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Cartas-->32. RENATO -- 20/08/2002 - 05:53 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Nome “remarquable” pela “entropia” da personalidade, à vista das premonições de meu pai, Renato não me foi atribuído por concepções espiritistas, mas porque me sentiria como patrão perante os inúmeros empregados antigos, pois, imitação do nome do avô, serviria para restaurar o prestígio familiar, bastante arruinado pela liderança negativa de papai, perdulário e burro, na idéia do populacho. E rico, riquíssimo, sem dúvida, que a fortuna herdada não...

Sinto-me afoito na descrição e não pretendo dar tal impressão no momento em que estiver transmitindo o inteiro teor da mensagem. Sendo assim, foi preciso determinar todas as nuanças emocionais deste momento, para que não se pense que todos somos absolutamente frios e distantes.

A “Turma dos Primeiros Socorros” passou-me a responsabilidade e esforço-me para condensar o tema do respeito filial, em pequenos exemplos de maledicência e de contido nervosismo.

Vamos aos fatos.

Se desejo retratar fielmente quem foi meu pai, ou melhor, quem é meu pai, ainda encarnado, apesar dos noventa e tantos anos, devo esclarecer que para cá vim aos dezoito anos de idade, há mais de trinta, tendo perambulado pela Crosta até cansar, errático e tonto, buscando saber qual a razão de não ter tido a sorte de receber o amor paterno.

No entanto, as recentes pesquisas me têm apontado como o ente mais querido e mais ansiado, uma vez que não fui recusado no ventre de mamãe. Ao contrário, quando se soube que o rebento mais velho e único da família era do sexo masculino, aí as alegrias se expandiram em ruidosas comemorações.

Eu era são mas não saudável. Devo esclarecer. Tinha a cabeça no lugar e o corpo não estranhava os exercícios pesados a que o submetia. Mas desejava alcançar sucesso em tudo, bem acima dos concorrentes, porque companheiros não possuía em lugar algum.

A descrição seguiria por essa linha para caracterizar que, chegada a idade das estrepolias, fui o pior de todos, sem me dar conta de que iria afogar-me em mágoas, se caísse em desgraça carnal, o que aconteceu, quando, desprevenido, acabei ateando fogo nas cobertas, inchado o fígado de álcool, já que, precocemente, me dava o direito atroz das bebidas.

Queria experimentar todas as boas coisas da vida. Terminei quase suicida, ou melhor, suicida inconsciente, dado que as coisas não se passaram comigo como com os demais que se apresentaram até agora.

Não estou inteiramente lúcido mas renasci para o mundo etéreo, quando o Irmão José me foi buscar, ardendo internamente pelo fogo das paixões ignóbeis, muito mais do que o esturricar da pele, que me marcava, “remarquable”, o perispírito, como se pudesse sangrar pela eternidade.

Sobre mim foram depositados tenuíssimos fios de ouro, cuja contextura e natureza não sou capaz de deslindar, que me introduziram na paz e na serenidade dos inconscientes absolutos.

Sei porque me disseram que, durante a ausência existencial, me ministraram noções de moral e princípios cármicos, sobre os quais jamais me debruçara.

Quando me trouxeram para o grupo, notei que muitos se consideraram bem melhor, porque eu estava em estado deprimente. Houve um ou outro que se sentiu mal, desejando compreender com o que poderia este pobre ser contribuir para o avanço dos demais. Melhores que eu, devo reconhecer, existem muitos no Umbral e, iguais, nas Trevas. E eles não se haviam diplomado em Socorrismo, para o atendimento do sofredor impenitente.

Superei a antipatia, quando me reconheci agradecido ao Professor, tendo observado que a turminha era muito atraente, procurando passar a idéia de que me havia despercebido das reações ruins, mas dando a entender que sabia reconhecer o que era bom. Não precisei esperar muito para receber os pedidos de desculpas mais doloridos, já que busquei, na amizade dos que se deixaram atrair desde logo, o bem do companheirismo de todos.

Atualmente, sofro a desdita de não me haver afinado com uma meia dúzia, não por malquerença deles, mas por completa má vontade minha. Sou assim, mas não sou acintoso. Se devo falar a verdade, falo. Por isso, comecei a análise da existência pelo desprezo que senti por meu pai, que me queria apenas para herdeiro do nome de vovô, para dar continuidade a essa tola fantasia humana, como se os sobrenomes sobrevivessem à matéria, para formar aqui a grande confraria dos Toledos e dos Alcântaras.

Tenho lido obras espíritas, não muitas, mas há quem se ufane de registrar o sobrenome, como se a família fosse perdurar na esfera seguinte:

— Atenção! Está de partida mais um Sousa, acompanhado de Oliveira e Silva e de...

Pedi, mas não me foi concedido, que, ao retornar à carne, deveria ser enjeitado por mãe e pai, para não ter nome nem sobrenome. Não quero ser herdeiro, se possível, nem de herança genética, filho de geração espontânea, para não lamentar, depois, compromissos de que não me regozijaria.

Peço perdão a todos pelo sutil arremedo de obra de arte, já que busquei enfatizar os problemas para além da possibilidade da existência real de personalidade tão bronca, tão estúpida. Saí, como se percebe, a meu pai e não me restabeleci da péssima influenciação dele.

Agora, pergunto:

— Deveria apresentar-me ao progenitor, acompanhado da mamãezinha, cujo paradeiro desconheço, para dizer-lhe que existo plenamente, que a morte apenas separa as esferas ou círculos, que trago as coisas no peito sem sentido, como se percebeu, afinal, depois de algum tempo de eu ter morrido, pela leitura de algumas páginas de um diabólico diário em que registrei os xingamentos que não disse?

Se alguém estiver pensando que meu estilo está afetado e que, sóbrio, diria a mensagem de maneira mais conveniente e mais clara, vá tirando o cavalinho da chuva... Estou fazendo o melhor que posso e olhem que venho amparado pelos melhores colegas, para que tudo possa ser transmitido conforme o original aprovado. Este que está aqui está por inteiro e, como disse, frio, enquanto estiver ditando, e absurdamente cônscio dos problemas conscienciais, enquanto escrevo.

Passo o texto como foi preparado, de modo que até este pedaço fui capaz de imaginar previamente, supondo que, pelo que observei, em relação aos companheiros, no momento da transmissão, estarei isento de emotividade, controlado pela energização do ambiente e submisso pela necessidade de não me esconder perante os mortais, que o que se passa no âmbito da equipe deve ficar demonstrado, para que se não pense que tudo tenha, durante os trabalhos, o viço dos textos acabados.

Finalmente, devo informar que não me deram oportunidade para improvisar, porque, talvez, não me definisse quanto a dar a meu pai os atributos que lhes reconheço existentes.

Trago muito ódio no coração? Nem resquício. Sinto-me, sim, desamparado da benquerença do velho, que, se reler as páginas surradas e rotas do caderno, poderá ver o nível da frustração que me causou e irá rezar por mim e me perdoar o fato de tê-lo deixado sem herdeiro e sem fortuna familiar perenizada.

Muito obrigado a todos. Espero que acreditem em mim e pensem muitas vezes, antes de fazerem as mesmas bobagens que fiz.

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