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Teses_Monologos-->PLATÃO E A POESIA:UMA PERSPECTIVA EXISTENCIAL -- 13/12/2008 - 19:42 (Paccelli José Maracci Zahler) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
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PACCELLI JOSÉ MARACCI ZÄHLER












PLATÃO E A POESIA: UMA PERSPECTIVA EXISTENCIAL







Monografia apresentada ao Programa de
Pós-Graduação Lato Sensu em Filosofia
e Existência da Universidade Católica
de Brasília como requisito parcial para
obtenção do certificado de Especialista
em Filosofia e Existência.

Orientador: Prof. M.Sc. Marcos Felix Go
mes de Carvalho
















Brasília
2008

































Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Biblioteca Nacional de Agricultura






















Monografia de autoria de Paccelli José Maracci Zähler, intitulada “PLATÃO E A POESIA: UMA PERSPECTIVA EXISTENCIAL”, apresentada como requisito parcial para a obtenção do certificado de Especialista em Filosofia e Existência da Universidade Católica de Brasília, em 27/11/2008, defendida e/ou aprovada pela banca examinadora abaixo assinada:



Prof. M.Sc. Marcos Felix Gomes de Carvalho
Orientador
Curso de Especialização em Filosofia e Existência/ UCB

Prof. Luiz Cláudio Batista de Oliveira
Curso de Especialização em Filosofia e Existência/ UCB


Brasília
2008


































A originalidade em Filosofia consiste, freqüentemente,não em ter novos pensamentos, mas em tornar claro o que antes não era.

(R.M. Hare,Platão, 2004)


RESUMO

Referência: ZÄHLER, Paccelli José Maracci. Platão e a poesia: uma perspectiva existencial. 2008. 39 fl. Filosofia. Especialização em Filosofia e Existência – Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2008.



Este trabalho teve por objetivo investigar as razões que teriam levado Platão a mudar o seu pensamento sobre o papel dos poetas em uma sociedade ideal, sendo ele próprio um poeta, e se Sócrates ou sua formação acadêmica influenciaram na sua decisão. Para isso, tomou-se por base o contexto histórico ao redor do ano 399 a.C., o papel social dos poetas, a influência de Sócrates sobre Platão, além da formação acadêmica de Platão. Foram verificados indícios de que a crítica de Platão aos poetas em A República foi uma forma de controlar a educação e a liberdade de expressão para manter os cidadãos concentrados nos interesses do Estado ideal.

Palavras-chaves: Filosofia, Existencialismo, Poesia.


ABSTRACT



The present work investigates the reasons that lead Plato, himself being a poet, to change his thoughts on the role poets would have in an ideal society and if Socrates or his own academic formation influenced this decision. With this purpose in mind, the historical context around the year 399 B.C., the social role of poets, the influence of Socrates over Plato, and the academic formation of Plato were studied. Evidence was found that the criticism of poets by Plato in The Republic was a means of keeping freedom of expression and the educational system under control, so as to maintain the citizens concentrated on the interests of the ideal State.


Keywords: Philosophy, Existencialism, Poetry.


SUMÁRIO


INTRODUÇÃO..............................................................................................................8
CAPÍTULO 1 - O PAPEL DA POESIA E DOS POETAS NA GRÉCIA ANTIGA...10
CAPÍTULO 2 - O MOMENTO HISTÓRICO AO REDOR DO ANO 399 a. C. .......15
CAPÍTULO 3 - A PERSONALIDADE DE SÓCRATES, SEU JULGAMENTO E
SUA INFLUÊNCIA SOBRE PLATÃO............................................22
CAPÍTULO 4 - A FORMAÇÃO ACADÊMICA DE PLATÃO E A CRÍTICA
AOS POETAS EM A REPÚBLICA .............................................26
CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................33
NOTAS.........................................................................................................................36
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.........................................................................37


INTRODUÇÃO


A literatura especializada normalmente enfoca a obra filosófica de Platão, tentando decifrar o seu pensamento, suas idéias, seus diálogos, dando pouco destaque ao momento histórico vivido por ele que, certamente, promoveu uma mudança no seu modo de fazer Filosofia.
O surgimento de determinadas idéias, de acordo com Reale e Antiseri (1990, p.14), é influenciado por condições sócio-econômicas e culturais e impulsionado pela liberdade institucionalizada e pela democracia como aquelas presentes no mundo grego antigo, particularmente em Atenas. Tal opinião é compartilhada por Cardoso (2003, p. IX), para a qual tudo aquilo que as civilizações humanas criaram é o resultado da combinação de fatores sócio-políticos, econômicos, éticos, religiosos, ideológicos, educacionais. Assim, em nosso entendimento, é fundamental conhecer o contexto sócio-econômico, cultural e político no período em que o filósofo viveu, no caso Platão, para podermos desvelar o seu pensamento sobre determinado tema sob a perspectiva existencial.
Tomaremos por base o conceito de existencialismo constante em Abbagnano (2006,2007) e seguiremos a tese de Sartre (2008) de que a “existência precede a essência e que o homem é responsável pelo que é”, ou seja, não há determinismo pois o homem é livre e suas escolhas, do bem e do mal, são determinadas pela interpretação pessoal do ambiente em que ele está inserido, sendo tais escolhas limitadas pelo que o ambiente oferece.
Platão viveu entre os anos 427/28 a. C. a 347 a. C. Pertencia a uma família aristocrática e foi educado para ser político e cultivar as artes, tendo mostrado talento para a prosa e a poesia. Com 20 anos de idade, em 391 a. C., foi aluno de Sócrates. Quando este foi condenado em 399 a.C., Platão não se encontrava em Atenas. No decorrer de sua vida, procurou preservar a memória do mestre, que não havia deixado ensinamentos escritos.
Na opinião de Pereira Filho (1999, p.6), a obra de Platão é composta por textos vivos, cujas questões tratadas estão diretamente relacionadas à leitura histórica da Grécia. Assim, o conhecimento do contexto histórico em que ele está inserido passa a ser fundamental para o entendimento de suas idéias.
Apesar de ter se dedicado à poesia, no Livro X de A República , onde pensou em um Estado ideal governado por filósofos, Platão fez uma crítica aos poetas, dizendo que eles não deveriam fazer parte do Estado ideal, embora seus antecessores, como Parmênides, tivessem registrado seus pensamentos em versos.
O presente trabalho tem por objetivo investigar as razões que teriam levado Platão a mudar o seu pensamento sobre o papel dos poetas em uma sociedade ideal, sendo ele próprio um poeta, e se Sócrates ou sua formação acadêmica influenciaram na sua decisão. Para atingir tais objetivos, será abordado o papel social dos poetas como cantadores e mensageiros dos deuses (Capítulo 1); o momento histórico ao redor do ano 399 a. C., quando Sócrates foi condenado (Capítulo 2); a personalidade de Sócrates, seu julgamento e sua influência sobre Platão (Capítulo 3); e a formação acadêmica de Platão e a crítica aos poetas em A República (Capítulo 4). Além das obras Íon e A República , de Platão, buscaremos apoio em obras de referência e obras de alguns comentadores que trataram do mesmo tema, fazendo, ao mesmo tempo, um resgate histórico dos dois filósofos e de seus pensamentos.


CAPÍTULO 1
O PAPEL DA POESIA E DOS POETAS NA GRÉCIA ANTIGA


A literatura grega abrange um período de cerca de doze séculos, de 750 a.C. a 400 d.C., no entanto, boa parte dela se perdeu. Por exemplo, de cerca de 400 peças de teatro, restaram 45; de toda a poesia lírica, restam alguns fragmentos (RIBEIRO JR., 1998). Comumente é dividida em três grandes períodos (GIORDANI, 2007, p. 294):
a) Período Pré-Ático, que vai das origens até 500 a. C., onde aparecem e se desenvolvem os principais tipos de poesia (Épica, Elegíaca, Iâmbica e Lírica) e a literatura em prosa. Destacam-se neste período: Homero com as obras Ilíada e Odisséia ; e Hesíodo com Os Trabalhos e os Dias e Teogonia . É uma literatura dirigida para a aristocracia.
Nesse mesmo período havia um gênero literário conhecido como “mimo”, definido como um gênero dramático, onde pequenas cenas da vida cotidiana eram abordadas de maneira bastante realista. Geralmente, era recitado e não encenado. É provável que tenha se originado das companhias de saltimbancos que percorriam as cidades gregas para apresentar pequenos trechos dramáticos populares com imitações (mi’moi), onde estavam presentes vulgaridades (RIBEIRO, M., 2005).
b) Período Ático, que vai do século 500 a. C. a 323 a. C., onde, na poesia, ocorre a criação da tragédia e da comédia; e a prosa se desenvolve na história, na filosofia e na eloqüência, tornando-se uma referência para os séculos posteriores. Destacam-se Ésquilo, Sófocles, Aristófanes, Heródoto, Tucídides, Xenofonte. Nesse período, viveram Sócrates (469 a. C. a 399 a. C.) e Platão (427/28 a. C. a 347 a. C.); e o

c) Período Helenístico, de 323 a. C. até a dominação romana, onde predominou um espírito de imitação e artificialismo. O eixo da cultura desloca-se de Atenas para os grandes centros urbanos. Os eruditos obtêm a proteção dos soberanos e, com o auxílio das bibliotecas, produzem obras para o grande público. Destacam-se Aristófanes de Bizâncio, Ptolomeu I e Plutarco.

Para os antigos gregos, o conteúdo da poesia era considerado uma revelação sagrada porque era derivado de uma inspiração dos deuses, principalmente das Musas, divindades oniscientes e onipresentes, o que conferia aos poetas um status de “Mestres da Verdade”, responsáveis pela difusão das tradições, crenças e costumes da sociedade onde viviam (RIBEIRO, T., 2006). Por essa razão, Homero (1970, p. 23), inicia o Canto I da Odisséia , invocando a Musa da seguinte forma:
Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso
Que muito peregrinou, dês que esfez as muralhas
Sagradas de Tróia;
[...] Deusa nascida de Zeus, de algum ponto
Conta o que queiras.

Na Grécia Antiga, o rouxinol simbolizava a Poesia. Seu nome “aedóon”, derivado do verbo “aeídoo”, “cantar, celebrar”, originou a palavra “aedo”, com a qual eram designados os poetas que recitavam ou cantavam suas composições, acompanhados de uma lira (PAES, 1995, p. 108). Geralmente, a transmissão das tradições era feita pelo “aedo”, quando se referia ao passado; pelo “arauto”, quando se referia ao presente; e pelo “adivinho”, quando se tratava do futuro (RIBEIRO, T., 2006, grifo nosso).
A designação do poeta como “poietés” também teria surgido no século V a.C., pois até então eram chamados de “cantadores” (aedos, aoidoí), ou seja, “aqueles que cantam os altos feitos dos homens e dos deuses”. Os que viriam a ser chamados de “poetas” eram qualificados como “sophoí” e, possivelmente, foram tidos como concorrentes dos “philósophoi” (VILLELA-PETIT, 2003).
As origens da poesia lírica, ou seja, recitada com o acompanhamento de uma lira (GIORDANI, 2007, p. 298), são encontradas em manifestações coletivas de ordem religiosa relacionadas com cerimônias de transcendência social, baseadas no calendário festivo, e também relacionadas com o nascimento, o matrimônio, a morte, a guerra e a outras tomadas de decisão que afetavam o destino da comunidade1. Eis alguns exemplos (PAES, 1995):
SAFO, poetisa da Ilha de Lesbos
Menisco, pai de Pelagon, pescador, deixou-lhe na tumba rede e
remo, mementos de sua vida mísera (VII:489);
ANACREONTE
Eu te lamento, Aristoclides, o mais bravo dos amigos: morreste
jovem para que não fosse a pátria escrava (XIII:4);
EMPÉDOCLES
Pois em verdade eu já fui rapaz, já fui donzela, fui arbusto,
pássaro, ardente peixe do mar (IX:569).

Para Ribeiro, M. (2005), na lírica antiga, não havia uma dissociação da poesia com a música, assim, na Grécia Antiga, devido às condições geográficas (montanhas, regiões isoladas e de difícil acesso) e climáticas, surgiram o canto e as disputas poéticas e musicais entre os pastores. Do desenvolvimento da canção, surgiram os festivais.
O canto desempenhava papel secundário e de características religiosas, depois, passou a ter função artística, aperfeiçoada posteriormente (CARDOSO, 2003, p. 23).
De acordo com Giordani (2007, p. 481), por ocasião das festas em homenagem ao deus da vegetação e do vinho, Dionísio, chamadas de Grandes Dionisíacas, realizavam-se concursos de poesias e representações teatrais em Atenas.
Tendo nascido no seio de uma família aristocrática, no período áureo da Grécia Antiga, Platão foi educado dentro dos padrões tradicionais, o que despertou o seu interesse para a política e para as artes. Dedicando-se à Poesia, poderia participar dos certames poéticos, podendo alinhar-se aos grandes poetas como cantadores e mensageiros dos deuses; dedicando-se à Política, seguindo a tradição da sua família, teria a oportunidade de tomar parte da assembléia de Atenas e obter o reconhecimento da sociedade – aspiração de todo jovem. E assim o fez, pois, de acordo com Laércio (1985, p. 69), ele teria participado de um certame trágico. Todavia, tendo ouvido, antes de sua apresentação, a composição de Sócrates, teria queimado seus poemas, dizendo:
Oh, vem aqui, Vulcano;
Platão te necessita no momento.

Paes (1995, p. 23) traz a lume sete poemas atribuídos a Platão2, refutados por alguns estudiosos como apócrifos, três dos quais reproduzimos abaixo, alguns deles citados em Laércio (1985, p. 76).

Jogo-te uma maçã; e se de coração me queres,
dá-me ao recebê-la, tua virgindade;
mesmo, prouvera não, que sintas de outro modo, aceita-a
e pensa em como a beleza dura pouco (V:79);

Nove são as Musas, dizem alguns. Quanta negligência!
Eis aqui a décima: Safo de Lesbos. (IX:506).

Pelo simples fato de eu ter dito que Aléxis é belo,
olham-no todos e por toda parte o admiram.
Coração, por que apontaste o osso aos cães? Para sofreres
depois? Não foi assim que nós perdemos Fedro? (VII:100).

Na opinião de Hare (2004, p. 16), a partir da evidência de seus escritos, Platão deve ter sido um bom poeta, porém, “percebeu que havia uma maneira mais duradoura de afetar a mente dos homens”.
Concluindo o presente Capítulo, verificamos que, antes do nascimento da Filosofia, os poetas tinham uma imensa importância na educação e na formação espiritual do homem grego (REALE;ANTISERI, 1990, p. 15); e muito do que passou a ser chamado de Filosofia, foi enunciado em poemas (VILLELA-PETIT, 2003) como, por exemplo, os escritos de Parmênides (REALE;ANTISERI, 1990, p. 53):

Um só caminho resta ao discurso: que o ser é.
E nesse caminho há muitos sinais indicadores.
O ser é incriado e imperecível:
Com efeito, é um todo, imóvel e sem fim.

O início do rompimento com a tradição da poesia inspirada pelas Musas e ligada à Verdade, ocorreu no século VI a. C., com o poeta Simônides de Ceos. Ele se opôs à concepção religiosa do poeta como profeta das Musas e começou a estabelecer um conjunto de regras para a composição poética, relacionadas com a difusão da escrita, permitindo a identificação das características de estilo de cada autor (RIBEIRO,T., 2006), ainda no Período Pré-Ático.
O sofista Górgias, nascido em Leontini, na Sicília, por volta de 485/480 a. C. e morto na Tessália, em 375 a. C., foi o primeiro filósofo a teorizar sobre a valência “estética” da palavra e a essência da poesia, assim definida (REALE;ANTISERI, 1990, p. 80):

[...] Em suas várias formas, eu considero e chamo a poesia de um
discurso com métrica. E quem a escuta é invadido por um arrepio
de estupor, uma compaixão que arranca lágrimas, um ardente desejo
de dor – e, por efeito das palavras, a alma sofre o seu próprio sofri-
mento ao ouvir a fortuna e a desfortuna de fatos e pessoas estra-
nhas.

Górgias de Leontini foi professor de retórica, filósofo e embaixador em Atenas, tendo ensinado na Sicília e em várias cidades gregas. A ele, Platão dedicou o diálogo Górgias , sobre a retórica.
A investigação levada a cabo neste Capítulo sobre o contexto cultural na Grécia Antiga, traz indícios de que a suposta mudança repentina de pensamento de Platão, como sugere Laércio (1985, p. 69), onde, após ter destruído seus poemas ao ouvir os poemas de Sócrates, teria decidido ser seu discípulo pode ter sido uma lenda, pois este autor fala que, morto Sócrates, Platão foi estudar com Crátilo, discípulo de Heráclito, e com Hermógenes, discípulo de Parmênides.
A mudança de pensamento de Platão certamente foi resultado de um aperfeiçoamento de seus estudos, pois, conforme visto acima, Simônides de Ceos, já no século VI a.C., apresentava restrições à tradição da poesia inspirada pelas Musas; e Górgias de Leontini, já criticava o fato de a poesia influenciar nos sentimentos das pessoas, afastando-as dos problemas que as cercavam.
Antes de avançar em nossas reflexões e investigações, é interessante conhecer o contexto político da Grécia Antiga, ao redor de 399 a.C., o que será visto no próximo capítulo.


CAPÍTULO 2
O MOMENTO HISTÓRICO AO REDOR DO ANO 399 a.C.

Diversos autores atribuem à geografia montanhosa e íngreme da Grécia o favorecimento na formação de unidades políticas e religiosas, chamadas Cidades-Estados (“polis”), a partir do século VIII a. C., ao redor das quais as propriedades rurais se estendiam, juntamente com as aldeias e as vilas, até as montanhas. Em situações de emergência, a população refugiava-se em uma cidadela fortificada ( a “Acrópole”). Com elas, a economia, a tecnologia, a arte e a cultura floresceram. Cresceu a consciência de que as Cidades-Estados estavam unidas por vínculos sangüíneos, idiomáticos, culturais e religiosos.
A tradição da poesia oral atingiu um ponto máximo com a Íliada e a Odisséia , de Homero; e Os Trabalhos e os Dias e Teogonia , de Hesíodo, os primeiros poemas gregos preservados pela escrita.
Tanto a Ilíada quanto a Odisséia estão relacionadas com a guerra de Tróia. Enquanto a Ilíada é uma epopéia marcial, que narra a cólera de Aquiles, a luta por Tróia, a morte e o resgate do cadáver de Heitor, a Odisséia canta as aventuras de Ulisses por terras e mares, seu regresso a Ítaca e sua vingança contra os pretendentes da esposa Penélope. Já a poesia de Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias , visa o ensino, descrevendo o ano do agricultor e o trabalho rural, ao passo que a Teogonia trata de uma genealogia dos deuses (GIORDANI, 2007, p. 295-99).
Em 776 a. C., havia uma tensão entre o ideal do pan-helenismo, representado em Olímpia pelos Jogos Olímpicos e, em Delfos, pelo Oráculo de Apolo; e a tendência individualista das Cidades-Estados. Isso deu início a um período de 200 anos de expansão colonial, cujas colônias eram independentes das cidades-mães, estimulada pela avidez de terras, descontentamento político, desejos de aventura e de lucro.
Nos séculos VII e VI, as leis foram aperfeiçoadas; apareceu a cunhagem das moedas; a pintura dos vasos evoluiu; surgiram os primeiros filósofos; a poesia passou a ser mais individualista, destacando-se os poetas Arquíloco e Safo.
No início do século V a.C., Esparta e Atenas uniram-se para expulsar as forças do império persa, que haviam invadido o território grego. Esparta forneceu o exército e Atenas, a marinha. Após a guerra contra os persas, Esparta desmobilizou as tropas e sofreu perturbações econômicas por ter suas atividades produtivas baseadas na agricultura, ao passo que Atenas transformou sua marinha de guerra em frota mercante e começou a progredir com o intercâmbio comercial (DURANT, 1996, p. 30). Como havia uma polarização entre Esparta, uma cidade-estado militarizada, arcaica, de economia agrícola, que preservava a monarquia; e Atenas, onde havia uma democracia direta, governada por uma assembléia, cuja maioria dos cargos era preenchida por sorteio e onde cada cidadão, com exceção de mulheres, estrangeiros e escravos, tinha voz e voto, e progredia comercialmente, as duas Cidades-Estados passaram a lutar entre si pelo poder na Guerra do Peloponeso que durou 27 anos, de 431 a 404 a. C.
Apesar dos conflitos internos e externos, Atenas atingiu seu apogeu no século V a.C., chegando a ser a cidade-estado maior e mais rica da Grécia e uma potência militar e marítima.
Embora na Grécia Antiga não existisse uma religião oficial, cada cidade tinha seus deuses e a eles devotava cultos específicos, havendo uma preocupação muito grande com o fato do desrespeito aos deuses provocar desgraças (GIORDANI, 2007, p. 470).
Houve um crescimento da cultura. No teatro trágico, destacaram-se Ésquilo, Sófocles e Eurípedes; na comédia, Aristófanes; na História, Heródoto e Tucídides; na Filosofia, Sócrates (470 a 399 a.C.), Platão (428/27 a 347 a. C.) e Aristóteles (384 a 322 a. C.), cujas vidas têm pontos em comum como pode ser visto no Quadro 1. Nele, verifica-se que os dados sobre a vida de Sócrates são precários e o pouco que se sabe sobre ele encontram-se nos escritos de Aristófanes, Xenofonte, Platão e Aristóteles.
Com relação a Xenofonte, pouca credibilidade tem sido dada aos seus escritos, provavelmente, porque, em 401 a. C., ele deixou Atenas para unir-se ao exército de Ciro, tendo sido general de cerca de dez mil mercenários gregos a serviço deste rei. Além, de ter servido ao rei espartano Agesilau e de ter lutado ao lado dos espartanos na batalha de Queronéia, em 338 a.C., quando os atenienses foram derrotados por Felipe II. Para os atenienses, isso foi uma traição e Xenofonte teve seu exílio decretado e todos os seus bens confiscados, pois, como em todas as nações, em Esparta e Atenas não seria diferente, os heróis eram enaltecidos; os derrotados e covardes eram desprezados e punidos, inclusive com a perda da cidadania.
Verifica-se no Quadro 1 que, enquanto a peça As Nuvens era apresentada ao público, Sócrates ainda se encontrava no campo de batalha, uma vez que a batalha de Anfípolis aconteceu em 422 a.C.
Em 415 a.C., logo após a partida da frota naval para a Sicília, muitas estátuas do deus Hermes, protetor dos viajantes, foram quebradas, com a intenção de impedir que os barcos chegassem ao seu destino. Cabe aqui a observação feita acima de que os gregos temiam que o desrespeito aos deuses poderiam provocar desgraças. A quebra das estátuas de um deus certamente foi uma sabotagem para ofendê-lo e fazer com que ele impedisse a chegada da frota ao seu destino. Enquanto o assunto estava sendo investigado, alguns cidadãos, inclusive um dos grandes admiradores de Sócrates, Alcibíades, foram acusados de zombar de uma cerimônia religiosa e de revelar seus segredos sagrados a estrangeiros.
Em 411 a. C., um grupo de 400 oponentes da democracia ateniense tentaram um golpe para instalar uma oligarquia, porém foram derrotados no mesmo ano e a democracia foi restaurada. Alguns deles eram ou estiveram associados a Sócrates.
Em 406 a.C., Sócrates enfrentou a ira da multidão que queria a condenação dos dez generais responsabilizados pelo desastre da batalha das Arginusas, quando, apesar de os atenienses terem vencido os espartanos, uma tempestade impediu que os corpos dos dois mil soldados que morreram afogados e em combate fossem recolhidos do mar, como estabelecia a lei. Segundo a Justiça Ateniense, eram sorteados 500 juízes entre seis mil cidadãos, que votavam o veredito por maioria simples, após a defesa individual dos acusados. Sorteado para dirigir a assembléia escolhida para julgar os generais, Sócrates impôs que houvesse um julgamento para cada acusado, como determinava a lei e não o julgamento de todos em bloco (SÓCRATES, 1987, p. 10).
Em 404 a. C., após a derrota de Atenas, Esparta lá instalou um grupo de 30 homens, mais tarde conhecidos como Trinta Tiranos. O líder mais extremado era Crítias, chefe do partido aristocrático, que fazia parte do círculo de amigos e admiradores de Sócrates. Crítias era primo-irmão da mãe de Platão, Perictione. Nesse mesmo ano, Sócrates teria enfrentado a morte ao desobedecer a ordem de arrestar ilegalmente os bens de Leon de Salamina (DORION, 2006, p. 12) afirmando que não o faria por tratar-se de uma injustiça.
Os democratas, que haviam deixado Atenas quando os Trinta Tiranos assumiram o poder, os derrotaram em uma batalha e restauraram a democracia no ano seguinte.
Estima-se que, nessa época, Atenas contava com cerca de 400 mil habitantes, sendo 250 mil escravos e 150 mil homens livres ou cidadãos, em sua maioria agricultores e comerciantes (DURANT, 1996, p. 31).
Com a instabilidade política e a ameaça de guerras, havia uma preocupação com a educação dos cidadãos na Grécia Antiga porque eles garantiriam a defesa do território. Assim, até os sete anos, as crianças eram educadas na companhia da mãe e de outras mulheres da casa. Após essa idade, as meninas continuavam em casa e aprendiam trabalhos domésticos e música; os meninos, dos 7 aos 14 anos, praticavam ginástica para desenvolverem a paciência, a tolerância, a força, a coragem, a lealdade, a devoção e o respeito ao outro; e aprendiam música.


Quadro 1 – Cronologia dos principais acontecimentos da Grécia Antiga, do ano
470 a.C. a 338 a. C., relacionados com a vida de Sócrates, Platão e
Aristóteles.
Ano (a. C.) Grécia Antiga Sócrates Platão Aristóteles

470/69 Nasce Sócrates
449 Péricles inicia governo
432/31 Guerra do Peloponeso Campanha da Potidéia
429 Morre Péricles
428/27 Nasce Platão
424 Batalha de Délios
423 As Nuvens , Aristófanes
422 Batalha de Anfípolis
421 Paz de Nícias
415/13 Guerra Atenas e Esparta
411 Revolução oligárquica,
aristocrata. Democratas
derrotados em Atenas.
Conselho dos 400.
406 Questão das Arginusas Pritania de Sócrates
404 Derrota de Atenas.
Assassinato de Alcibíades.
Leon de Salamina
404/03 Governo dos Trinta Tiranos
403 Restauração da Democracia
391 Conhece Sócrates
399 Condenação à morte
398 Vai a Mégara, com
outros discípulos
de Sócrates, hos-
peda-se na casa de
Euclides.
É convidado por
Dionísio I
388 Vai à Magna Grécia
conhecer comuni-
dades pitagóricas.
387 Funda a Academia
384 Nasce Aristóteles
367 Vai a Siracusa, cor- Ingressa na Acade
te de Dionísio II mia de Platão.
361 Volta a Siracusa e
fracassa.
360 Volta a Atenas Diálogo "Grilos"
sobre Retótica
347 Morre Platão Vai para Atarnéia
342 Preceptor de
Alexandre Magno
338 Felipe da Macedônia com- Na corte da Mace
quista a Grécia dônia.

Fontes: GIORDANI (2007), SÓCRATES (1987), NICOLA (2005) e internet.

Os professores eram contratados pelas famílias e o grau de educação dependia da capacidade financeira da família. Os mais ricos tinham um escravo a seu serviço, o “pedagogo”, que acompanhava os seus filhos em suas lições, além de ser um exemplo de boas maneiras e de respeito às leis e aos mais velhos3. Depois, apareceram os “grammatistés” para ensinar as crianças a ler, escrever, contar e recitar de cor os poemas antigos, principalmente, os poemas de Homero e Hesíodo. Nas aulas de música, aprendiam a tocar, pelo menos, a lira. Esta educação tradicional preparava os meninos a servirem ao exército em épocas de guerra e serem cidadãos respeitadores das tradições em épocas de paz.
Mais tarde, com o crescimento das cidades, mais gente passou a ter acesso ao ensino e, para ter um lugar na assembléia, o cidadão teria que ser um bom orador. Surgem, então, profissionais pagos para redigir discursos; e outros profissionais, os sofistas, que percorriam as cidades propondo aos jovens ricos o ensino da oratória em troca do pagamento pelas aulas (ROGUE, 2005, p. 8).
De acordo com Nicola (2005, p. 40), o termo sofista vem do grego “sophistés”, que significa “sábio”. Eram tratados com desprezo pela elite intelectual porque os aristocratas atenienses achavam indecoroso pagar para serem servidos. Assim, os sofistas eram obrigados a andar de cidade em cidade, pois não eram considerados cidadãos. Sua atividade, no entanto, contribuiu para a divulgação da cultura grega, tendo sido os primeiros a colocar os problemas do homem no centro da reflexão filosófica. Dentre os sofistas, destacaram-se Protágoras e Górgias.
Por outro lado, o surgimento dos sofistas provocou uma mudança no sistema educacional na Grécia Antiga. No Quadro 2, estão elencadas algumas diferenças entre o sistema tradicional e a nova forma de educação.

Quadro 2 – Comparação entre a educação tradicional e a nova forma de
educação na Grécia Antiga.
EDUCAÇÃO TRADICIONAL NOVA FORMA DE EDUCAÇÃO

Os alunos eram incentivados a fazer Negligenciava os exercícios físicos,
exercícios físicos e a desenvolver re mimava as crianças no frio e incen-
sistência ao frio, visando servir às tivava o ócio nos banhos quentes.
forças armadas. Visava a atividade política.

Era realizada com música e poesias tra Trazia inovações na música e ensi-
dicionais, particularmente, Homero e nava a habilidade de falar e ques-
Hesíodo. tionar (retórica, eloqüência).

Não incentivava a crítica à mitologia ou Ensinava a descrença e a explora-
aos valores estabelecidos. ção cínica das crenças herdadas.

Encorajava a justiça, a castidade, a mo Pregava a negação da moralidade
déstia, o auto-respeito, o respeito aos e a liberdade sexual.
pais.

Fonte: PESTANA (1994).

Analisando o Quadro 2, verifica-se que, a mudança no sistema educacional promoveu também uma mudança de comportamento dos jovens. Antes, os jovens eram educados para servirem ao exército, já que as cidades-estados viviam em guerra entre si. Isso conferia aos exércitos um caráter nacional, formados por cidadãos a serviço da pátria.
Havia em Atenas, particularmente entre os jovens ricos e bem-nascidos, uma certa admiração por alguns aspectos da vida e do governo de Esparta. Eles passavam parte do seu tempo se exercitando nos ginásios, eram orgulhosos da sua tenacidade, e praticavam um estilo de vida simples, deixavam o cabelo crescer, imitando o estilo espartano de ser e viver.
Segundo Giordani (2007, p. 209-10), mais tarde, com a aversão dos cidadãos à carreira das armas, em função dos questionamentos produzidos pela nova educação, os exércitos passaram a ser formados por mercenários.
A sofística e a nova educação foram temas da peça As Nuvens, de Aristófanes, erroneamente citada como uma crítica pessoal a Sócrates, como será visto no próximo capítulo.
Na opinião de Pestana (1994), a peça mostra que a sofística e a nova educação pervertiam a justiça e trariam ruína à sociedade ateniense por promoverem um conflito de gerações entre pais, educados na forma tradicional, e filhos, submetidos à nova forma educacional, mais questionadora das tradições e dos valores antigos, uma vez que os sofistas ensinavam e discorriam sobre todos os assuntos. Por outro lado, Velásquez (2008) vê pontos de contato entre Aristófanes e Platão com relação à concepção socrática de ensino.
Observa-se que, ao redor do ano 399 a.C., a Grécia vivia momentos políticos turbulentos. Ao mesmo tempo, havia um florescimento das artes, da filosofia e uma tendência de mudança no sistema educacional, particularmente em Atenas.
A escola tradicional, onde os cidadãos haviam sido formados para a vida em sociedade obedecendo hierarquias, classes sociais, respeitando os deuses, lendo os poemas de Homero e Hesíodo, e sendo preparados para o serviço militar, foi sendo substituída por outra que tinha objetivos mais práticos, graças aos métodos de ensino dos sofistas.
O conceito básico passou a ser a aquisição de competências, ou seja, a aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes nos campos da retórica, da persuasão, da política, para a conquista de prestígio e de postos na assembléia. Essa busca parecia promover uma exacerbação da vaidade e da arrogância das pessoas, que passaram a dedicar suas vidas e seus trabalhos a persuadir, por meio da eloqüência do discurso, mesmo desprovidos de razão e de um conhecimento aprofundado do assunto em questão.
Ao questionar os sofistas, o Sócrates, presente nos diálogos de Platão, percebeu que o conhecimento deles era superficial, concluindo que ninguém era capaz de dominar todos os assuntos.
A popularidade de Sócrates e as amizades dele, tanto com quem servia a Esparta e a Atenas, além das dúvidas por ele levantadas quanto ao saber dos sofistas, somados à derrota de Atenas, podem ter servido de elementos de acusação e julgamento o que acabou custando a sua vida, como será visto a seguir.

CAPÍTULO 3
A PERSONALIDADE DE SÓCRATES, SEU JULGAMENTO E SUA
INFLUÊNCIA SOBRE PLATÃO

Embora pouco se saiba sobre a vida de Sócrates, estima-se que ele tenha nascido entre os anos de 470 a. C. e 469 a. C., no burgo de Alôpekê, em Atenas. Seu pais, Sofronisco, teria sido escultor ou talhador de pedras, e sua mãe, Fenareta (ou Fenarete), teria sido parteira. Há dúvidas, no entanto, em relação ao nome e à profissão de sua mãe (DORION, 2006, p. 11).
Teria estudado geometria e astronomia, em Atenas, e teria sido aluno ou, pelo menos, conhecido o trabalho de Anaxágoras, que se fixou naquela cidade em 461 a.C., quando Sócrates contava com 8 a 9 anos de idade. Em sua juventude, teria freqüentado as palestras de Zenão de Eléia e Parmênides.
Afastou-se de Atenas por três vezes para cumprir seus deveres de soldado, tendo participado de três batalhas, a de Potidéia (431/30 a.C.), a de Délios (424 a.C.) e a de Anfípolis (422 a.C.) (ABBAGNANO, 1963, p. 68), como “hoplita”, ou seja, soldado da arma de infantaria pesada que, segundo Giordani (2007, p. 207), era o corpo principal do exército grego. O armamento era pesado e exigia um tremendo e extenuante esforço para ser transportado. Em marcha, as armas eram levadas em carros ou nos ombros de escravos.
Como herói de três batalhas, teria salvado a vida de Alcibíades, sobrinho de Péricles, na batalha de Potidéia. Nessa ocasião, conheceu e foi companheiro de lutas de Xenofonte, cuja vida salvou na batalha de Délios, perdida para os tebanos (SÓCRATES, 1987, p. 10) e que mais tarde tornou-se historiador, filósofo, tendo escrito sua biografia, já na idade madura, nos últimos 15 a 20 anos vida. Na opinião de Abbagnano (1963, p. 69), foi retratado por Xenofonte de maneira “pobre e mesquinha”, não justificando sua influência sobre todo o desenvolvimento do pensamento humano. Por outro lado, juntos teriam passado frio e fome durante as batalhas e deslocamentos do exército de infantaria pesada ao qual serviam. Nessa ocasião, Sócrates teria desenvolvido a sua fibra e o domínio sobre si, que tanto impressionaram os seus jovens discípulos, particularmente Platão. Esta informação, reporta-nos ao quadro comparativo entre a educação tradicional e a nova forma de educação (Quadro 2), permitindo inferir que Sócrates teve uma educação tradicional, onde os meninos eram preparados e disciplinados para serem soldados.
Quando Aristófanes escreveu a peça As Nuvens, em 423 a.C., Sócrates estava no campo de batalha, contava com 46 anos, porém, já gozava de certa notoriedade, tanto que sua caricatura de nariz chato, olhos salientes, beiçudo e barrigudo, segundo Dorion (2006, p. 12); ou na descrição de Durant (1996, p. 32) calvo, rosto redondo, olhos fundos e arregalados, nariz largo e túrgido, foi utilizada para caracterizar o personagem central. Por essa razão, alguns historiadores, vêem nesse personagem a caricatura do Sócrates jovem, anterior à fase do magistério filosófico que influenciou Platão, Antístenes, Xenofonte e outros pensadores (SÓCRATES, 1987, 16).
Ray (1998, p. 19) explica que a linguagem da ficção é a linguagem de produção de imagens literárias, as quais, embora difíceis para o autor, facilitam a compreensão do leitor; e a chave para produzir imagens literárias é o detalhe: detalhes físicos concretos vazados em linguagem concreta e fisicamente descritiva. Essa técnica de construção de personagens foi sendo desenvolvida no decorrer do tempo, com a prática das encenações, as quais tornaram-se comuns na Grécia Antiga.
Aristófanes fala de um Sócrates como filósofo da natureza que dá aos fatos mais simples a explicação mais complicada e como um sofista que converte os discursos mais fracos nos mais fortes e faz triunfar os injustos sobre os justos (ABBAGNANO, 1963, p. 69).
Na opinião de Pestana (1994), o personagem “Sócrates” seria apenas um estereótipo do sofista. Este mesmo posicionamento é encontrado na Enciclopédia Britânica (2008) onde, no verbete sobre Aristófanes há um comentário sobre a peça As Nuvens dizendo que ela é um ataque à moderna educação e à moral pregada e ensinada por intelectuais radicais conhecidos como “sofistas” e que a principal vítima é o “pensador e professor ateniense Sócrates”, ao qual foram dadas, proposital e injustamente, muitas caraterísticas padrões dos “sofistas”.
Sócrates foi julgado e condenado à morte por “não crer nos deuses da cidade, por introduzir novas divindades e por corromper a juventude”, segundo várias fontes. Entretanto, como Sócrates foi um soldado, um herói de guerra e gozava de prestígio em Atenas, certamente houve um componente político em seu julgamento, uma vez que a guerra do Peloponeso foi perdida para Esparta. Esta mesma opinião é compartilhada por Reale e Antiseri (1990, p. 85) ,por Dorion (2006, p. 14) e pela Enciclopédia Britânica (2008).
Algumas razões para esses ressentimentos podem ser encontradas na história das duas cidades e no comportamento de Sócrates que praticava um estilo espartano de viver, passeava descalço, não tomava banho, vestia apenas uma túnica provavelmente porque ele havia passado muitos anos no teatro de guerra, onde não era possível manter hábitos civilizados, pois a qualquer momento seu pelotão poderia ser atacado e isso exigia a manutenção de alerta máximo. Fazendo outra caricatura de Sócrates, na peça As Aves , Aristófanes criou o verbo “socratizar” para se referir àqueles que “usavam cabelos compridos, passavam fome e viviam sujos como os Sócrates” (DORION, 2006, p. 13), ou seja, “socratizavam” (Enciclopédia Britânica, 2008). No entanto, Sócrates era conhecido por sua coragem e honestidade, não apenas em tempo de guerra. Ele não abandonava seus ideais de justiça por qualquer motivo, mesmo que isto lhe custasse a própria vida.
Para Velásquez (2008) é possível que Sócrates tenha ensinado em sua própria casa, na casa de amigos, nas ruas, nas praças e ginásios, onde reunia muita gente. Essas reuniões, na opinião de Durant (1996, p. 32-33), eram freqüentadas por representantes de todas as escolas de pensamento social e talvez nelas tenham tido sua origem. Por exemplo, Platão e Alcibíades criticavam a democracia ateniense; Aristipo tinha pensamentos anarquistas; e Antístenes tinha tendências socialistas.
Tudo indica que, por tratar-se de um herói de guerra derrotado, que tinha amigos que participaram de atividades políticas e golpes para a tomada do poder, que se recusava a atender a sede de vingança do povo inconformado, que não se dobrava aos anseios dos oportunistas, que queriam usá-lo para galgar posições de prestígio na sociedade ateniense, Sócrates teve uma punição exemplar e, provavelmente, tenha optado pela morte, uma vez que teve condições de fugir, para mostrar que ele era fiel aos seus ideais e um cidadão cumpridor da lei.
De acordo com Abbagnano (1963, p. 70), os testemunhos de Aristóteles, até mesmo de Xenofonte, podem ter dependido dos escritos de Platão, fontes fundamentais para a reconstrução do Sócrates histórico. Mas em Xenofonte e Aristóteles não há indícios de que Sócrates tenha desenvolvido a doutrina das Idéias, o que certamente foi colocada por Platão na boca do mestre.
Mas o que pensava Sócrates e o que ele transmitia a seus discípulos?
O pensamento de Sócrates tem por objeto o homem e seu mundo, a comunidade onde vive, de modo a permitir que ele reconheça seus limites e se torne justo, daí a adoção da divisa do templo de Delfos “conhece-te a ti mesmo”. Isso o levou a concluir que sábio é quem sabe que não sabe e não quem se ilude que sabe, ignorando a própria ignorância (ABBAGNANO, 1963, p. 70). Dessa maneira, Sócrates se contrapunha aos sofistas, os quais pretendiam ensinar a sabedoria aos seus alunos.
O meio utilizado por Sócrates para que seu interlocutor se desse conta da própria ignorância era a ironia, isto é, interrogando-o continuamente de modo a deixá-lo em dúvida sobre seu saber e até que ele concluísse que seu saber era superficial.
Sócrates comparava a sua arte à maiêutica – a arte da parteira, suposta profissão de sua mãe. Assim, instigando continuamente o seu interlocutor por meio de perguntas, ele o obrigava a “parir” algo falso ou verdadeiro.
É interessante fazer uma observação sobre o pensamento de Sócrates, o qual tem cunho existencialista, ou seja, a partir da consciência do que sabe e do que não sabe, do que é bom e do que não, o homem pode fazer a melhor escolha sem se prejudicar ou prejudicar aos que o cercam.
Com relação às divindades, segundo Giordani (2007, p. 358), não há como saber se Sócrates considerava Deus em um sentido pessoal ou como uma Razão universal, entretanto, sabe-se que ele admitiu os deuses da mitologia tradicional, tendo oferecido a eles preces e sacrifícios.
Ele acreditava que os deuses eram puros, sem vícios ou defeitos, assim, teria considerado os relatos dos poetas, tidos como sábios, sobre os deuses como uma mentira (DORION, 2006, p. 15), pois somente os deuses possuiriam o verdadeiro saber. Por essa razão, a acusação formulada contra ele de que não acreditava nos deuses, teria sido injusta.
Diante do exposto, verifica-se que Sócrates era conhecido e benquisto pelos alunos e seguidores. Sua condenação, em 399 a.C., teria inconformado Platão que, na busca de uma sociedade justa, buscou uma cidade ideal, a República, onde os poetas, como sábios e mensageiros dos deuses, seriam vistos com reservas, tema das páginas subseqüentes.


CAPÍTULO 4
A FORMAÇÃO ACADÊMICA DE PLATÃO E A CRÍTICA AOS
POETAS EM A REPÚBLICA

Platão nasceu no século V a.C., entre os anos 428 e 427 a. C., em Atenas ou Égira. Pertencia a uma família tradicional de Atenas. Seu pai, Ariston, era descendente do rei Codro, último rei de Atenas, e morreu quando Platão era pequeno; sua mãe, Perictione (Periccione ou Potona), era descendente de Drópides, irmão de Sólon, o grande legislador; era irmã de Cármide e prima-irmã de Crítias, chefe do partido aristocrático no tempo dos Trinta Tiranos. Tanto Cármide como Crítias estiveram entre os líderes extremistas do terror oligárquico de 404 a.C., e que, por sua vez, eram amigos de Sócrates. Sua mãe teria se casado, pela segunda vez, com Pirilampo, que apoiava Péricles.
Alguns autores afirmam que Platão teria conhecido Sócrates pessoalmente com 20 anos de idade (Sócrates teria 63 anos), ocasião em que se tornou seu discípulo, entretanto, existe a possibilidade de tê-lo conhecido ainda na infância, já que Sócrates contava com a amizade de alguns membros da sua família, particularmente com Crítias, primo-irmão de sua mãe.
De acordo com a Enciclopédia Britânica (2008), a primeira ambição de Platão, como todo jovem grego de sua idade, era galgar postos na política. Esta opinião é compartilhada por Reale (2007, p. 7) que afirma que Platão freqüentou Sócrates, “não para fazer da Filosofia o escopo da própria vida, mas para preparar-se melhor, através da Filosofia, para a vida política”.
Nas palavras de Lacoste (1986, p. 9), “ele recebera, como todos os jovens nobres gregos, uma educação que conferia um lugar eminente aos poetas”.
Diz Aristóteles (2006, p. 60) que Platão foi discípulo de Crátilo, seguidor das idéias de Heráclito e, somente mais tarde, foi discípulo de Sócrates. Laércio (1985, p. 69), por sua vez, diz que, após a morte de Sócrates, Platão foi para a escola de Crátilo, discípulo de Heráclito; e para a de Hermógenes, seguidor de Parmênides. Nas letras, foi discípulo de Dionísio. Teria sido treinado em luta por Ariston Argivo e participado dos jogos ístmicos. Estudou pintura e compôs, primeiro ditirambos , depois cantos e tragédias.
Do contato com o pensamento de Sócrates, escreveu sobre Ética, Política, Metafísica e Teoria do Conhecimento, na forma de diálogos, os quais, segundo Durant (1996, p. 40), teriam sido escritos para o público leitor comum daquela época, razão pela qual estão repletos de metáforas, coisas ininteligíveis e contradições.
Desenvolveu a Teoria das Idéias, segundo a qual o homem está em contato permanente com dois tipos de realidade: a inteligível, mais concreta, permanente e imutável; e a sensível, onde estão todas as coisas que afetam os sentidos, sendo dependentes, mutáveis e imagens das realidades inteligíveis. A esta última realidade pertenceria a Poesia, afastando o homem do mundo inteligível.
Com a condenação à morte de Sócrates, em 399 a.C., teria ficado desiludido com a democracia ateniense e este pode ter sido o fato marcante que o levou a buscar uma melhor configuração política para Atenas4, descrita em A República. Entretanto, como apresentado no Quadro 3, onde consta uma ordem cronológica provável de suas obras, a busca de uma cidade ideal foi fruto de um amadurecimento intelectual de Platão.

QUADRO 3 – Ordem cronológica provável dos escritos de Platão.
Ordem Provável Obra Tema

1 Hípias (menor) Agir humano
2 Alcibíades (primeiro) Doutrina socrática do auto-conhecimento
Alcibíades (segundo) Conhecimento
3 Apologia de Sócrates Discurso de defesa de Sócrates
4 Eutífron Conceitos de Piedade e Impiedade
5 Críton Conceito de Justiça
6 Hípias (maior) Discussão estética
7 Laques Coragem
8 Lísis Amizade e Amor
9 Cármides Diálogo ético
10 Protágoras Conceito e natureza da Virtude
11 Górgias Trata do verdadeiro filósofo
12 Mênon Ensino da Virtude
13 Fédon Julgamento e morte de Sócrates e imorta-
lidade da alma
14 O Banquete Origem, manifestações e significado do
amor sensual
15 Fedro Retórica e amor sensual
16 Íon Poesia
17 Menêxeno Elogio da morte no campo de batalha
18 Eutidemo Crítica aos sofistas
19 Crátilo Natureza dos nomes
20 A República Temas subordinados à Justiça
21 Parmênides Ontologia (teoria das idéias ou formas)
22 Teeteto Teoria do Conhecimento
23 Sofista Problema da imagem, do falso e do não-ser
24 Político Perfil do homem político
25 Filebo Bom, Belo, Bem-viver
26 Timeu Origem do Universo
27 Crítias Mito de Atlântida (inacabado)
28 Leis Temas políticos e jurídicos (inacabado)
29 Epidômite
30 Cartas Somente a Sétima é considerada autêntica
Fonte: Wikipedia.org

Na opinião de Campos (2006), a derrota de Atenas na Guerra do Peloponeso, a crise política e intelectual, resultante desta derrota, e a condenação de Sócrates, motivaram Platão a combater a democracia ateniense e, por sua vez, o sistema educacional vigente.
É importante lembrar que Platão, nos diálogos de sua juventude, foi fiel à Sócrates, porém foi afastando-se do mestre à medida que foi desenvolvendo a doutrina das idéias (ABBAGNANO, 1963, p. 96).
O diálogo Íon está situado entre os escritos da juventude de Platão e teria sido escrito entre a morte de Sócrates e sua primeira viagem à Sicília (RIBEIRO, T., 2006) realizada ao redor de 388 a.C. (REALE, 2007, p. 8). Nele, o personagem Sócrates dialoga com o rapsodo Íon, profundo conhecedor da obra de Homero, e demonstra a seu interlocutor que não é possível emitir juízos acerca da poesia porque lhe faltam conhecimentos, em outras palavras, sua habilidade se restringia a recitar e comentar os versos de Homero, não havendo possibilidade de discorrer sobre outros poetas. Sócrates, no entanto, demonstra respeito por Homero dizendo:“[...] é necessário passar o tempo com outros muitos e bons poetas, sobretudo com Homero, o melhor e mais divino dos poetas [...]5 “.
Para Villela-Petit (2003), a Poesia no contexto de A República refere-se às composições dos grandes poetas da tradição seja ela épica (Homero e Hesíodo) ou trágica, os quais eram admirados por Platão.
Mas, do que trata A República?
Resumidamente, pode-se dizer que se trata de uma sociedade perfeita ou de um Estado ideal, onde cada classe e cada indivíduo faz o seu trabalho de acordo com a sua natureza e aptidão, cooperando para produzir um todo eficiente e harmonioso, sem interferência mútua (DURANT, 1996, p. 60).
Para chegar ao Estado ideal, onde as virtudes e os dons são básicos, Platão analisa as qualidades físicas, morais e intelectuais dos cidadãos, dos guardiães e dos estadistas, ao mesmo tempo em que faz uma crítica da sociedade em que vive (PLATÃO, 2007a ; 2007b).
No Livro II de A República (PLATÃO, 2007a, p.49), o diálogo começa tratando da questão da justiça que, segundo Duclós (2008) é o tema central da obra.
Na Parte VII do Livro II de A República (PLATÃO, 2007a, p. 56) é feita a primeira referência aos poetas, onde é dito que o povo e os poetas “concordam em exaltar a temperança e a justiça como coisas belas, mas difíceis e penosas”.
Nova referência é feita na Parte VIII do Livro II da referida obra (PLATÃO, 2007a, p. 58), onde o personagem Adimanto dialoga com Sócrates falando que os deuses poderiam ser aplacados com sacrifícios e preces e passarem para o nosso lado, sendo persuadidos a nos perdoarem, mesmo que cometêssemos injustiças, transgredindo leis e cometendo crimes, como asseguram “os poetas e os intérpretes dos deuses”. Por outro lado, se fôssemos justos, nada teríamos a temer dos deuses, mas perderíamos as vantagens da injustiça, uma vez que, por natureza, todo homem pensa que esta é muito mais útil que a justiça.
Para Platão (2007a, p. 59) nenhum daqueles que se declaram partidários da justiça demonstraram, “em prosa ou poesia”, que a injustiça é “o maior de todos os males que possa afligir o espírito e a justiça”, o que teria evitado que os cidadãos ficassem de “sobreaviso uns contra os outros”.
Mais adiante, na Parte XVII do Livro II (PLATÃO, 2007a, p. 71), Sócrates e Adimanto discutem a educação, propondo uma mudança do sistema tradicional de ensino, pois as crianças são educadas por fábulas cheias de mentiras, mas que encerram verdades. No entanto, é necessário “vigiar os inventores de fábulas” porque Hesíodo, Homero e outros grandes poetas são autores dos contos falsos narrados a todos. Eles dão “uma imagem errônea dos deuses e dos heróis”.
A principal razão dessa crítica, em nosso entendimento, se deve ao fato de, se os deuses demonstram sentimentos humanos como amor e ódio, o cidadão que acredita neles teria o direito de extravasar seu ódio contra familiares e amigos, sem cometer crime algum. Todavia, se quiséssemos banir a violência da sociedade, os poetas deveriam narrar episódios baseados na virtude. Uma criança, segundo Platão (2007a, p. 73), “não sabe distinguir o que é alegórico do que não o é”.
“Compete aos fundadores [de um Estado] conhecer os modelos segundo os quais os poetas devem compor seus cantos, adequando-os a eles sem desvios” (PLATÃO, 2007a, p. 74), evitando que estes afirmem que os homens punidos se tornaram infelizes por obra da divindade (PLATÃO, 2007a, p. 75), pois a divindade é responsável somente pelo bem e não por tudo o que acontece. Dessa forma, as mães não teriam motivos para assustar os filhos com os possíveis castigos dos deuses e os filhos não blasfemariam.
No Estado ideal, a divindade é simples, imutável, verdadeira nos fatos e palavras, não engana com aparições, discursos ou envio de sinais durante a vigília ou o sono. Se um poeta, mensageiro dos deuses, como visto no Capítulo 2, se expressar de forma contrária, deverá ser repelido da sociedade.
No Livro X de A República (PLATÃO, 2007b, p. 315), o personagem Sócrates demonstra respeito e reconhece Homero como “primeiro mestre e precursor” de todos os poetas da época, porém, refuta a poesia baseada na imitação.
Mas o que seria a imitação?
A imitação seria a reprodução de um fato ou objeto em função de sua aparência, ficando longe do real e da verdade. Assim, o imitador conseguiria iludir as crianças e os ignorantes, dando-lhes a impressão de estarem diante da verdade (PLATÃO, 2007 b, p. 319). Dessa maneira, não haveria possibilidade de alguém conhecer “todas as artes e ofícios”. Ao imaginar que isso seria possível, estaria iludindo as pessoas, pois a imitação, por estar ligada ao mundo sensível, pode representar apenas um aspecto de um objeto (ou frontal ou lateral), nunca todo o objeto (DUCLÓS, 2008).
Para Platão (2007b, p. 328), no Estado ideal, onde o pensamento seria um só, deveriam ser aceitos da poesia somente hinos aos deuses e elogios às pessoas de bem. Do contrário, a poesia iria corromper o sentimento das pessoas, evocando sensações de prazer e dor, desviando-as dos sentimentos nobres, ou seja, do bem e da verdade. É importante lembrar que, até então, as crianças ainda eram educadas com o estudo dos versos de Homero e Hesíodo.
Cabe perguntar sobre o momento em que o pensamento de Platão sobre a poesia toma um aspecto existencial. Para tanto, é necessário fazer o exercício de viajar pelo período histórico vivido pelo filósofo, também poeta, e tentar desvelar o que estaria causando nele o “espanto” ou “admiração” que, segundo Basso (2007), é a primeira condição para acontecer a atividade filosófica.
Mergulhando no universo do filósofo, é possível vislumbrar o seu interesse por uma sociedade mais justa, cuja pista pode ser encontrada no Livro I e A República (PLATÃO, 2007 a, p. 27), ao afirmar que a justiça é sempre o interesse do poder constituído, seja ele tirânico, democrático ou aristocrático. Diante do que foi estudado sobre Sócrates, poder-se-ia perguntar se houve justiça na sua condenação ou se foi uma forma de punir uma personalidade respeitada em Atenas para redimir os erros estratégicos da Guerra do Peloponeso perdida para Esparta.
Analisando esse contexto histórico, Platão buscou uma saída no mundo das Idéias. Se o que vemos e vivenciamos é fruto da imperfeição dos nossos sentidos, os quais nos enganam a cada segundo, a solução para uma sociedade justa e perfeita estaria no plano das Idéias. Para tanto, se fazia necessário sublimar os sentidos, direcionando-os para a verdade e a justiça.
Como poeta, Platão sabia que a composição poética normalmente acontece de forma espontânea, por inspiração das Musas. Dependendo do assunto, da disposição das palavras e da eloqüência do declamador, a poesia poderia provocar emoções nos ouvintes.
Reale (2007, p. 171) corrobora esse posicionamento ao comentar o pensamento de Platão, dizendo que o poeta nunca é tal por conhecimento, mas por intuição irracional, e que sua arte se dirige à parte menos nobre da nossa alma.
Como foi visto no Capítulo I da presente monografia, o sofista Górgias de Leontini, já levantava a questão de a poesia ser um discurso com métrica para emocionar os ouvintes.
Basso (2007) comenta que os sentimentos se camuflam em nossos discursos e em nossa existência individual e social, sob a aparência de verdade e justiça. Para ele, o homem não é livre, porém deve conquistar a liberdade.
A conquista da liberdade implica uma escolha, mas para escolher temos necessidade de tomar consciência do nosso lugar no mundo ou, conforme Abbagnano (2006, p. 54), só podemos decidir em conformidade com o que somos originariamente, acrescentando que o ato pelo qual decidimos será aquele onde reconheceremos a nós mesmos, a nossa substância.
Para decidirmos, temos que estar libertos da influência dos sentidos, cultivando a parte mais nobre de nossas almas, que são as virtudes. Tal liberdade somente seria possível com a escolha adequada dos textos que auxiliariam a formação do nosso caráter e do nosso cabedal de conhecimentos. Poderia ser um texto poético, desde que voltado para os interesses do Estado Ideal, conforme o pensamento de Platão. Neste caso, arrefeceríamos os sentidos e os sublimaríamos para a justiça e a verdade.
Diante de uma situação dessas, com o passar do tempo e das gerações, toda a tradição dos ancestrais acabaria sendo perdida, a não ser que algum grupo opositor (e muitos não faltaram na história da humanidade) continuasse guardando e cultivando as antigas práticas. Neste caso, as forças de segurança do Estado Ideal tomariam as providências cabíveis para neutralizá-lo, como sói acontecer em todos os regimes de governo.
Sonhava Platão que o Estado Ideal fosse governado por homens sábios – os filósofos. Embora tenha captado tão bem as idiossincrasias da natureza humana, ele não obteve sucesso ao tentar aplicar suas idéias nas cortes de Dionísio I e Dionísio II, em Siracusa.
Platão sabia que cada membro de uma sociedade tem seus sonhos, suas vaidades, suas ambições, suas necessidades; e que um bom estadista necessita manejar tudo isso para conseguir o apoio necessário para realizar seus planos de governo. Para isso, ele vai se servir de discursos que exaltem os sentimentos de amor à pátria, solidariedade, união, progresso. Daí a importância da retórica, da eloqüência, da persuasão, ensinadas pelos sofistas, e dos hinos. Nesse sentido, ele passa a apoiar a “liberdade de expressão”, subsidiando obras de interesse do seu governo, o que não deixa de ser um controle do Estado sobre a produção cultural.
No momento da implantação de suas idéias, Platão não dispunha dos meios necessários para exercer o controle sobre o sistema educacional e sobre a produção poética e artística, uma vez que apenas assessorava os soberanos da corte de Siracusa.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho não poderia, nem teve a intenção, esgotar a discussão sobre o pensamento de Platão relativo à poesia. Todavia, seguindo a linha existencialista proposta, Platão vivenciou várias situações que contribuíram para que ele desenvolvesse a sua teoria das Idéias e, com base nela, buscasse uma sociedade mais justa a qual, se atentarmos bem, acabaria sendo totalitária ao restringir a liberdade de expressão dos poetas para impedir que os cidadãos fossem movidos pelos sentimentos. Para isso, haveria necessidade de mudar o sistema educacional porquanto o que somos é o resultado de tudo aquilo que aprendemos ou fomos condicionados pelo aprendizado.
Verificamos que, na Grécia da época de Sócrates, as Cidades-Estados viviam em intermitentes conflitos entre si. Naquele período, as crianças eram educadas para serem soldados e estarem a postos para serem convocadas para a guerra na juventude. Havia, é claro, uma preocupação com que aprendessem a ler e a tocar, pelo menos, a lira, mas a ênfase era a ginástica e à resistência às intempéries e à fome, condições muito comuns nos campos de batalha.
É de se admirar a postura de Sócrates que, mesmo participando de vários combates, matando e vendo companheiros e inimigos morrendo ao seu redor, encontrou tempo para pensar em uma sociedade melhor, onde os cidadãos cultivassem as virtudes. Além disso, em tempos de paz, teve predisposição para ensinar, superando os traumas de guerra, aos quais certamente não esteve imune. Infelizmente, como Sócrates nada deixou escrito, dificilmente o conheceremos na sua plenitude como pessoa. Entretanto, a imagem deixada por seus discípulos foi de uma pessoa de bem, um cidadão que cumpria seus deveres com a pátria, defendendo-a quando convocado, assim como honrava suas obrigações com os deuses, ofertando-lhes preces e sacrifícios, embora no seu íntimo talvez pensasse de uma forma diferente.
Ele havia sido educado pela recitação dos versos de Homero e Hesíodo que, como os demais poetas, eram elevados à condição de porta-vozes dos deuses, das Musas. Só que os poetas nem sempre tinham consciência e conhecimento dos assuntos que cantavam, então, como poderiam ser mensageiros de deuses onipresentes e oniscientes?
É possível que Sócrates pensasse como Simônides de Ceos ou como Górgias, para o qual, a poesia era um discurso com métrica que emocionava os ouvintes.
Deve ter sido uma honra para Platão ter sido discípulo de um mestre desse quilate. Ele aprendeu que as tradições e os deveres com a pátria são importantes, contudo, era necessário ir além porque as tradições nem sempre eram justas e a prova disso foi a condenação de Sócrates.
O mestre, que cumpria com seus deveres e educava os jovens, havia lutado nas tropas de um exército que havia perdido a guerra para Esparta, a principal rival de Atenas. Ademais, vinha questionando conceitos estabelecidos pela tradição.
A população inconformada por ter sido governada pelo inimigo, sentia necessidade de lavar a honra por meio de um bode expiatório. Por que não alguém conhecido, que incomodava, cobrava a busca da verdade pelo cultivo da virtude?
Platão, com toda certeza, ficou inconformado com o desfecho do episódio – a morte do seu mestre.
Pelo que pudemos apurar sobre a vida de Platão, sua educação se deu em um momento de transição entre a educação tradicional e o novo sistema educacional sob a influência dos sofistas.
Ele era um aristocrata e, como tal, não queria perder o seu status. Como, em sua época, os poetas ainda eram considerados mensageiros dos deuses, seu primeiro passo, como todo jovem, foi dedicar-se à poesia e participar de festivais, para um dia se igualar aos grandes poetas e ser considerado um mensageiro dos deuses. Para demonstrar a sua aptidão física e conquistar as regalias de um atleta vencedor, participou de várias competições.
Tendo em vista a tradição política de sua família, também dedicou-se a esta arte. Neste ponto, concordamos com Reale (2007, p. 7), de que Platão buscou a filosofia para preparar-se melhor para a vida política. Na verdade, Platão nunca abandonou a política e a prova disso foram suas três tentativas fracassadas de aplicar as suas idéias em Siracusa, nas cortes de Dionísio I e Dionísio II. Isso, no entanto, não o impediu de idealizar uma Cidade-Estado justa, a “República”, que iria superar as imperfeições da democracia ateniense e da monarquia de Esparta.
A implantação desse novo regime iria levar um longo tempo considerando a necessidade de seleção e educação dos cidadãos. Primeiramente, os cidadãos seriam observados quanto a seus dons e selecionados para serem artesãos, guerreiros, estadistas, médicos e todas as demais profissões, sem interferirem uns nos trabalhos dos outros. Por outro lado, seriam tratados de tal forma que se contentariam com suas funções. Paralelamente, as crianças seriam educadas ouvindo histórias e poemas que falassem do bem e das virtudes. Elas não ouviriam os poemas de Homero e Hesíodo, que falavam dos feitos de heróis e atribuíam sentimentos humanos aos deuses. Elas seriam educadas a cooperarem entre si e a pensarem e trabalharem para o Estado.
Para evitar que as crianças fossem corrompidas pelos sentimentos, haveria um controle sobre os poetas, os quais só poderiam produzir seus textos dentro das normas e dos assuntos estabelecidos pelo Estado.
É interessante observar que formas de governo semelhantes a essa foram implantadas pelos jesuítas no Paraguai, durante a época colonial, e pelo Partido Comunista russo, após a revolução de 1917 (DURANT, 1996, p. 63). Pode-se acrescentar os regimes de Mao Tsé Tung na China e de Fidel Castro em Cuba.
Diante do exposto, verifica-se que a crítica de Platão à poesia se refere unicamente à aplicação da mesma na educação dos cidadãos na sociedade ideal – na “República”. Por outro lado, o filósofo destaca que o poeta deve conhecer bem a sua arte e perseguir sempre a verdade para que a poesia não apenas encante os ouvintes, mas os eduque também.
Tanto Sócrates como Platão foram grandes observadores da natureza e do comportamento humano e eles, mais do que ninguém, sabiam o quanto as reverências públicas podem inflamar a vaidade e o quanto esta cega as pessoas.
Quanta vaidade teria um poeta alçado à condição de mensageiro dos deuses? Teria ele disposição para discutir sua arte com um buscador da verdade, um filósofo? Qual sentimento o moveria ao chegar à conclusão de que o seu dom se restringe a falar de coisas que não entende?
Feitas essas considerações, resta-nos perguntar o que aconteceu com Platão.
Conta-se que Platão, com a idade de 80 anos, foi convidado para uma festa de casamento de um dos seus discípulos.
A festa foi até tarde da noite e o mestre retirou-se para um canto tranqüilo e sentou-se em uma cadeira para descansar. Quando foram acordá-lo pela manhã, ele não mais abriu os olhos.
Passados pouco mais de 2.300 anos, suas idéias continuam vivas e dando margem a muitas e acirradas discussões. Sua influência em nosso cotidiano e na forma como somos educados e governados é inegável.


NOTAS


1. Ver Contexto: poesia lírica. Disponível em:
http://www.artehistoria.jcyl.es/historia/contextos/349.htm. Acesso em: 14 jul.2008.

2. Paes (1995) compila os poemas atribuídos a Platão da “Antologia grega ou palatina”, considerada como a mais importante coleção de epigramas da literatura grega. É composta por 3.700 poemas. O manuscrito foi descoberto em 1606 pelo francês Claude Saumaise na Biblioteca Palatina de Heidelberg, de propriedade do conde palatino, título de origem romana conferido pelo papa a um membro da família Habsburgo.

3. Ver Conceito de Paideia. Disponível em: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/escola/paideia/conceitodepaideia . Acesso em: 14 jul.2008.

4. Ver Platão: obras de Platão. Disponível em: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/escola/academia/platao.htm Acesso em: 14.jul.2008.

5. Ver Diálogos de Platão:Íon. Disponível em:

Acesso em: 11 jul.2008.



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