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Artigos-->PERFIL: SANDRA FAYAD -- 03/05/2013 - 18:19 (Paccelli José Maracci Zahler) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Por Paccelli José Maracci Zahler

Neste mês de maio, vamos conhecer um pouco da vida e da obra da escritora, poetisa e ambientalista Sandra Fayad.
A entrevista foi concedida por correio eletrônico e, na oportunidade, registramos o nosso agradecimento.

RCC. A senhora nasceu, em 1948, em Catalão, GO. Como foi a sua infância?

SF.Em primeiro lugar, quero apresentar-lhe minha gratidão pela escolha para esta entrevista e pela oportunidade de divulgar minha trajetória e meu trabalho na sua Revista Cerrado Capital.
Respondendo à sua pergunta, nós éramos pobres. Papai trabalhava na roça, mamãe era professora rural. Para que pudéssemos estudar, eles nos enviavam para as casas de parentes na cidade, a 50 km de distância, com o rio São Marcos no meio, que era atravessado de canoa no início e de jipe mais tarde. Ficávamos meses sem ver nossos pais e submetidos às regras dos tios, que agiam com severidade e até com violência para nos “educar”.

RCC. O que despertou o seu desejo de escrever cartas e poemas às escondidas a partir dos 12 anos de idade? Por que às escondidas?

SF.No dia em que eu completei 12 anos de idade, cheguei ao Rio de Janeiro juntamente
com meu irmão de 9 anos,conduzidos pelo papai para sermos cuidados pelas irmãs dele que lá moravam. Isto aconteceu porque havíamos sido despejados da última casa de um irmão da mamãe. Já éramos quatro sobrinhos ocupando a residência deles. Resolveram que ficariam com a minha irmã de 7 anos e um primo.
Nós não conhecíamos nada a mais de 100 km de Catalão e nem essas tias do Rio de Janeiro. Foram dois anos muito duros. Minha válvula de escape e meu consolo eram escrever cartas para a mamãe e poesias às escondidas. Minha tia fiscalizava tudo e, se visse algo nos meus cadernos que não fossem os deveres de escola, rasgava a folha, cortava a sobremesa e ameaçava me devolver para a roça. Lá eu era obrigada a ficar no quartinho de empregada, com acesso apenas ao banheiro de serviço e à cozinha. O restante do apartamento ficava trancado das 6 h da manhã até às 7 horas da noite.
Perto do Natal de 1962 minha tia pegou uma carta que eu havia escrito para a mamãe, onde eu reclamava do tratamento que ela nos dispensava. Imediatamente mandou recado para que o papai fosse nos buscar porque eu era mal agradecida, falsa e traidora.

RCC. Aos 15 anos, a senhora pediu de presente aos seus pais um baile de debutante. O que de fato aconteceu?

SF.Para que não ficássemos sem escola, meus pais se mudaram para a casa velha que havia sido do meu avô, na cidade. Naquela casa faltava quase tudo a começar pelo conforto. A única coisa que não faltava era comida porque o papai era de uma responsabilidade admirável. Mesmo assim, a alegria inundou a vida da família porque agora estávamos oito novamente juntos. Foi meu primeiro oásis. Fiz novas amigas, reatei as amizades antigas, estudávamos e ríamos muito e de tudo. A situação financeira e social das minhas amigas era bem melhor que a minha. Foi meu primeiro oásis. Ao completarmos 15 anos, realizava-se o baile das debutantes da cidade no CRAC (Clube Recreativo e Atlético Catalano). Todas as mocinhas que completavam 15 anos eram convidadas a participar, mas eu não pude ir porque não havia dinheiro para comprar o tecido. Se houvesse, a mamãe coseria o vestido na sua velha máquina Singer. Fiquei muito triste e pensei que deveria me preocupar com o futuro.

RCC. Parte da sua adolescência foi passada no Rio de Janeiro. Foi lá que a senhora se formou em magistério?

SF. Não. Concluí o curso de professora no Colégio Nossa Senhora Mãe de Deus, juntamente com o Curso de Técnico em Contabilidade na Escola Técnica de Comércio Wagner Estelita Campos (ambos de nível médio), em 1967, na cidade de Catalão.

RCC. Aos 17 anos, a senhora foi nomeada professora de alunos da zona rural de Catalão, GO. Como foi essa experiência com crianças?

SF.Eu havia iniciado o 2º ano do curso normal, e o Governo do Estado de Goiás estava abrindo oportunidade para as estudantes a partir do 2º ano, de dar aulas a título de pró-labore. Corri lá na Prefeitura e garanti minha vaga. Foi uma época intensa, porque eu estudava pela manhã e à noite e dava aulas à tarde em um bairro distante, conhecido como Boca da Onça. O contato com as crianças, ensinar as primeiras palavras, pegar nas mãozinhas para desenhar as letras foi tudo emocionante.O único inconveniente é que o pagamento mensal chegava com dois ou três meses de atraso.

RCC. Foi lá que começou o seu interesse pelo Cerrado, pela Natureza, tema constante em seus poemas?

SF. A natureza sempre fez parte da minha vida. Desde criança que sou adepta de longas caminhadas pelo simples prazer de observar e me integrar de corpo e alma ao ambiente externo. Nada e nenhum dos seres vivos que estejam nas minhas rotas passam desapercebidos, desde o céu até as depressões. Vivendo dessa forma, não sei se por algum distúrbio psíquico ou por excessiva sensibilidade, eu converso com plantas e animais, naturalmente. Ouço quando reclamam, pedem, agradecem, ficam alegres ou tristes. Então fica muito fácil escrever sobre o Cerrado, onde hoje vivo, e sobre a Natureza em geral.

RCC. Sua mudança para Brasília, DF, deu-se em 1967. Isto se deu pela aprovação no concurso para a Fundação Educacional do DF?

SF.Não. Quando eu terminei os cursos técnicos em Catalão, não havia perspectivas de trabalho lá. Minha tia Sarah, que morava em Brasília, foi passar o natal conosco. Aproveitei para pedir a ela que me desse uma carona, porque eu queria ver se conseguia algum trabalho aqui. Ela, vendo a situação ruim em que a família se encontrava, atendeu ao meu pedido. Assim que chegamos, fui aceita em uma entrevista para o emprego de auxiliar de escritório em uma construtora, na 504 Sul. Fiquei morando na casa da minha tia, na 107 Sul, por seis meses. Nesse período submeti-me ao concurso público da Fundação Educacional, fui aprovada em 8º lugar e tomei posse no dia 1º de agosto de 1968. Imediatamente, eu trouxe meu irmão (16) para trabalhar na mesma Construtora de onde eu saí e alugamos um quarto em casa de família, na 416 Sul.

RCC. Foi durante a atuação como professora que a senhora decidiu cursar a Faculdade de Economia?

SF.Não. No início de 1969 eu me casei e, por duas vezes, obtive aprovação em vestibulares no CEUB para o curso de Jornalismo. Mas o casamento e a vinda da filha constituíram-se empecilhos para a continuidade dos estudos. Eu apenas dava aulas e cuidava dos afazeres domésticos.
Inquieta e insatisfeita com o pouco que havia conquistado profissionalmente, e ávida por estudar, fiz alguns cursinhos técnicos de curta duração, escrevi muitos poemas que rasguei (ficaram alguns) e submeti-me a mais um concurso público: o de Auxiliar de Controle Externo do Tribunal de Contas da União. Fui aprovada. No começo de 1975, troquei o magistério e o marido pelo TCU e pela Faculdade de Economia na UDF.

RCC. Quando a senhora ingressou no Banco Central?

SF.Em 1978, com o curso de economia já concluído. Foi uma troca difícil, porque eu era a 2ª classificada na lista de promoção a Técnico de Controle Externo do TCU (atual Analista), que de fato ocorreu pouco depois.

RCC. Foi trabalhando lá que a senhora especializou-se em Economia Monetária e Mercado Financeiro?

SF.No BACEN, eu comecei no Departamento de Pessoal. Lá me mantiveram por três anos. Mas minha meta era trabalhar no Departamento de Mercado de Capitais, para onde acabei indo por persistência, sem rancores. Lá encontrei outro oásis. Foram dez anos maravilhosos, onde meu chefe - Iran Siqueira Lima - nos motivava a estudar, nos oferecia desafios sempre, nos mantinha atualizados e unidos. Éramos uma equipe harmônica e feliz.

RCC. Durante os anos trabalhados no Banco Central a atividade literária ficou em segundo plano?

SF.Nesse período de dez anos, sim. Eu apenas ouvia muita música, lia poesias, romances, best sellers, escrevia muito (pareceres e relatórios técnicos).

RCC. Quando a senhora adquiriu a chácara do Lago Oeste, DF?

SF. Em 1991 eu comprei o terreno já cercado, mas só em 1997 é que construí uma casinha e comecei a plantar. Era a volta mais efetiva para a natureza e a poesia.

RCC. Foi uma maneira de recordar os tempos de Catalão, GO, e ficar ligada à terra?

SF.De certa forma, sim. O papai estava sempre presente e a convivência com ele era rica em aprendizado. Foi também uma compensação. O trabalho burocrático estava me deixando muito tensa. Era a época dos grandes descontroles inflacionários, dos planos econômicos mal sucedidos. Eu me envolvi muito com números, cálculos, relatórios, sucessos e insucessos das medidas governamentais. Necessita de um pouco de paz. Fui buscar na minha velha conhecida, a Natureza.

RCC. Durante o trato com a terra, o contato com os animais silvestres, a inspiração para escrever poemas retornou?

SF.Sim. E dessa vez de forma intensa. Escrevia até três poemas em um só dia. Passei a contar em prosa os comportamentos alterados das pessoas ao meu redor e a estudar melhor as ervas medicinais, os animais silvestres, os cães, as estações do ano.

RCC. A senhora sempre foi autodidata no cultivo da terra, particularmente de plantas medicinais e condimentos?

SF.Fiz dois cursinhos básicos no SENAR-DF. O resto aprendi através da observação, da pesquisa e de informações obtidas junto à tradição popular.

RCC. Por alguma razão, a chácara teve que ser vendida, após 14 anos de atividade. Este fato a deixou muito sentida?

SF.Não. Preparei a minha saída, assim como fiz das outras vezes na minha trajetória.
Pesei os prós e os contras, tomei a decisão, encontrei uma compradora que estava procurando o que eu tinha para vender, distribuí o que não lhe interessava aos caseiros da vizinhança. Fiz isto inclusive com as matrizes das plantas. Entreguei-as a um caseiro que também conversava com elas e que já as cultivava. Os cães ficaram lá mesmo com a nova proprietária, que os adotou antes de fechar o negócio. Voltei três vezes para visitar as plantas e os cães. Eles estavam mais bem cuidados e mais felizes do que quando estavam comigo.

SF. Foi por essa razão que a senhora decidiu implantar uma horta comunitária em sua casa na Asa Norte?

SF.As plantas haviam passado por um longo processo de adaptação ao clima do cerrado. Aquelas que originalmente eram de clima frio ou úmido demoraram muito para se tornarem “nativas”. Eu pensava que se, por qualquer razão, o rapaz não pudesse mantê-las lá, onde estavam todo aquele trabalho iria se perder. Então procurei um lugarzinho na porta da minha casa para cultivar pelo menos as mais raras.

RCC. A senhora levou para a horta comunitária algumas espécies de plantas medicinais cultivadas na chácara?

SF. O papai, com 91 anos, achou que poderia preparar o terreno na frente da casa para recebê-las, mas o local estava cheio de metais pesados, restos de obra, muita pedra. Assim mesmo resolvemos limpar a área de 30 m² . Nesse momento o papai faleceu. Foi mais um desafio. Trabalhei muito para recuperar a área durante mais de um ano. Fui lá ao Lago Oeste e trouxe as mudas de cavalinha, alfazema, losna, orégano, sálvia, babosa, poejo, estévia, jambu, e mais 50 espécies.

RCC. Como foi a receptividade dos vizinhos, geralmente acostumados ao asfalto e ao cimento, a uma horta comunitária?

SF. Usei a criatividade. Delimitei o espaço, organizei tudo para caber o máximo de espécies possível, pendurei poesias em garrafas pet, enfeitei, criei um mural, uma caixinha de recados, o grupo ”amigos da horta”. As pessoas e até a imprensa se encantaram com a horta. Muitas não conheciam as plantas como o orégano, a estévia, o jambu. Até hoje eu dou aulas, recebo aulas, troco mudas de plantas, forneço folhagem para chás e recebo gente todos os dias e dos lugares mais surpreendentes. Há vários pedidos de sementes e mudas no meu site para outros Estados. Não sei como atender.

RCC. Apesar de todo o seu esforço, a horta comunitária sofreu uma ação de vandalismo em 2009. Por que razão?
SF. Sim. Dois vizinhos em momentos diferentes causaram destruição na horta, irritados por alguma razão que desconheço. Há duas vizinhas, uma de cada lado, que foram agressivas e não me cumprimentam. Ainda bem que são apenas elas!

RCC. A senhora poderia nos falar sobre a Associação Amigos da Horta?

SF.Trata-se de um grupo que criamos para troca de mensagens por e-mail e por telefone. São mais de duzentas pessoas que visitaram a horta e preencheram uma ficha cadastral voluntariamente.Sempre que há alguma novidade sobre a horta ou outro assunto relacionado ao meio ambiente, eu envio a notícia. Eles comentam, divulgam ou comparecem ao local para tomar uma providência. Foi assim nas duas vezes em que a horta foi danificada.

RCC. Como a senhora mantém a horta quando tem que viajar? Alguém fica responsável por ela?

SF.Sim. Há um jardineiro que me ajuda e a minha família que supervisiona e rega. Antes da viagem, eu faço uma vistoria mais apurada, aplico calda bordalesa, água de fumo se necessário, podo, revejo o sistema de irrigação, limpo bem tudo e não me demoro mais de 15 dias.

RCC. A senhora passou a dedicar-se mais à literatura após a aposentadoria do Banco Central?

SF.Sim. Agora as minhas atividades estão totalmente voltadas para a literatura e a natureza. Os dias são curtos e o tempo passa muito rápido.

RCC. Simone de Beauvoir disse certa vez que “escrever é desvendar o mundo”. O que a senhora pensa a respeito?

SF.É verdade. Dizia também que “não se pode escrever nada com indiferença”. Eu penso que temos que ir fundo nas questões, sem agressividade. Para mim, escrever é atirar-me em um rio, em noite de lua nova. Nunca sei o que vou encontrar lá na frente. Acho que desvendar o mundo é uma via de mão dupla. Sou mensageira na medida da limitação que o tempo nos impõe. Uso-o intensamente para deixar uma mensagem que beneficie os seres vivos que estão ao meu lado e os virão.

RCC. Qual a sua opinião sobre a atividade literária em Brasília, DF?

SF.Só para efeito de comparação, tenho acompanhado os eventos literários em Goiás. São intensos e dinâmicos. Brasília não foge da sua vocação criativa e de grandes talentos nas várias vertentes da cultura. No entanto, há um entrave sistêmico, onde tudo o que se quer realizar esbarra na vontade institucional, que cada vez mais interfere para ignorar, desqualificar, desautorizar. A despeito disso, temos tido eventos emocionantes como a Bienal do B no Açougue Cultural T-Bone, os eventos poéticos bem organizados da Casa da Cultura do Guará, da Casa do Cantador, da Tribo das Artes, do Projeto Eulirico, do Hezio Teixeira e não poderia deixar de citar a sua iniciativa com a Revista Cerrado Cultural. Isto mostra que o investimento da Secretaria de Cultura na literatura no Distrito Federal é praticamente nulo.

RCC. Quais seus projetos literários para este ano de 2013?

SF.Vou aventurar-me no primeiro romance. Desta vez busco inspiração nas anotações antigas e na experiência da convivência com meus semelhantes físicos. Por ora, lanço no próximo dia 03 de maio (sexta-feira) o livro “Histórias de Jorge, O Batuta” e mais dois livros de poesia: “Poemas Síntipos” e “Cerrado Capital - A vida em duas estações”, evento para o qual convido você e todos os seus leitores. Espero-os na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, a partir das 20 h.

(Publicado na Revista Cerrado Cultural, www.revistacerradocultural.blogspot.com, edição de maio de 2013)
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