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Artigos-->Formação Política, a linha entre corruptos e militantes -- 25/05/2013 - 08:46 (Leonardo Koury Martins) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Por: Leonardo Koury Martins

Sem o interesse de ser academicamente correto, porem fazendo um diálogo no âmbito da Educação Popular, gostaria de construir neste artigo um diálogo sobre quatro termos conceituais: política, formação, corrupção e militância. É importante considerar que este diálogo não se baseia em uma perspectiva fechada ou fundamentalista, mas tende a acirrar algumas questões polêmicas e às vezes tão pouco discutidas no âmbito da esquerda, principalmente quando o senso comum trata a política na ótica de que atualmente não existe diferença entre esquerda e direita, ou então, que é tudo igual.

Política, definiria no viés da epistemologia o nome grego se derivara das palavras politiké (política em geral) e politikós (dos cidadãos, pertencente aos cidadãos), que estenderam-se ao latim politicus e chegaram às línguas europeias modernas através do francês politique que, em 1265 já era definida nesse idioma como ciência do governo dos Estados. Contudo, considerando não como conceituação simplória, mas simplificada consideraríamos que política e a construção negociada das relações humanas. O jogo de definição mais claro entre interesses alcançados e interesses não alcançados. Melhor arguição e posicionamento.

Todo posicionamento é inevitavelmente político

Uma grande amiga do campo da geografia, contava a um grupo de amigos nossos, que ouvia dizer que a política estava constituída desde o nascimento, que a escolha ao nascer de respirar ou não respirar era uma escolha política. De que esta escolha inicial definia em viver ou não viver e que se a escolha fosse à vida, que esta decisão era cotidianamente sustentada a cada nova respiração, que a política não era uma escolha isolada, mas sim a construção de uma escolha e sua constante afirmação entre a vida, portanto a vida no seu olhar era a política.

Neste sentido nos baliza que viver é uma escolha política, e concretamente todos os momentos da nossa vida fazemos política, primeiro por estarmos nos posicionando e segundo porque nossa posição não nos afeta somente, ao menos a todas e todos que definiram viver em mais que apenas a unidade.

A vida coletiva é a continua afirmação que nossos olhares, posicionamentos e escolhas traduzem a orientação política que temos ao coletivo e nossas posições não são meramente individuais, por mais que o modo de produção capitalista nos perceba como indivíduos. Porem mesmo assim, na escolha da individualização social, na cultura do meu e não do nosso, reafirmar isso, mesmo que de forma alienada é uma decisão política, é perpetuar a cultura do ter, mesmo que insistimos em acreditar que seja involuntário.

O conceito de formação, ou o ato de formar, na discussão do senso comum: refere ao “por na forma”, modelar, porem, a construção da formação é o que vai definir se este conceito se esgota na obviedade ou se torna complexo.

Uma formação qual se proponha a sair da obviedade, da reprodução das atuais relações sociais e ambientais, deve considerar duas máximas acadêmicas que discutem que toda formação por si é um ato político, ou que toda formação é política. A primeira que segundo FREIRE (1996) Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, educamos entre si, mediatizados pelo mundo. Se considerarmos esta construção de que o conhecimento está na relação de diálogo, nos aproximamos do conceito de que a política é construída no dia a dia, no posicionamento e na reafirmação e sustentação deste posicionamento cotidianamente.

Este conceito incide sobre uma segunda discussão, de que a hierarquização do conhecimento além de um erro pedagógico manifesta apenas para a construção da desigualdade e desentende os educandos e educadores como sujeitos comuns, apropriados de uma construção natural de conhecimento. Além de padronizar um modelo de certo ou errado, de bom ou ruim, trata com diferença todos os espaços de produção do conhecimento, fazendo o mundo perder a graça e a luz da caverna includir numa minúscula sala de aula.

A formação se da em todos os espaços vividos, sistematizados ou não, no âmbito formal, informal e não formal, porem na proposta do contraponto da reprodução do capital, não pode existir um modelo de educação que não se proponha a pluralidade, a criticidade e a constante posição e sustentação e ou derrubada das verdades compreendidas.

A segunda máxima quando compreendemos que esta educação não
pode no âmbito político ter uma tonalidade ingênua e reprodutora da mesmice imposta, deve também estabelecer alguns diálogos no âmbito da diversidade para que não caia na opressão do contraponto, tornando ao invés de uma educação popular uma educação novamente opressora.

Boaventura de Souza Santos faz considerações fundamentais sobre direitos humanos que devem nortear o papel desta formação na construção de outra ordem societária, esta fundamentada organicamente na transversalidade da igualdade e da diferença:
Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.
(SANTOS; 2005)

Esta construção da diversidade sobre as relações humanas e ambientais é o que nos distinguirá não apenas enquanto classe, mas na reafirmação de uma outra ordem societária. Muito além da visão ingênua da substituição de poder, mas a discussão de que poder é este? Um poder opressor? Ou a tomada de poder pelos oprimidos que não desejam o poder da opressão a ninguém.

Compreender que a educação e a midiatização com o mundo e a forma de interpretar estas relações nos trará a condição de construção de tomadas de decisão, aproxima a possibilidade de não apenas reproduzir a ordem, mas até compreender a desordem do atual sistema com fundamental para a construção de uma sociedade igualitária. Assim compreenderíamos que o socialismo não foi uma experiência vivida em sua plenitude, pois os patamares das iniciais experiências estavam dotadas de opressões e de condições individuais, como a ganância ou o sexismo, preconceitos que expurga uma possibilidade de diálogo entre igualdade e diferença trazida por Boaventura.

A linha que produz a ordem e a desordem

Segundo o dicionário Aurélio, corrupção significa um ato de deterioração do ambiente coletivo e ou público, a condição de favorecimento de bem individual ao que deveria ser de um bem coletivizado.

Consideraríamos claramente que este conceito se aplica a um modelo de educação reprodutor do modo de produção capitalista, que em sua descrição conceitual a ideia do lucro, da exploração e a da acumulação da propriedade privada nada mais é uma mola propulsora do avanço do conceito de corrupção.

Não seria ousado dizer que a corrupção acentua-se a todo segundo num ambiente no qual a desigualdade é a opressão da diferença e a aniquilação da igualdade, esta substituída pela palavra modelo. O que seria diferente deve no modelo de produção vigente ser descaracterizado a ponto de ser irreconhecível e aceitável e contudo apenas o que encontra-se nos padrões da sociedade burguesa deve ser considerável.

Num diálogo popular, poderíamos claramente considerar que assaltantes de porta de escolas são abominados por perturbarem a ordem social vigente, mas os grandes políticos, capachos de empresários são consideramos como sujeitos que não oferecem risco a sociedade, portanto podem viver em prisão domiciliar. Outrora numa concepção radical de educação popular, os verdadeiros revolucionários ainda estariam nos pequenos larápios, estes vítimas do sistema vigente que trata a vantagem como expressão de competência. Porem estes microproblemas da segurança pública apesar de afetarem tão pouco o sistema capitalista sempre serem punidos. Estes apenas reproduzem a ordem, vitimas da falta de formação política e de uma escola hierarquizada nos princípios da desigualdade e da padronização do sujeito.

Considerações sobre uma educação militante

Finalizo na intenção de trazer segundo Frei Beto uma discussão do que é ser militante. Não diferente do corrupto o militante encontra-se no planeta Terra, qual hegemonicamente o capital apropria-se dos valores sociais, culturais, naturais e econômicos. Os dois atores estão dispostos a possível passagem alienante por espaços educacionais reprodutores da ordem social padrão.

Mas considerando que os movimentos sociais, partidos de esquerda e os intelectuais orgânicos trazem a identidade de contra cultura do sistema capitalista, devemos não apenas preocupar com o início do longo prazo da mudança do mundo. Este longo prazo nos prevê uma cotidiana crítica a nossa vivência e como construímos a vivência do outro, pautada na solidariedade em seu princípio máximo de compreender que coletivizamos em nossa vivência conhecimento e expressões políticas.

Não é na simplista ideia de vigília coletiva de que se eu não sou opressor ninguém pode ser, porque assim apenas reproduziremos a opressão de vigiar os opressores, mas de construir condições reais de pensar a diversidade como princípio comum.

As opressões somente podem deixar de ser opressões quando na condição cotidiana das nossas decisões políticas buscarmos a ótica do em si para si segundo Marx e Engels. Para não ser opressor devo-me pautar pela observância crítica de minhas ações e de como elas afetam o mundo, da constante formulação dos efeitos de minha atitude e da compreensão de que minhas atitudes refletem na atitude do outro.

O contador de piada que deixa de contar piadas opressoras não perde a graça no contraponto que as piadas opressões não são engraçadas para quem as conta. Compreender o espaço vivido é buscar no espaço educacionalmente coletivizado a solidariedade de perceber no outro a presente alienação, é trazer o conceito da práxis em sua raiz, experienciando a solidariedade de perceber que suas condições de formação, muitas vezes na condição econômica, não se data a condição do outro e que sua relação de diálogo é a oferta absoluta desta nova possibilidade.

É importante também compreender que o sofrimento do imediatismo apenas trará no cotidiano, olhares fatalistas como diz Paulo Freire. Desfazer a ideia de que tudo que nasce torto, torto morrerá é possibilitar ao mundo a condição de que ele é redondo e tudo que é redondo não se finda em uma esquina. Assim a própria relação entre os microproblemas tão bem percebidos da segurança pública seriam menos noticiados frente àqueles que exploram milhares de trabalhadores a custa de baixos salários todos os dias. Ou até mesmo que uma ocupação é a clara posição daqueles que estão insatisfeitos com uma minoria populacional que detêm além de uma grande propriedade privada a possibilidade política de trazer a cena pública o valor social de suas caridades como compensação das milícias do capital.

Tira a possibilidade de que a ajuda é mais justa do que os direitos e de que direitos são as maiores conquistas da classe oprimida. Direitos neste âmbito não ingênuo de olhar a educação como libertadora traz a discussão política que são apenas um passo importante da luta dos oprimidos, porem uma pena migalha de sua própria opressão. Que direitos apenas traduzem a realidade da desigualdade, pois uma sociedade justa não seleciona direitos pela importância, mas faz uma nova ordem na qual seja como único direito primário a liberdade, contudo a liberdade não é uma situação individual.

Somente uma educação popular, que se proponha a construir uma outra formação que politicamente esteja aliada aos oprimidos pode substituir a palavra capital pelo social e a condição de que tenhamos menos corruptos e mais militantes, desde que uma mudança de modo de produção não é uma virada de página, mas a sua constante leitura e manutenção, para que não vejamos depois de tanta luta, uma nova revolução dos bichos.

Leonardo Koury Martins: Escritor, Assistente Social, MBA em Gestão Pública, Educador e Coordenador Nacional de Formação Política do Movimento de Ação e Identidade Socialista – MAISPT


Referências
A Universidade do Século XXI: para uma reforma democrática e emancipatória da Universidade”. 2.ed. São Paulo: Cortez Editora, 2005. (Coleção questões de nossa época; v.120)
FREIRE, Paulo Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
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