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Artigos-->DECIDIR PELA VIDA OU PELA MORTE – A EUTANÁSIA -- 10/01/2008 - 05:19 (Ivone Carvalho) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Artigo republicado, embora escrito há 3 anos, vez que o tema é sempre atual:





DECIDIR PELA VIDA OU PELA MORTE – A EUTANÁSIA

(Ivone Carvalho)



Terry Schiavo, que contava 41 anos de idade e que, nos últimos dias, voltou à mídia, fez a sua passagem. Morreu hoje, 31/03/2005, treze dias após a retirada da sonda que a alimentava. Foi uma luta entre a vida e a morte por infindáveis quinze anos!



Em 1990 seu coração privou a oxigenação do seu cérebro, ao parar brevemente. Desde então, Terry entrou num estado que os médicos chamaram de vegetativo permanente, passando-se a aguardar pela sua morte a qualquer momento. E passaram quinze anos!



Nos tribunais, o marido de Terry Schiavo, seu guardião legal, lutava pela eutanásia, defendendo a tese de que ela deveria ter permissão para morrer e, se pudesse escolher, não aceitaria viver da forma como vivia.



Os pais de Terry, entretanto, também tiveram que se socorrer dos tribunais para prolongar sua existência e garantir-lhe o direito à vida.



E hoje, mais do que nunca, eu me lembro de quando, começando a adolescência, nos primeiros anos de ginásio (era essa a denominação que o curso de primeiro grau, 5a. a 8a. série, recebia na minha juventude), recebi, como dever de casa, a elaboração de uma redação abordando a eutanásia. Eu não sabia o que significava essa palavra e também o professor não contou. Fui pesquisar e, ao tomar conhecimento do seu significado eu me lembro como se fosse hoje o quanto eu fiquei horrorizada por descobrir que há pessoas que se julgam no direito de tirar a vida de quem quer que seja, não me importando os fundamentos para essa atitude.



Lembro-me que a minha revolta foi tão grande, que passei a escrever sobre o tema, expondo a minha fervorosa opinião, numa redação que utilizou algumas folhas do meu caderno. E o professor de português que pedira a redação, entusiasmado com a minha forma de expor os meus pensamentos sobre o tema, pediu-me para transcrevê-la em folhas avulsas, que foram lidas por todos os professores, pelos diretores do colégio, em algumas salas de aula e me renderam muitos cumprimentos.



Na época, eu não sei se entendia bem o significado disso tudo, creio que não, pois eu não sabia que o tema era tão discutido no mundo inteiro e acreditava que essa redação tinha tido o mesmo brilho de outras, devido à minha facilidade para escrever e expor minhas idéias e pensamentos, bem como pela aplicação sempre perfeita, se comparada a outros alunos, do português e da gramática, já conhecida por todos os professores. Meu bom mestre me explicava que dessa vez eu tinha me superado e ele possuía nas mãos um trabalho digno de ser levado a todos que discutiam o tema, vez que ali existia uma opinião valorosa de uma adolescente que, certamente, seria a da maioria dos jovens da minha idade.



O tempo passou e sempre que esse assunto volta à baila, eu me lembro da minha redação “A Eutanásia” e dos frutos que ela surtiu, no início da década de 60.



E hoje, passados quarenta anos, eu tenho pensado e repensado na vida de Terry e de tantas outras que, talvez, ainda não tenham atingido os quinze anos de vegetatividade, mas que podem chegar lá também, ou até passar disso!



Hoje eu já não posso falar sobre a eutanásia com a ausência de qualquer conhecimento, como fiz naquela época, em que fui levada tão somente pelo fator emocional considerando também o religioso.



Agora eu já vivi na pele a doença de dois irmãos que fizeram suas passagens após muitos dias de coma profundo, internados numa UTI de um hospital. Eu já perdi pessoas que eu amava imensamente e que após longos dias de sofrimento, nos deixaram. Eu tenho pessoas que amo com ardor e que também estão presas a uma cama, aguardando a sua hora. Eu também já vi a morte me rodeando, descobrindo que ainda não tinha chegado a minha hora.



Agora eu conheço o Direito e todo advogado tem que vestir, com certa freqüência, a camisa de um Juiz, para se cercar de todas as formas das sentenças que poderá obter em suas ações.



Conheço a ânsia de faturamento dos laboratórios, dos hospitais, das casas de saúde, dos planos de saúde, dos seguros saúde.



Conheço o ônus que recai sobre o Estado, quando um doente permanece por muito tempo nas camas de hospitais públicos.



Conheço a falta de espaço nos hospitais, para manter, por longos anos, um paciente internado.



Conheço a dor de uma família que necessita de dinheiro para tentar salvar seu ente querido e que perde tudo que tem e fica devendo ao mundo inteiro sem conseguir a graça tão almejada.



Sou espírita.



E, por todas essas razões, a minha redação, hoje, não ficaria revestida tão somente pela emoção e religiosidade, porque muitas águas rolaram na minha estrada nesses quarenta anos após aquela exposição.



No entanto, a minha opinião não mudou.



É terrível ver alguém que a gente ama deitado sobre uma cama hospitalar sem viver. O coma nos dá ainda a fé de que a pessoa não está sofrendo, mas, quem nos garante? O corpo é matéria, sujeito a todas as sensações.



E sua alma, que não pode se desligar dele totalmente, enquanto ele tiver vida? Ela sabe o que a espera, ainda que sem consciência, já tem outras lhe fazendo companhia e lhe orientando, mas não pode se desligar daquele corpo, enquanto a sua missão terrena não terminar. Ela ainda não sabe, provavelmente, nesse ínterim, o que foi que determinou o fim da vida terrena daquele seu corpo, dessa forma lenta e sofrida, mas sabe que é preciso esse tempo de espera para que compreenda que existe uma razão para esse fim.



E, exatamente por existir uma razão para que aquele corpo permaneça vivo durante todo o tempo que lhe foi designado, ainda que exista a vegetatividade, é que não posso aceitar a prática da eutanásia.



É exatamente por acreditar que o ser humano só nasce e só tem vida se houver a concordância e a Vontade do Criador, é que não posso admitir que o homem se sinta possuidor de capacidade para gerir o tempo de vida de qualquer um dos seus semelhantes.



Não compete ao homem, no meu conceito, decidir sobre a vida de quem quer que seja. A vida, seguida dos pensamentos, dos sentimentos, da dor, é pessoal e intransferível. Jamais alguém poderá acreditar que sabe o que o outro sente, crê ou pensa, porque esse poder de sentir, crer e pensar é indelegável, intransferível e inatingível por terceiros. E, se ninguém tem capacidade para saber o que se passa no interior de qualquer outra pessoa (muitos não conseguem saber sequer o que se passa dentro de si) e, portanto, decidir por ela, quem dirá ter o direito de decidir sobre sua vida, sua existência.



A lógica, tão usada por pessoas que, mesmo não sendo frias em tempo integral, se tornam frias e calculistas quando a aplicam ao ser humano, tirando conclusões matemáticas até quando trata com sentimentos e pensamentos de terceiros, não coaduna com a vida e com o amor.



Vida e amor são emoções. Vida é mais que matéria. Vida é a união de corpo e alma. Vida é o conjunto de tudo que se recebe ao se nascer, não me importando, neste momento, se falo da vida humana, da vida animal, da vida vegetal. E nenhum de nós tem o direito de matar uma flor, arrancar uma árvore, tirar a cria do peito materno.



Mas, caçamos para a sobrevivência. Colhemos frutos e vegetais para a nossa alimentação. Colhemos flores para enfeitar nossas casas. Estamos sempre, de alguma forma, matando o que a Natureza nos dá.



Porém, se precisamos de tudo isso para nossa sobrevivência, por que precisaríamos tirar a vida de um ser como nós, criados à imagem e semelhança de Deus, como nós?



O livre arbítrio de cada um existe para que possamos escolher os nossos caminhos. Mas, nem mesmo ele pode se sobrepor à Vontade e aos desígnios do Senhor. Por que temos tanta convicção de que o suicídio é um crime contra a própria vida e contra Deus? Julgamos covardes todos que praticam o suicídio, porque sabemos que foi a falta de coragem de enfrentar alguma coisa, ou situação, ou doença, ou alguém, que levou o suicida ao ato extremo de pôr fim à sua própria vida.



E por não aceitar o suicídio, abominar a pena de morte, não admitir a prática livre do aborto, é que eu, em hipótese alguma, poderia concordar com a prática da eutanásia.



A Terry fez hoje a sua passagem. Para isso foram desligados, há treze dias, os tubos de alimentação que a mantinham viva. E então fica a pergunta no ar: não houvesse o desenvolvimento científico e médico, teria ela vivido até hoje? Tivessem tirado a sonda há anos, teria ela feito sua passagem há muito mais tempo? Não tirassem esse instrumento há 13 dias, estaria, ela, viva, agora?



E algumas respostas eu vou encontrando no meu interior.



Não fosse para dar melhores condições e tempo de vida ao homem, para qual finalidade teria ele a inteligência para desenvolver tudo que desenvolveu em prol da ciência e da medicina?





Por qual motivo Terry viveu ainda por treze dias, mesmo estando com o tubo de alimentação desligado?



Por qual motivo ela viveu durante quinze longos anos apesar da sua vegetatividade? Não estaria, a Terry, vivendo “normalmente” dentro das suas limitações e possibilidades? Não teria ela, por missão, permanecer entre nós por tanto tempo, ainda que não pudesse partilhar da vida que a cercava?



Não teria, sua vida vegetativa, uma razão específica para o seu próprio crescimento espiritual e de seus pais, marido, parentes, amigos? E para a humanidade?





Passaram-se quarenta anos do tempo em que escrevi aquela redação sobre a Eutanásia, mas não tenho dúvidas de que os meus pensamentos, meus princípios, meus conceitos, meu entendimento, em nada mudou. Mesmo que hoje eu leia, ouça, estude e me certifique de que grande parte da sociedade não concorda comigo.



Que os Espíritos de Luz, os Anjos do Bem, acompanhem a alma de Terry Schiavo em sua nova estrada, pois tenho certeza de que ela teve bastante tempo para se preparar para a sua nova Vida.



Que seja o amor e as orações de todos que a acompanharam, por todos esses anos, o norte da Paz, do Amor e da Luz que devem permanecer em seu espírito.





31/03/2005 – 18:00h



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