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Ensaios-->Fernando Pessoa: contexto histórico/ literário de sua vida -- 10/07/2005 - 15:08 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

QUESTÕES – literatura Portuguesa – Fernando Pessoa


1- Dissertar sobre o Futurismo e o Sensacionismo na literatura portuguesa , levando em conta os seguintes aspectos :
a) Suas definições e caracterizações,
b) Os contextos histórico-social e literário portugueses
c) Suas manifestações em Orpheu
d) Sua práxis na poesia e/ou na prosa

a) Pode-se afirmar o Futurismo em Portugal como uma vertente do modelo proposto pelo italiano Marinetti, que procurou romper com o passado e exprimir na arte o dinamismo do início do século XX - com a sua revolução científica em andamento. O Futurismo procurou ainda, em complementação a essa inspiração - que era uma inspiração com o futuro que se abria para o homem - propor novas formas para a poesia que em sua concepção preferiam a audácia à perfeição, a descoberta à certeza. Portugal compreendeu esse rumo e sua vertente futurista desvendou poetas como Almada-Negreiros e Santa Rita Pintor. O Futurismo português, aparece na revista Orpheu, no único número da revista Portugal Futurista, sendo nesta última que Álvaro de Campos publicou seu "Ultimatum" (1917)- um dos manifestos literários mais demolidores de todos os tempos - e em 1921, no manifesto futurista denominado “Nós” de Antônio Ferro.

Há, porém, uma estética diferente, um Futurismo original surgido também na Revista Orpheu por conta entre outras coisas de uma concepção de realidade diferente da percebida por Marinetti e isso devido - além de outros dados- à influência dominante em Pessoa - Campos, de Walt Whitman com sua consciência da pluralidade do “Eu”. Tal especificidade futurista ( um “eu” que vem a se conhecer e saber da sua própria fragmentação no real circundante de velocidade da era moderna), foi denominada por Pessoa como “Sensacionismo” e cuja evolução lançou a idéia de obtenção do volume total de qualquer coisa, tendo passado por outras hipóteses de construção como o Paulismo e o Interseccionismo.

b) Tais autores modernistas surgiram em um Portugal que vivenciava o fim da monarquia e o início da Republica, mudança que se deu de forma traumática, inclusive com assassinato, em 1908, do futuro rei D. Carlos I e seu herdeiro. A república impôs entre outras medidas: a perseguição à igreja com o fim de várias ordens religiosas que foram expulsas e tiveram suas propriedades confiscadas; a abolição do ensino de religião nas escolas primárias e a separação da igreja e estado. As estéticas modernistas conviveram ainda com o morticínio da 1a Guerra Mundial de 1914 a 1918 e viram Portugal, após várias revoltas, assumir um regime militar, eclodido em 1926, cujo homem forte era o ministro das Finanças, Antônio de Oliveira Salazar (Salazar governou Portugal até 1968).

c) Em Orpheu 3 encontramos a “Cena do Ódio” de Almada Negreiros, considerado por Gaspar Simões a peça que mais perto esteve da estética de Marinetti. De Fernando Pessoa/Campo temos as duas Odes: “Ode Marítima”, uma histeria de sensações e “Ode Triunfal” que manifesta o culto da modernidade tecnológica do Futurismo,

d) O Sensacionismo é a própria síntese do projeto estético da revista Orpheu. É o degrau máximo do Modernismo português enquanto vanguarda, pois o Sensacionismo não era excludente dos ïsmos" ( o Paulismo e o Interseccionismo) dos quais evoluira e que terminou por sintetizar.
Quanto ao Futurismo ele retoma também o sentido mítico do nacionalismo português, desconservadorizando-o. Ele reavalia esse passado mítico-nacional, retomando-o em uma simbologia de Portugal como singularidade cultural. Em outras palavras, o Futurismo serviu para operar em Portugal uma volta ao passado, não para negar a urgência do presente, mas porque dispondo desse modo - uma síntese no presente do passado místico e do nacionalismo – apontaria para o “Portugal Futurista” que é o estado capaz de aceitar o seu próprio cosmopolistismo.


2) Analisar o poema “Autopsicografia e/ou “Isto” relacionando-o(s) as idéias estéticas apresentadas por Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa está na origem de correntes literárias inovadoras que pretendem em seu limite ampliarem o nível de consciência dos leitores. Correntes que entraram para a história literária com os nomes de Paulismo, Interseccionismo e Sensacionismo, que podem ser consideradas complementares entre si.
O Paulismo é a libertação da imagem que desconsidera o encadeamento lógico-racional e de interpretação precisa da palavra concedendo à imagem a força de representação de alguma sensação sinestésica. O significante da imagem se apresentaria como essencial. O Interseccionismo, dentro de um processo evolutivo, seria a radicalização do Paulismo e procura através da palavra, constituída, representar referencialmente um objeto sólido. As palavras são objetos verbais, são idéias solidificadas porque relacionadas com a imagens de objetos, ou seja, a interseção entre palavras e imagens. No Sensacionismo a palavra é ela própria um objeto sólido, um objeto provocador de sensação, logo incorporado ao signo com o seu significado.
Sensacionismo é transformar a palavra em objeto sólido, é a concepção escultural de palavra. Não se trata de passar a sensação de representar um objeto sólido. Não se trata também, de preparar-se, no nível do significante, para provocar essa sensação. Trata-se de confundir-se com esse objeto sólido.
Numa carta a um editor inglês, Fernando Pessoa define da seguinte forma o Sensacionismo:
1- A única realidade da vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação.
2- Não há filosofia, ética ou estética, mesmo na arte, seja qual for a parcela que delas haja na vida. Na arte existem apenas sensações e a consciência que dela temos.[...]
3- A arte, na sua definição plena, é a expressão harmônica da nossa consciência das sensações, ou seja, as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objeto que seja uma sensação para os outros. [...]
4- Os três princípios da arte são: a) cada sensação deve ser plenamente expressa [...]; b) a sensação deve ser expressa de tal modo que tenha a capacidade de evocar - como um halo em torno de uma manifestação central definida - o maior número possível de outras sensações; c) o todo produzido deve ter a maior parecença possível com um ser organizado, por ser essa a condição da vitalidade. Chamo a estes três princípios a) o da Sensação, b) o da Sugestão, c) o da Construção.(Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, pp.137-138)
Citadas definições, que apontam a construção e a sensação como fundamentos do manifestar literário – o que é a própria teoria do Sensacionismo - estão bem condensadas nos poemas “Autopsicografia” e “Isto” . Nota-se nos dois poemas um aprofundamento do aspecto formal e consequentemente racional - reiterado até na descrição de uma máquina no primeiro poema e uma espécie de terraço no segundo - como um modo de captar e evocar de forma perfeita as sensações que ali são expostas: as calhas de roda que giram a entreter a razão sugerem a dor lida no qual o leitor se sente bem e aquela arquitetura diáfana - o terraço - adorna uma coisa linda que - o poema sugere - é a capacidade de sentir.
Assim a materialidade, como pressupõe o Sensacionismo, é o que determina as sensações presentes nos dois poemas citados, impressões que são intensificadas ainda por recursos construtivos, operados no nível de linguagem poética, como o desdobramento da palavra “fingidor” que se transforma ou se desvenda em outra expectativa como aquela que vislumbramos ao abrir uma caixa encontrando ali outra caixa e mais outra e sucessivamente, como o “fingidor” que se abre para o fingimento, para a dor do homem, para a dor da criação do poeta, para a dor lida enquanto palavra, para a dor do leitor, que no poema “Isto” sente porque lê.
3- Escolher dois dos heterônimos, destacar as principais características das suas obras poéticas e compara-las.

Alberto Caeiro é o poeta do desapego à toda filosofia; de uma mensagem única: aquela do misticismo de não querer saber, pois viver é não pensar nisso (poema XXX do Guardador de Rebanhos). É o poeta do olhar não habituado em relação ao mundo, da natureza vista não pela totalidade, mas pela particularidade “a natureza é partes sem um todo”- poema XLVII do “Guardador de Rebanhos”. É o poeta do presente enfatizado, do existir claramente e que afirma: “que me importam a mim os homens/ E o que sofrem ou supõem que sofrem? Sejam como eu – não sofrerão... E tenho o egoísmo natural das flores /E dos rios que seguem o seu caminho/ Preocupados sem o saber / Só com o florir e ir correndo...”. – Poema XXXII do “Guardador de Rebanhos

Ricardo Reis é o poeta de formação clássica, que supõe um maneira de encarar o mundo e permanecer vivo. Não pelo deslumbramento da sua existência clara através da consistência das coisas - como pretende Alberto Caeiro- e sim por um enfrentamento intelectual de seu estar no mundo; enfrentamento sustentado por teorias filosóficas como o Epicurismo e o Estoicismo que sugerem viver e gozar o momento, que felicidade é não sentir dor e o homem, pela disciplina, deve atingir uma condição de imperturbabilidade diante da certeza de ser um cadáver adiado que procria. Ricardo Reis, por influência de Alberto Caeiro, também apreende o mundo pela particularidade de cada coisa, contudo, ao contrário de Caeiro, não é a constância, a naturalidade das coisas, o que determina a essencialidade do mundo. O que importa seria a sua fragilidade.

4 – Propor um tema (natureza, mar, noite, morte, a criança, o rio....) e analisá-lo, buscando identificar como ele se integra à concepção poética do hortônimo ou de um dos heterônimos, a escolher.

As árvores, o vento, o rio, as flores, o pó das estradas, as pedras; tudo aquilo que pode ser detectável pelos sentidos integram a concepção poética de Alberto Caeiro. Esta idéia de concepção poética, contudo, parece sugerir um certo paradoxo dentro da obra do poeta, pois para Caeiro detectar as coisas através dos sentidos não significa ter teorias sobre elas. Um rio, por exemplo, se integra não a sua obra poética, a sua concepção artística, mas ao ser poeta que se percebe consciente de si através da existência daquele rio e ama a natureza. Alberto Caeiro então não busca um tema. Nada lhe traz reminiscências que justificariam algo confessional à maneira dos românticos. As coisas simplesmente estão na paisagem para se constatar que estão ali e passam e são belas para quem os admira. Sua poesia é a ausência de um projeto, além de mostrar a disposição do poeta em captar o que está a sua volta. Ele mesmo afirma que “penso e escrevo como as flores tem cor” - poema XIV do “Guardador de Rebanhos”. E se falamos de rio, no poema XX do “Guardador de Rebanhos”, Alberto Caeiro desmistifica até o “rio de sua aldeia” que por si carregaria um componente melancólico muito apropriado para a manifestação do eu-lírico. Alberto Caeiro afirma: “O rio da minha aldeia não faz pensar em nada./ Quem está ao pé dele está só ao pé dele”.

 

São Paulo, 25/01/14

* Eu publiquei dois livros que estão sendo vendidos na Livraria Cultura. Um romance vivenciado na periferia de São Paulo chamado "Deus, a ferida e a periferia" e um livro de contos sobre a infância durante a ditadura militar chamado "As crianças do general Médici".

Caso tenham gostado do trabalho acima, procurem também ler os dois livros.

Atenciosamente.

Paulo Fontenelle de Araujo

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