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Ensaios-->Análise "Diálogo sobre a conversão do gentio" -- 31/07/2005 - 22:50 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
USP - F.F.L.C.H - Universidade de São Paulo.
Literatura Brasileira V
Professor Dr. João Adolfo Hansen

Aluno: Paulo Henrique Coelho Fontenelle de Araújo
n. USP: 3710046














Tópico 2: “A língua deste gentio toda pela Costa é uma: carece de três letras – scilicet, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não tem fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente” (Pero de Magalhães Gandavo – Tratado da Terra do Brasil). Discuta a solução jesuítica dessa carência no Diálogo sobre a Conversão do Gentio, do Padre Manuel da Nóbrega.















São Paulo
Julho de 2005

A frase em destaque, de Pero de Magalhães Gandavo é quase auto-explicativa na ideologia exposta, porém está distanciada da solução jesuítica usada para as carências ali citadas. De fato, a frase ao destacar fonemas e signos de uma língua desconhecida para os tais gentios (os índios) que viviam na costa do Brasil, a quem se refere; ao diagnosticar a ausência de justiça e ordem daquela gente, por meio de significantes usados pelo português: não retrata o modo de vida dos tais habitantes do Brasil, pelo contrário, expõe de forma ostensiva a doutrina do colonizador a ser efetivada em toda a costa brasileira, cujo uso da tal língua desconhecida( a língua portuguesa) seria o principal determinante, ou seja, a frase desconsidera o modo de pensar do nativo e, nesse menosprezo geral, induz a aplicação de processos mentais europeus, que viriam com uma organização administrativa, com um Deus, um Rei e um idioma.

A frase também sugere uma grande dificuldade do colonizador – coisa digna de espanto - o que se pode inferir que a lei, a fé e o respeito ao Rei somente seriam implantadas naquelas terras, através da ausência de hesitação, com todo o vigor e determinação possível.

O texto Diálogo sobre a Conversão do Gentio, do Padre Manuel da Nóbrega, mantém sintonia com a frase de Magalhães Gandavo, apenas no ponto em que demonstra as dificuldades na empreitada colonizadora, mas também enfatiza que a Companhia de Jesus - cujos ideais de defesa da fé católica eram pautados por uma rígida disciplina de influência militar – poderia satisfazer as expectativas e com um diferencial: a efetivação da conversão dos gentios, por parte dos jesuítas proporia um método, que tinha na praticidade a sua maior garantia e isso sem jamais desconsiderar a civilização indígena representada na sua língua, usada para os propósitos de evangelização.

Nesse ponto então - da prevalência de certos aspectos da cultura indígena - a atividade jesuítica se distancia do significado implícito na frase de Magalhães. De fato, para Nóbrega, havia a lei de Portugal, havia o rei português, mas havia também o lema jesuítico Ad Majorem Dei Gloriam ("Para a maior glória de Deus”) e para tanto tudo seria usado para cumpri-lo. O próprio título do livro já verifica a intenção do autor e a determinante religiosa: não é um diálogo para conversão de “súditos”, mas para conversão dos gentios, gente sem religião, que desconhece a bíblia e a vida de Cristo.

No texto, o jesuíta parte da verificação pessimista, dá as razões dela, para concluir com verdadeiro otimismo e aberta simpatia para com os índios. Contudo, aqui importam as soluções para o problema da conversão, ou seja, como Nóbrega explica a sua fé e as exigências dessa virtude. Como operacionaliza a adoção do cristianismo, na solução da carência de Deus, sinalizada pela frase de Gandavo, sem corromper padrões culturais importantes da sociedade indígena.

O texto narra o diálogo entre um jesuíta e um ferreiro. “Diálogo” é um gênero literário em que o autor simula uma palestra ou debate entre personagens reais ou fictícios para comprovação de algo. Tal definição nos remete a filosofia grega ou, por decorrência, a Santo Agostinho, cujas teorias estão dissimuladas, em virtude das características do gênero e até da simplicidade dos personagens adotados por Nóbrega.

Santo Agostinho, aliás, concebeu a idéia da cidade de Deus. Amando-se uns aos outros no amor a Deus, os cristãos, embora vivam nas cidades temporais, constituem os habitantes da eterna cidade de Deus. Na aparência, ela se confunde com as outras, como o povo cristão com os outros povos, mas o sentido da história e sua razão de ser é a construção da cidade de Deus, em toda parte e todo tempo. Santo Agostinho acha que o homem é uma alma que faz uso de um corpo.

Assim, a questão primeira da conversão objetivada no texto, seria antes o conhecimento de Deus pelo homem e isso através da sua alma feita à imagem e semelhança de Deus. Alma capaz da glória e de uma salvação a ser alcançada. ( O texto afirma que para Deus a alma do Papa tem o mesmo valor da alma de um índio ).

Nóbrega expõe, inclusive, na reafirmação do nivelamento espiritual do homem diante de Deus, a idéia de que cada alma possui três potências: entendimento, memória e vontade Acredita que os índios possuem tais potências e, mais do que isso, os índios são próximos e é a simples proximidade, o que determina a humanidade daqueles gentios pelo cumprimento do preceito de Jesus: amar o próximo como a si mesmo.

Tal fundamento (o da humanidade do índio a ser alcançada pelos desígnios de Deus) é exposto diversas vezes no texto, tornando-o coeso como projeto religioso e também literário. O projeto religioso, aliás, tem nas Escrituras a sua referência inexorável, o que, na ótica do autor, isenta-o de possíveis controvérsias, como, por exemplo, na parte que afirma: “Todo homem hé huma mesma naturezam e todo pode conhecer a Deus e salvar sua alma, e este ouvi eu dizer que era proximo. Prova-se no Evangelho do Samaritano, onde diz Christo N.S. que aquelle hé próximo que usa de misericordia”.

Nóbrega ainda, supera a questão da alma nos índio - cuja tese da inexistência considerava o seu comportamento selvagem como prova - comparando-o aos judeus, romanos e gregos, que em antigas gerações também procediam de forma bestial, com a adoração de pedras, bois, vacas, bezerra de metal, “ratos e outras inmundicias”. E mesmo as ciência e filosofia criadas por tais gentios, não podem ser dados comparativos, que denotassem uma superioridade em detrimento ao conhecimento dos índios, mas apenas uma graça concedida a poucos homens e que toda a humanidade poderia aproveitar. Nóbrega supera a questão e introduz o dado do merecimento da salvação pela simplicidade do índio, um ser sem soberba e sem a malícia dos hereges.

Da questão da humanidade do índio, Nóbrega parte mais para o convencimento dos missionários, cujas razões não destoam das mesmas razões as serem usadas para a conversão dos gentios do Brasil. Os missionários devem praticar a boa ação da evangelização e isso para salvar a sua alma e atrair os gentios pelo bom exemplo. Devem, em suma, praticar a boa ação com fervor, amor e diligência. Aliás, na concepção da igreja católica, o que salva a alma do homem é a sua fé e as boas ações. Os protestantes julgam os homens apenas pela intensidade da fé.

Nóbrega assim afirma a unidade de Deus em relação a todos os homens, justifica a prática evangelizadora pelo merecimento tanto do convertido quanto do conversor, restando apenas a aplicação da fé jesuítica que ocorre através do uso da língua e da educação da criança indígena. De imediato, o texto exemplifica o seu aproveitamento quando os personagens informam que “sim” significa “pâ” e “não” significa “aani”. Tal informação é assaz importante, pois o sim e o não, determinam o certo e o errado, o mal e o bem. Evangelizar índios seria faze-los entender o “pâ” e o “aani” pela ótica do jesuíta. Isso é o princípio do método, que pode ser caracterizado pelo didatismo. E o uso da língua é o diferencial em relação a frase de Gandavo.

Por fim, na educação da criança indígena fecha-se o método e demonstra a percepção dos jesuítas na solução do problema da conversão, que é admissão de um lado prático diante de uma situação adversa. Tal praticidade, aliás, está implícita, em uma das manifestações do personagem Matheus Nugueira quando afirma “... e vós quereis e os padres, sem fazer milagres, sem saber sua lingoa, nem entender-se com elles, com terdes presumssão de apostolo e pouca confiança e fee em Deus, e pouca charidade, que sejão logo bons christãos?”

Tal lado funcional pode até ser percebido na supressão por parte dos Jesuítas de práticas tradicionais, como a assistência diária ao ofício litúrgico no coro ou determinadas penitências e jejuns. Em troca, dava-se ênfase à obediência, reforçando o princípio da autoridade e da hierarquia e introduzindo um voto especial de obediência ao papa.
Assim, a resposta para a solução das carências levantadas na frase de Gandavo, é a própria atividade intelectual, pedagógica, missionária e assistencial dos jesuítas em nome de Deus e que - pelo texto percebe-se - deveria realizar-se a qualquer custo.
Ainda com relação ao texto de Nóbrega, e para finalizar breve presente análise, junte-se as considerações do Padre Serafim Leite, S. J. sobre o mesmo: "Sob o ponto de vista estritamente literário, nenhuma produção do século XVI, escrita no Brasil, possui o vigor concentrado desta, de fundo sério, de ética social e religiosa, sem assomos de mau gosto ou leviandade. Tudo bem proporcionado com transições dialogais expressas com naturalidade. E sem retórica"

BIBLIOGRAFIA:

SERAFIM Leite, S. J. CARTAS dos Primeiros Jesuítas do Brasil – Diálogo sobre a Conversão do Gentio do Padre Manuel da Nóbrega – Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo.

SERAFIM Leite, S. J. Breve História da Companhia de Jesus no Brasil – Braga – Portugal: Livraria A.I

Comentários

João Jorge Peralta  - 21/05/2017

Excelente texto, não só para compreensão do "Diálogo sobre a conversão do gentio", mas para conhecermos o contexto do processo de evangelização (catequização) - objetivo dos padres, e do processo de colonização em execução pelos portugueses de quinhentos.

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