréscimo de misericórdia do Senhor.



9. UM DIA PERFEITO

Mais tarde, quando tivermos terminado os ditados e virmos o volume das mensagens impresso precariamente pelo método caseiro do médium, iremos agradecer a Deus o fato de termos trabalhado para isso.
Se cada cidadão se sentir feliz perante um trabalho encerrado, capaz de apreciar que algo de substancioso emergiu do fundo de sua inteligência, sob o amparo de certo equilíbrio intelectual, o suficiente para a realização da obra, estará a humanidade prestes a encerrar um capítulo negro de sua história.
Não pensam assim os amigos leitores?



10. A APOLOGIA DO MAL

Nem sempre os elementos que procuram os médiuns trazem mensagens de amor e de harmonia. São muitos os que, sorrateiramente, se infiltram junto às casas mediúnicas, por via dos maus vigilantes que as freqüentam e, desde que são ouvidos, afastam os benfeitores do centro e guias individuais.
Exercem, então, seu poder sobre todos os participantes das sessões, uns por não verem realmente o mal a se instalar nos corações, outros por se julgarem imunes a tais influências deletérias.
Eis que acusamos a ignorância e o orgulho. Cuidado, irmãos!



11. NECESSIDADE DO BEM

Não vamos dizer que a prática do bem seja útil para isto ou aquilo. Parece-nos óbvio que todos, sem exceção, já por estarem lendo, já por estarem ouvindo, têm como certo o princípio de que fazer aos outros o que se desejaria que fizessem consigo mesmos é o que há de mais certo no mundo, para que haja paz e felicidade.
Por outro lado, também vemos que existem aqueles que querem realizar atos maldosos, seja no campo dos relacionamentos humanos, seja na requisição aos irmãos infelizes da espiritualidade. Em relação a esses é que devemos envidar mais esforços, para lhes proporcionar conforto, bem-estar, comodidade material e espiritual, com o fito de desarmá-los quanto à perversidade das intenções.



12. RENITÊNCIA NO MAL

Para muitos, por mais que se empenhem os amigos em torná-los melhores, não adianta qualquer pregação ou qualquer ajuda física, assim considerados os empréstimos de valores ou a doação de produtos.
Há quem reze pelas inundações, preparando-se convenientemente para a obtenção da piedosa contribuição dos que se condoem pelo seu falso infortúnio.
Estamos retratando de forma muito vil certos espécimes da humanidade, de propósito para ferir susceptibilidades, principalmente de quem deseja adentrar no reino de Deus pela afirmativa de que são ingênuos e inocentes. De algum modo, estes também são obstinados, como se o fato de pensar sobre as virtudes antes de adquiri-las é jugo imposto pela doutrina espírita. São os que crêem que Jesus não os sobrecarregaria de dúvidas e de preconceitos, porque se sentem frágeis perante a grandiosidade do mal.



13. ARREMETIDAS INFRUTÍFERAS

Para que se afastem os espíritos que têm por objetivo perturbar os irmãos, por razões as mais variadas, é preciso estar atento para a malícia própria e alheia. Não há como não considerar Kardec um dos mais vigilantes na apreciação de quantas pessoas se ofereciam para a sua Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, sendo ainda mais cuidadoso quanto a tudo que viesse por escrito, sendo ou não atribuído aos espíritos.
Quando estava reunido na sede de sua associação, para estudo e contato com os irmãos protetores, sentia Kardec a força dos nobres argumentos das entidades do plano mais elevado que lhe davam assistência. Essa permanente atitude de submissão aos comissionados do Espírito de Verdade não se deixava jamais impregnar de cega crendice, nem quando a assinatura evidenciava figura histórica de valor. Nenhum texto foi mais exaustivamente analisado do que aquele que portava o nome da insigne entidade em que viam a personificação do próprio enviado de Jesus.
Nesse ambiente de estudo e seriedade, teriam curso as formulações indevidas, aptas a desviar os espíritas da primeira hora de seus objetivos maiores?



14. O MEDO DE AGORA

Não há como não falar a respeito das notícias que os espíritos passam para todos os irmãos filiados ao movimento espírita, engajados em casas de atendimento evangélico aos necessitados do plano da espiritualidade.
Na maioria dos casos, as mensagens são muito simples, apesar de belas e sentimentais. Sempre estão fundamentadas nos ensinos doutrinários mais importantes e recomendam a vigilância e a oração. Quase todos repetem as palavras de Jesus e falam do Pai com respeito e veneração, conforme a lei de adoração, que se encontra descrita em O Livro dos Espíritos.
Em alguns poucos centros, uma ou outra entidade de conhecimentos avançados comparece para explanações técnicas, de acordo com sua própria necessidade de padronizar o ato mediúnico ou o desejo de algum dos médiuns de se pôr a serviço dos seres evoluídos.
Se são poucos esses casos, muito mais raros são aqueles em que as comunicações trazem o sinete do vanguardismo informativo, comportando ensinamentos não contidos nas obras de Kardec. Na quase totalidade dos centros, qualquer iniciativa desse gênero esbarrará no temor do engodo e da falcatrua, precisando que o médium dê o anteparo de seu nome aos dizeres que transcreve.



15. MÉDIUNS IMPORTANTES

Alguns médiuns alcançam projeção no movimento espírita, tendo em vista o poder de suas publicações. Consagram-se e passam a existir com certa aura de santidade, sendo recebidos com excelsas honras para as palestras eventuais, quando são convidados.
Muitos desses expõem temas a que se acostumaram, mas com eloqüência estudada, cujo efeito é o mais perto possível do êxtase do auditório.
Quando apresentam obras escritas, logo se alvoroçam as pessoas e correm a adquiri-las, conquanto nem sempre se dediquem a uma leitura atenta, conforme os preceitos de Kardec, porque, ainda que os textos sejam irrepreensíveis, é preciso redobrado esforço para a aquisição das noções novas que ali se registram. Seria de todo inútil que tais obras somente viessem para repetir o que a literatura espírita ao alcance de todos já assinalou, muito especialmente as obras da codificação.



16. PALESTRANTES MENOS ILUSTRES

Não são poucos os centros que mantêm regularmente reuniões públicas para a pregação doutrinária. Existem, portanto, muitíssimos oradores para corresponder à demanda.
Dentre esses eméritos personagens, muitos se improvisam, repetindo as noções mais elementares, de forma cansativa e monótona, crentes de que melhor serviriam ao povo que ali se reúne se se dedicassem a outro tipo de labor evangélico. Mas vão, capengando embora, preenchendo as lacunas, enquanto não comparecem expositores mais bem dotados.
Se são levantados problemas relativos à tediosa apresentação de conceitos mal alinhavados, logo se erguem os defensores dessa atividade, afirmando que é melhor respingar umas gotículas sobre as plantações do que deixarem que morram secas.
O importante, no caso, é que os palestrantes sejam suficientemente humildes para se reconhecerem bastante inferiores àqueles referidos no item anterior, elegendo o estudo e o treinamento como passos que precisam dar de imediato, mesmo que seja no próprio âmbito da casa espírita, em reunião dos dirigentes e de convidados especiais.



17. IMPORTÂNCIA DAS AVALIAÇÕES

Dissemos que não viemos ensinar nada aos encarnados. Teríamos mentido, à vista das últimas dissertações? Cremos que não, porque nada que ali se contém excede a qualquer pensamento lúcido a respeito dos acontecimentos corriqueiros dentro dos centros espíritas.
O que podemos acrescentar sob o título acima é que o hábito das avaliações deve instalar-se em todos os setores dos serviços, aos quais se prestam os obreiros com tanta boa vontade e tanta paz de espírito.
Claro está que não estamos pleiteando acendrado interesse em criticar, conforme estabelecemos em relação às manifestações mediúnicas. O que desejamos é possibilitar que o seu empenho vá num crescendo de melhorias, até que em todas as atividades atinjam performances de superior quilate.
Neste caso, é bom ressaltar que existirá sempre o perigo dos melindres e das acusações indébitas, por falta de resignação ou de tato.



18. CAPACIDADE DE ENTENDIMENTO

Para contornar todos os problemas, há que se reforçar a recepção das observações alheias, no sentido da tolerância e da humildade.
A programação do ato de avaliar, portanto, necessariamente, terá de conter a prévia preparação de todos, para que as manifestações não visem as pessoas mas a qualidade de seu desempenho, para o que é imprescindível dar ênfase ao fato de que elas estão oferecendo o que têm de melhor, seja quanto a cumprir as obrigações, seja quanto a apontar as falhas e indicar as correções.
A capacidade de entendimento está intimamente ligada à compreensão da personalidade de cada companheiro, preparando-se todos para o perdão oportuno dos maus hábitos incrustados em suas mentes, porque se deve aguardar exatamente aquela manifestação, partindo sempre das mesmas pessoas.
A questão primordial se contém, pois, nos pontos em discussão e não na maneira pela qual são propugnadas ou são recebidas.



19. CAVALO DE BATALHA

Estamos adentrando alguns pontos polêmicos de propósito para provocar os leitores, no intuito de fazê-los entender que a nossa insistência poderá transformar-se em embaraço, dificuldade ou complicação. Se fizerem de nossa exposição mero cavalo de batalha, gerando repulsa por esta espécie de comentário, então, como é que esperam reagir quando submetidos a toda sorte de apontamento por parte dos parceiros de centro espírita?
Valemo-nos, portanto, do recurso à nossa disposição para o acicate dos sentimentos mais à flor da pele. É mera exemplificação que esperamos que surta efeito junto àqueles que não estão acostumados a ver os seus atos submetidos às análises explícitas e verossímeis.
Qual a utilidade disto?
Será que precisamos lembrar que todos os encarnados terão de passar pelo crivo das eternais verdades, mesmo que os julgamentos se realizem no âmbito da consciência, para subirem um simples degrau na escada da perfeição?



20. UM DIA PROVEITOSO

Levando em conta que estamos trabalhando, devemos agradecer a Deus, porque nem sempre as pessoas têm condições de realizar alguma tarefa em que se exige mínimo talento.
Estando ao nosso dispor a linguagem humana, somos capazes de traduzir pensamentos e sentimentos, ainda que singelos e fáceis de qualquer um lucubrar.
Baste-nos, pois, a satisfação de vir ditar algumas considerações, porque temos a certeza de que muita gente há de estar estremecidamente agradecida, por virmos lembrá-los de sua própria capacidade.



21. MAIS QUE OPORTUNO

O trabalho mediúnico não precisa ser o mais útil nem o mais inteligente. Se o nosso for apenas verossímil e conseguir comprovar a existência da vida após a morte, estaremos satisfeitíssimos.
Quanto a nós desta Turma dos Amores Perfeitos, somos bastante gratos aos mestres por nos oferecerem esta oportunidade. Sabemos, porém, que não vamos demonstrar nossa existência no plano da espiritualidade a nenhum encarnado, até mesmo aos que labutam nas hostes espíritas, porque não lhes damos nada em acréscimo de conhecimentos ou emoções.
O que é importante para nós é o fato de estarmos redigindo e lendo o que escrevemos, dado que muitos cá chegamos analfabetos.
Isso espanta?
Pois não deveria, porque a reação mais lógica seria aquela de conhecer a possibilidade evolutiva dos seres, ao menos no aspecto intelectual.



22. O PAPEL DO MENSAGEIRO

Evidentemente, estou valendo-me dos recursos do médium, no sentido de estabelecer contato lingüístico, o que lhe peço desculpar-me, tendo em vista que deveria, ao contrário, selecionar melhor os dizeres, para a produção de um texto “legal”, “bacana”, escorreito, belo, gentil, poderoso.
Dei acima um exemplo simples de como posso usar o repositório vocabular do médium, segundo as prescrições que o mestre me passa, informando qual o poder de evocação de cada termo.
Por isso mesmo, quando venho para deixar traços de nossas personalidades, favoreço-me do auxílio do encarnado e do professor, ambos a me facultarem escrita lépida e, na medida do possível, sensata.



23. AINDA VOU MELHORAR

Não tendo experiência nenhuma para a composição de textos, havendo lido muito pouco durante toda a existência, preciso justificar a minha presença com um pouco de história da humanidade.
Apelando para cálculos estatísticos, iria demonstrar que a grande maioria das pessoas, em todos os quadrantes do universo, não se dedica a este mister. Que dizer, então, se voltarmos o olhar para o passado dos povos?!
Faz muitíssimo pouco tempo que se inventou a escrita e um átimo de segundo que se deu oportunidade de aprendizado dela a boa parte das populações.
Encaixo-me, portanto, dentro dos padrões da maioria. Sendo assim, agradeço mais uma vez ao Senhor por estar fornecendo mensagens de muita esperança aos mais tacanhos, aos mais necessitados de cultura.



24. DESAJEITADAMENTE

Não vou lamentar, por tudo quanto venho expressando, a minha pobreza, a qual se reflete diretamente na formulação dos textos.
Também não posso afirmar que tenho recebido muita ajuda, porque seria o mesmo que induzir os leitores a que concluam que não é o João quem se digna redigir; mas que transcreve tão-só os ensinamentos do mestre.
Por outro lado, tendo asseverado que busco nos arquivos mentais do médium muitos termos e expressões, outros “engraçadinhos” poderão acusar o infeliz de estar praticando o que chamarão de animismo.
Nada disso. Toda e qualquer falta de jeito, ausência de brilho, deselegância nas construções sintáticas e a má escolha semântica devem ser atribuídas a este comunicador.



25. POR QUE TANTA PREVENÇÃO?

Pode parecer aos leitores que não tenha assunto melhor ou que não me dediquei a preparar-me convenientemente para este momento mediúnico.
Como a turma ajuizou corretamente a respeito do futuro negro dos textos, que não passarão pelo crivo da censura do próprio intermediário, estamos treinando a nossa parte nos trabalhos de mediunização.
Seria bem melhor que deixássemos algo que fizesse os leitores deliberarem por mudanças fundamentais em seu procedimento irregular. Mas não há como deixar de lembrar que existem, para isso, obras sagradas e obras doutrinárias de intransponível valor.
Que fazer? Abandonar a mesa?
Jamais! Vou continuar, aproveitando-me da boa vontade de todos, mesmo sabendo que, toda vez que me dirijo aos leitores, para justificar esta ou aquela ação mental, apenas estou exagerando na prevenção contra as acusações de que poderei ser alvo.



26. OS MEIOS-TONS

A origem de nossos atrevimentos foi revelada, porque não vamos ingerir mudanças comportamentais em nenhum leitor, nem, ao menos, para pô-lo a par da situação precária de muitos do etéreo. Mas também não podemos desleixar no exercício que tão oportunamente nos foi solicitado.
Por isso, aquela agressividade dos primeiros textos está adquirindo outros padrões de cores, tornando-se menos forte a expressão de nossos pensamentos e de nossos sentimentos.
Nada é mais favorável ao progresso do que o trabalho seguido de meditação a respeito das repercussões dele.
Eis a chave para abrir as portas à compreensão da contínua vigilância sobre as produções mediúnicas.



27. ORA, DIREIS, PERDEU-SE O SENSO!

A lembrança do soneto famoso do mestre Bilac serve-nos para trazer um pouco de cultura a estas manifestações.
Certamente, quem “ouve estrelas” poderá até ser considerado “normal”, tendo em vista que estaria contemplando o Universo, a filosofar a respeito da criação.
Mas quem vem estabelecer contato e não traz harmonia espiritual corre o risco de receber algumas boas bordoadas dos exigentes leitores.
Sendo assim, que se ouçam as nossas palavras no mesmo diapasão daquele que costumava “ouvir estrelas”, reconhecendo, não a grandiosidade da criação, mas a temperança da criatura que se esfalfa para trazer uma luz distante até as retinas dos encarnados.
Valha-me a comparação para dizer que as luzes das estrelas são apagadas apenas porque estão a muitos anos-luz de distância. Quem menosprezar completamente estas mensagens haverá de se aproximar, um dia, das estrelas...



28. UM SABICHÃO NA CLASSE

Tendo evidenciado conhecer um texto literário, os coleguinhas me consideraram sumamente capacitado para exercer este ministério prático junto à mesa mediúnica.
No entanto, por dever moral superior, não posso deixar que se iludam quanto à origem da citação. É que vasculhei os arcanos da memória do encarnado que nos serve de instrumento, tendo descoberto o soneto, que me calhou à perfeição para o inteiro teor do texto que havíamos combinado.
Não deveria fazê-lo, buscando outro termo para a comparação entre o que se realiza e o que se deveria concretizar?
Pois não penso assim, estando até abrindo-me para a aceitação de outras colaborações valiosas que o médium deseje me proporcionar, muito embora esta seja a condição oposta à sua oferta de trabalho.
Nesse ponto é que posso considerar-me esperto, porque não irei jamais lograr ninguém através da demonstração de conhecimentos que não possuo. Mas devo afirmar que vou assimilando as lições com certa presteza mental, de sorte que, não haverá de demorar, estarei com excelente acervo de palavras, verdadeiro dicionário ambulante, para que a escolha não tenha de fazer com a ajuda alheia.



29. UMA TARDE GLORIOSA

Quando a força foi desligada em virtude do temporal que se abateu sobre a região, o médium, conforme pudemos comprovar, se aborreceu, tendo em vista que trabalha com um aparelho eletrônico. Aguardou ele que se restabelecesse o fornecimento de energia elétrica, mas o tempo foi passando, estando na hora habitual de se oferecer para os ditados. Aí, decidiu-se por operar manualmente, tendo acendido um lampião e, munido de papel e caneta, isolou-se para as primeiras transcrições.
Desse modo, não deu solução de continuidade ao nosso labor de aspirantes a socorristas, colaborando até com sacrifício para que pudéssemos escrever.
O que o incomoda é este relato, porque teme que a sua participação esteja além dos limites do conveniente, conhecendo o reproche a que estará destinado por parte dos censores intransigentes.
Mas a mim me soube o caso muito ilustrativo do discernimento dos encarnados que se predispõem sem discriminação para o contato mediúnico, ainda que seja inexpressivo e monótono.
Não contagiou esta minha alegria os leitores? Paciência. No entanto, devo noticiar que, junto a esta Turma dos Amores Perfeitos, repercutiu como um ato de altruísmo. Não vou além, para não incidir na falha do elogio gratuito e desproporcionado.



30. A COMPETIÇÃO

Não nos move o desejo de superar nenhuma outra turma, porque todas têm os seus pontos altos e seus pontos falhos. Neste nosso ambiente de trabalho, o que conta, na realidade, é o espírito de colaboração, tanto que o repúdio aos maus, aos vaidosos, aos orgulhosos e aos egoístas é o que ocorre de princípio, estando impedidos de entrar na colônia os que não se conformam às críticas vigorosas dos socorristas.
Quer dizer que não há ninguém com tais defeitos?
Eu não disse isso. Não há ninguém que não esteja empenhado em suplantar os defeitos morais e os vícios de comportamento. Para tanto é que muitos se oferecem espontaneamente, com o fito de auxiliar os demais na apreciação detalhada de todos os pensamentos e sentimentos, para o que é de obrigação que a mente se abra para a visitação alheia.



31. COMPLEXO DE CULPA

Se alguém se deixa embalar por soturnas demonstrações de infelicidade, buscando lenitivo na compaixão do grupo, irá resvalar morro abaixo, até cair na ribanceira das penas que a consciência irá cominar, sem dó nem piedade.
Para que não aconteça esse desregramento, todos são oportunamente avisados, recebendo os novatos forte amparo dos mais antigos, inclusive por meio de câmaras de descompressão emotiva, espécie de compensação fluídica de boa categoria, para os efeitos nocivos das contrariedades causadas pelas acusações íntimas.
O que acontece mais freqüentemente com as entidades em fase de adiantamento sentimental são esses delíquios ou desmaios, porque o crescimento exige a compenetração das falhas, dos enganos e das noções rudimentares em oposição à verdadeira doutrina evangélica do perdão e do amor incondicional.
Para todos existe socorro adequado a cada situação, tendo em vista que a experiência acumulada nos institutos especializados é extensa, a nortear os procedimentos de urgência.



32. AS CLASSES

Ninguém pode considerar-se apaniguado ou protegido pelo fato de pertencer a um grupo coeso de alunos de determinados mestres, segundo o grau de desenvolvimento intelectual ou sentimental que apresentem.
Quem merece destacar-se pelo desempenho especialíssimo em todos os setores do conhecimento e da prática para que foi solicitado, passa a compor outra equipe na área em que se destacou. É o que acontece, por exemplo, com o grupo bastante numeroso dos professores.
Falo das classes mas penso nos isolamentos.
Isto porque é preciso que me refira a dois processos especiais de progresso. O primeiro, de fácil compreensão, se situa no limiar de entrada na colônia, quando o companheiro é trazido do Umbral ou das Trevas em estado de lastimável ruína perispirítica. Para ele, reserva-se um leito no hospital e o seu atendimento é individualizado. O segundo, que não poderei descrever com precisão, está justamente no pólo oposto, ou seja, entre os ministros e governadores prestes a nos abandonar por adquirirem méritos para a ascensão que todos buscamos.



33. CONSTITUINDO OS GRUPOS

Não vou esforçar-me demasiado neste tópico, porque acho que a maioria dos leitores sabe que os semelhantes se atraem. Sendo assim, por economia de tempo e por facilidade de compreensão, após vários estudos de personalidade, os espíritos são reunidos em grupos de mesma amplitude energética, de mesmas aspirações, de mesmas tendências, de mesmo retrospecto vital.
É de notar que os semelhantes não são como coelhos de mesma ninhada. O principal para aproximá-los entre si não se situa numa linha de procedimentos com específicos deslizes e idênticas rupturas morais. O que mais importa para os administradores é a faculdade de aprendizado estar desenvolvida de maneira a facilitar que as lições vão sendo absorvidas mais ou menos contemporaneamente.
Isto vai repercutir num processo de interesse em relação à criação das amizades, porque o contar de histórias pessoais vai demonstrando como é que as soluções resultaram em erros ou acertos, o que define a programação curricular.



34. AS MATÉRIAS DE ESTUDO

Se for reproduzir ipsis litteris a nomenclatura das matérias, com certeza irei embutir na mente dos leitores certa desconfiança de que estou imaginando coisas. É que os nossos estudos parecem estranhos quando se comparam aos currículos dos estabelecimentos de ensino terrenos.
Vale um exemplo.
Quando a gente quer desenvolver o sentido de proporção entre causa e efeito, vai em busca de esclarecimentos em classe interessada em observar os históricos dos colegas e em experimentar as mesmas condições que geraram os defeitos interpretativos. Nesse caso, a matéria denomina-se: Desenvolvimento do senso de observação tópica, segundo as reações conhecidas e as expectativas pessoais de desempenho.
Claro está que poderia inventar para a disciplina um nome mais orgânico do ponto de vista dos mortais. Não o fiz porque me interessava sugerir que, em geral, o currículo consigna primazia aos temas de aperfeiçoamento das virtudes, pela descoberta e exclusão das causas dos empecilhos.



35. A ENCARNAÇÃO SEGUINTE

Terão tantos cuidados com a aprendizagem dos valores morais superiores o objetivo de aplicação em imediata transferência do espírito para um corpo material?
Tal questão tem produzido muitas discussões até mesmo em turmas mais adiantadas, porque se parte do princípio de que nenhum conhecimento se incrusta na personalidade sem um teste de campo; e é isso que representa uma vida carnal.
Daqui as peripécias das lucubrações inteligentíssimas que se realizam em torno do problema da atualidade das vicissitudes dos reencarnantes, uma vez que as pessoas de carne e osso recebem grande influxo de influências, sejam quais forem as estruturas socioeconômicas de suas relações familiares. Em outros termos, a par de estar o espírito melhor habilitado para o enfrentamento das premências materiais, também ocorre a necessidade de adaptação aos processos vitais específicos da sociedade humana.



36. SOFREANDO O ENTUSIASMO

Não quero explanar a respeito de assuntos polêmicos até entre os desta instituição de ensino. Por isso, vou conter o ânimo para firmar o princípio da moderação intelectual, instando por desenvolver outro ponto de certa forma também abrangente demais.
Quero falar do processo criativo da dúvida.
Sei que muita gente detesta o hábito milenar dos cientistas encarnados de porem em xeque todos os conhecimentos consagrados, sejam quais forem os luminares que lhes deram causa. Mas essa atitude está correta ou as ciências não progredirão.
Preciso justificar, no entanto, a existência das certezas, quando se trata dos princípios axiomáticos das virtudes morais superiores. Quem irá duvidar, por exemplo, de que o amor seja o principal dom dos espíritos que se livram da injunção das dores e dos sofrimentos, ainda quando pensam em quanto o Cristo penou nas mãos dos algozes, isto é, a humanidade toda? Será justo considerar a hipótese de que Jesus tivesse dúvidas a respeito do que quer que fosse?



37. AS CIÊNCIAS TERRENAS

Se algum cientista se abalar a conhecer os dizeres que estamos registrando, irá desafiar-nos, em algum momento, a apresentar desenvolvimento temático fundamentado nos rigores retóricos da disciplina em pauta.
Não pretendo trazer nenhum estudo relativo a qualquer ciência, como também não vou demonstrar teses filosóficas de alto coturno, mesmo porque não conseguiria elaborar textos de superior qualidade literária.
Não posso, porém, decepcionar nenhum mortal pleno de interesse por novidades. Sendo assim, abalancei-me a relatar alguns eventos no âmbito da Escolinha de Evangelização, segundo a orientação que lhe é dada pela administração superior da colônia.
Eis a consideração que desejei fazer, sugerindo que os leitores se prendam também às pesquisas universitárias ou laboratoriais, no plano da matéria, através do interesse que demonstram os que se situam em postos importantes dentro da política ou da economia, porque as ciências terrenas se desenvolvem, sobretudo, em função das verbas que lhes são conferidas.



38. A MISÉRIA E O FAUSTO

Evidentemente, devem os leitores estar aguardando algum comentário a respeito das acima citadas verbas, em clara referência às necessidades das populações carentes e famintas do mundo todo.
Para encurtar a conversa, devo afirmar solenemente que a humanidade está passando por fase de incríveis contrastes, em todos os setores da vida. Enquanto produz conhecimento tecnológico e correspondentes artefatos de sofisticadíssimo lavor, escraviza, aterroriza, fere, mata, extermina, em nome de direitos fictícios de bem-estar da minoria.
Esclareço que muitos dos que consomem os valores materiais em conjunto com aparelhos de última geração estão integrados no contingente populacional dos miseráveis, porque não têm perspectivas de ingressar muito cedo em colônia espiritual de expressiva tendência evangélica.
Querem que eu diga que existem irmãos no movimento espírita que se encaixam nos padrões estabelecidos acima? Respondam-me vocês.



39. A COOPERAÇÃO

Chamem de solidariedade ou de espírito de caridade, mas a verdade é que os humanos estão perdendo o domínio sobre as condições planetárias de excelência de há apenas um século atrás, porque não conhecem o poder da renúncia em favor dos irmãos, conforme a mais nobre pregação de Jesus.
Em nome de um futuro glorioso e feliz, aceitam um presente cheio de injustiça, como se o favorecimento aos que se espojam na opulência fosse a regra de ouro, para que haja disseminação dos bens e riquezas.
Estamos eivados dos valores materiais?
Não. Entretanto, como estabelecer que os menos favorecidos socialmente adquiram raízes filosóficas, científicas e doutrinárias, sem que aprendam sequer a ler, porque têm de lutar ferrenhamente pelo pão de cada dia?
Aí, vão me contradizer, asseverando que os pobres terão vantagem em relação aos ricos, para a bem-aventurança eterna.
Do ponto de vista espiritual, tal argumento se desfaz, porque a riqueza que não se furta nem se corrói deve arraigar-se na personalidade dos que estão crescendo em amor e em virtudes. Mas tudo isso tem de ser analisado, pesquisado, refletido e posto à luz da consciência da maneira a mais perfeita possível, segundo o discernimento que só se adquire em razão de um trabalho específico de aprendizado.
São essas as condições de vida da maior parte da humanidade?



40. DESPENHADEIRO ABAIXO

Lá atrás, utilizei-me da expressão do título, mas não quis referir-me ao fato de que as pessoas, em estando em determinado nível de adiantamento evolutivo, possam retroagir. Estou reparando o arroubo da expressão, apenas para dizer que estava dando ênfase ao fato de que os erros e vícios não permitem que o sujeito saiba reconhecer exatamente onde é que se encontram as ações mais propícias ao desenvolvimento espiritual.
Feita a apreciação, passo imediatamente ao tema subseqüente, qual seja, o de que as pessoas não podem se deixar abalar por sentimentos pessimistas, sempre no aguardo de que algo ruim esteja a pique de suceder.
Quando agimos em consonância com os mandamentos do decálogo mosaico adaptado à realidade do presente, concentrando esforços para a compreensão do que fazer de melhor para ajudar os semelhantes, nunca mergulharemos em ânsias de perfeição, para o repúdio de todo o mal que nos cerca. Antes, é preciso trabalhar em prol do aperfeiçoamento dos costumes, dando os mais eficazes exemplos.
Dá para entender que o nosso temor se concentrou em que aquele despenhadeiro abaixo é que ameaçava ser um modelo muito ruim?



41. A FAVOR DA CORRENTEZA

Quando os ventos sopram na direção do nosso destino, fica bem mais fácil de concretizar os ideais. Demonstração inequívoca desse fato se encontra na elaboração, transmissão e captação destes nossos textos. Tudo se conjuga para a melhor consecução dos serviços que cada um presta em seu setor de atribuições.
Aí, o pobre João toma o resultado final e o lê, desolado, porque nem sombra tem daqueles maravilhosos textos que está habituando-se a examinar, por força das recomendações do instrutor. E não me faltam apoio nem dicionários em que estacionar a atenção, para feitura de mensagem elucidativa dos pontos doutrinários.
Que acontece comigo? Estarei dando asas à preguiça, para que voe comigo às regiões da contemplação inepta das excelsas produções alheias? Sinto-me apequenado, diminuído, misérrimo, como as pessoas que noutro tópico acusei de desleixo, tendo a possibilidade de realizar substanciosas conquistas morais, pela boa vida que levam.
Será que não seria melhor remar contra a corrente?



42. OS ANJOS DECAÍDOS

Na literatura sacra, existe o episódio dos que se engrandeceram tanto pela comparação com os inferiores que, quando viram que estes estavam a merecer alguma distinção da parte do Criador, se revoltaram e, por isso, foram votados eternamente às regiões infernais.
Não tem esse conto a necessária contextura de veracidade perante a doutrina espírita para que o consideremos um fato histórico. Entretanto, serve-nos a descrição moral dos seres orgulhosos, para que nos precatemos em relação àquela expressão ribanceira abaixo. Por isso, não perco a vaza para oferecer aos leitores a alternativa das leituras edificantes da codificação, porque, sem que se saibam quais os conteúdos de O Livro dos Espíritos e de O Livro dos Médiuns, de Kardec, não se poderá ter a certeza de onde se encontram os tópicos em que demonstramos as maiores dificuldades.
Se vocês estão prosseguindo nesta leitura chocha, pode muito bem significar, caso tenham desprezado a recomendação dos textos aludidos, que estão muito próximos de se tornarem verdadeiros anjos decaídos, pelo orgulho de pensar que se bastam a si mesmos com o que agora conseguem discernir dentro da seara espírita.



43. PARTINDO AS NOZES

Quando encontramos aqueles frutos cascudos bem fechados, geralmente ficamos curiosos quanto ao conteúdo, porque conhecemos o delicioso paladar do que ali se guarda.
Não é o mesmo que se passa ao apanharmos pela primeira vez um livro na estante. Aí, examinamos muitos elementos externos, conforme o nosso vezo, como a grossura do volume, o tamanho das letras, os atrativos da capa, o apelativo do título, a nomeada do autor, os pontos do sumário, não sendo raro perguntarmos ou recebermos gratuitamente informações de pessoas em cujo discernimento confiamos.
No caso das leituras de obras como a nossa, é muito natural que os capítulos demasiado curtos propiciem certo mal-estar temático, conforme o acaso leve os leitores a desenvolvimentos que não se coadunem com a sua maneira de pensar ou com a sua expectativa quanto ao que ler nos livros mediúnicos.
Não querendo ser demasiado otimista, espero que a minha noz contenha um recheio saboroso, para não conduzir os leitores a julgamentos pouco lisonjeiros em relação às obras dos alunos da Escolinha de Evangelização.



44. O FINAL DOS TEMPOS

Pode parecer muitíssimo pretensioso o nosso parecer a respeito dos sucessos no campo das realizações terrenas, mas, pelo andar da carruagem, se continuarem os estragos no meio ambiente, logo os recursos naturais entrarão em fase crítica, deixando de oferecer abrigo e sustento aos bilhões de seres humanos que não cessam de procriar.
Esta visão apocalíptica, no entanto, se esfacela diante das perspectivas limitadas de vida dos octogenários, por exemplo, para os quais o final dos tempos, de qualquer ângulo que encarem a realidade, está muito próximo, ainda que esperem viver mais vinte ou trinta anos.
Refiro-me aos provectos para estimular o raciocínio no sentido de que a visão do futuro que têm está eivada de preocupações com o término da jornada, havendo importantes incrementos de desesperança quanto à sobrevida a cada momento que passa. Em outras palavras, em lugar de considerarem que lucraram bastante com a possibilidade de se tornarem muito experientes, vão desiludindo-se quanto aos projetos que um dia formularam e que deixaram de concretizar.
Talvez seja esta a ponderação mais séria dos espíritas convictos, em relação à desordem material do planeta.



45. OTIMISMO, ENFIM!

Enxergando através dos conceitos doutrinários, podemos vislumbrar um futuro pleno de felizes realizações, porque coube ao Espiritismo esclarecer que o gênero humano está em franco progresso, representando os deslizes pequenos problemas que alguns ajustamentos de diretrizes políticas e econômicas terminarão por superar.
Se aqueles velhos acima referidos não têm como confeccionar projetos de melhoria cósmica, as novas gerações chegam imersas nos problemas, sendo extremamente mais permeáveis ao conhecimento das dificuldades, já não tanto por calcularem que os seus filhos e netos vão sofrer as conseqüências dos abusos das civilizações, mas porque estão contando, através de projeções matemáticas seguras, quantos recursos restam em cada quadro das necessidades humanas, como o hídrico, o atmosférico, o do solo cultivável e o da defesa contra os ataques da livre irradiação solar.
Quer dizer que a salvação da vida não está propriamente nas mãos dos espíritas e das entidades do etéreo que se comunicam mediunicamente?
Isso mesmo. A necessidade obriga ao desempenho corretivo dos problemas que afetam a cada um.



46. RESPONDENDO AOS CRÍTICOS

Quem estiver ruminando uma possível contradição entre o que se diz e o fato de se dizer, ou seja, que o mensageiro está advertindo, dentro de um roteiro eminentemente espírita, para problemas que estão além do poder de pequeno grupo de convictos, vai perder tempo, porque deve imaginar que a grande maioria da população mundial sequer irá ter contato com qualquer obra de natureza doutrinária, segundo os padrões codificados por Kardec.
Mas é preciso confiar em que a misericórdia divina é muito mais abrangente, tanto que, se o planeta se tornar estéril para a humanidade e para qualquer outro tipo de vida, sempre se poderá transferir o contingente de espíritos para outro mundo, com o fito de prosseguir na campanha evolutiva, pelo roteiro das provas e expiações.
É isso o que está em vias de acontecer?
Tudo é possível, dentro dos parâmetros atuais. Temem vocês estar mais perto do que imaginavam da morte?



47. SOLUÇÕES

Nem sempre os do etéreo estão preocupados com o bem-estar material ou psicológico dos familiares de que se ocupam em sua tarefa de proteção ou guarda. Já Kardec recebeu a informação de que, muitas vezes, para firmarem os conceitos ou os sentimentos mais nobres, devem ser submetidos a eventos de terríveis conseqüências, quanto à perda de bens terrenos ou de entes queridos.
Dito de maneira tão simples, pode parecer aos incautos que estejamos desdenhando a lei de livre-arbítrio, atribuindo às forças espirituais benignas a determinação do que devem sofrer os encarnados.
Não é assim.
Sempre, sem exceção, os roteiros de provas e de trabalhos estão definidos de comum acordo com os que se postam na condição de aprendizes das virtudes e das leis, em havendo discernimento espiritual para a concepção das necessidades.
É o resultado dos estudos e dos trabalhos, na seara do socorrismo da colônia. Uma vez aprovados nos testes, ou seja, se não se revoltarem contra a fórmula que se explica pelas leis de causa e efeito e de ação e reação, o que equivale a dizer que respeitam os desígnios do Criador, irão adquirindo condições cada vez mais satisfatórias de preenchimento das atividades através de muita alegria e crescente confiança num futuro próximo de muita luz.



48. O CONCEITO DE LUZ

Para quem vive nas cavernas, o fato de poder acender uma fogueira representa o máximo em luminosidade. Quem está constantemente ao sol, pode pleitear dos responsáveis por suas atividades que lhes dêem descanso, porque se desgastam muito rapidamente.
Muitas possibilidades existem ao considerarmos a comparação entre os fenômenos terrenos e os que ocorrem no plano psíquico dos espíritos do etéreo. A maior dificuldade se encontra na formulação da idéia de que, na espiritualidade, jamais nenhuma luz irá ofuscar os olhos a ninguém, como ainda todos estão desejosos de acender as suas fogueiras, não havendo ninguém que tenha solicitado sair da faixa de luz em que se encontra.
Por isso, recomendo, em meu nome, que os amigos tragam uma caixinha de fósforos evangélica para acenderem algumas velas na escuridão.



49. OBJETIVO DAS ÚLTIMAS MENSAGENS

A realidade material está a oferecer desafios inéditos para a humanidade. Se tivéssemos o dom de interferir diretamente, talvez pudéssemos sofrear as mais graves devastações, permitindo que a vida continue a ser oferecida aos espíritos necessitados de novas encarnações.
Mas estaríamos agindo sobre o livre-arbítrio dos humanos, impedindo-os de assumir a responsabilidade por seus atos, o que, necessariamente, redundaria em fracasso total das programações de vida.
Eis que se ligam os destinos material e espiritual de maneira que nos parece absolutamente clara.
A nossa participação, pois, se realça pela chancela dos que se compenetram de que estão precisando encampar a correção dos rumos da humanidade, ao menos dentro do seu diminuto círculo existencial.
Será importante esta contribuição? Poderia sê-lo mais? Vou procurar um candeeiro mais potente, estejam certos disso.



50. MODÉSTIA ESQUECIDA

Venho para dizer que minha vida decorreu de maneira bastante monótona, enquanto via crescer os filhos e netos, sem grandes alegrias, mas com absoluta fé na bondade do Senhor.
Vocês já devem ter percebido que não sou o João, mas a Maria, pois tomei o lugar do colega, como ocorrerá por mais algum tempo, revezando-se os companheiros da classe para curtas biografias. Se possível, enquadraremos comentários que possam vir a ser preciosos para quem se identificar às personagens que faremos desfilar.
Por exemplo, fui escolhida para iniciar este roteiro, porque pareceu ao grupo que represento uma criatura das mais comuns dentre as leitoras. Não é verdade que muitas mulheres se dedicam ao lar, não se importando com a grande vida mundana, limitando-se ao aconchego sentimental de pouco mais de uma dúzia de pessoas?
Isso é bom ou é mau?
Para mim foi insatisfatório, embora tenha feito a revisão dos valores familiares que desprezei em encarnação anterior. Ao retornar ao etéreo, vim desejosa de adentrar o paraíso, convicta de que me havia sacrificado pelos semelhantes. Essa foi a maior decepção. Que não aconteça o mesmo com as minhas amigas leitoras.



51. RAUL

Ao contrário de minha amiga Maria, a minha vida brilhou na sociedade, tanto que muitas lágrimas me acompanharam o féretro e outras tantas se enxugaram no recesso de muitos lares.
Estive cai não cai nos domínios tenebrosos do egoísmo, mas tive o grande prazer de ser conduzido logo a esta esfera de beatitude, onde um longo tratamento hospitalar me pôs em contato comigo mesmo, no que tinha de mais molesto aos princípios evangélicos.
Claro está que não me compus totalmente para efeito da pregação moral subjacente a estes textos elaborados com o intuito de demonstrar a vidinha das criaturas mambembes que formaram esta equipe. O que tenho de mais expressivo para contar já sugeri, porque, para bom leitor, meia frase basta. Mais acima não disse que deixei muita saudade? Pois infiram daí, bons amigos, que nem sempre as pessoas demonstram para o povo o que verdadeiramente são no íntimo.
Se pudesse pedir algo muito valioso, vocês já sabem que iria requerer preces para conforto de quantos se encontram mergulhados nas trevas da consciência culpada.
Jesus seja por todos nós!



52. RUTE

Se não está claro, então explico que meus pais me atribuíram o nome bíblico porque eram crentes.
No entanto, a garota aqui não se contentou com a fé da família e parti para vida muito livre, talvez porque me obrigassem demais aos cabelos e às saias compridas.
Claro está que me encantei com um sujeito sem muitas diretrizes morais e que me disse que eu iria conquistar o mundo, com muita fama e muita glória.
Bem sei que o caminho inverso é o mais comum, mas que posso fazer se foi esse o meu destino, segundo as circunstâncias e o retrospecto cármico de minha personalidade?!
Pois lhes asseguro que, apesar de tudo, quando voltei para cá, um pouco cedo demais, por causa de trágico acidente, consegui perceber que havia avançado na trilha evolutiva. Eis um mistério difícil de entender, tendo em vista que não estou dando todas as pistas, em texto excessivamente curto. Mas a verdade é que não amargurei muito tempo de sofrimentos, principalmente porque me ofereci em vida para cuidar de crianças débeis e o fiz com muito amor e carinho.
Eis tudo o que me permitem relatar.



53. NATÁLIA

Cedi minha vez à irmãzinha Rute, porque a história dela, de certa forma, se completa com a minha.
Certa vez, na vida, me dei ao trabalho de ir a um centro espírita, embora não acreditasse em nada. Aliás, demorei mais de dez anos para firmar opinião em que havia, realmente, vida após a morte. Enquanto isso, me engajei na turma que atendia aos necessitados da favela próxima, da qual eu mesma era moradora, e fui realizando, muito prestimosa e contente, as tarefas de que me encarregavam.
O que fiz de melhor não foi bordar, coser, alinhavar ou arrumar as estantes. O que me valeu mais aqui no etéreo, em pontos positivos para o ganho de situação mais confortável relativamente aos anteriores sucessos no Umbral, foi o fato de assumir a responsabilidade de todos os compromissos, ao contrário do que via acontecer às mulheres que não se davam ao trabalho de melhorar de vida espiritual, sempre reclamando de tudo e tudo querendo receber de graça.
Sendo assim, advirto os leitores no sentido de pensarem duas vezes, sempre que estiverem distribuindo benefícios materiais em suas casas de caridade e amor, porque poderão estar perdendo excelentes oportunidades de efetuar esclarecimentos oportunos no campo doutrinário.



54. ANA

Deveria vir relatar algo importante de minha derradeira existência terrena, entretanto, faz tanto tempo que poderei parecer gagá. Fique o aviso para que saibam que estive presa na escuridão do egoísmo por mais de duzentos anos e meu “crime” não foi algo tão terrível como muitos que ocorrem nos dias de hoje.
Eu, simplesmente, traí a confiança de meu marido e me dei a outro homem, escondendo completamente esse fato dele e de todos. Se fosse mulher do mundo, talvez o fato não me pesasse tanto. Mas era recatada e sabia que havia pecado mortal a ser purgado eternamente, mesmo porque não contei no confessionário. Pode parecer dramalhão, mas a verdade é que o meu confessor é que era o meu amante.
Quando regressei a esta esfera, cheguei carregada de maus pressentimentos, cheia de medo, descontente comigo mesma e desconfiada de que meu marido me aguardava para carregar comigo à presença de Lúcifer. Sendo assim, burlei todas as tentativas de ser guindada a situação de maior felicidade, sem perceber que o algoz de meu coração era a minha própria mente desqualificada para as apreciações espirituais mais condizentes com a realidade dos relacionamentos entre os filhos de Deus.



55. RENATO

Precisei interromper a coleguinha Ana, apesar de saber que iria ficar aborrecida, porque o seu caso pessoal exigiria, com certeza, maiores esclarecimentos. Interroguei o Professor Alfredo sobre a possibilidade de ceder o meu espaço a ela mas me permitiu apenas esta simples referência ao acontecido.
Ao contrário, pois, de todos os amigos, a minha intenção é a de tornar ainda mais sem expressão a notícia que me cabe trazer sobre a minha vida.
Em duas palavras: fui ladrão e criminoso. Não encontrei nenhuma justificativa para nenhum dos atos perversos. Sendo assim, só pude ingressar nesta colônia, amparado por dois protetores pessoais, a quem tenho agradecido em nome de Jesus desde sempre, depois de me entender com todas as pessoas a quem causei toda espécie de prejuízos.
Caso curioso e talvez polêmico é que o meu tempo de noite espiritual não chegou aos cinqüenta anos, enquanto Ana, por muito menos, ficou encalhada quatro vezes mais.
Em todo caso, o meu texto, para que estabeleçam um padrão positivo de avaliação, foi elaborado com a ajuda do amigo João, enquanto o dela foi ela mesma quem redigiu.



56. AGOSTINHO

Cabe-me dizer, desde logo, que não sou aquele maravilhoso santo que muito contribuiu para a divulgação do Espiritismo, fazendo parte do grupo de excelsos espíritos comandados pelo Espírito de Verdade. Fui escolhido para trazer a minha contribuição, em momento azado, por causa de meu nome. Como se sabe, Santo Agostinho se converteu em vida, após inúmeros tropeços morais. Quando aqui chegou, segundo os relatos que nos são mostrados, veio nimbado de luz, justificando, inclusive, o fato de ter sido reconhecido pela Igreja Católica.
Este pobre Agostinho, que não se espojou no lodaçal dos vícios, nem teve por que se limpar de muitas nódoas morais, chegou sem luz alguma, sem reconhecimento terreno, sem amizades duradouras, apenas sob a proteção de alguns parentes meio azedos e zombeteiros, que exigiam compenetração dos tópicos das leis universais, sem me darem muitas lições adequadas.
Talvez a minha crise maior se desse após a morte, porque, ao contrário da maioria, não me consorciei em matrimônio nem gerei nenhum filho, conforme compromisso assumido antes de me encarnar. Eis que me acusaram de instável e medroso. Neste momento, sei que tais palavras não representam nem dez por cento de minhas fraquezas psíquicas. Mas vale a referência à augusta misericórdia de Deus, porque fui eu mesmo quem redigiu esta pequena redação. Obrigadíssimo a todos!



57. ROSEDÁ

Meu pai era Daniel e minha mãe, Rosa. Deu Rosedá, nem mais nem menos.
Mocinha, tal nome me perseguia por toda a parte, não havendo quem não fizesse o maldito trocadilho. Se a minha contribuição vier a ser por demais crua, paciência. Vou curtir o fato de ver a mensagenzinha ser abocanhada pelos pruridos morais de quem, por certo, não iria jamais brincar com o meu nome.
Mas a minha vida não se limitou aos tempos da mocidade. Arranjei marido e filhos. Como a colega Maria, fui avó e curti muitos netos. Mas nem por isso deixei de amaldiçoar o meu nome.
Neste ambiente de muita paz e respeito, Rosedá, traduzido para a linguagem que aqui se fala, não permite nenhum trocadilho, porque o chamamento indica a minha pessoa, em vibração única, sem interferências semânticas.
Não fui muito santa nem aspirei ao céu. Ao contrário, cheguei temerosa de me ver arremessada nas chamas infernais, porque me pesavam na consciência todos os revides contra a sociedade em geral e as pessoas em particular, agredindo direta ou indiretamente, que a minha língua era ferina e aguçada.
Hoje venho alertar as pessoas para tomarem cuidado com os nomes que põem nos filhos.



58. ORLANDO

Não posso dizer que o meu nome me prejudicou, embora, nos meios estudantis, por um certo tempo, me alcunharam de furioso. Mas isso vale como um mísero ponto no meu anedotário, acabando eu mesmo por adotar a facécia, muitas vezes, para me introduzir junto a novos segmentos sociais.
O que mais devo ressaltar nesta manifestação é o fato de me haver tornado muito rico, através dos próprios méritos e esforços. Claro está que ninguém cresce absolutamente sozinho, quando se é honesto e se pretende respeitar as normas da sociedade em que se vive.
Eu tive, pois, o meu mecenas, na figura de meu sogro, embora jamais me acusasse a consciência de ter aplicado o golpe do baú. Acontece que também herdei de meus pais, em tempo oportuno, alguns milhares de unidades monetárias, o suficiente para que pudesse dar início aos negócios.
Disse que fui honesto. É bem verdade. Não abusei sequer da possibilidade de lesar o fisco. Ajudou-me nesse aspecto o fato de me haver ligado a um centro espírita, onde pude fazer algumas generosas contribuições.
E por que não venho na qualidade de espírito de luz? Simplesmente porque dei do que sobejava e jamais me empenhei a fundo em colaborar para os ganhos espirituais do povo carente que se reunia naquela maravilhosa casa de atendimento evangélico. E não me faltaram advertências abertas e veladas para o fato de que deveria dedicar-me com mais valia para os pobres.



59. ALFREDO

O professor vem para trazer uma explicação.
Pela maior extensão do texto, pode parecer que tenhamos aberto uma exceção para o Orlando, porque trouxe um problema que interessa principalmente ao povo espírita. É certamente uma observação arguta a ser efetivada, especialmente porque não nos move a percepção de que outros credos religiosos ou pessoas sem crença definida venham a adotar ou recomendar estas leituras. Como se definem os leitores pelo rótulo, porque não se deve esquecer de que, no frontispício, está claro que se trata de livro mediúnico, cremos que o melhor mesmo é servir a quem tem lídimos interesses em executar serviços na área da doutrina espírita.
Quanto à mensagem da irmã Rosedá, valho-me da oportunidade para lamentar, previamente, a possível rejeição, no caso de vir a ser dada oportunidade de divulgação aos nossos textos. Se não se quiser transcrever literalmente a questão do trocadilho, que se dê um jeito de contornar o tema escabroso, mas que se advirta para o fato de que os nomes podem exercer alguma influência desagradável na formação da personalidade. Também nos parece útil a informação de que, neste nosso ambiente, não se perturbam as pessoas através de efeitos meramente lingüísticos.



60. CLEIDE

Não venho com a intenção de comover os nobres amigos encarnados, mas, se a minha narrativa lhes provocar algum sentimentalismo, orem por mim e por todos os meus colegas.
Dentro do grupo, sou a única que perdeu dois filhos ainda pequenos e não foi porque pereceram, mas porque foram roubados de mim pelo próprio pai. Hoje, encontrei-os ainda vivos mas não consigo fazer com que se encaminhem para um centro espírita, onde eu possa entrar em contato com eles.
Morri relativamente jovem, talvez pelo muito sofrimento e pelo forte contraste dos tempos ditosos.
Pedem-me para não realçar as invectivas contra meu esposo, mas não posso deixar de mencionar que ele, quando me levou os filhos embora, também foi para me deixar no desespero, porque adquiriu intenso rancor contra a minha maneira de tratá-lo, porque não aceitei dele que me traísse. Enfim, agora estou sabendo que contraiu novo matrimônio, assim que verificou o meu passamento.
Caso lhes sirva de consolo, penso ter perdoado a quem me fez tanto mal, porque consigo ler e estudar, com bastante serenidade.
Fiquem com Jesus em seus corações!



61. VALDOMIRO

A minha vida foi pacata. Não tive nenhuma tendência às aventuras, de sorte que fui levando cada fase biológica com muita segurança em tudo o que sempre fiz. Na verdade, a minha profissão se coadunava muito bem com minha capacidade intelectual diminuta, a ponto de me fazer querido por todos, já que não aspirava a crescer na firma.
Em casa, os meus filhos gostavam do modo pelo qual eu os educava, sempre generoso e pronto a satisfazer os seus desejos, não todos, porque era pobre, mas aqueles que me eram possíveis. Nunca me acusaram de mesquinharia e nunca ouvi de nenhum dos oito que deveria ter ambições maiores.
Aqui chegando, constatei que eles eram, como eu, bastante conformados com a sorte e que iam cumprindo os seus deveres sem revoltas. Na verdade, todos construíram lares sólidos e isso me fez muito contente.
A esposa está comigo e somos o único casal da turma formado na Terra que permanece unido.
Deus seja louvado!



62. LOURDES

Permitiram-me falar após o meu marido. Tal como ele, eu mesma jamais admiti grandes transtornos emotivos. Também fomos agraciados pela felicidade de não enfrentar doenças agudas nem crises financeiras de vulto.
Não exerci profissão fora do lar, porque a cambadinha exigia de mim vigilância e desvelo.
Quando chegou a hora da morte, um pouco cedo demais, porque não cheguei a conviver com nenhum neto, vim na frente do Valdomiro e pude obter a graça de participar da equipe que velava pelas famílias dos meus filhos.
O que tenho de acrescentar é o fato de termos tido também pais e irmãos bastante equilibrados, embora todos nós não tivéssemos o raciocínio rápido nem a sensibilidade acurada. Esses são os dois pontos que estamos tentando desenvolver, sob a tutela dos colegas e dos mentores.
Por fim, devo informar que fomos os que chegaram por último da derradeira peregrinação, o que não tem sido nenhuma vantagem, porque não estamos um tiquinho sequer mais adiantados que os demais, todos unidos pela mesma contextura moral, respondendo, conforme já esclarecido, de maneira mais ou menos uniforme aos incentivos dos mestres.



63. NECESSIDADE DE DESCANSO

Volto eu, João, para interromper a série de depoimentos, porque o grupo julgou oportuno possibilitar alguns comentários pertinentes aos textos biográficos.
Em primeiro lugar, devemos considerar o fato de que nem todos estamos muito satisfeitos com o resultado dos trabalhos individuais. Decidimos que as mensagens seriam sucintas, mas isso tem dificultado algumas apresentações, dado que muitas lições do etéreo conduziram os colegas a decisões importantes no campo doutrinário.
Muitos de nós gostaríamos de dizer que tivemos alguns ensejos de participar de grupos socorristas, na qualidade de auxiliares de serviços gerais, criaturas atrasadas que éramos, não susceptíveis de sermos atingidos pelas baixas vibrações de muitos irmãozinhos infelizes.
Então fique este primeiro indício de que temos progredido muito nesta fase de estudos.



64. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DA TURMA

Não temos nenhum elemento que não tenha nascido no Brasil, embora sejam várias as nacionalidades quanto à origem familiar. Sabemos que outros grupos se formam com estrangeiros, mas todos viveram por aqui. Contam-se nos dedos os que freqüentam esta colônia, não tendo vivido jamais nestas terras. Este dado pode não parecer importante, mas obriga os leitores a considerarem a psicologia como peculiar a esta região. Por isso solicitamos que não raciocinem por transferência de valores de outras populações.
Também devemos citar o fato de que somos homogêneos quanto ao nível de aspiração espiritual. Se, quando vivos, fomos muito diferentes, sendo uns pobres e conformados, outros ricos e ambiciosos etc., agora todos estamos compenetrados de que os valores morais é que devem prevalecer para que alcancemos progredir. Não concluam, pois, pela influência preponderante dos desejos carnais sobre a formação de nossas personalidades. Aliás, devem suspeitar que tenhamos passado por provações diversas até que chegássemos a esta harmonia de objetivos. Hoje, porém, encontramo-nos aprendendo em conjunto a sermos discípulos fiéis do Cristo.



65. VALDIR

Talvez eu tenha sido quem, dentre os da turma, mais penou ao chegar ao etéreo. Na verdade, só atingi este ponto evolutivo depois de uma centena de anos perpassando, seguidamente, por complexos problemas intelectuais, tendo em vista que tudo complicava, querendo enxergar duplo sentido em todos os acontecimentos e em todas as manifestações dos seres que se aproximavam de mim.
Até me convencer de que existe a simplicidade e a honestidade de propósitos, demorei na faixa das acusações contra seres absolutamente inocentes e puros.
Preciso elucidar que esses seres não eram perfeitos, mas acabaram sendo para mim, quando descobri que falavam exatamente segundo o que estavam pensando e sentindo.
Minha advertência vem no intuito de solicitar aos que me lêem que não desconfiem de nenhuma maldade embutida nos textos. Neles colocamos a nossa “alma”, o nosso “coração”, o nosso “ser”. Talvez estejamos incidindo em falhas de comunicação ou de interpretação das leis universais; mas, se assim for, podem acreditar que não está ocorrendo nada de propósito.



66. TERESINHA

Seguindo na mesma estrada do Valdir, devo revelar que também muito me debati nas Trevas, porque fui má para com os meus parentes mais próximos.
Se disser que esse talvez seja o principal defeito das pessoas, será porque senti em mim mesma as piores conseqüências dos amores mal correspondidos.
Não sei se vou conseguir resumir, mas a verdade é que meus pais desejaram ardentemente me darem vida e educação, por problemas cármicos de outra eras. Eram absolutamente sinceros. Entretanto, carregava comigo muito rancor e não soube perdoá-los, tanto que as minhas tendências atávicas de caráter espiritual me fizeram agredi-los, chegando ao ponto de me afastar da família definitivamente.
Nestes últimos tempos é que consegui um pouco de serenidade, porque descobri que todos os meus relacionamentos rejeitados correspondiam a seres que se adiantaram muito mais na esfera espiritual, havendo muitos deles se detido para a minha regeneração.
Foi dificílimo aceitar a minha inferioridade em relação a essas pessoas, mas me condoeu sobremaneira o fato de saber que aqueles que elegi em vida como amigos tinham caído ainda mais fundo que eu, de sorte que estou no aguardo de receber ordem para ir em socorro de muitos deles.



67. CONSIDERAÇÕES PARALELAS

Nesta altura dos testemunhos pessoais, cabe a este seu criado mais freqüente vir avisar que existem relatos completos das venturas e desventuras de muitos irmãos desta e de outras colônias, inclusive com comentários pertinentes para esclarecimento dos fatos à luz das leis de ação e reação, de conservação, de justiça, amor e trabalho etc.
Estamos dando tão-só amostras das conseqüências boas e más das atividades vivenciadas, de acordo com a nossa experiência pessoal. Quanto ao que informou o amigo Valdir, realmente, estamos tentando ser verdadeiros o mais possível. Contudo, não é difícil perceber que somos ignorantes quanto à percepção de muitos fenômenos psíquicos e espirituais.
Por isso tudo é que dedicamos este volume aos irmãos que se iniciam nas leituras mediúnicas e que se apresentam com problemas bem parecidos aos nossos. Exigir demais de nossas mensagens talvez possa até ser falta de consideração por todos os irmãos ainda em fase de aprendizado das primeiras virtudes evangélicas. Sendo assim, esperamos que os amigos mais bem dotados de faculdades intelectuais e mais bem sedimentados no aspecto cultural e doutrinário não nos atribuam defeitos, simplesmente, mas tenham comiseração e elevem ao Pai, após porem de volta o livro na estante, uma prece por todos nós, seres verdadeiramente inferiores.



68. NOVA INTERVENÇÃO DO PROFESSOR

Penso que a Turma dos Amores Perfeitos esteja levando o trabalho a contento. Todavia, a preocupação demonstrada em relação às opiniões dos mais doutos irá parecer a muitos (talvez não tão doutos) que isso seja apenas fraqueza moral, necessidade de aplauso ou insistência na tese de que os piores também devem ser ouvidos.
Venho trazer o meu testemunho de instrutor experiente no sentido de deixar claro que o grupo está cumprindo de modo rigoroso o projeto que foi elaborado com a ajuda dos mentores desta faixa de adiantamento ou deste ciclo escolar.
Devo agora solicitar atenção de todos os leitores para o fato de que irão deparar-se um dia com esta mesma situação de redigir ou de explanar a respeito de suas façanhas sentimentais e intelectuais, os acontecimentos em que demonstraram a força de seu cérebro e a sensibilidade de seu coração. Sendo assim, em lugar das críticas aos lugares-comuns dos relatos que se transmitem, que haja lúcida percepção do valor destas comunicações, tendo em vista o público a que se destinam.
Muito obrigado pela compreensão!



69. LUCÍLIA

Encerro a fase das biografias singelas, oferecendo aos leitores a notícia de que os demais colegas, em número de vinte e cinco, não irão contar o que de mais importante aconteceu em suas vidas, em função dos problemas que tiveram de resolver no etéreo.
Quanto a mim, devo dizer que me abstive da vida social, freira reclusa de um convento, onde a minha mente se apequenou, sempre desejosa de vida eterna ao lado de Jesus.
Não vou estender-me em considerações a respeito dos defeitos, para não incidir na falha de desmerecer a instituição religiosa. Eu é que não entendi direito as premissas católicas e não exerci corretamente a minha função apostólica. Eis tudo.
As dificuldades, no etéreo, foram muitas, porque demorei para entender que as cobranças que fazia eram infundadas, ou melhor, partiam de um ponto de vista errôneo quanto à justiça divina.
O que de mais importante me aconteceu aqui foi a fuga que realizei de um convento igualzinho àquele em que passei a vida, com as irmãs compenetradas em realizar uma série de atividades semelhantes, sem suspeitarem de que estavam mais ou menos alienadas da realidade atual.
Para terminar, trago-lhes a notícia de que muitas estão executando sacratíssimos ministérios de recuperação de espíritos com graves dificuldades. Se não disser isto, vai parecer que estão apenas marcando passo. Mas a minha compreensão desse apostolado só se deu muito recentemente.



70. CONVITE À MEDITAÇÃO

Naturalmente, o grupo não irá suportar o desgosto das pressões que se exercem a partir do menosprezo pelas figuras espirituais que representamos, uma vez que temos na mais alta conta o fato de havermos sido criados como irmãos de todas as criaturas, digamos assim, do reino hominal.
Como não nos move o vezo das recriminações, suspeitamos que as pessoas que não se agradarem da leitura devam procurar alhures a orientação mais adequada para entender que todas as notícias transmitidas do plano espiritual para o carnal, com amor e lisura, devem merecer atenção e respeito, podendo servir para algum acréscimo de conhecimento na área relativa ao que ocorre no etéreo.
Simples representante da turma, eu, o seu amigo João, não venho para vãs lamentações nem para o desafio das ulteriores comprovações, porque tudo terá um tempo certo para ser esclarecido. O que me coube recomendar, além de dizer que Kardec nos apóia em suas obras magníficas, é a dedicação de cada qual aos pensamentos doutrinários, para a descoberta das falhas a que aludimos, caracterizando-as pelos padrões evangélicos superiores.



71. PONTOS POLÊMICOS

Por certo, os leitores de menos luzes culturais devem estar meio perdidos pela explícita referência, na mensagem anterior, de pessoas que se desagradam destes informes mais ou menos obtusos quanto aos princípios da doutrina espírita que deveríamos desenvolver à proficiência. O que acontece, na verdade, é que muita gente estudiosa gostaria de não desperdiçar um precioso tempo que poderia destinar para realizações mais profícuas, enquanto vai enredando-se nestas apreciações meramente formais.
Quero crer que um processo mental a ser desenvolvido é o do raciocínio abstrato, tornando o ato da reflexão o mais puro possível, ou seja, sem lucubrações sobre temas do quotidiano, quando se poderia ir em busca de tópicos inéditos, junto aos ramos do saber sobre que se tem domínio. Nem mesmo esta redação expungida das costumeiras dificuldades deveria exercer nenhum fascínio sobre a inteligência lúcida e curiosa dos críticos.
Esta ligeira imersão em aspectos menos rústicos de nossos atrevimentos mediúnicos não tem por objetivo ceder às exigências dos que buscam a perfeição formal e a riqueza de conteúdo nas mensagens do etéreo, mas vem para breve debuxo de nossa capacidade de inserir certas idéias ou construções mais rebuscadas no corpo do opúsculo.



72. DEVAGAR SE VAI AO LONGE

Valha-me o dito popular para retornar ao estilo despojado de antigamente.
Quando apresentamos as histórias resumidas de quinze dos quarenta componentes da classe, tivemos o cuidado de variar o mais possível dentro do quadro geral. Todavia, os limites se delinearam dentro das perspectivas da média das existências terrenas, conforme o conhecimento que temos do possível público leitor.
Dificilmente, por exemplo, iremos encontrar homicidas encarcerados a se entreter com as manifestações, nem podemos imaginar crentes das linhas evangélicas dentro do protestantismo interessando-se por decifrar os mistérios existenciais que aqui se contêm.
No máximo e a muito custo, alguns companheiros muito novatos dentro do movimento espírita poderão receber algum impresso particular do médium, dedicando-se a uma leitura que tenha chegado até este ponto.
Por isso, não nos preocupa o fato de estarmos em faixa bastante elementar de informes do etéreo, parecendo-nos até muito justo que as considerações se façam intramuros, sem passarmos das fronteiras intelectuais do médium.
Quer dizer que, se os textos não merecerem divulgação, ainda assim a Turma dos Amores Perfeitos dará por realizada a tarefa?
Certamente, porque o que nos traz até esta mesa condiz com fase essencial de aprendizado, sendo útil para a nossa formação, muito embora muito pouco represente em termos de progresso para o médium e quase nada signifique para os encarnados. Em seguida, após recebermos as próximas lições, poderemos inteirar-nos dos novos ensinamentos para evoluirmos, na expectativa de podermos volver a este posto de trabalho qualquer dia, para melhores comunicações.



73. DISCUSSÕES ESTIMULANTES

Enquanto as mensagens avançam muito pouco nas explicações de interesse dos encarnados, o ambiente da classe se torna bastante agitado, porque a muitos parece que acabam por ter razão os críticos que nos acusam de inferioridade e de baixa categoria espiritual.
Esta notícia atrevo-me eu, o redator oficial, a transferir para o papel, porque considero oportuno descrever as mais legítimas aspirações de evolução dos que não querem admitir que as mensagens devam conter apenas alguns tópicos repetitivos, comuns a muitas obras; e ainda escritos de maneira muitíssimo pobre e inexpressiva.
Muitos desejam que as mensagens contenham as próprias aulas ministradas pelo mentor do grupo ou que reproduzam as palestras e conferências abertas ao público da colônia. Acham, por exemplo, que seria útil elucidar que, dessas apresentações diante de auditórios lotados (para mais de mil entidades), se pode extrair uma informação estranha e interessante, qual seja, a de que a repercussão das palavras dos oradores nos cérebros dos ouvintes se dê de modo diferenciado, como se cada qual recebesse uma aula especial para o seu grau de sabedoria.
Preciso elucidar que, entre os humanos, é isso mesmo o que se passa, uma vez que as pessoas absorvem dos ensinamentos justamente o que estão capacitadas a entender. A diferença está em que as gravações realizadas pelos espectadores diferem umas das outras, como se, mecânica ou eletronicamente, os registros se dessem de discursos diferentes.
Espero que esta comunicação não destoe das anteriores.



74. SOLUÇÕES

Se alguém suspeitar de que todos os textos, no momento em que se iniciaram os ditados, estavam elaborados, poderá também acusar-nos de dramatizar indevidamente o ambiente da classe, como se aqui se realizassem homéricos esforços de concentração ao derredor de objetivos que não se alcançam com facilidade.
A descrição, pois, do tom emocional da turma estaria recebendo cores inverídicas, irreais, faltando muito pouco para essa tal pessoa nos acusar de falsidade, de malícia e de tentativa de iludir e de enganar.
As soluções literárias resolvem a questão, uma vez que estamos confirmando que o serviço que se ultima presentemente é o da transmissão mediúnica, oferecendo-se a cada pequena equipe organizada dentro da classe a oportunidade de aprender todos os mecanismos de energização, de magnetização, de compatibilização vibratória, de ajustamento dos tônus emotivo e intelectual, de imersão na memória do médium, de controle da velocidade do ditado, de correção imediata e posterior dos textos, de sustentação fluídica dos trabalhadores ativos, de manutenção da abertura do canal de informações que a cada momento se requerem dos mentores que nos assistem na colônia e, finalmente, de operação de elevado sentido socorrista, pelas orações de que se encarregam os que vigiam todas as correntes de significados que se incrustam nas mensagens, por mais singelas que sejam.
Os que estão mais atentos poderão distinguir em tais atividades os aspectos doutrinários, científicos, culturais e religiosos que se enfeixam num movimento único de intenção filosófica.



75. A COLHEITA É OBRIGATÓRIA

As frases de efeito deveriam fixar-se melhor na memória das pessoas, como essa acima que nada mais é do que outro modo de expressar o inteiro teor da lei de ação e reação.
Sendo assim, não apenas nos cabe recomendar que todos pratiquem o bem com muito amor no coração, como também devemos demonstrar que estamos realizando, nestes escritos, exatamente o que viemos pregar.
A hora de bonança e de felicidade deve ser a conseqüência das atitudes e dos pensamentos glorificados pelos ensinos de Jesus, reforçados por Allan Kardec, em seu papel de codificador e divulgador da doutrina dos espíritos.
Mais acima dissemos que não nos movia o interesse em criticar o procedimento alheio, mas a nossa postura não ficou suficientemente clara, uma vez que, para saber se as pessoas estão verdadeiramente necessitadas de amparo e de conforto, temos de investigar-lhes na alma os sentimentos, para que o nosso esforço corresponda ao que de melhor se pode fazer em prol dos irmãos. Não foi uma só vez que ocorreu de sairmos em auxílio de encarnados que tão-só estavam desejosos de engrandecimentos de toda natureza, como se lhes bastasse saber que entidades do plano espiritual se punham gratuitamente à sua disposição.
Se Jesus mandava os discípulos para a cura e a proteção moral das pessoas, Kardec, por seu turno, prevenia quanto à necessidade de jamais sermos burlados por aqueles que apenas desejam ver a nossa queda.
Deveríamos concluir que Jesus argumentava em nome das leis do amor e da fraternidade, incentivando o perdão, enquanto Kardec agia tendente ao cumprimento da lei de justiça e de trabalho, com ênfase para a caridade?
Neste final de dissertação, devemos volver o olhar para o título e considerar que tanto o Divino Mestre quanto o Ilustre Codificador iriam referendar-lhe os dizeres, determinando que a colheita sempre se dá em função da semeadura.



76. A PARTE CIENTÍFICA DO ESPIRITISMO

Outro ponto não incentivado pelas nossas mensagens é o desenvolvimento das teses científicas. Na verdade, tivemos ocasião de dizer que não pretendíamos comparecer diante dos encarnados com o intuito de lhes ensinar o que quer que seja. Ora, essa foi uma colocação meramente retórica, uma vez que o simples fato de se redigirem dissertações de per si só induz que existe a necessidade de se comprovar algum raciocínio.
Isto posto, explicamos que o intento do grupo continua centrado na demonstração pura de nosso estágio evolutivo. Se escorregamos aqui e ali e damos opiniões a respeito dos temas, porque a teoria flui dos fenômenos, em hipótese nenhuma queremos que o nosso ponto de vista prevaleça, para o que não fortalecemos os argumentos nem nos empenhamos na comprovação dos fatos.
Por outro lado, não podemos olvidar que existe todo um aprendizado a alcançar a respeito de cada tópico relativo ao trabalho mediúnico, por exemplo, a exigir que se compreendam os mecanismos “materiais” ou formais de cada atividade tendente a concretizar as aspirações evolutivas de quem se dispôs a acrescer mais uma obra ao acervo do médium.
Quando Kardec desejou compreender como é que o fluido cósmico se distribuía no etéreo, precisou requerer dos guias as informações a respeito. Foi quando descobriu que havia muitos mistérios dentro da própria natureza do universo tangível dos seres humanos. Comparou com os elementos religiosos e concluiu, obviamente, pela falsidade ou pela simbologia dos informes da Igreja, mergulhando fundo na apreciação dos dados científicos da Bíblia.
A conseqüência para nós foi uma obra aberta para os avanços científicos, afirmando Kardec que o Espiritismo evoluiria pari passu com a ciência, palavras proféticas que se cumprem dia a dia, porque se atualizam os conhecimentos espíritas através das pesquisas no campo do saber humano em geral.
Não viemos, pois, para demonstrar nenhum novo conhecimento na área científica; viemos para, entre outras coisas, dizer que, dentre as matérias de nosso currículo, existem programas que se desenvolvem sob a ótica da metodologia que se aplica à percepção das leis e dos princípios, seguindo o roteiro tradicional da pesquisa de campo, dos cálculos matemáticos e estatísticos, da observação dos fenômenos e do estabelecimento da importância das conclusões parciais, em função da comprovação das hipóteses, tudo rigorosamente embasado na extensa bibliografia que nos oferecem os arquivos da colônia.



77. PAULO DE AZEREDO

Eu sou aquele advogado que ditou o opúsculo Matei-me há vinte e cinco anos, estudo de uma transformação espiritual, socorrismo em andamento, onde deixei registradas todas as mazelas de minha péssima formação.
Primeiramente e fundamentalmente, devo referir-me ao fato de haver recusado insistentes solicitações dos colegas para exercer o ofício de escrevente mor da turma. Explico-me: a minha fórmula lingüística não adquiriu a leveza da elegância natural de quem tem por objetivo noticiar ou relatar e não, como eu, o de imiscuir em todas as idéias do grupo os pareceres particulares de quem se julga mais arguto ou mais complexo.
Não há de ser difícil a percepção de que luto contra aquela postura pseudo-sábia de quem tem a palavra fácil e presto o raciocínio.
Venho para agradecer o empenho com que os mestres buscaram burilar-me a mente para a concepção das premissas evangélicas como o roteiro mais inteligente para a ascensão espiritual. Venho para agradecer as preces de quantos viram no meu relato a sensibilidade à flor da pele de quem tomava consciência da pequenez do caráter e da tremenda necessidade de agir em proveito dos irmãos que encasquetam a idéia de que tudo podem por si mesmos, para se sobreporem ao direito comunitário.
Gostava da figura do leão escondido e mimetizado nas touças da savana, pronto para a caça aos incautos. Punha-me na pele do rei dos animais e feria de morte as criaturas com as poderosas garras e mandíbula. Na verdade, era minúsculo inseto a sugar o sangue da sociedade, jamais me dando conta de que transmitia moléstias e fazia fermentar o vício e o sofrimento.
Venho para desfazer a ingrata impressão de que todo benefício que se fez em meu favor pudesse resumir-se num infausto parágrafo da derradeira mensagem da supracitada obra:
“Não vou prometer vir para corrigir, um dia, os dizeres que deixei impressos. Representam importante momento evolutivo e devem quedar da maneira pela qual se registraram, imperfeitos, dúbios, próprios para causarem desconfianças de obsessão, energizados negativamente pelas declarações de profundo desrespeito à criação e ao Criador.”
Se é verdade que soube agradecer a todos, também me comprometi com a falta de fé e de confiança na misericórdia de Jesus. Venho para corrigir, sim, os dizeres que deixei impressos e para afirmar, emocionado, que as lições que pretendi ministrar eu mesmo não havia aprendido. Como derradeira assertiva, afianço-lhes que tenho relido aquelas páginas e que têm elas, cada vez mais, o sabor de romance, de obra de ficção — graças a Deus!



78. NOMES FAMOSOS

Muito se tem escrito relativamente à presença junto às mesas mediúnicas de espíritos que deixaram nomeada em suas passagens terrenas. Quase sempre, a recomendação se dá no sentido de não se requerer que os médiuns se sintam muito favorecidos pelas mensagens de luz que transcrevem.
O poder dos médiuns não está nos textos ou comunicações a que dão curso; mas no fato de se prestarem como intermediários dóceis, capazes de não interferir no teor doutrinário das mensagens. Maior importância adquirem os que são persistentes, sem se darem em sacrifício, mas atuando com um sorriso nos lábios, sempre alegres e satisfeitos, prontos para entenderem que o serviço pode ser transferido para outra pessoa mais cordata e mais empenhada em aceitar as notícias tais quais são transmitidas.
Evidentemente, quando o espírito se declara como alguém famoso, erudito, importante, cheio de luz pelos trabalhos anteriores, quer como encarnado, quer como mensageiro do Senhor, espera-se que elabore redação de muito mérito e de muito ensino. Quando se trata, por exemplo, de poeta sensível, amorável, inteligente e cônscio das virtudes transcendentes, aquelas cuja mera citação faz tremer de emoção os mortais, cabe saber que a inspiração deve ser pura e as vibrações, o mais possíveis parecidas com os dons divinos.
Quero, eu, pobre Joãozinho das Candongas, que pensem os leitores que o meu apelido seja Simão Pedro ou Paulo de Tarso. Serão capazes de admitir que os meus dizeres correspondam à expressão dos augustos pensamentos do chefe dos apóstolos ou do apóstolo dos gentios?
No entanto, venho com muito prazer dissertar a respeito de diversos temas, sempre buscando auxiliar a reflexão sobre pontos doutrinários que podem estar meio esquecidos, já que novidades, alhures afirmei, não temos.
Por outro lado, é preciso salvaguardar o espírito crítico do médium, pois a assertiva de que deve dar permissão para todo tipo de manifestação irá desaguar no turbulento lago das mistificações e das obsessões. Fique evidenciado que não estou aplaudindo os escritos dúbios, sorrateiros, maliciosos ou francamente contrários aos dispositivos doutrinários registrados nas obras de Kardec; menos ainda seria tolerável qualquer afronta às lições de Jesus.
Entretanto, o levantamento de polêmicas bem conduzidas pode reverter em benefício da doutrina, porque sempre haverá de despertar o interesse para o estudo de pontos de vista inéditos, desde que sem nenhum menosprezo pelas pessoas que possam estar ingenuamente acreditando em certos conceitos merecedores de revisão.
Não me cabe exemplificar porque iria acender o desejo da controvérsia sobre algum tema que precisaria ser atendido com mais apreço e consideração. Em todo caso, prestem atenção neste meu desenvolvimento e procurem sentir no autor algum espúrio desejo de enganar, de iludir, de prestar um desfavor ou uma desorientação.
Em suma, a simples assinatura de um nome exponencial gera a expectativa da superioridade do próprio texto. Neste caso, há de ficar bem mais fácil descobrir que se trata de composição apócrifa, para o que devem ser ouvidos os mais experientes, porque nove verdades que se desprezam não valem uma só mentira que se divulgue, como se encontra registrado em O Livro dos Médiuns, pela palavra sempre magnífica do espírito Erasto .
Qual terá sido a satisfação do médium que recebeu esse texto?!



79. SISTEMAS LÓGICOS DE EXAME DAS MENSAGENS

É preciso, antes de mais nada, citar Kardec, porque ninguém mais do que o codificador se preocupou em atribuir o exato valor às comunicações mediúnicas, para, entre outras coisas, categorizar o autor espiritual das mensagens. Leiam O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo, para onde transcreveu inúmeras psicografias, classificando-as e comentando-as.
No texto anterior, chamamos a atenção para o critério fundamentado no nome da personagem. Em sendo ilustre, não desdenhará de elaborar mensagem culta e bela, pelos padrões mais elevados do pensamento doutrinário, ainda que possa exibir certa simplicidade formal conveniente para o ensino às pessoas menos letradas.
Outro método eficaz para conhecer da justeza dos conceitos expendidos será o cotejo temático com textos consagrados e que se encontram facilmente na extensa literatura espírita. No caso de se assemelharem demasiado, o que tiver sido transmitido por último, salvo por características definidas em função de determinado público, como quando se escreve para crianças e adolescentes, deve ser esquecido no cesto das eternas injúrias.
Causarão maior impacto no meio espírita as mensagens novidadeiras, aquelas que se põem na linha de frente das notícias auspiciosas ou funestas, no ápice das descobertas científicas ou no vanguardismo das teorias filosóficas. Para estas, vale o sistema kardequiano do aguardo da confirmação através de muitos textos que consolidem as mesmas informações, desde que provenientes de médiuns que não se relacionem entre si e que habitem diferentes regiões.
Claro está que um mesmo perverso espírito poderá buscar ludibriar vários mediadores, dando a impressão de que se trata de um movimento no etéreo de superior qualidade, com o fito de reorientar as diretrizes do movimento espírita terreno. Mas, enquanto a chibata sobe e desce, folgam as costas, o que significa que haverá tempo para que as forças benéficas se interponham à maldade das intenções espúrias ou para que os doutos possam examinar sem precipitação os argumentos das primeiras comunicações, impedindo que a mentira e a fraude se instalem no seio da comunidade.
Restam textos menos ambiciosos, como estes nossos, que primam pelos desenvolvimentos padronizados pelo senso comum, pelos roteiros mais intimistas e pessoais, pela elaboração de pensamentos que se projetam de forma pouco racional, dando vazão mais a problemas do que a soluções, possibilitando aos leitores ocasião de refletirem nas verdades que aqui se contêm, pelas necessidades próprias de quem está, paulatinamente, assimilando os conhecimentos e os raciocínios doutrinários, em processo de aprendizagem supervisionada por pessoas experientes dos centros espíritas.
Especificamente, no que tange às obras da Escolinha de Evangelização, existe meio muito lúcido de saber se são úteis aos adeptos do movimento espírita, qual seja, a apreciação prévia dos dirigentes das casas de atendimento espiritual, que impedirão a divulgação e a leitura oficial dos textos.
Ficaremos contentes se houver rejeição?
Se se tratar de puro mal-estar subjetivo do censor, iremos, nas próximas oportunidades, tentar eliminar as causas da ojeriza, reformulando a estrutura das futuras obras. Se, ao contrário, a repulsa advier de razões ponderadas e sérias, iremos discutir com os mestres onde se encontram as dificuldades e mazelas, porque não queremos perder nem o nosso, nem o tempo dos encarnados amigos.



80. COMPATIBILIDADE ENERGÉTICA OU FLUÍDICA

São bem poucos os termos de que dispomos para aproximar o conhecimento terreno dos fatos etéreos. O mundo em que residem os espíritos tem a sua complexidade e, portanto, apresenta a necessidade das nomenclaturas, tal como sucede entre os encarnados. No entanto, são realidades distintas, de modo que, por exemplo, falar em atmosfera pode induzir os leitores a entender que existe ar e daí a necessidade de respirar. Como conseqüência do falso raciocínio, alguém poderá deduzir que, se o espírito não aspirar os gases daquela atmosfera, irá perecer, como ocorre aos seres terrestres.
Quando estabelecemos, para o ato mediúnico, a necessidade de se tornarem compatíveis as energias ou que as vibrações das entidades que entram em contato se ajustem pela mesma extensão ou comprimento das ondas, estamos fazendo referência a problema meramente espiritual, melhor dizendo, perispiritual, porque a uniformização se dá entre os elementos corpóreos dos espíritos, ou seja, entre os perispíritos.
A terminologia por nós empregada, muito comum nas obras que tratam modernamente dos mecanismos mediúnicos, não representa com muita precisão os fenômenos, mas vale para levar a efeito a noção do que se passa nesses momentos.
Neste ponto, é justo que os leitores desconfiem de que bem pouco irão aprender do mundo dos espíritos, dado que elementos tão simples como a própria contextura ambiental são traduzidos com tanta precariedade.
Claro está que os dados desta nossa realidade devem ser integrados aos conhecimentos dos humanos pelo que valem as informações, segundo os roteiros que demonstram uma espécie de atividade física e moral, sendo, obviamente, necessário situar cada detalhe num conjunto harmonioso, para que se forme a idéia de como se compõe o mundo espiritual em que estão estabelecidos os informantes. Nunca iremos enganar as pessoas, afiançando-lhes que se reintegrarão ao ambiente, caso se apresentem com a mentalidade estruturada pelo sensório carnal.
Esta advertência serve para todos, mas, considerando uma velhice muito provecta, isenta de percalços emocionais e plena de felizes realizações morais, pode-se esperar que o cérebro humano se adapte desde a vida terrena às necessidades de libertação das peias carnais e materiais, preparando-se convenientemente para a reassunção das atividades de espírito.
A informação subjacente conduz-nos aos valores a que se dá importância no etéreo, o que resume muito bem a melhor compreensão que se pode ter de nosso mundo, ou seja, que o entendimento superior dá ênfase às realizações no campo das virtudes evangélicas, consignando a melhor imagem no cérebro as pessoas que são capazes de presumir que a nossa vida se resolve nos atos do amor a Deus e aos semelhantes, tudo o mais girando ao derredor desse eixo moral.
Quem trouxer para cá uma folha corrida de bons serviços, de imediato vislumbrará o sistema mais adequado de domínio das forças energéticas ou fluídicas e, mesmo que anteriormente não haja desenvolvido essa percepção cósmica, irá assimilar o conhecimento das estruturas da natureza etérea, ainda mais porque será acompanhado por experientes entidades, aptas a responder a todas as questões suscitadas pelos fenômenos desconhecidos.
Queridos irmãos, fugindo da habitual postura, recomenda este João escrevente que não se deixem desestimular pelo forte pessimismo de quem não vê em si mesmo inteligência ou cultura para a compreensão da realidade material, uma vez que as descobertas científicas relativamente à complexidade orgânica dos seres vivos revelam, a cada dia, novidades até para os especialistas de todas as áreas. Transferir para a apreensão da realidade espiritual os anseios que não se concretizam haverá de ser muito prejudicial, porque, lá no íntimo da questão, resta certa inquietude muito próxima da desconfiança de que Deus estaria deixando ao desamparo as criaturas. Dentre as virtudes requeridas, destaquem-se a fé e a esperança, que não podem faltar em nenhuma organização moral evangelizada.
Se alguém quiser concluir pela compatibilidade energética que se está estabelecendo entre o autor e os leitores, pode fazê-lo sem medo de errar, porque é assim que se realizam entre os planos as aproximações de maior proveito para todos.



81. A RODA DA SORTE

Nem sempre estamos bem preparados para os eventos de puro caráter espiritual. Há sofrimentos que absorvem todos os interesses, premindo as realizações nos campos da fé, da esperança e da caridade. Colocamo-nos diante de nós mesmos, porque sabemos que estamos enfraquecidos e que, ao invés de auxiliar, queremos ser auxiliados.
Realmente, quando compreendemos que muitas pessoas carecem do apoio alheio, do remédio, do alimento, do agasalho, do conforto moral, acabamos por esquecer de nossa pessoa, como se estivéssemos em patamar superior a todo mal. Quando muito, alertamos para a possibilidade de nos sentirmos frágeis perante os testemunhos que deveremos prestar e nos enfronhamos no mistério divino através das preces, refugiando-nos, no âmago da consciência, das tentações e dos perigos, avaliando o quanto fomos dispersivos, no intuito de incrementar ainda mais as ações em prol dos irmãos.
Contudo, sempre há de haver um dia em que iremos abandonar o corpo físico e, nesse dia, é natural que se desliguem as pessoas de seus interesses de relacionamento, para se prepararem para a derradeira viagem. Sempre será digno de elogio o desejo de distribuir paz entre os circunstantes, mesmo nas condições mais tristes de pungente sofrimento. Caso, porém, não se tenha discernimento suficiente para essa ação de magnanimidade superior, não se encontrará quem levante qualquer acusação contra os que, compenetrados da hora final, se voltam para os amigos do etéreo, para a súplica de pacífico e feliz acolhimento.
Atribuímos, enigmaticamente, o título de a roda da sorte ao texto, na esperança de que os leitores possam compreender que estamos dirigindo-nos oportunamente a um ou outro que esteja a pique de enfrentar seus derradeiros instantes de vida. No entanto, caso ganhe importância a presente composição aos olhos de outros irmãos, que nos guardem os dizeres no fundo do coração, para que se evoquem na hora certa, porque, acreditamos, estas palavras estão plenas de nosso amor e de nossa consideração pela fragilidade dos seres encarnados.



82. NOTICIÁRIO DO ALÉM

Muitos companheiros encarnados gostariam de receber informações seguras a respeito das condições morais das pessoas conhecidas que ultrapassaram as fronteiras da vida. Todavia, salvo raras exceções, ficam sem saber o que pensar a respeito, até quando são apaniguados por notícias que lhes chegam através de médiuns em que não depositam irrestrita confiança. Estão sempre a exigir características das personalidades dos que se foram, sem se preocuparem muito com a verossimilhança dos informes, em cotejo com as realizações daqueles entes queridos no campo das virtudes evangélicas.
Quando se trata, por exemplo, de crianças muito pequenas, ainda que acidentadas fatalmente, não lhes parece lógico que estejam no etéreo tão bem quanto estariam, se não tivessem nascido; talvez melhor ainda? Qual a atitude mais lúcida nessa situação? A de confiar em que Deus é pai de misericórdia e rogar com absoluta fé pela assistência diuturna dos protetores familiares, para o resgate daquele espírito do meio dos sofrimentos a que faz jus. O mais é tocar a vida para a frente, na ânsia equilibrada de tudo fazer segundo os preceitos evangélicos.
Outro exemplo perto do limite do entendimento mais fácil a gente encontra no caso de suicidas arrependidos por haverem praticado atos lesivos aos próximos. Não lhes parece que dificilmente encontrarão de imediato lenitivo para o sofrimento que os levou ao ato da suprema loucura? Neste caso, a oração compungida só alcançará ser de proveito para seu destinatário, se acompanhada de sincero sentimento de perdão, estando as pessoas predispostas a qualquer sacrifício para o soerguimento daqueles que se perderam nas sinuosas trilhas das tentações.
Dentro dessas duas linhas opostas de quem parte após ações violentas, tudo o que podemos recomendar em nada diferirá do que acima expusemos. Elevar a capacidade de entender as leis de Deus sempre haverá de ser o melhor sistema de atuação espiritual em proveito dos que desencarnam. Para isso, é essencial que os irmãos adotem postura de absoluta tranqüilidade, na convicção de que tudo que ocorrer na vida repercutirá para o bem dos indivíduos, caso se estimem os acontecimentos como necessários ou úteis para o acréscimo de virtudes ao rol das que estão postas em prática, até mesmo sem se ter consciência de sua absorção.
Diante do que expusemos, ainda lhes parece importante conhecer o destino de quantos estejam no plano da espiritualidade?
Se, em último caso, alguém, talvez por pilhéria, me fizer lembrar da possibilidade de os entes queridos estarem juntos a Jesus, na bem-aventurança de esfera de magnífica luminosidade, dizendo-me que é importante saber disso para os rogos serem mais eficazes, rir-me-ei a bom rir, porque será o mesmo que orar para Jesus ou qualquer entidade de superior quilate espiritual. Aliás, a felicidade de se ter alguém postado em círculo de tanta importância existencial deverá insuflar no ânimo dessa pessoa o desejo incoercível de se equiparar ao amigo, buscando entender tudo quanto fez para adquirir tal prestígio.



83. CARREGANDO UM PESO EXTRA

Quem adota a doutrina espírita tem a sensação de estar o tempo todo com uma carga maior do que a que seria normal para os seres humanos. Fica alerta para todos os fatos que vão ocorrendo ao derredor e para todas as notícias que lhe chegam por todos os meios de comunicação, como se pudesse utilizar-se das lições que aprendeu para amenizar os sofrimentos alheios ou para esclarecer pontos de discussão que estejam a entravar o entendimento da aplicação natural das leis universais.
Para os mais experientes, no entanto, essa impressão desagradável tornou-se o dia-a-dia dos transes e traumas, de forma que é com a mais absoluta neutralidade que se deixam imbuir do serviço que prestam sem esforço algum, sempre e cada vez mais conscientes de que estão prontos para o enfrentar de qualquer problema. Mesmo assim, quando o dia passa sem tribulações, sabem agradecer o desempenho das atividades corriqueiras, sentindo-se confortados pelo fato de que realmente não foram requisitados porque nada havia de interesse para a sua ajuda.
Desejei deixar claro que a expectativa do emprego dos preceitos espíritas se inicia numa premência psíquica até certo ponto prejudicial para a tranqüilidade das pessoas, vindo a atingir nível de simples atributo moral a ser utilizado tanto nas emergências dos acontecimentos insólitos, como nas atividades comuns de cada hora.
Essa atitude de absoluta coerência entre conhecimento e ação ficará tão fortemente incrustada no espírito que se constituirá em espécie de instrumental de que lançará mão após o trespasse, hábito salutar que não preconiza nenhuma preocupação com estudos, com investigações, com comprovações evangélicas, como se tudo não passasse de mero sistema orgânico a desempenhar o seu papel, sem o concurso da vontade consciente dos indivíduos. Vocês não prestam atenção ao ato de respirar senão em condições muito específicas. O mais comum é deixar que o organismo dê andamento aos mecanismos de absorção do oxigênio. Pois é exatamente assim que as virtudes se aplicam, quando as pessoas agem convictas de que as possuem, por força de as haverem conquistado.
Eis que os seres estão prontos para assumir outros pesos, dentro do rol de conhecimentos a serem assimilados, de acordo com o desenvolvimento evolutivo próprio de quem vai avançando na escala espírita.



84. DEUS PERDOA?

Em sua oração, Jesus nos ensinou a rogar ao Pai: “Perdoai os nossos pecados, assim como perdoamos aos nossos devedores.” Dessa forma, foi condicionado o perdão de Deus àquele que formos capazes de ministrar, por nosso turno, ou seja, segundo a nossa compreensão do que seja perdoar, desculpar, absolver, poupar, conceder perdão ou desculpa, como lemos nos dicionários.
E se não tivermos nada a perdoar a ninguém? Significa, automaticamente, que nada temos para ser perdoado? Nesse caso, Deus desconsideraria as nossas faltas, porque cometidas contra nós mesmos, já que não temos débito algum?
Esta discussão é por demais simplória. Apenas achei que poderia colocá-la para a reflexão dos leitores, por ter avaliado a possibilidade de existir quem se perca em vãos raciocínios, sem atinar com a saída natural para o problema.
A solução, de tão simples, chega a ser ridícula.
Quando qualquer criatura pratica o bem em relação a todos que o rodeiam, cresce em respeito dentro da comunidade e passa a ser benquisto, respeitado e até amado. Qualquer ato ruim contra si mesmo vai repercutir nas almas dos parentes, amigos, admiradores, conhecidos, provocando-lhes maior ou menor mal-estar, de acordo com o grau de afeição que lhe tenham. Não se configura, nessa situação, uma dívida, um débito, uma pena moral?
Pessoas mais argutas nos raciocínios podem pressupor que os ofendidos devem possuir esclarecimento, a ponto de entender que todos nós temos as nossas fraquezas, imperfeitos que somos, obrigando-se ao perdão do erro, descontando a falta que teríamos praticado contra elas.
Aceito que possa haver gente que tenha tal discernimento. Mas também me forço a pensar que os atos impróprios das pessoas queridas recaem sobre quem não tem meios de compreender filosoficamente a questão, como no caso de filhos pequenos que recebem o impacto de palavras mais fortes, da fumaça do cigarro, da direção imprudente e tantos outros atos que, visando a promover algum tipo de alívio, terminam por se constituir em procedimento que afeta os circunstantes.
À vista dos argumentos acima, se bem que não totalmente conclusivos, repito a minha tese de que Deus terá sempre o que perdoar.
Volto, portanto, à questão inicial, ou seja, Deus perdoa?
Pelo ensino de Jesus, quando tivermos perdoado sem restrições e tivermos sido perdoados pelos outros, pela razão inversa de que todos deverão saber perdoar, porque o princípio é universal, estaremos em condições de ascender à esfera seguinte do caminhar evolutivo, crentes de que, por todas as nossas ações, teremos tido o privilégio do perdão misericordioso do Pai.



85. QUERELAS INTERNAS

Barafustou-nos cérebro adentro a idéia de que não deveríamos comentar certos problemas que ocorrem no seio do movimento espírita, porque cada irmão pode argumentar ser possuidor de seu livre-arbítrio, não vindo ao caso a opinião de espíritos que não se categorizam entre os de mais luz e de mais saber.
“Se for para qualquer um meter o bedelho onde não é chamado”, dirão, “melhor será ouvir gente encarnada sabidamente convicta dos valores da doutrina, expoentes máximos dentro da falange dos servidores eméritos, pela força de sua palavra e de suas publicações.”
Pensamos em que se deveriam consultar os próprios guias, em sessões públicas ou particulares, mas fomos obstados pela intuição de que os maiores interessados poderiam lembrar-nos de que estão em contato constante com eles, por via íntima e consciencial, já que, se suas ponderações não elegessem a verdade, seriam de imediato advertidos, através da insuflação das idéias contrárias. Ora, se pensam como pensam e agem como agem, sem recriminações pessoais a despertar-lhes a mente para argumentos contrários, nem o coração, para instantes contrariedades e perturbações, é porque têm o amparo e a aprovação das entidades de luz ou anjos guardiães que os encaminham por aquelas trilhas cujos resultados os deixam ufanos, dado o rigor de suas posturas perante os “inimigos”, na liça dos preceitos em discussão.
Mas existem os distúrbios internos dentro do movimento, apesar de todas as tendências se municiarem de valores morais e evangélicos para a defesa de suas posições.
Serão esses princípios os mais justos e os mais verazes, segundo as recomendações do Cristo e os desenvolvimentos filosóficos de Kardec?
Dentro de nossa ótica positivista, achamos que não deveriam existir quiproquós nem acusações, nem amores-próprios feridos, nem susceptibilidades agastadas, nem divergências a se oferecerem em holocausto perante a opinião pública, pelos debates que se lêem nos jornais professos de integral sabedoria doutrinária.
Hão de nos provar que se trata de questiúnculas, de meros pontos de vista secundários ou periféricos, de ligeiros percalços no avançar monolítico do movimento rumo à unificação definitiva, sob as luzes de Kardec e de muitíssimos outros avatares, que se integram a cada dia no rol dos benfeitores do movimento espírita.
Se, in limine, somos rechaçados na tentativa de conciliar os contrários, porque não lhes adentramos os redutos, o que nos obrigaria a tomar posição para cada tema em que apresentam divergências, demos preferência a esta manifestação de simples desagravo, hipoteticamente propondo que se realizem sérios exames de consciência, argutas reflexões a respeito de todas as opiniões, e, principalmente, que se olhem os efeitos maléficos possíveis para seus espíritos, caso estejam correndo riscos desnecessários para a fixação das próprias diretrizes, quando o principal seria cuidar do congraçamento universal das forças atuantes junto ao rebanho necessitado de esclarecimento, de ajuda evangélica, de apoio financeiro e material.
Mas o texto alcançará pessoas que nem sequer suspeitam de que possam estar existindo tais querelas. Nesse caso, pedimos não só para nos desculparem pelo despertar da curiosidade, bem como para lhes solicitar que nos acompanhem em nossa prece em favor do movimento espírita, como um só corpo doutrinário e uma só alma de luz.

Pai, uni os que o orgulho mantém separados; aproximai os que a vaidade mantém afastados; congraçai os que o egoísmo mantém isolados; perdoai os que se julgam acima do bem e do mal, quando deveriam lutar por estabelecer o amor e a caridade como divisa do Espiritismo. Sabemos, Senhor, que estamos pedindo por nós mesmos, no instante em que nos compenetramos de que vamos coalhando o nosso caminho com as pedras da desconfiança, da desesperança, das aflições ingênuas dos que não sabem verdadeiramente o quanto sois bom e justo. Fazei com que as luzes dos irmãos benfeitores nos esclareçam a mente e nos fortaleçam o coração, para que possamos prosseguir nesta peregrinação mediúnica, com um pouco mais de sabedoria e de verdade. Dai-nos discernimento para compormos textos cada vez mais belos aos olhos dos leitores, sempre no sentido de lhes proporcionar razões para a efetivação dos estudos e dos trabalhos doutrinários. Pai nosso, que estais...



86. LIMITES DA CORAGEM

Eis a eterna dúvida dos mais fracos quanto ao poderio dos senhores do mundo. Hoje, como sempre, existem muitas pessoas que capitalizam fortunas, sendo capazes de arregimentar asseclas em quantidade suficiente para enfrentar as forças policiais legalmente constituídas. Há também os que não se deixam seduzir pelas virtudes e se liberam para os crimes, forçando a consciência, que muitos nem chegam a admitir, à aceitação de seus atos criminosos, dos quais vão obtendo vantagens, passando, finalmente, a tê-los como necessários para a própria subsistência.
Mas existe a lei de defesa, de conservação, que exige de todas as criaturas que não cedam a vida sem luta. Em plena selva, vemos que todos os predadores encontram resistência, não sendo poucas as vítimas capazes de fugir, ficando para trás os membros mais fracos, que terminam por se sacrificar em benefício do bando.
Entre os humanos, a união dos despojados de recursos bélicos tem demonstrado ser valiosa para a obtenção de conquistas também pela força.
Vamos destacar a necessidade de os indivíduos enfrentarem situações em que correm riscos muito sérios. De repente, chega um assaltante, que encosta um revólver na cabeça da vítima, obrigando-a a render-se, para efeito de ceder o que for que requeira. Diz o bom senso que a vítima não deve reagir, porque o desfecho vai tornar-se bem mais fácil de prever. Quanto de covardia se encontra nessas pessoas premidas pelas armas, que se deixam seviciar? Quanto de coragem existe no coração do criminoso?
Todo tipo de julgamento poderá ser feito para cada caso particular, desde o mais puro alheamento em relação aos bens materiais e pessoais que se vão perder, até a mais terrível dor de consciência pela pusilanimidade de ter sofrido os calafrios do medo.
Em relação aos agressores, pouco temos de dizer, porque é conhecida a lei de ação e reação que exercerá sobre eles, a seu tempo, toda sua ascendência. Como todo espírita sabe, vou apenas reafirmar que os maus hão de se tornar bons e o farão somente depois de se reconhecerem maus, de darem valor aos semelhantes e de os ressarcirem de todos os prejuízos, ainda que se recusem estes a aceitar.
O que nos importa analisar é o procedimento dos humilhados, dos ofendidos. Se foram constrangidos e não tiveram meios de reagir, porque perderiam a vida, vamos ajudá-los a superar os traumas, as seqüelas psíquicas dos desregramentos nervosos e da instabilidade espiritual, para o que precisam restabelecer a confiança em si mesmos, mediante a premissa do amor do Pai por todas as criaturas, o que dará o alívio moral condizente com a necessidade de não se deixarem esvair a esperança e a fé.
Não são poucos, porém, os que caem, pela irreverência dos maus diante da obra do Senhor, arribando ao etéreo de repente, sem que se tenham preparado para o momento do trespasse. Qual a coragem de que se devem revestir nesse instante de dor, principalmente porque se recordam dos entes queridos que deixaram a sofrer no mundo?
A maioria se enche de razões poderosíssimas e, sem refletirem sobre o que fazem, reivindicam como de direito a aplicação imediata das penas de talião, exigindo de todos os que os cercam que busquem e castiguem os criminosos. Ao perceberem que assim não sucede, tomam a si mesmos o encargo de fazerem justiça e partem para o revide, quase sempre por não atinarem que, no etéreo, as leis se aplicam por si mesmas, mais cedo ou mais tarde, atingindo a todos.
Quais os limites da coragem, em cada caso?
A essência dessa virtude reside na capacidade que desenvolvem os indivíduos de perdoar.
“Mas o sujeito violentou e matou toda a minha família!...”
Se matou, os espíritos hão de estar amparados, de acordo com o merecimento de cada um. Se violentou, existe o recurso da compenetração de que a sociedade deve estar preparada para assumir a investigação, a prisão, o julgamento, a condenação e a execução das penas cominadas.
“Isto está parecendo que se requer das vítimas que tenham sangue de barata nas veias!...”
Não, absolutamente, porque, para nós, o verdadeiro ato de coragem está em suprimir o envolvimento emocional, aplicando-se os métodos das terapias psicanalíticas ou da compreensão religiosa e doutrinária. Há que se saber sempre que amanhã será um novo dia e que sempre haverá outros amanhãs, caracterizando novos arcabouços e estruturas mentais e emotivas, para que seja possível o crescimento evolutivo através das provas e expiações.
“Expiações? Significa que todos temos faltas antigas para resgatar?...”
Não é verdade que o coração humano deve encher-se de coragem para enfrentar a vida?



87. A RECONCILIAÇÃO

Atendendo a lição do Nazareno, os espíritas aceitam bem a idéia de fazerem as pazes com os inimigos. Muitos se recusam, mas esses não podem ser chamados de verdadeiros espíritas, porque desconhecem a premissa da caridade. Vão ter muito que aprender na vida ou fora dela.
Interessa-me comentar os casos em que uma das partes não compreende a necessidade nem o valor da reconciliação, desconhecendo que, para a aplicação da lei do progresso, hão de estar todos os débitos resgatados.
Quer dizer que os que estendem a mão, perdoando ou rogando pelo perdão dos outros, irão ficar marcando passo na existência, até que os adversários se instruam pelas leis universais?
Absolutamente, não. Os atributos dos espíritos é que determinam se devem subir um ponto na escala espírita, o que, como dissemos alhures, ocorre automaticamente, sem que haja necessidade de aprovação das autoridades ou administradores cósmicos.
É preciso que se diga, para que os leitores não façam confusão, que a recepção dos que ascendem é tão alegre que sempre há de parecer a estes que mereceram a aprovação dos demais, como estão habituados na convivência social terrena. O que se deu, na realidade, é o episódio final da reconciliação entre as criaturas e os seus devedores e credores, ainda que os que fiquem para trás não compreendam com rigor a razão de os outros passarem adiante.
Não lhes parece que este tema está intimamente correlacionado aos
atos de coragem exigidos aos que sofrem sob o guante dos inimigos?



88. A QUEM INTERESSA A VERDADE

A verdade, por incrível possa parecer, não desperta tanto interesse quanto deveria. É muito mais importante para as pessoas seu próprio ponto de vista, principalmente porque quase sempre as afirmações que se fazem não são passíveis de constatação.
Não gostaria de relacionar exemplos, para não ferir susceptibilidades, já que adentraria, sem dúvida, no campo doutrinário. Entretanto, preciso fazer referência às convicções dos que deixam instalar-se em suas mentes e corações preceitos absolutamente provisórios, colocados por Kardec nas obras da codificação, à vista da assertiva maior de que o Espiritismo evoluiria pari passu com a ciência humana.
Muitos pais perdem filhos e ficam desejosos de reencontros mediúnicos, forçando a manifestação deles para a constatação de que estão em boa forma espiritual. Muitos não se satisfazem com notícias parciais e querem conhecer o grau do relacionamento existente antes do encarne, se estão com saudade, se perdoaram as desavenças, se sofreram muito com o desenlace e assim por diante.
Para estes, caso se apresente uma entidade qualquer que lhes diga que os filhos não eram aquelas jóias que desejavam que fossem, logo põem sob suspeita a informação e partem para outras consultas, com médiuns que julgam mais poderosos e bem assistidos, quando não abandonam de vez o movimento espírita, preferindo a consolação mais elástica e abrangente das teses evangélicas que primam por satisfazer o ego das pessoas, oferecendo-lhes desde logo o reino de Deus, onde serão felizes, mesmo que o objeto de suas preocupações atuais lá não se encontre pela eternidade.
Existe outra categoria de verdade que pode favorecer pesquisas mais sérias mas que, pela forte interpenetração das ações sociais sobre as vidas das pessoas, quase sempre termina por ficar relegada a plano secundário, até seu completo esquecimento. É quando se praticam crimes contra a integridade física dos parentes, sendo estes alijados da vida. No primeiro instante, no afogueamento dos instintos de revolta e de justiça, os indivíduos se julgam vítimas, seja de quem praticou o crime, seja de quem os criou e pôs no mundo em condições de prova e de expiação. Mas, como se diz no popular, longe dos olhos, longe do coração, não demora e as dificuldades inerentes aos processos criminais levam as pessoas a se preocuparem com outros aspectos de suas existências, terminando por raciocinarem que a obrigação do castigo contra o criminoso é das instituições especializadas, deixando, quando têm critérios religiosos, nas mãos de Deus, a punição exemplar, qualquer que seja a esfera existencial em que a maldade se apresente como problema para a consciência que vai sentir-se culpada.
A situação de quem se omite sentimentalmente, que seria o caso de quem passa a aspirar por um lugarzinho no paraíso, é muito mais difícil de enfrentar-se no etéreo do que a da pessoa que depositou na justiça do Senhor a esperança de desenlace honroso para as vítimas, consideradas aqui tanto o que perdeu a vida quanto o seu parente.
Em ambos os procedimentos, a verdade não tem grande significação, porque os pensamentos, eivados de emoções contraditórias e confusas, se perdem nos meandros do mistério dos desígnios do Senhor. Saber quem matou, como está o filho, qual o relacionamento extracorpóreo entre os seres, quais virtudes estão em falta para o enfrentar da triste contingência, tudo isso passa a não mais preocupar, tendo em vista que a vida tem de seguir o seu curso.
“No etéreo, futuramente, tudo se esclarecerá?” — eis a questão que vai ficando cada vez mais apagada na mente e no coração dos envolvidos, até que, de súbito, um dia, um novo acontecimento trágico reconduz a sensibilidade amortecida aos seus mais violentos anseios, acrescida da experiência dolorosa que ficara envolta em cinzas. E esse traumático instante muita vez se contém no reencontro dos seres, quando o que estava vivo passa para o além e ali se depara com uma entidade nem sempre cordata e afetuosa.
Para não encerrar de maneira melancólica, posso afiançar-lhes que tudo o que disse pode bem ser cortado pela metade, porque a verdade se deixa envolver pela fantasia, quando o problema não nos afeta diretamente. Depois, quem poderá assegurar que não estou sendo lido por pessoas missionárias, encarnadas para elevar o nível evolutivo de quantos seres estiverem sob sua responsabilidade?



89. DIANTE DOS CONSELHOS PARTICULARES

Muitos médiuns ficam sem jeito quando os espíritos benfeitores se ocupam deles, preferindo, na quase totalidade dos casos, que as notícias lhes venham através de um colega de sessão. Contudo, quando se trata de psicofonia, ou seja, do uso da palavra oral, e os conselhos enveredam perigosamente para a área das reprimendas, a confusão psíquica é inevitável.
Por outro lado, muitos se encontram prestigiados por grossos elogios e se sentem deveras constrangidos perante os demais, porque não gostariam de ser alvos de destaque. Nesse momento, é certo que receberão incentivos e ensinamentos explícitos sobre como proceder nesta ou naquela situação.
Sejam quais forem os pensamentos e sentimentos despertados pelos que se manifestam, tudo deve ser recebido com o máximo de humildade e cautela, porque a nenhum médium é dado sentir-se ufano pela deferência de trato especial, simplesmente porque os seres dos dois planos que se entrosam no ato mediúnico são, como se diz, farinha da mesma saca, caldo da mesma galinha.
A mais perfeita reação deve situar-se nos estritos limites da naturalidade que se prescreve no relacionamento entre amigos, companheiros, mestres e discípulos, familiares e assim por diante, em todas as variantes possíveis de boa convivência entre os semelhantes.
Empenhei-me em prescrever diretrizes (poucas), no que concerne às palavras que visam a facilitar a tarefa do mediador. No entanto, existem outras formas de contato direto entre o comunicante e o médium que buscam prejudicar o serviço, pois nem sempre “os espíritos são de Deus”. Vejam que a expressão negativa fere um tanto a santidade da expressão bíblica, porque sabemos que todos somos criaturas criadas por um único ser superior ou inteligência suprema, causa primária do universo. Nesse caso, há que se ter o máximo de cuidado, pois a malícia engendra muitas fórmulas sutis de perversão e de maldade.
Em todas as situações, a prece é que coroará a reunião e iniciará os instantes de reflexão conjunta ou íntima, para a evidência da força energética a se extrair dos conselhos ministrados. A bem da verdade, se considerarmos a ampla extensão dos trabalhos doutrinários que o movimento oferece em seus milhares de centros de atendimento espiritual, a quantidade de conselhos dos humanos aos do etéreo é significativamente mais intensa que aquelas que recebem os encarnados. Fique o aviso para a meditação dos leitores.



90. PERTO DA MORTE

Não quero que os amigos estremeçam com a referência da proximidade da passagem do estado de vida corpórea para o de existência espiritual. Não seria louco de prever que todas as pessoas que caíssem nesta página estariam fadadas a perecer em pouco tempo. Mas não posso deixar de dizer que, a cada dia que passa, um dia a menos se conta para aquele encontro decisivo, embora muita gente que se considera prestes a entregar a alma a Deus, nos Centros de Terapia Intensiva, por exemplo, restabelecem a saúde, afirmando, depois, que acrescentaram mais vida à vida.
Indo por esse caminho tortuoso, posso dizer, também, que a morigeração dos hábitos tende a acrescentar mais algum tempo ao que seria de se esperar, caso o sujeito prosseguisse dissipando incontroladamente as energias. Existem casos freqüentes de cardíacos que se estimulam a uma vida mais saudável após ataques quase fulminantes, sendo salvos por cirurgias de transplantes de órgãos. Podemos dizer que chegaram bem perto da morte mas dela se afastaram por resoluções equilibradas do ponto de vista físico.
Mais um pouco e nos deparamos com outra espécie de acréscimo de tempo, qual seja, aquele definido pelos protetores e guias, à vista de certas suspensões do cataclismo orgânico que se desencadeava. Não nos estamos referindo àqueles que Jesus trouxe de volta à vida, não sendo raras, porém, as pessoas que tiveram a chamada experiência de quase-morte, com permissão de se recordarem da visita ao plano da espiritualidade. Queremos pôr diante dos leitores — e aqui falo em nome do Grupo dos Amores Perfeitos — a extraordinária aplicação da divina misericórdia, quando se reúnem no etéreo os benfeitores espirituais da família de quem está nas últimas, para a decisão de lhes estimular os centros vitais, no interesse de amenizar o sofrimento de alguns entes queridos ou de prolongar, por mais alguns dias, semanas, meses ou anos, a experiência carnal, sabendo-se de antemão que a quase totalidade dos que ressurgem após esse episódio traumático saem eufóricos, passando a agir com mais harmonia dentro das leis morais.
Persiste, entretanto, o problema do desgaste da fibras corpóreas, estando marcado, de qualquer modo, um limite genético para o desencarne, sendo perfeitamente plausível acatar-se o pensamento de que, a cada dia que se escoa, esvai-se também mais um pouquinho do fluido vital.
A conclusão a respeito da melhor atitude existencial está embutida no texto, de sorte que cabe aos leitores extrair a sua lição, pondo-se, de verdade, perante o dia derradeiro de sua jornada terrena.



91. PARA QUEM SERVE O TEXTO ANTERIOR

Não se iluda se você está em plena juventude ou no ardor da maturidade, porque aos velhos decrépitos, a quem se diz jocosamente que deveriam estar com o terço na mão, o texto não serve. Se é bem verdade que diariamente sabemos do trespasse de bebês, de crianças, de adolescentes, de jovens, de pessoas, enfim, de todas as idades, também temos a obrigação de concluir que nem todos estão aptos a compreender a doutrina espírita, a qual exige não poucas horas de estudo e de reflexão.
Por isso, estamos dizendo que o texto anterior serve exatamente para os que estão lendo e se compenetrando das preocupações deste grupo, uma vez que são as pessoas intelectualizadas as mais convenientes quanto à divulgação da necessidade do conhecimento dos problemas que se resolvem através do Espiritismo, para mais imediato acolhimento espiritual depois da desencarnação.



92. PEQUENO ATRASO

Não importa que o trabalhador se dedique a outros afazeres que não sejam exclusivamente os relativos ao atendimento dos seres do plano da espiritualidade. O que interessa é o sentimento com que realiza as tarefas que lhe estão reservadas, sempre pronto para o seu melhor desempenho. Se comparecer ao serviço com o coração tranqüilo e a mente aliviada, sabendo que encontrará imensa satisfação em colaborar, tudo quanto fizer terá valioso significado para as contas da consciência, no instante de serem sopesados os prós e os contras, na avaliação de quanto foi proveitosa a encarnação no sentido do progresso moral, intelectual e emocional.
Caso acrescente aos deveres corriqueiros mais um pouco de sacrifício pela cooperação que empresta a alguma casa espírita, Deus haverá de reconhecer-lhe o mérito e lhe retribuirá na justa medida de sua honestidade e reto proceder. Sendo assim, ainda que se deixe embalar por algum evento que lhe parece importante, no âmbito dos prazeres sociais ou mundanos, o atraso decorrente desse outro interesse não haverá de ser computado como irresponsabilidade ou desprezo pelas entidades com quem aprazou sua presença junto à mesa mediúnica. O que não se admite é a hipótese da sutil e íntima alegria por faltar ao compromisso, não realizando o que lhe estava destinado, ao não tornar seu tempo mais elástico, avançando um pouco no fim, para compensar o que perdeu de início.
São cogitações deste tipo que fazem com que as pessoas encontrem bastante paz, para que possam efetuar as tarefas sem pressões exageradas, embora seja recomendável que não haja completo desafogo ou o serviço acabará por relaxar. Para tudo na vida — e após ela — tem de haver equilíbrio, boa vontade, mansuetude, calma e, principalmente, confiança em que jamais o trabalhador virtuoso irá deixar de receber a assistência dos benfeitores e guias espirituais.



93. NÃO SE EXAGEREM OS COMPROMISSOS

O que para uns pode parecer pouco, para outros é demasiado: tudo depende da qualidade do serviço que se realiza. Os compromissos que se assumem devem estar intimamente relacionados com a capacidade de trabalho. Muitas vezes, somente para oferecer um exemplo, a pessoa pesa cinqüenta quilos e se propõe a transportar, de uma única vez, objetos de cem quilos. Está fora de seus limites físicos. Do mesmo modo, há restrições intelectuais, não podendo um analfabeto corresponder à mesma expectativa que se deposita num lente universitário, para uma exegese doutrinária.
Longe de mim estar a incentivar as comparações em detrimento dos que se situam em plano inferior naquele instante. Estou simplesmente operando meus raciocínios lógicos no sentido de estimular cada pessoa a conhecer a sua força e o seu tirocínio, antes de se oferecer aos trabalhos dentro das áreas de atuação abertas aos colaboradores da seara espírita.
Mudando meu ângulo de visão, posso dizer que os mais sábios devem postar-se nos cargos administrativos, porque têm discernimento para perceber o quanto de contribuição se há de extrair de cada trabalhador, antecipando-se aos excessos de atribuições que sobrecarregam a uns, enquanto outros se acomodam com menos do que podem realizar.
Neste ponto, o melhor para a equipe é reunir-se fraternalmente, sem medo de sofrer o apontamento dos excessos ou das carências, aceitando pacificamente as observações, desde que se transformem as queixas ou as censuras em pontos positivos para a reorganização das tarefas.
Eis que se chega, de novo, perante a necessidade da prece rogativa do auxílio moral dos protetores individuais e do lar espírita, para que tudo se compreenda dentro dos parâmetros caritativos a que se obrigam todos os que desejam participar da vida evangélica que ali se usufrui.
Para encerrar, sirva de modelo cada curta composição desta Turma dos Amores Perfeitos, onde se retrata a capacidade de entendimento das lições, segundo o arcabouço mental e sentimental dos autores. Damos o que temos e até um pouquinho mais, mas não prometemos, nem mesmo a nós outros, tornar nossas mensagens as mais belas, as mais empolgantes, as mais inteligentes, as mais sábias. Sejam elas honestas e verdadeiras e nos daremos por felizes e agradecidos ao Pai pelo nosso discernimento doutrinário, o qual melhora um pouco a cada dia de trabalho e de esforço metódico para a assimilação dos conhecimentos.
Fiquem na paz do Senhor!



94. O MEDO DE FALHAR

Está claro que nem tudo somos capazes de saber, mesmo porque, se tivéssemos conhecimentos superiores, estaríamos mais além na caminhada rumo à perfeição. Sendo assim, parece-me muito justo que as pessoas e os espíritos que se comunicam falhem na apreciação dos tópicos doutrinários e, mais ainda, quando intentam expor pareceres próprios sobre os fatos da vida e da morte.
O que não se pode admitir é o erro proposital, a malícia, o preconceito incrustado no fundo do coração, apesar do aparato evangélico intelectual de que se é possuidor. O que não se deve aceitar é a manifestação eivada de defeitos, a demonstrar descuidos que mais não são do que uma ofensa ao carinho dos leitores.
Para tantas palavras de profunda exigência quanto ao desempenho mais honesto possível, há que corresponder o temor de se estar incidindo em falsos conceitos ou, ao menos, em valores não bem assimilados e, por isso mesmo, expressos de forma deficiente e imprecisa.
Quando se tem consciência de que seres mais sábios realizaram obras que se encontram à disposição para consulta, fica-nos a expectativa de que cada comunicação que os mais modestos ditam esteja em débito em relação à verdade passível de ser descodificada, segundo o nível evolutivo dos leitores. Desse modo, qualquer fraqueza será suficiente razão para se afastar o texto atual, à vista dos encômios que se ouviram em relação aos outros.
Mas esta turma tem de se desincumbir satisfatoriamente de sua missão, ainda que lhe reste purgar as dores das críticas acerbas dos mais criteriosos. Para que mais este passo seja dado, fica a exemplificação assinalada, com o fito de se perdoarem os deslizes os amigos que nos lêem e que não entendem o porquê de terem chegado até esta página. É que, sem que se tente realizar algo bom, como saber se se está preparado para enfrentar os encargos de maior responsabilidade? O que não pode acontecer é a paralisia natural de quem tudo teme, porque a gente não se permite raciocinar a respeito da prevalência das intenções sobre a concretização das idéias, no campo dos relacionamentos.
Esta mesma redação está pecando por ser longa, o que significa dizer que, quanto mais se escreve, maiores são as possibilidades de demonstração da pobreza de quem vem repetir idéias comuns entre os humanos. Mas se se suspeitar de que estamos com o coração na mão e, mesmo assim, cheios de coragem e fé em que um dia acertaremos, logo se poderá perdoar tudo quanto parecer lamentável e de péssimo gosto.



95. A PAUSA QUE REFRESCA

Têm os encarnados, quase sempre, recursos para o desafogo de todos os transes físicos e emocionais. Isto é óbvio mas vai aqui um exemplo. Trabalha-se o dia todo; à noite, o sono restaura as forças.
É o mesmo princípio válido no etéreo, ou seja, possuem as entidades meios de contrabalançar a fadiga, a ansiedade, o medo, as acusações da consciência, o terror das recordações dos males praticados?...
Esta é questão que sabidamente adentra o coração de muitíssimos confrades, porque a doutrina espírita conduz, naturalmente, as pessoas ao exame da personalidade, adquirindo conhecimento das restrições de seu caráter e da escassez de sua atuação evangélica.
Sim. A resposta à pergunta é sim. Os que vagueiam no plano etéreo, em sendo capazes de delimitar o alcance de seu poder pessoal frente às imposições do amor e das demais virtudes, recebem o carinho do Pai, em forma de leis misericordiosas, que se aplicam automaticamente, livrando os que precisam aprender os preceitos evangélicos das preocupações que apenas significariam empeços para a aquisição dos valores em falta.
Não é difícil de perceber que estes que compõem a Turma dos Amores Perfeitos estão no início do aprendizado socorrista, como disciplina para a realização do ideal do amai-vos uns aos outros, segundo mandamento em importância na pregação de Jesus. Entretanto, estamos tendo a oportunidade destas transmissões da mais absoluta coerência entre o que se diz e o que se faz. Se não somos ainda capazes de escrever com propriedade e elegância, pelo menos o refrigério da alegria de estarmos na presença dos irmãos encarnados nos possibilita a conclusão da tese.
Resta considerar que se podem aproveitar os momentos de repouso, como no caso acima considerado do sono que restaura o vigor físico, para se efetuarem outras espécies de atividades em prol da melhoria própria ou alheia, desprendendo-se o perispírito do corpo material para ser recebido o sujeito pelos protetores, para o trato dos problemas do dia-a-dia. Seria o mesmo para nós, caso alguns leitores pudessem extrair deste texto algo de bom para si, o que nos daria a certeza de que, além de estarmos recebendo o lenitivo do trabalho, estaríamos sendo recompensados pela dedicação a maior, verdadeiro sacrifício para quem não adquiriu as habilidades concernentes à própria missão.



96. UM POUQUINHO DE LUZ

Se tivéssemos um archote e entrássemos num túnel sem iluminação, em noite sem luar, não seria admissível raciocinar pelo fato, isto é, que o nosso facho iria possibilitar aos videntes enxergar dentro de um círculo de luz, de acordo com o poder de ardência do instrumento? Ao contrário, com o mesmo candeeiro, em salão profusamente iluminado, não é verdade que iria fazer triste papel?
É por isso que muitos, ao lerem estas páginas, se sentem confortados, principalmente por perceberem que a sua sabedoria faz o nosso conhecimento ficar pequenino. Sendo assim, põem de lado a nossa produção e saem em busca de algo mais substancioso, o que consideramos absolutamente natural, dentro das normas do bom senso e do respeito pelo nosso trabalho, que desempenhamos com honestidade e boa-fé.
A essas sábias criaturas não nos atrevemos a escrever. Antes, usando o mesmo princípio, ficamos no aguardo de sua produção intelectual, para que possamos adiantar-nos no caminho do progresso.
Existem, contudo, seres menos esclarecidos, a quem bastam estas dissertações, em seu movimento de arranque para a vida doutrinária. Se há lentes universitários, é compreensível que haja também mestres de primeiras letras, desde que não apresentem desenvolvimentos contrários aos preceitos kardecianos, por ignorância.
No entanto, certos administradores da cultura espírita ousam dispor sobre o que é certo ou errado, o que é conveniente, o que é oportuno, o que é essencial para o entendimento global das diretrizes doutrinárias, estabelecendo, dentro de sua área de atuação, o que pode ou não cair sob as vistas dos neófitos, como se todas as pessoas que se desviassem do caminho que julgam os mais seguros se constituíssem em responsabilidade sua, pensando que correm o risco de virem a ser acusados, em qualquer época, de promoverem a perdição de alguns semelhantes.
É louvável que se preocupem as pessoas quanto à educação das crianças e dos jovens. É mesmo de muito agrado dos guias espirituais que se organizem cursos em que os conceitos e as regras da codificação sejam ressaltados, porque se constituem no aparato sem o qual ficará mais difícil de se entenderem os princípios filosóficos, científicos e religiosos, especialmente quando a formação escolar dos estudantes se situe em faixa de forte precariedade.
A partir, contudo, da fixação na consciência de que existe o livre-arbítrio e de que a evolução de cada um depende de seu próprio empenho na absorção das virtudes e dos conhecimentos, será de bom alvitre constituir grupos de estudo menos sujeitos às peias da orientação didática dos diretores dos centros espíritas.
Extremando ao absurdo a nossa exemplificação, podemos dizer que Kardec recebeu toda sorte de correspondência, onde se encontravam as teorias mais esquisitas e os pensamentos mais díspares das informações obtidas do plano da espiritualidade superior. No entanto, ajudado pelos protetores, examinou todas as teses, afiando a sua perspicácia por meio da prudência do mais rigoroso critério científico, para ser capaz de encontrar os pontos falhos e apontá-los, quer durante as reuniões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, quer através dos comentários insertos na Revista Espírita. Nem por isso seu desempenho como chefe do movimento espírita sofreu qualquer abalo. Ao contrário, a sua lucidez foi ganhando mais e mais poder, de forma que as pessoas que dele se aproximavam acabavam por apagar as suas lamparinas.
Quanto de Kardec somos capazes de encontrar no mundo ou quanto de Espírito de Verdade vemos a divulgar seus ideais evangélicos via mediunidade? Será que os que portam simples lanternas não podem comparecer junto aos homens para oferecer-lhes a garantia — precária, embora, no seu caso — de que existe vida após a morte?
Agora o salto mortal sem rede: não haverá um único texto produzido nas condições menos felizes capaz de merecer a consideração de uma divulgação, ainda que se façam acompanhar de comentários judiciosos, onde se delineiem as fragilidades dos raciocínios ou das teses? Em O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo, clássico exemplo do que iremos afirmar, Kardec transcreveu mensagens de todas as categorias espirituais, asseverando que sempre há o que aprender nas mensagens dos seres menos adiantados.
Finalmente, temos tido a felicidade de comprovar que muitos leitores das obras da Escolinha de Evangelização, de acordo com os diversos gêneros literários, têm obtido momentos agradáveis, em suas reflexões, porque percebem que podem vencer as barreiras da ignorância no campo da aplicação dos conceitos aos atos da vida, servindo-se dos pensamentos ali expendidos como mola propulsora para vôos mais largos ou, para utilizar-me da figura inicial, como combustível para dar mais força e poder à sua candeia.



97. HISTÓRIAS BEM CONTADAS

Não são poucos os companheiros de classe que gostariam de apresentar-se com enredos imaginosos sobre personagens extraídas da vida real, conforme seu poder de observação, com problemas e soluções de caráter moral. Alguns até se aventurariam em narrações de largo fôlego em que as habilidades evangélicas seriam testadas e provadas, seja no sentido da expiação, seja no das recompensas.
O desejo esbarra, porém, na formação intelectual que se exige dos escritores, para a qual colocamos dois processos de compenetração dos limites em que operamos: primeiro, somos obrigados, se quisermos ser criativos, a conhecer a extensa literatura espírita, plena de excelentes romances e de biografias mais ou menos verdadeiras, onde se desenvolvem as peripécias mais emocionantes quanto ao aprendizado das virtudes e o ganho da bem-aventurança; segundo, temos de olvidar, quase completamente, as histórias conhecidas, dentro do princípio de que, se não houver novidade, não haverá interesse.
Nesta altura das considerações, caímos no fortíssimo argumento da necessidade de nos integrarmos ao ambiente dos terrestres, porque é inconcebível que nos apliquemos à elaboração de texto artístico de cunho espiritual, sem nexo ou vínculo com o mundo dos encarnados. É preciso que eu diga enfaticamente que as histórias dos irmãos com quem mantemos contato são, de longe, muitíssimo mais conseqüentes do que qualquer elaboração de caráter mental.
Se estiver errado, corrijam-me, mas me parece que deixei evidente que o empenho em receber notícias amenizadas pela imaginação é bem maior do que aquele que temos nós de transmitir, esforçando-nos por aproximar o texto o mais possível do contexto de vida dos encarnados. Se bem me lembro, os romances mediúnicos de maior sucesso se encontram fundamentados nos álbuns de recordações dos autores, quase sempre voltados para o deslindar de passadas peregrinações terrenas. Quando as narrativas buscam, efetivamente, correlacionar as personagens com seus modelos, as obras se tornam muito próximas da temática do dia-a-dia, o que, em última análise, é o mesmo que buscar lições no noticiário dos jornais.
A vontade de escrever existe, como assinalei, mas as realizações não são tão freqüentes, porque os textos terminam sendo duramente criticados pelos mentores da colônia, que estabelecem parâmetros de escritura bem mais vigiados do que as elásticas condições dos editores profanos, digamo-lo sem medo.
Se esta mensagem lhes parece fugir da temática do grupo, não se admirem tanto, porque um dos nossos objetivos é demonstrar que também temos sonhos de contribuição descomprometida. No entanto, creiam firmemente, caso viermos a escrever uma obra que vise a competir com as dos escritores mundanos, iremos fazê-lo no estrito desejo de cooperar com as aspirações espirituais dos leitores.



98. A ÁGUA BENTA

Sempre chega uma época na vida em que as perguntas são obrigatórias. Nem sempre as pessoas resolvem os próprios dilemas e, se têm a possibilidade de interrogar quem lhes pareça conhecer as respostas, elas o fazem, porque o que lhes importa não é a opinião mas o conhecimento.
Por exemplo, quando se ergue a garrafa cheia d’água ou se coloca a jarra sobre a mesa, aguarda-se que Deus ou um benfeitor de alto nível espiritual transforme a chã natureza química e material dos elementos que ali se condensam em fluido com poderes de cura dos males físicos e espirituais.
A perquirição de praxe diz respeito à bênção universal do Senhor, ou seja: “Por que Deus não transforma a água do universo em água benta, de uma vez por todas?”
As hipóteses sobre as razões do Criador variam ao infinito, tanto quanto é capaz o espírito humano de imaginar as necessidades de cada indivíduo, como chegam até à afirmação de que a pergunta não procede, porque só o fato de existir água é já uma bênção.
Não lhes parece, amigos, que existem duas atitudes bastante semelhantes em sua fé na suprema misericórdia divina? Estaria a primeira nas pessoas que bebem daquela água, absolutamente concentradas nos efeitos que dela esperam. A segunda residiria na própria pergunta em si, porque é um passo decisivo no sentido da investigação da verdade.
Não quero passar nenhum dever de casa, mas é preciso que cada um saiba inquirir de si mesmo se é daqueles que suspiram pela intervenção divina em sua trajetória ascendente, ou se está validando a chama eterna de seu espírito, na tentativa de seguir intimorato na direção do conhecimento.



99. PERIPÉCIAS MEDIÚNICAS

Muitas vezes, aproximamo-nos do médium e o encontramos ainda não inteiramente entregue à influência do etéreo, de modo que, por alguns momentos, vai interpretando à sua maneira as vibrações que tentamos tornar inteligíveis e decifráveis.
É de conhecimento comum que, sem que haja compatibilidade energético-fluídica, não há como nos fazermos entender do encarnado, a não ser muito sutilmente, como no caso das intuições que transparecem como vagas idéias a serem extraídas do fundo da consciência, verdadeiras inspirações que, na maioria das vezes, passam por elaborações profundas da inteligência sobre a qual não se exerce domínio, a confundirem-se com os movimentos do sistema nervoso autônomo, o chamado parassimpático.
Se pusermos todo o parágrafo anterior debaixo de nosso microscópio doutrinário, teremos discernimento para afirmar, sem sombra de dúvida, que o texto foi integralmente produzido pelo mensageiro imaterial? Ou iremos preferir duvidar da tácita assertiva de que tudo se deve a uma denominada Turma dos Amores Perfeitos, através de um espírito que se imaginou chamar de João, acusando o médium de falso ou, ao menos, de anímico irresponsável, preocupado que estaria com este tipo de tema?
Durante bom tempo, e ainda agora em grande parte dos centros espíritas, os psicógrafos e os psicofônicos têm dado prioridade às mensagens que reproduzem os deveres evangélicos, enfatizando os procedimentos virtuosos, sempre no sentido do cumprimento das diretrizes do amor e da caridade. Uns poucos médiuns dão passagem a certas mensagens de caráter técnico-científico, no sentido do aprimoramento das faculdades intelectuais à luz do procedimento rigorosamente padronizado pelo espírito de solidariedade, de confraternização, de benemerência, da fé, da esperança, da bondade, do perdão, da comiseração, do repartir o que se tem e do se livrar dos excessos.
Pensando nesse ritmo mais habitual das transmissões etéreas, este mensageiro, mesmo em nome da classe e com a aprovação do mestre, sob a tutela da organização administrativa do educandário, se sente inibido por vir à presença de virtuais leitores encarnados sempre com palavras e dizeres de segunda categoria, como se toda realização curricular devesse estar concentrada no funcionamento da mente, em detrimento da sensibilidade que se quer ver estimulada através de expressões de grande poder emotivo, ainda que em preces singelas a rogar a compreensão dos espíritos de luz e as bênçãos de Deus.
Aquele tipo de composição mediúnica, porém, está em todas as casas espíritas, porque são obras da mais profunda empatia entre os planos, no sentido das aspirações mais elevadas de quem almeja estar em dia com as obrigações cármicas, de sorte qualquer manifestação nossa teria o condão da mera transcrição temática, sem o brilho da composição literária.
Quando o escrevente termina o seu trabalho, depositando o lápis sobre a mesa, crê, sinceramente, que deu vazão aos anseios dos guias que trouxeram consigo os irmãos preparados para as comunicações e, conquanto os temas e a forma não sejam os mais adequados para o conhecimento do público em geral, fica satisfeito com o próprio desempenho, assegurando-se, à leitura ou audição de suas produções mediúnicas, quais aspectos que precisam ser melhorados. Se esse princípio regular perenemente a linha diretriz da mediunidade, posso afirmar que bem poucas peripécias mediúnicas haverão de ser enfrentadas pelos mensageiros bem intencionados, complicando-se por demais a presença dos que vierem com o intuito de perturbar o ambiente de trabalho. Neste último caso, no entanto, devo frisar que também deverá sair contente o mediador, caso perceba que foi útil para o esclarecimento de algum defeito do ou dos obsessores do dia.



100. CALMARIA

Sempre há de chegar uma hora em que as ânsias de realização mediúnica se tranqüilizam e os trabalhadores da área começam a respirar aliviados, sem nenhuma preocupação com o fato de terem de se apresentar aos protetores espirituais, os quais, antigamente, eram tidos por eles como seres de extraordinária pujança moral e de maravilhosos e profundos conhecimentos científicos e doutrinários.
Realmente, no começo das atividades, os que se apresentam aos centros espíritas chegam com exagerado respeito pelas entidades espirituais responsáveis pelo bom andamento dos trabalhos da instituição. Pensam neles como seres de superior discernimento, capazes de ler no pensamento e no coração das pessoas, sempre prontos para aplicarem uns pescoções morais em quantos agem em descompasso com as diretrizes do Cristo ou com os preceitos da doutrina espírita.
Mas o tempo vai passando e essa expectativa vai amoldando-se à conjuntura dos serviços que se prestam regularmente, de modo que cada atividade fica condicionada a certos deveres e obrigações de cada membro da diretoria ou de quantos seareiros se dispõem a ajudar. As recompensas vão sendo recebidas na forma de agradecimentos da comunidade carente e os pequenos abalos de eventuais insucessos, neste ou naquele setor, são com presteza superados pela magnanimidade com que os guias e doutrinadores tratam a fragilidade humana, pela compreensão de que todos somos verdadeiramente imperfeitos mas cheios da vontade de acertar.
Depois de freqüentar alguns anos as reuniões e de se dispor ao trabalho efetivo no campo material, as pessoas se acomodam, segundo o princípio de que estão caminhando com a ajuda constante e sensível dos elementos do plano da espiritualidade em condições de contatar certos espíritos superiores, quando de acontecimentos que exigem mais sério envolvimento intelectual ou afetivo.
Como ocorre fatalmente, sempre existem aqueles que sofrem a desdita de doenças ou de morte na família, encontrando o consolo e o ombro amigo dos companheiros e a palavra estimuladora das reações mais dignas de quem é possuidor, no mínimo, dos sentimentos da fé, da esperança e da caridade, pelo respeito às normas de conduta equilibradas e norteadas pelas diretrizes evangélicas.
Nessa altura da vida, os médiuns, principalmente, e os demais trabalhadores se sentem absolutamente seguros do amparo das entidades benignas, sabendo que os eventos desagradáveis correm por conta da necessidade que todos possuímos de resgatar débitos e de cumprir missões junto à família e em relação aos colegas, em todos os campos da vida social.
Na velhice, somam-se as recordações de tantas atividades em prol dos irmãos e, embora muitos curtam dores físicas e desconforto moral pela incompreensão dos mais jovens, ainda são capazes de sorrir otimistas pela recepção alegre que obterão dos amigos do etéreo, em seguida ao desenlace carnal do espírito.
Eis que pintamos um quadro harmonioso das pessoas que têm certas regalias, como um lar, uma família, certo discernimento escolar, companheiros úteis e esclarecidos, emprego modesto e salário suficiente para que não se deixem abater por crises financeiras dramáticas. São pessoas simples, que não desejam carregar as dores do mundo nas costas e, muitas vezes, trabalham a mais para a fomentação da consciência coletiva a respeito dos problemas da sociedade e da civilização.
Também são pessoas que moderaram os apetites e sufocaram a ambição de grandes conquistas perante a comunidade, destacando-se, antes, pela solerte oferta de seus préstimos mais ou menos valiosos para a solução dos problemas humanos. São pessoas que não quiseram experimentar tudo o que a vida tem a oferecer para a alienação dos sentidos e para o abuso das sensações de prazer, na firme convicção de que, ao final dessas estradas de mero proveito material, se encontram as dores, os males, os vícios e a conjuntura de um futuro incerto e comprometido.
Quer dizer que a vida superior sobre a face da Terra está em ser coerente com os princípios doutrinários espíritas? Também, como se devem respeitar os cânones de todas as religiões que pregam e que agem em harmonia com as leis de Deus, tendo sempre o cuidado de não causar prejuízos aos que não receberam ainda os dividendos do procedimento virtuoso e que vagam pelo mundo sem possibilidade sequer de saber o quanto estão sendo perniciosos para si mesmos.
Se essas pessoas adquiriram o hábito do sábio agradecimento ao Senhor pelas dádivas recebidas, através de preces comovidas em que não se esquecem de rogar por paz e progresso para toda a humanidade, podem esperar perene felicidade também nas esferas imateriais, onde serão homenageadas através de missões cada vez mais abrangentes e importantes.
Seja Jesus por todos nós, agora e sempre! Graças a Deus!
Turma dos Amores Perfeitos.



101. RESULTADOS PREVISÍVEIS

Foram tardes maravilhosas de mediunidade patente? Não sabemos, imersos que estivemos nas ânsias do melhor desempenho. Daqui a uma centena de anos, por certo, ao analisarmos o fruto deste trabalho, iremos saber distinguir onde se encontram as principais falhas, onde estão as qualidades, quais as melhorias que seremos capazes de propor, em suma, poderemos refazer os textos e apresentá-los com outro vigor e nova concepção.
Servirão tais observações para todas as mensagens, segundo o desenvolvimento evolutivo dos autores? Por exemplo, as obras de Kardec, após revisão, iriam merecer dele podas e enxertos significativos?
Ao menos no que toca ao estilo, se nos compenetrarmos de que a cada época da humanidade corresponde um modo de exprimir-se, alterando-se o léxico e a gramática, para dizer o mínimo a respeito da postura intelectual e cultural perante a obra literária, devemos concluir pela necessidade de adaptação aos novos modelos. Para justificarmos o nosso parecer, basta que levemos os leitores a cotejar as produções camonianas com as de Vieira, depois com as de Machado de Assis e, finalmente, com as de autores contemporâneos, como José Saramago, Marcelo Rubens Paiva ou Chico Buarque.
Interessa-nos, sobretudo, saber se haverá ajustes quanto aos conteúdos moral, filosófico, religioso e científico, inclusive no que respeita à acomodação histórica das informações sociais. Sofrerá o chamado pentateuco kardequiano mudanças radicais ou apenas pequeníssimas alterações de abordagem?
Vou raciocinar por absurdo. Supondo-se que as transformações de mentalidade, por força da aquisição de todas as virtudes evangélicas, por causa da impregnação na sociedade das diretrizes doutrinárias espíritas, se estabeleçam em definitivo, nada mais justo do que prescindir, a partir de certo tempo, dos ensinos morais. Não é o que deve ocorrer nos campos sacratíssimos em que Jesus passeia com seus irmãos? Ou estará ali o Nazareno a repetir que os mandamentos são estes mais aqueles?...
Se preferirem os leitores o outro lado da corda, poderão imaginar que a civilização mundial se paute pelas diretrizes da dialética marxista, estabelecendo-se um regime comunista convicto de que todas as criaturas merecem o mesmo conforto, a mesma assistência, as mesmas regalias, fixando-se nas almas de todas as pessoas a convicção materialista de que a vida começa e termina no plano terreno. Não será justo prever que as obras da codificação de Kardec percam o sentido e sejam destruídas, por inúteis e pregarem o desassossego espiritual?
A ordem geral das coisas é que determinará a linha diretriz do progresso a ser consignado nos textos que comporão a biblioteca dos cidadãos. Dentro desse prisma, as obras espíritas deverão receber o influxo das tendências humanas ou irão permanecer estacionadas no século XIX ou no século XX, conforme hajam sido escritas numa ou noutra centúria.
Podem os amigos deduzir que já existem diferenças entre elas, embora o fundo permaneça íntegro, de acordo com os ensinamentos dos espíritos de luz que promoveram a Terceira Revelação.
E onde estarão os leitores dentro de um, dois, três, cinco uma centena de séculos? Terão a pachorra de ler estas simples considerações, apenas com o fito de saber em que estágio se encontravam quando tomaram contato com as mensagens pela primeira vez?
Para terminar, devo avisar que, à medida que avançamos em sabedoria e em virtudes, vamos adentrando esferas cada vez menos transitórias, de sorte que as mudanças irão definindo os aspectos que devem ser aperfeiçoados, o que deve incidir sobre a permanência das mensagens pelo padrão da verdade e não pela fugaz passagem de alguns poucos anos, como ocorre na face da Terra.
Recebam, caros amigos, o nosso mais profundo reconhecimento pela paciência com que nos aturaram, mui particularmente o médium e família. Aceitem os nossos votos de feliz passagem pela crosta, mantendo acesa no coração a chama da esperança de se encontrarem em situação bem mais harmoniosa e equilibrada assim que regressarem ao etéreo.
Saibam que estamos constantemente agradecendo ao Pai a oferenda desta oportunidade, através da qual pudemos observar-nos no desempenho das atribuições escolares que antecedem ao trabalho maior do socorrismo.
Além de demonstrar-lhes a nossa felicidade, queremos oferecer-lhes a promessa de estarmos presentes, caso a apreciação destas considerações os sensibilizar e os fizer prostrarem-se, como nós, agradecidos ao Criador.
João.
Indaiatuba, de 02.03 a 01.04.98.
Comentários

O que você achou deste texto?       Nome:     Mail:    

Comente: 
Informe o código de segurança:          CAPTCHA Image                              

De sua nota para este Texto Perfil do Autor Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui