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Ensaios-->26. “QUEM TEM OUVIDOS PARA OUVIR, OUÇA”(1) -- 04/03/2004 - 07:24 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Jesus ensinava por parábolas ao público para que, segundo ele,

...vendo, vejam, e não percebam; e ouvindo, ouçam, e não entendam, para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles. (Mc., 4:12.)

Em particular, aos apóstolos, apesar de censurá-los por sua pouca compreensão, explicava-lhes o sentido oculto de suas narrativas, a fim de dar-lhes segurança na interpretação dos ensinamentos. Dessas explicações, algumas poucas se transcreveram nos Evangelhos, de modo a possibilitar ao público em geral tomar conhecimento do sentido profundo das alegorias e do modo pelo qual o Senhor “profetizava”, para utilizar terminologia da época.

Ora, pode parecer ao leitor menos avisado que Jesus escolhia uns poucos para oferecer a possibilidade do perdão e, por via de conseqüência, da salvação, não fora uma de suas principais conclusões a de que

...muitos são chamados, mas poucos escolhidos. (Mt., 22:14.)

Hoje, à luz do espiritismo, estranhamos que Jesus tenha feito tais afirmativas, pois julgamos que todos somos merecedores de bem entender as alegorias contidas nas parábolas e todos temos o mesmo direito de usufruir o benefício de crescer em virtudes para merecer o perdão do Pai aos nossos crimes, o esquecimento, portanto, de nossas culpas e o ingresso no reino de Deus.

Havemos, no entanto, de entender o texto bíblico. Na mente dos evangelistas ainda estava impregnada a idéia de que a igreja deveria constituir-se de pregadores, de dirigentes, de oficiantes, de iniciados, de um lado, e do grosso da população de outro. Quem tivesse ouvidos para ouvir a palavra do Senhor, demonstraria a possibilidade de crescimento da compreensão da verdade. Esses seriam guindados à condição de diáconos, de auxiliares, de sacerdotes, de paradigmas para a coletividade, de sorte que se destacariam do grande grupo da multidão para serem aliciados, por assim dizer, para atribuições mais específicas relativamente aos trabalhos desenvolvidos na comunidade religiosa nascente. Sendo assim, os textos, à época de sua escritura, mantiveram esquemas rígidos emprestados das organizações religiosas vigentes e conhecidas das mentes místicas dos santos homens escolhidos para a escritura da sagrada saga do Salvador.

É preciso, ainda, não esquecer que não foram só quatro os evangelistas. Foram inúmeros os que deixaram registrada a passagem do Senhor pela carne. Posteriormente, a igreja cristã, já formada e cristalizada segundo normas próprias, é que estabeleceu a seleção dos que deveriam ser os escolhidos, conforme a orientação do Cristo, mal interpretada e infelizmente aplicada. Dentre os textos selecionados, destacaram-se os que continham os dizeres mais aproximados das concepções dos que efetuaram a escolha, de modo que pode ter perfeitamente ocorrido que versões mais consentâneas com a verdade histórica tenham ficado perdidas para sempre. Por isso, a atual necessidade de todos os cuidados para se perceber nas entrelinhas qual terá sido o verdadeiro sentido a ser atribuído às narrativas.

Vamos, então, voltar à interpretação das palavras de Jesus, segundo as quais “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

Com o desenvolvimento das civilizações, estendeu-se a quase toda a humanidade cristã a possibilidade do crescimento intelectual, através da imprensa, da escola e da facilitação do acesso a ela da maioria do povo. Também se ampliou em muito o campo de ação das igrejas, havendo a possibilidade, para os missionários do evangelho, de catequese até de indivíduos de hábitos, religiões e idiomas absolutamente estranhos. São conhecidos os desvarios praticados, em nome da fé, contra populações inteiras de culturas e poderio de reação física inferiores. De qualquer forma, ao advento do espiritismo, através da codificação kardequiana, a humanidade dominava algumas ciências e era capaz de entendimento mais justo das verdades contidas no cerne dos dizeres do Cristo.

Assim, estabeleceram-se princípios novos e o que estava reservado para uns poucos iniciados pastores que conduziriam os rebanhos, foi estendido para a grande massa dos alfabetizados e dos que apresentassem condições intelectuais suficientes para a compreensão dos raciocínios desenvolvidos à luz de argumentação baseada em princípios da lógica formal, precisando ainda se desvencilharem dos dogmas de fé que as religiões vigentes impingiam a seus seguidores. Aliás, não foi sem luta que o espiritismo ganhou foros de cidadania.

Hoje, cumpre-se o vaticínio de Kardec e encontramo-nos desenvolvendo a quarta fase dos trabalhos, qual seja a que foi por ele designada como de expansão social do conhecimento espírita(2). Pois bem, se Jesus, ao seu tempo, verdadeiramente, pregou de modo reservado aos apóstolos, também é certo que deixou impressas em sua peregrinação as promessas de salvação de todos e o envio do Espírito de Verdade para o aparecimento do consolador. (Jo., 14:16 e 17.)

Quanto à segunda parte da citação inicial, ou seja, que Jesus não queria que aos de fora ficasse esclarecido o real sentido de sua pregação, “para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles”, a interpretação exigirá maior esforço de compreensão da parte do leitor, à vista da sutileza da argumentação necessária para esclarecimento definitivo.

O primeiro impacto das palavras de Jesus fere as susceptibilidades. Ter-se-ia o divino mestre deixado influenciar tão profundamente pelos conceitos mosaicos e da ortodoxia religiosa judaica(3) que evitaria ferir o princípio da eternidade das penas para os que pecassem contra o Pai? Não são dele as seguintes palavras?

...aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de pecado eterno. (Mc., 3:29.)

Certamente, é conhecida a explicação do significado da palavra eterno segundo a qual, para o que sofre, a dor não parece ter fim, de modo que a desesperança se instala no coração e ele crê estar condenado até o final dos tempos.

Do cotejo dos textos, entretanto, não podemos fazer surtir a mesma explicação, pois o intuito de Jesus, na primeira citação, é o de impedir que haja conversão e perdão e não de afirmar que o indivíduo seja réu de pecado eterno.

Dessa complexidade de pensamentos, pode brotar a dúvida no espírito do leitor, pois a análise meramente formal das palavras levará, inevitavelmente, a considerarmos os textos como inconseqüentes para quem afirmava que vinha na qualidade de filho de Deus para salvar a humanidade. Ou Jesus não disse o que se citou ou não era verdadeiramente o Messias.

Preferimos rejeitar a segunda hipótese, pois vemos na primeira a manipulação açodada dos que pretendiam fazer suas as palavras do Senhor em suas pregações à multidão, principalmente por terem o “ego” enaltecido pelo fato de se considerarem os escolhidos dentre os eleitos, uma vez que lhes cabia dirigir o rebanho. Estava formada a hierarquia interesseira no seio da igreja e era justo fazer os homens acreditarem que tal dogma tivesse sido instituído pelo próprio enviado de Deus.

“Quem tem ouvidos de ouvir, ouça.” Ainda bem que frases lapidares, verdadeiros extratos de ensino do Mestre, foram conservadas para servirem de fundamento para a rejeição das interpolações de trechos apócrifos, muitos deles baseados nas palavras do Senhor, mas torcidas e retorcidas para dar ao ouvinte e, posteriormente, ao leitor, a idéia de que, para sua salvação, deveria seguir “pari passu” os conselhos dos que se guindavam às posições de comando no seio das instituições religiosas.

Agora, diante do aluvião das mensagens espirituais encaminhadas à humanidade por via mediúnica, fica bem mais fácil configurar que Jesus não diria jamais que seja quem for estivesse condenado “ad aeternitatem” ao sofrimento ou que deixaria quem quer que seja do lado de fora do reino do Senhor.

Uma vez instituídos os princípios lógicos como norma aplicável à análise dos textos bíblicos, não hesitemos em empregá-los inclusive na observação das verdades que se encerram nas palavras atribuídas a Jesus. É preciso estudar e vigiar; e trabalhar muito para o crescimento da doutrina e isso só faremos, com harmonia e discernimento, se nos consagrarmos ao aperfeiçoamento de nossos critérios de experimentação racional, em função de todos os eventos que interfiram em nosso livre caminhar pelas estradas da vida. Apliquemos de fato o livre-arbítrio que nos concedeu o Senhor e não instituamos como dogmas nem mesmo os princípios mais assentes e determinados, seja inclusive da doutrina espírita. Uma vez, entretanto, submetidos ao crivo da razão e julgados capazes de exprimir a verdade, adquiramos a firme convicção de seu conhecimento e aproveitemos todas as oportunidades para dar testemunho deles.

A nós, do plano espiritual, é sempre muito mais fácil a concepção do mundo, da vida e da existência sob o prisma das noções do espiritismo, pois, desvencilhados dos liames densos da carne, podemos comprovar a grandiosidade da criação com instrumental muito mais preciso e complexo. Aos encarnados, às vezes, não lhes sobra sequer bruxuleante luzinha intelectual e claudicante aparato perceptivo-sensorial, de modo que o apego à fé parece ser o caminho mais seguro. Creia, querido leitor, que, deveras, muitos estão restritos a conhecimentos extremamente parciais e incompletos e lhes restará tão-só confiar na palavra de seus ministros e intérpretes da sabedoria divina, mas jamais deverão julgar-se ao desamparo da misericórdia divina, nem mesmo se tiverem sido essas as palavras declaradas como sendo de Jesus.

Vamos, agora, orar compungidamente para podermos reter de tudo o que dissemos o que é de fato o mais importante: que Deus é Pai e vela por todas as suas criaturas.

(1) Palavra do Senhor, em Marcos, 4:9.
(2) Ver “Pregação do Espiritismo”. In: Revista Espírita. Ano I, n.o 9, set./1858.
(3) Ver Isaías, 6:9-12.

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