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Cartas-->16. PAULINHO -- 04/08/2002 - 09:05 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Todos os do grupo gostariam de ser tratados pelo diminutivo. Isso acontece no início do desencarne, quando as lembranças são infantis e os espíritos permanecem em nuvem rósea de esquecimento.

Não fugi à regra mas fui apaniguado com a perspectiva de ser recebido pelo apelido familiar, mercê de me encontrar com a vovozinha, que me antecedeu de uns poucos meses. Se a sua morte fora motivo de profunda tristeza, a presença aqui glorificou-me a reentrada no etéreo, conquanto não me pudesse dizer feliz, já que senti muito a ausência de meus pais, especialmente da mamãezinha querida.

Como se pode facilmente observar, não tenho tido grandes dificuldades de adaptação às novas amizades, apesar de apenas quatro anos de permanência na Terra. É que volvia aos braços afetuosos de quem já me agasalhara duas outras vezes, no limite, portanto, do amor materno.

A história dessas reencarnações levar-me-ia a considerações de caráter filosófico, muito mais do que existencial, do ponto de vista das reflexões sobre o episódico. É que, da mesma forma que regressei prematuramente da última feita, nas duas vezes anteriores, também não cheguei a completar o ciclo biológico das vidas que me haviam sido organizadas para uns poucos resgates e para a aquisição de certas virtudes necessárias para o crescimento evangélico.

Não estou adequadamente informado sobre as peripécias dos últimos séculos, mas, pela amostragem de como tenho reagido aos malogros, devo dizer que tudo gira em torno de excessivo egoísmo, orgulho desmedido e vaidade avassaladora. Tenho a impressão, não a certeza, de que me dediquei a obras de arte no campo da pintura ou da escultura e me deixei embalar por sonhos muito grandiosos de imortalidade terrena.

Reajo muitíssimo mal quando me pretendem evidenciar que os encarnes visavam, antes e acima de tudo, ao meu próprio bem, sem considerações a respeito do desenvolvimento dos demais familiares, como se exercesse sobre eles determinado fascínio, pela superioridade intelectual ou pelas habilidades e facilidades através de que me destaquei.

A imagem do Sol arrastando pelo espaço os diversos planetas dará, na justa medida, a idéia do pretendi ser para os demais.

O pior de tudo é que essas impressões vão, aos poucos, confirmando-se pelas disposições morais em que ficaram os parentes, não só mamãe, mas papai, os avozinhos, os irmãos maiores, a irmãzinha querida. Até determinados coleguinhas de folguedos se sentiram arrasados e cultuam a minha lembrança, pesarosos, com vontade diuturna de se reencontrarem comigo.

Paulinho é diminutivo que pretendi manter, para que me ajuste à idéia de que devo permanecer afetivamente relacionado às pessoas, não como a estrela-guia, que não sou, nem tenho competência imediata para vir a sê-lo, mas como afilhado querido, prestimoso serviçal, amante e amado de cada qual, no seio de Jesus.

Nesta derradeira peregrinação, tão cedo interrompida, carregava diversos problemas físicos, que desabrochariam em doenças congênitas, pela idade de trinta a trinta cinco anos. Armazenara-se no organismo a semente da moléstia, como recurso para a compenetração de que os deveres pessoais junto aos que cuidariam de mim deveriam sobrepor-se às conquistas sociais, já que não me permiti ficar inibido quanto ao intelecto. Queria jugo físico que me pusesse de bem com o sofrimento, para dar-me a oportunidade de reconhecer os méritos dos demais.

Infelizmente, os componentes energéticos estavam muito debilitados e fui atacado por fulminante vírus, antes que a consciência etérica (vamos chamar assim a capacidade que todos temos de evadir a cada noite do corpo denso para a reflexão espiritual junto aos mentores e protetores) se desse conta da extensão dos problemas.

Tenho deixado pistas estranhas, para quem está acostumado a pensar em que as crianças permanecem imantadas ao corpo não desenvolvido, de sorte que o espírito fica inibido também. Isso é verdadeiro para noventa por cento das criaturas. Mas existem os que, espiritualmente, alcançam o contacto esclarecido, de forma a permanecerem lúcidos quanto ao desempenho material.

Ao morrer acidentalmente, como eu, o indivíduo não desperta logo nos braços daqueles mesmos com quem “tertuliava” durante o sono. Acontece que as vibrações puramente corpóreas subsistem para a mente habituada aos reflexos da matéria, já que boa parte do perispírito estava mergulhado nos fluidos mais densos. Daqui a necessidade de período de “ressuscitamento” espiritual.

Se não houver crise moral de vulto causada pelo desespero do trespasse, a perturbação mental se supera em algumas semanas; mais rapidamente até, se houver quem cuide da criança, como foi o meu caso. Contudo, para quem esteja precisando de corretivos morais, a nuvem rósea se mantém durante muitos anos, enquanto se dá conhecimento ao desencarnado do evoluir das pessoas que permaneceram na Terra.

O que os protetores pretendem evitar é a interferência nas deliberações sentimentais, por força da tenaz vibratória de quem, despoticamente, exercia domínio psíquico sobre os companheiros. Em outros termos, impede-se a obsessão. E isso se dá com eficiência, quando são reconhecidos os laços afetivos como de alta virtude.

Pobre vovozinha, esta, sim, vem sofrendo com a desenvoltura do neto, acolhido junto à mesma instituição, em turma diferente. Em pouquíssimo tempo, após me haver consolado pelo distanciamento de mamãe, deu-se-me a compreensão de que o destino me havia reservado a surpresa desagradável, a qual poderia transformar-se em ganho moral de caráter superior, especialmente em relação ao conhecimento da personalidade. Meu crescimento se deu tão rapidamente, que ela não foi capaz de adaptar-se a essa circunstância peculiar ao meu espírito, sentindo-se frustrada, na incapacidade de restaurar as lembranças anteriores à última encarnação.

Eu a havia perdido na qualidade de neto. Perdeu-me ela, depois, na qualidade de protegido, de assistido, de discípulo.

Os da turma me ensinaram que o crescimento rumo ao patamar seguinte da escada existencial cada qual deve estabelecer através do entendimento das diretrizes evangélicas, o que vale dizer, divinas. Por isso, não abandonei minha protetora e, sempre que posso, vou até ela discutir os pontos da programação que tem de vencer, no curso em que se matriculou. Existem, porém, muitos escolhos que a estão atrapalhando, dados os preconceitos de todo tipo que se lhe infiltraram na mente, a partir dos anseios sociais e religiosos.

Para quem esteja concluindo, precipitadamente, que estejamos em fases diferentes da evolução, eu, mais adiantado, ela, atrasada, devo prevenir que a ocasião e os problemas é que são distintos. Contudo, não há nada que a impeça de perceber os entulhos mentais, eliminando-os rapidamente. Será o produto do bem que tiver praticado. Não lhes parece esclarecedor o fato de não haver permanecido no Umbral, tendo recebido, desde logo, a incumbência da orientação do neto recém-chegado? Pois, então?!

Por outro lado, assim que me reencarnar, despojar-me-ei dos atributos de que estou revestido no etéreo, podendo receber o influxo das influenciações deletérias, ajustando-as ao meu modo de ser, sem escoimar o que for ruim, o que me remeterá de vez contra os objetivos programados. A garantia do sucesso da encarnação não está presa ao que se sabe, mas ao que se consegue executar em prol dos companheiros, o que exige a contenção do egoísmo, do orgulho e da vaidade. Não lhes parece lógico?

Perdoem-me a loquacidade desordenada. Quis abranger diversos temas importantes, pelo menos no que se referem ao meu momento de desvelamento da personalidade, e me perdi um pouco na organização do texto. Nada que a boa vontade do leitor não possa superar. Valha a dissertação como o primeiro esboço de obra a que faltam os contornos definitivos.

Para mim, vai ser excelente que não me admirem pela capacidade oratória, para que não aumente o número dos que me incensam o ego, inadvertidos. Existem pessoas que o fazem de caso pensado para obterem favores pessoais, quando descobrem que as entidades se pavoneiam de “espíritos de luz”. Entretanto, a maioria, na humilde condição de quem se sabe inferior, por não sentir seu desempenho melhor que os dos parceiros, lançam o confete do elogio fácil, faltando somente erguer o pedestal onde entronizar o santo.

Pensemos em Jesus e o representemos como o filho dileto de Deus, para nos conformarmos com a sorte e para não enfatizarmos, desmedidamente, os méritos dos demais. E trabalhemos decididamente para saber onde se situam as nossas falhas e quais as atividades mais convenientes para eliminá-las. Por exemplo, se a frase está capenga, se as palavras não se ajustam, se os verbos não se colocam nos tempos e modos segundo a norma do idioma, por que não estudar a gramática? Se os atributos são mesquinhos, pois não somos capazes de fazer o bem a quem está na pior, por que não nos alistarmos junto a centro espírita, oferecendo o tempo disponível para as tarefas da benemerência?

Às vezes, fico pensando em que o fato de não estar melhorando se relaciona intimamente ao desejo de ser exalçado pelos parentes e amigos. Peguei o gosto da vanglória e está difícil de entender que não progredirei, enquanto não me ajeitar no evangelho.

Que Jesus olhe por todos nós!

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