Usina de Letras
Usina de Letras
   
                    
Usina de Letras
86 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 55221 )
Cartas ( 21066)
Contos (12156)
Cordel (9592)
Crônicas (21295)
Discursos (3112)
Ensaios - (9914)
Erótico (13140)
Frases (40122)
Humor (17564)
Infantil (3566)
Infanto Juvenil (2310)
Letras de Música (5416)
Peça de Teatro (1311)
Poesias (135853)
Redação (2879)
Roteiro de Filme ou Novela (1035)
Teses / Monologos (2375)
Textos Jurídicos (1913)
Textos Religiosos/Sermões (4226)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Ensaios-->QUESTÕES DE GÊNERO E FOLCLORE -- 04/09/2005 - 08:55 (Thelma Regina Siqueira Linhares) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
QUESTÕES DE GÊNERO E FOLCLORE (*)
Thelma Regina Siqueira Linhares (**)


Com o aparecimento do primeiro homem e da primeira mulher, as especificidades de gênero vêm sendo construídas e reconstruídas ao longo das diferentes culturas e sociedades humanas. Mas foi no último século, caracterizado por novos conhecimentos científicos, uma infinidade de invenções tecnológicas e um cem número de transformações sócio-culturais, que as relações de gênero começaram a ser questionadas, desequilibrando o status quo, do relacionamento homem-mulher no planeta Terra. E, assim, interferindo, modificando e reinventando a própria história da humanidade.

O tema desta micromonografia foi escolhido a partir da evolução observada nos absorventes higiênicos. Das toalhinhas higiênicas e dos primeiros absorventes presos em cintos com presilhas e calcinhas plásticas, da década de 70 aos atuais absorventes, aderentes, com ou sem abas, anatômicos, fininhos, seguros, há um passo largo em prol da higiene e da comodidade feminina, inegavelmente. E, como uma coisa puxa outra, a curiosidade de pesquisar o universo do folclore feminino foi aguçada. Como mulheres vivenciam conceitos e preconceitos assimilados em outras etapas de vida? Como tabus, superstições e crendices são incorporadas pelas jovens da era da informática? Como e o que, desse rico conteúdo folclórico, serão absorvidos pelas gerações futuras?

Na expectativa de encontrar respostas para esses e outros questionamentos, foi iniciada uma pesquisa bibliográfica e de campo, no ano de 2002. Os primeiros dados coletados permitiram uma versão preliminar publicada na revista on line Jangada Brasil,
nº 44, em abril de 2002, com o título de Coisas de Mulher e Folclore. (www.jangadabrasil.com.br). Destaque especial para as superstições e crendices ligadas à fertilidade feminina. Menstruação, gravidez, enjôo, sexo do bebê e parto foram temas abordados e exemplificados, então.

Agora, o tema em foco é retomado em um novo texto, revisto e ampliado, objetivando uma abordagem folclórica mais detalhada e definida nas relações de gênero. Para direcionar didaticamente esta micromonografia, foram consideradas as diferentes fases da fisiologia feminina a saber: menina, menina-moça e mulher.
Fica disponibilizado, por tempo indeterminado, o e-mail folcloremulher@bol.com.br para eventuais colaborações, sugestões e críticas. Sempre bem-vindas!

Menina
A infância teve tratamento especial no século XX, objetivando minimizar distorções, garantir direitos, assegurar cidadania, embora, ainda, muito a construir. O Estatuto da Criança e do Adolescente e os Conselhos Tutelares são alguns dos instrumentos políticos que revelam um novo olhar a esse segmento da vida humana. E sob o amparo legal.

No contexto social do ambiente familiar, quanta transformação! Cabia à mulher
– mãe, babá e, anteriormente, mucama – a socialização dos fatos folclóricos e do saber socialmente necessário às novas gerações, em seus primeiros anos de vida. Com a modificação dos papéis sociais da mulher-mãe, agora mão-de-obra responsável, também, pelo sustento e sobrevivência da família, é a escola de Educação Infantil (antigo pré-escolar) e a de Educação Fundamental (antigos 1º e 2º graus), que cabe tal função social. Incluir em suas atividades pedagógicas cotidianas a prática das brincadeiras populares, por exemplo, como componente socializador de meninas e meninos, é uma medida eficaz para o aprendizado do folclore entre as crianças brasileiras. E, assim, novas relações sociais vão sendo estabelecidas, novos conceitos e saberes vão sendo construídos.

Usar roupas de cor rosa, só no enxoval da menina. Brincar de casinha e utensílios do lar, artesanalmente feitos ou produzidos em indústrias. Panelinhas de barro, miniaturas de aparelhos domésticos, industrializados, às vezes, com funções reais disponíveis. Boneca de pano – as antigas e populares bruxinhas – as variadas versões da Barbie e todos os seus sonhos de consumo. São alguns exemplos da vivência do folclore na fase mulher-menina. Os bonecos de super-heróis, másculos e viris, ficam para os meninos... Dentre as brincadeiras populares próprias do sexo frágil, figuram: pular amarelinha ou academia, corda, elástico (popularizado na década de 90), passar anel e brincar de roda. Histórias da carochinha, bruxas, fadas e príncipes surgem na infância e acompanham os sonhos da menina-moça e, às vezes, até as fantasias da mulher madura, vida à fora. Soltar papagaio ou pipa, ainda, é tabu entre as meninas. Como jogar bola de gude e soltar pião. Jogar futebol, aos poucos, vem quebrando resistências, incentivado por seleções femininas mundiais, inclusive, nacionais. Afinal, somos penta-campeões masculinos de futebol e derrubar preconceitos é preciso. Jogar capoeira, tocar instrumentos de percussão já refletem alguma mudança de comportamento da relação homem/mulher, pela crescente popularização entre meninas e jovens, em especial, na periferia das cidades.

Menina-moça
O corpo da menina, mais cedo que no menino, passa a sofrer transformações. A puberdade começa e, em breve, dá lugar à adolescência. Rebeldia. Transgressões sociais. Novas descobertas. Tudo tem a ver com a adolescência que quer, logo logo, definir e ocupar seu lugar no mundo. É a época, inclusive, do surgimento de cravos e espinhas – o terror da menina-moça. Para acabar com esse mal, duas receitas, dizem, infalíveis: passar na área afetada pela acne, a primeira urina do dia ou o mênstruo do primeiro dia da menstruação. Em ambos os casos, deixar agir por alguns minutos, lavando com bastante água e o sabonete de uso diário. Repetir uma ou outra receita até atingir os objetivos... Recomendado, igualmente, para os adolescentes, no caso da primeira urina.

A virgindade, tabu de milênios e posta em cheque há algumas décadas, com a liberação feminina e o advento da pílula, entre outros, tem seu quinhão folclórico, também. Um método, inquestionável de provar a virgindade da donzela: pegar um cordão, cujo tamanho é obtido pelo dobro da medida do seu pescoço. Segurando as duas pontas do cordão nos dentes, tentar passá-lo pela cabeça. Se não conseguir, a jovem, ainda, é virgem.

Talvez, nessa fase biológica da mulher, a prática das superstições de caráter amoroso do ciclo junino sejam mais comuns. Especialmente, no dia dos namorados, véspera de Santo Antônio, o santo casamenteiro celebrado a 13 de junho, jovens namoradeiras, mal-amadas ou encalhadas, buscam desvendar em adivinhações, crendices e superstições diversas, o futuro amoroso que as aguardam. Rezando, lentamente, a oração Salve Rainha, deixa-se pingar a vela num prato ou bacia, virgem, com água, até “mostrai-nos!”. A letra que for formada será a primeira letra do futuro namorado, quiçá marido de um amor eterno.

Mulher
A mulher, especialmente, pós século XX, jamais será a mesma. Sua posição e papéis sociais foram, sensivelmente, modificados na maioria das sociedades humanas. No mínimo, um ouvir falar, documentado e propagado pelas antenas dos meios de comunicações, cada vez mais modernos, rápidos e globalizados. Muitas foram as invenções colocadas a seu dispor e que tiveram como conseqüência a evolução/revolução do seu papel sócio-cultural, até então, de sexo frágil. Absorvente, pílula anticoncepcional, camisinha, inclusive, feminina. AIDS. Mini-saia, silicone, carro, celular, aparelhos domésticos. Igualdade de direitos ao homem, garantida pela Constituição. Trabalho fora. Estudo. Direito à escolha do companheiro, divórcio, inseminação artificial, produção independente, desestruturação familiar. Pequenos ou grandes fatos que permitiram à mulher assumir novos e outros papéis na sociedade, além daquele milenar, de mãe e dona de casa, já sacramentados em todas as sociedades, desde o aparecimento da humanidade e a especificidade de gênero.

Algumas questões de gênero refletidas em diferentes manifestações folclóricas:

Gírias
O período menstrual recebe vários nomes, dependendo, inclusive, da classe social e faixa etária da mulher: boi, tá de boi, bezerra, Chico, estar com regra, incomodada, regrada, estar doente, mulher doente, estressada, nervosa e, mais recentemente, TPM.

Mitos e Tabus
Dar um filho ao marido, ser responsável pela concepção ou não de um novo ser, ter mais dever que prazer sexual, etc., permanecem como coisas de mulher.
Estar sempre “pronto” para o ato sexual, se preocupar com o “tamanho dos documentos”, fazer parte da natureza masculina, etc., continuam entendidas como coisas de homem.

Tabus Alimentares
Mulher grávida se comer "banana-gêmea" terá filhos gêmeos.
Ovo batido por mulher grávida cresce mais.
Ovo batido por mulher menstruada não cresce.

Crendices e Superstições
À mesa, caindo um talher, chegará uma visita próxima. Se for um garfo será um homem, se for uma faca, mulher. Também, quando se bota na mesa uma xícara de um tipo e o pires de outro, não se deve aceitar, para não ser mal-casado(a).

Frases feitas / Ditados Populares
Com mulher de bigode, nem o diabo pode.

Em casa que mulher manda, até o galo canta fino.
Entre marido e mulher, não se mete a colher.
Marido de mulher feia não gosta de feriado.
Mulher alheia é como árvore, só dá galho.
As três melhores coisas da vida: cerveja gelada, boi na invernada e mulher pelada.
As três piores coisas da vida: cerveja quente, boi doente e mulher da gente.
Mulher macho, nem o diabo pode.

Legendas de caminhão
Mulher bonita na beira da estrada é como música de carnaval, fácil de ser cantada.
Mulher de amigo meu é que nem cebola: eu como chorando.
Mulher de casa é igual a galinha de granja: gorda e sem gosto.
Mulher e cachaça em todo lugar se acha.
Mulher e café, só quente.
Mulher é como caju que se aproveita até o caroço.
Mulher é como parafuso, que tem cabeça mas não pensa.
Mulher feia e cheque sem fundo, protesto.
Mulher feia e frete barato eu não carrego.
Mulher feia e urubu comigo é na pedrada.
Se mulher fosse dinheiro havia muita nota falsa.
Coração de mulher é igual a lotação: sempre cabe mais um.

Piadas
Mulher tem que saber contar só até seis, pois não existe fogão de sete bocas.
Sabem quando a mulher vai ganhar seu lugar ao sol? Quando inventarem cozinha com teto solar!

Conclusão:
As questões de gênero são construídas através das muitas instituições sócio-culturais que compõem uma dada sociedade, entre elas, o folclore. Estão sujeitas à aculturação e apropriação de conhecimentos, à dinâmica de construção e evolução de saberes, à definição e reestruturação de status e papéis sociais, inclusive. Estão carregadas de uma forte dose de preconceitos, tabus e discriminações contra a mulher e a favor do homem, largamente difundidas ao longo de milênios da história da humanidade, refletidas no pensar, sentir e agir do povo. No aqui e agora, as relações sociais entre sexos encontram condições favoráveis para serem revistas, ampliadas, transformadas, retificadas ou ratificadas, conseqüentemente, tornam-se mais dinâmicas e mutáveis, neste começo do século XXI.
Fazendo parte do que é construído histórico-social e culturalmente e, não simplesmente, determinada pela natureza humana, as relações de gênero possibilitam a sua própria construção e reconstrução cotidianamente. Pela educação. Pela cidadania.


Referências Bibliográficas:
CASCUDO. Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro.
MELLO. Luiz Gonzaga de. Mulher, Comparação e Machismo. FUNDAJ. Folclore 163.
SOUTO MAIOR. Mário. Os Mistérios do Faz-mal. 20-20.
LINHARES. Thelma Regina Siqueira. Coisas de Mulher e Folclore. Jangada Brasil.
nº 44. abril/2002. (www.jangadabrasil.com.br)

(*) Publicação FUNDAJ - Fundação Joaquim Nabuco. Série FOLCLORE, nº 305, Agosto/2005. Recife/PE.
(**) Professora e Pesquisadora de Folclore.
Comentários

O que você achou deste texto?       Nome:     Mail:    

Comente: 
Informe o código de segurança:          CAPTCHA Image                              

De sua nota para este Texto Perfil do Autor Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui