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Redação-->Falha a talha -- 21/09/2013 - 08:09 (Brazílio) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Já desde os primórdios da sede familiar tivemos o conforto de uma talha para a

água de beber. Era um investimento bem mais maciço do que numa bilha - que se

comprava à porta - mas que dada a sua maior capacidade, compensava

plenamente. E, por termos cisterna, dispensava-se aquela talha de duas seções,

com filtro. Usávamos assim a de um bojo só, compridinha, marronzinha e de

torneirinha.

O copo era compartilhado. Era de alumínio, que se dizia, espantava os germes - e

estávamos todos bebidos. Ficava ele sempre ao lado da pia, que se alojava numa

cantoneira de cimento, chumbada na parede do corredor. Chamávamo-lo assim,

corredor, pelo seu formato retangular, aquele cômodo que, embora pequenino,

dava saídas e entradas para quatro outros cômodos distintos: a sala de entrada, o

quarto dos fundos, o banheiro, e cozinha. E ainda comportava um lavabo de louça,

encimado por um armarinho com espelho, para o asseio matinal. Assim, a não ser

pra beber água, ou para as abluções, ninguém se estacava no corredor.

Esse aparente abandono tinha as suas vantagens, sobretudo quando não se achava

o copo de alumínio no seu devido lugar. Tomava-se - suspeita-se - água no bico da

talha. Diretamente. Prática veementemente condenada por mamãe: uma falta de

educação inafiançável. Bradávamos que não deixávamos a boca se encostar na

ponta da torneirinha da talha. Mas não adiantava a desculpa. Era feio e

condenável.

E como criança aprende e desaprende depressa, o Nacho, ainda em idade preescolar, teve a oportunidade de sua lição - aliada a uma sede miserável, e a falta

do copo d´água em seu lugar. E mais o agravante de a talha estar quase vazia e

ter que ser adernada para fornecer o líquido que já guardava no fundo.

Quando ouvimos aquele barulho esquisito, da cozinha ou do quintal, acorremos

todos à sua origem: o corredor estava todo molhado, e cacos de cerâmica

espalhados por todas as quinze bandas. O único sinal de vida eram as marcas de

pezinhos fininhos, molhados, na fuga desabalada pelo piso do quarto e salto à

janela.

Ficamos a ponderar o que não teria sido a talha, no seu irremediável salto para o

piso de cimento vermelhão e ladrinhos ter encontrado a cabeça do Nacho no

trajeto... O guri teve os glúteos poupados - com severas admoestações. E a talha

substituta - que ficou muito tempo passando aquele gosto de barro cozido pras

nossas bocas, via copo de alumínio - passou a ter nova residência: a caixa da

cisterna, liberando a cantoneira para um novo inquilino, pretinho e barulhento

como ele só: o telefone de baquelite.
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