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Ensaios-->46. 25.o Relato — CONSCIÊNCIA DESPERTADA -- 26/01/2004 - 07:13 (wladimir olivier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
WLADIMIR OLIVIER

Hoje, eu queria ficar de bem com o mundo. Por muito tempo caminhei nas trevas, espezinhando e sendo espezinhado. Mas foi tudo em vão e parecia não ter mais fim. Hoje, gostaria de ter paz para pensar na vida, no que fiz, no que sou, para onde vou. Sei que este momento de repouso está sendo patrocinado por diversas entidades de muita força e de muita luz e que, em pouco tempo, voltarei a terçar armas com as entidades malignas do báratro.

Dizem que posso evitar o entrevero. Bem que gostaria de ser orientado para isso. Pois me entrego inteiramente às mãos tão benignas destes amigos de última hora.

Vou narrar algumas passagens de minha longa vida, esclarecedoras do porquê estive imerso na escuridão por tão longo tempo, embora ilustrado fosse das letras humanas.

Nasci em berço pobre mas ascendi na vida mercê de bom casamento. Tal como a amiguinha de ontem (ver “24.o Relato — A Caminho da Liberdade”), eu também tive o ensejo de possuir físico e fisionomia privilegiados, mas, ao contrário da irmãzinha, subi na vida e instalei-me confortavelmente no dinheiro. A fortuna que a esposa trouxe como dote, pude multiplicá-la à custa de algum trabalho, de um bom esforço, mas também de muita sorte.

Pude freqüentar muitas casas ricas, entrando pelas portas dos fundos, trazido pelas mãos das matronas. Muitas ofereceram-me as flores murchas de suas vidas, outras, frutos serôdios de afeições tardias, todas com muito dinheiro e importantes influências. Nunca esbanjei do que fosse meu e sempre atendi com muita energia aos reclamos de vida de todas.

Tento expressar-me metaforicamente, mas o que realmente fui foi boneco de luxo com que brincavam as irmãzinhas frustradas por vida vazia de valores morais. Eu mesmo, um pobretão nesse sentido, fiz por valer-me dos atrativos físicos.

Em suma, acabei rico e sozinho, pois minha esposa me deixou tão logo percebeu para onde me encaminhava. Sozinho, propriamente não, porque herdei dois sobrinhos de infeliz consórcio matrimonial de minha irmã, os quais prometi educar. Foram a minha perdição.

Deveria ter escrito “salvação”, se me tivesse circunscrito a tão-só dar-lhes educação formal e os encaminhado para profissões dignas. O que fiz com eles, no entanto, valeu-me bons anos de estadia nas prisões do Umbral. É que os desencaminhei, integrando-os no meu quadro de pervertidos.

Um deles efeminou-se por conveniência e passou a ganhar a vida como “michê”, mistura de homem e mulher, fazendo de tudo um pouco na alta-roda. Terminou tuberculoso, pois se descuidou da saúde. O outro intentou seguir-me os passos, pois precisava de alguém que me socorresse quando várias aventuras concomitantes exigiam o meu concurso.

Quero deixar claro que não pretendo vangloriar-me como pretenso Casanova, mas meu intuito é esclarecer o quanto sofri por ter optado por essa vida chã e aparentemente luxuriante.

Quando parti para cá, encalacrado por execrável doença venérea, destinei todos os haveres para o sobrinho que restava, o qual deixei com a recomendação de que prosseguisse intimorato na caminhada encetada, expandindo, se possível, os negócios, contratando rapazes e moças; enfim, dando ares de empresa ao sujo negócio que iniciara.

Sei bem agora que andei totalmente errado. Do lado de cá, pude verificar “in loco” os estragos que causei a numerosos seres que, pervertidos iguais a mim, me acusavam de inúmeros crimes que, na hora do prazer e do desempenho daquilo que tivera por profissão, não me passaram sequer pela cabeça.

Um dia, defrontei-me com jovem suicida que encontrara em vida ávida por aventuras e que, por meu intermédio, adquirira a doença das cruzes, tendo-a transmitido ao marido. Esse enovelar de acontecimentos resultou em acusações mútuas, em ameaças cortantes, até que redundou na fatídica ocorrência.

Sempre soube que a responsabilidade dos atos é de quem os pratica. Eu mesmo, ao consultar as freguesas, procurava inculcar-lhes na mente que o que faziam corria por conta exclusiva delas, não só no aspecto financeiro, mas também no que respeita às conseqüências sociais, familiares e morais. Só depois de constatar que se tratava de pessoas responsáveis é que cumpria o contrato.

Com aquela jovem não fora diferente, só que me enganou quanto à firmeza de caráter. O que estava fazendo era vingar-se do marido por causa de certa aventura extraconjugal, de sorte que o caso acabou sendo estranho a tudo o mais que pratiquei na vida. Devo, para ser honesto, dizer que me engracei pela referida jovem, o que me deve ter toldado o julgamento.

Dizem-me que o procedimento está devidamente esclarecido e solicitam-me que narre alguma ocorrência mais que considere útil para a compreensão da pena que sofri tão miseravelmente na escuridão.

Certamente, devo ter tido procedimento indigno com determinados indivíduos que tentaram enganar-me, como policiais que se julgavam no direito de extorquir-me dinheiro, como entrevistados que exigiam certas atitudes menos dignas e que reputava de desvios de personalidade e, por isso, partia para a agressão física.

Em certo ponto da vida, cerquei-me de defensores para premunir-me contra ataques inesperados de inimigos gratuitos que aspiravam a me tirar os pontos de drogas, pois mantive algum contacto com traficantes. Ciente dos compromissos que esses indivíduos exigem serem cumpridos, mantinha distância conveniente, de modo a só fornecer drogas aos clientes viciados. O que me interessava realmente era o arranjo sexual; era o que me dava mais dinheiro. Hoje vejo que tudo concorreu para meu despautério espiritual.

Sei que minha atitude pode parecer suspeita porque escrevo estas linhas com ampla desenvoltura, como se dominasse inteiramente o intelecto e a vontade. É bem verdade que sempre fui calculista e que os últimos anos dediquei à vida artística, para granjear fama de mecenas e fazer-me rodeado de pessoas gradas e abonadas. Eduquei-me para isso, pois facilidade e certo brilho intelectual sempre tive. A palavra sempre me foi fácil e os trejeitos sociais deram-me o verniz que faltava e que não trouxera do berço.

Pareço, dizendo isso, que tenho aguçado espírito e que conheço em profundidade a magia de convencer as pessoas. A verdade é que descobri, finalmente, que tudo o que fiz se deveu a profunda vaidade, imenso egoísmo e arraigado espírito materialista. Um pouco só que me tivesse dedicado, ao início da vida, às conquistas morais e à compreensão das verdades evangélicas, certamente outro teria sido o meu destino, pois arguto eu fui, tanto que posso desfiar perante os irmãos e os possíveis leitores, pois sei que não estou escrevendo em vão e sei bem qual será a utilidade deste escrito, série imensa de raciocínios que me levariam fatalmente a concluir pela minha falsidade e pela urgente necessidade de mudar de conduta.

Não bastasse isso, com a desculpa de integrar grupos de baderneiros, saí à cata de aventuras na face da Terra, sempre voltado para os centros espíritas, onde ia com o intuito aparente de badernar, mas com a intenção profunda de investigar o que lá se fazia que tanto interesse despertava junto às entidades superiores. Não que as visse ou pudesse analisar, mas era visível a força e o poder que tinham de afastar as entidades que se diziam importantes.

Devo confessar que aprendi a rezar com mamãe, mas nunca me atrevi a formular as sacratíssimas palavras, com medo de trair meu verdadeiro íntimo e com o receio de revelar à opinião dos espíritos superiores quem realmente sou. Por isso, calei a voz e procurei sondar o coração.

Hoje me apresento espontaneamente a este grupo, pedindo que me acolha e que me proporcione algum sossego à alma. Sei que muito pequei e assim me confesso. Sei que meu coração está pejado de crimes e que vozes se fazem audíveis, convocando-me para as trevas. Sei que, se lágrimas me escorrerem pelas faces, terão certamente o cunho da mentira e da malícia. Sei que não mereço fé e que não se poderá confiar em mim, pois o meu passado me condena.

Mas, pelo amor de Deus, eu rogo, coração na mão, outra oportunidade de vagar pelo mundo da carne na companhia de parceiros encarregados dos serviços do socorro, de modo que se possa ver se estou apto para resolver os meus problemas através do trabalho. Se desmerecer da confiança, podem arremessar-me de volta às feras que me perseguiam no fundo do claustro de dor que se tornou o meu pobre coração.

Antes que eu mesmo me perca diante de tão generosa confraria, permitam-me agradecer a todos a acolhida e demonstrar ao mestre que apanhou o ditado o mais acalentado desejo de que o seu serviço possa ser reconhecido e você, bondoso amigo, guindado às esferas superiores, que, sei, são o seu destino.

Otávio.



Comentário

O irmãozinho Otávio tem a convicção íntima de que os seus crimes sejam menores e de que já tenha pagado por todos eles. Em sua inocência, sugeriu ao “mestre” que desse o título de “Consciência despertada” para sua brilhante confissão.

Ignorou, na realidade, quais sejam as virtudes, embora pudesse enumerá-las todas, uma a uma, saltando da mente com o frescor de tenra verdurinha recém-apanhada na horta. Mas suas hortaliças estão contaminadas pelos produtos industriais com que pretendeu afastar os incômodos insetos.

Se estamos floreando o estilo, é para demonstrar que também temos a faculdade de burilar o texto, de modo a fazer indiretamente a anotação que a dura linguagem crítica costuma expor, como ocorre com as chagas e pústulas leprosas que os mendigos exibem à contemplação pública, no intuito de promover a compaixão dos transeuntes. Eis o que, na realidade, ocorreu com o texto do irmão.

Não estamos, ao dizer isto, negando-lhe afeto, interesse e mesmo amor; ao contrário, bom pai sói ser aquele que molesta o filho, prevenindo-o contra os males que venha a praticar ou favorecer.

Queira Otávio recompor-se e exibir seu verdadeiro caráter, se, deveras, deseja prosseguir merecendo e usufruindo a ajuda deste grupo.

Saiba que aqui o trouxemos por influenciação intuitiva e não porque assim tenha determinado por alvitre próprio. Saiba, também, que não foram só inimigos os que buscaram por seu espírito vagabundo e errático nas trevas, mas houve quem desejasse vê-lo a salvo das garras dos inimigos, principalmente daquele monstro que lhe coube apontar ao final da manifestação, ou seja, você mesmo.

São figuras de mulher, mas não daquelas que você tratou como freguesas ou comparsas. Estão aqui a sua mãe e a sua irmã, havendo até criatura que você desconheceu em vida, mas que teria sido sua filha, se você não patrocinasse o aborto criminoso que lhe tirou a possibilidade de encarne expiatório. São criaturas que querem vê-lo restabelecido e livre do peso das maldades que praticou.

Para poder obter tal auxílio, caro amigo, deverá desvestir-se de seu aparato mítico, ou seja, deverá deixar de criar imagens e ilusões de vida, mas procurar enfrentar de peito aberto a verdadeira pessoa que você é, para, então, poder comparecer de novo a esta mesa de manifestações mediúnicas, para escrever verdadeiramente texto que possa levar por título “Consciência despertada”.

Diante de toda sua verborragia e capacidade de utilização proficiente dos termos sagrados da língua, busque elucidar-nos de suas reais intenções e disponha-se a seguir-nos, não para percorrer as ruas em busca de trabalho, mas para hospital de restauração dos verdadeiros princípios evangélicos, de que você se diz conhecedor mas dentre os quais ainda não logrou pôr em prática qualquer deles.

Você terá o tempo que quiser para pensar, mas isto deverá fazê-lo recluso em prisão domiciliar, se assim podemos chamar o retiro para onde será guiado. Saiba que os mínimos pensamentos ficarão indelevelmente registrados nas paredes sutis do estabelecimento e que servirão para que verifiquemos o momento exato em que estará apto a enfrentar os trabalhos de restauração perispiritual. Caso não obtenha sucesso, será devolvido ao Umbral.

Estamos dando-lhe todos os informes, para que não venha a acusar-nos mais tarde de termos sido injustos ou desonestos. Tudo ficará em suas mãos. Adeus, irmãozinho! Esperamos em Deus que saiba escolher o caminho do Senhor!



Ao leitor, deveríamos agora estender-nos em profundas explicações. Não vemos, contudo, conveniência em esclarecimentos que facilmente poderão ser encontrados nas obras do irmão Kardec ou na perlustração da coleção de André Luís. Para nós, basta esta indicação de caminho e a recomendação de que analise detidamente o texto de nosso Otávio e veja se não se sente tentado, lá no fundo do coração, a apor a sua assinatura, como se fora a mensagem o resultado de suas expectativas profundas de bem viver a vida na carne.

Queira Deus, bom amigo, que se sinta mais propenso a assinar esta nossa comunicação, de sorte a demonstrar cabalmente que foi capaz de compreender os deslizes do amigo e o remédio que propusemos. Oremos todos para que assim seja.



Ao irmão médium, rogamos desculpe-nos ter trazido espírito tão malicioso. Cremos que você estará dentre os que optarão por deixar o nome ao lado no nosso. Muito obrigado por tudo e fique na paz do Senhor!

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