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Artigos-->Como construir leitores capazes de autoria? -- 29/03/2012 - 14:44 (Carlos Rogério Lima da Mota) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Desenvolver as competências leitoras e escritoras nos alunos é algo extremamente complexo, pelo fato dos alunos estarem rotulados a um esquema arcaico, baseado na leitura de textos previamente selecionados pelo professor e na resposta automática de um elenco de indagações apresentadas no livro didático, cujas respostas também seguem uma estrutura de raciocínio padrão, estável, literalmente ancorada na ignorância daqueles que compreendem o ensino apenas como um jogo de signos móveis que servem apenas como facilitares da transmissão de um conhecimento pronto, incapaz de se alternar no tempo e na história e de ganhar algum sentido no imaginário do educando.



Assim, a escola moderna precisa quebrar urgentemente estas amarras e facilitar a introdução de mecanismos pedagógicos que garantam ao aluno a possibilidade de se ler um texto e dele extrair significados variados - não apenas o do professor e do sistema dominante, para que a partir destas leituras, ele seja capaz de moldar os próprios argumentos, tornando-os críticos e necessariamente responsáveis, como almeja a sociedade atual. Aliás, um texto, como um desses quebra-cabeças, só ganha algum sentido no imaginário do estudante se for capaz de ativar os conhecimentos prévios essenciais para relacionar o que se lê com a realidade de quem lê. Se não puder ser decodificado pelo aluno-leitor como obra de valia cultural, o mesmo cairá em desuso, sendo relegado aos fundos de um baú qualquer.



O efeito que se espera de um texto é que ele desperte na criança o desejo pela leitura, e que esta mesma leitura ative outras habilidades que instiguem o senso crítico e a percepção de que o mundo não se resume apenas ao posicionamento unilateral – no caso, a do professor, mas ao multilateral, comumente alicerçado pelos formadores de opinião que margeiam a sociedade.



E seguindo este roteiro, o Colégio Espaço Verde Rousseau, no município de Cotia, na grande São Paulo, criou o projeto "Livro coletivo", cujo mote foi a criação e a manutenção (esperava-se estável) de uma mesma trama pelos alunos do 9º ano do Ensino Fundamental. Aliás, este projeto hoje é visto como um TCC para aqueles que pretendem alçar voos ao Ensino Médio.



Coube ao professor da sala (este missivista) sortear o nome de cada aluno no início do ano, dando aos escolhidos a responsabilidade de continuar a trama iniciada pelo primeiro sorteado. A cada semana, seguindo um esquema rígido de produção, um estudante lia o que o outro amigo escrevia e dava sequência à ideia original, expondo em seu capítulo o próprio ponto de vista das personagens concebidas pelos "autores" anteriores. O trabalho envolveu a habilidade da leitura, porque uma mesma personagem poderia ganhar significados e posicionamentos psicológicos flexíveis, uma vez que manuseada por mãos alheias, dançaria conforme o leitor e o lugar social por onde circularia. Foi o que aconteceu no livro de 2011, "Surpresas da Vida", quando a personagem Laila, prevista na sinopse da aluna Raissa como pura, ingênua, ganhou status de antagonista a partir da leitura nada ingênua do aluno Matheus (capítulo 6), que a ela conferiu as qualidades primordiais de seres de caráter dúbio; suas andanças pelas tramas secundárias garantiam ao enredo um quê da Capitu de Machado de Assis, afinal, em momentos previsíveis, ela era dissimulada, e quando dela se esperava um rasteira capaz de aniquilar um arqui-inimigo, mostrava-se uma pobre vítima da sociedade.



O livro teve 20 capítulos, foi iniciado em março do ano passado e finalizado no último dia de novembro. Durante esse tempo, o mesmo foi palco de amplas discussões nas aulas de redação, quando o professor recebia o texto do aluno da semana e o lia à classe, sem expor qualquer opinião – uma maneira de evitar que o objeto em estudo deixasse de ser uma obra discente.



E o interessante foi que a cada capítulo, os olhos dos ouvintes cresciam, espantados com as novas sequências estabelecidas pela trama, como a morte repentina de uma personagem coadjuvante que, após mudar de mãos (olhe de novo o efeito-autoria), ganhou o status de protagonista que pertencia à Laila, passando a um perfeito mote para a conclusão da obra. Com o livro em mãos, os alunos deixavam a passividade da leitura para se transformarem em criadores de uma trama que parecia, a cada capítulo, pertencer ao gênero policial. Cada um que exercia a função de demiurgo acrescentava uma nova dúvida acerca da sinceridade da protagonista, de modo que ela era manipuladora no capítulo 7, assassina no capítulo 10, vítima no capítulo 12 e uma mulher castigada pela vida no epílogo.



O professor, durante todo o projeto, jamais abandonou o papel de mediador da construção textual, um facilitador de ideias, a quem os alunos desabafavam suas incertezas e seus medos, antes e depois da criação de cada capítulo. O importante era instigar no aluno o interesse pela leitura, ao ponto dele ouvir uma obra, acompanhá-la capítulo por capítulo, todas as semanas, intervindo apenas quando chegasse sua vez, momento que poria em prática sua autoria, algo legítimo e tão aguardado. Ressalta-se que o aluno tinha liberdade irrestrita para alterar e mesmo acrescentar situações que fossem suficientemente eficazes para a continuação da história. O engraçado era que, apesar de ser um livro coletivo e a autoria perpassar por 20 mãos, a linearidade chegava a impressionar, como se a história fosse projeto apenas de um único estudante. Apenas parecia, porque de alguma forma todos se sentiam donos daquela "coisa", aliás, ninguém abria a mão de opinar sobre o futuro da trama, de encontrar um viés que fugisse ao clichê e garantisse a cada capítulo uma surpresa.



Esse poder de criar, de ser o mestre-mor do próprio destino, de poder alterar o que achava insignificante e de acrescer sentimentos e situações dúbias quanto aos rumos da própria história fazia com que cada estudante vivenciasse na prática a função-autor, aquele em que um leitor passa a construir o um universo a seu modo, moldado de acordo com o lugar em que vive, completamente conectado à realidade - pelo menos à sua realidade. A impressão era a de que cada capítulo era um filho gerado, alguém concebido após muito esforço, e que encontraria um significado amplo no tempo e no espaço quando anexado aos outros capítulos.



Para escolher o título da obra, novamente recorreu-se ao rito democrático. Cada estudante sugeriu um nome, que fora escrito pelo professor na lousa. Em seguida, por votação, o título vencedor seria agraciado com a capa da obra. Mas não bastava, era preciso mais alguma coisa, o livro havia despertado neles a vontade de ler, de ver o mundo por muitas possibilidades e o interesse de fazer parte do futuro como agentes transformadores, não como meros espectadores de fenômenos plurais. No ritual democrático, todo tipo de sugestão é bem-vinda, como foi a de dar imagem (outra importante semiose) a algumas personagens da trama, para que o leitor-final compreendesse os nós e clímax expostos no original. Duas personagens do núcleo secundário ganharam representação e estão dispostas no meio do livro. Optaram por não desenhar a protagonista, que deveria ganhar forma singular no imaginário do leitor – algo que o levaria à conclusão da leitura pela plena curiosidade de conhecer o final daquela divina mulher, em cujo coração alternavam a bondade e a maldade, num ciclo estonteante.



Enviado à editora para análise, o livro ganhou capa de verdade, páginas de verdade e um estilo todo próprio. Como não havia sido concebido para a venda, o mesmo teve tiragem de 100 cópias, que foram entregues aos pais na noite de autógrafos, quando cada estudante pôde dizer quão bom é escrever e quão interessante é navegar pelas letras, conceber-lhes significados distintos, compartilhar de uma ideia e aperfeiçoá-la ao longo do tempo, como se ela partisse das mãos de um único criador.



Está aí o segredo para se despertar no aluno o interesse pelo efeito-leitor e pela função-autor. Quando a escola pública perceber que ela é muito mais que uma imagem sóbria no imaginário de seu aluno e que é capaz de construir valores além dos apregoados nas cartilhas oficiais com projetos que entreguem aos estudantes a responsabilidade por algo que eles jamais imaginariam – escrever um livro, por exemplo, certamente o que aconteceu neste Colégio será apenas um fato corriqueiro no emaranhado de notícias que concorre pela atenção diária de um leitor ávido por leituras de todo tipo.

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