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Artigos-->PERFIL: LUIZ EDUARDO CAMINHA -- 11/06/2013 - 21:53 (Paccelli José Maracci Zahler) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Por Paccelli José Maracci Zahler

Luiz Eduardo Caminha é natural de Florianópolis, SC, médico, poeta e escritor. Ajudou a resgatar a tradição alemã dos “Stammtische” e tem intensa atividade cultural na internet, na imprensa e na televisão.
Manifestamos nosso agradecimento pela entrevista concedida por correio eletrônico.

RCC: O senhor nasceu em Florianópolis, SC, em 1951. Como é a experiência de ser um “manezinho da ilha”?

Caminha: De início, vamos deixar de lado este formalismo do “senhor” porque, como costumo dizer, o Senhor é único e está nos céus, embora viva entre nós.
Rui Barbosa, certa vez, morando em Londres, disse mais ou menos assim: “nós devemos ser do lugar onde estamos”. Sempre levei isto como regra de comportamento nos diferentes lugares onde morei. Entretanto, a gênese manézinha nunca me permitiu negar, em hipótese alguma, meu berço. Ser manézinho é algo que não precisa ser privativo de quem nasceu, como eu, em Florianópolis. São manézinhos, também, muitos de outras plagas que pra cá vieram e adotaram o nosso jeito de ser, humildes, alegres, piadistas, enturmadores, bons anfitriões, expansivos, faladores (pelos cotovelos), cultivadores de amizades e amigos sinceros. Gente que recebe os conhecidos ou amigos pela porta da cozinha, sem frescura, que gosta de peixe frito com pirão de feijão e arroz, que come macarrão com berbigão ensopado - e não “espaguete al vôngole” dos grã-finos -, que adora o mar, curte a vida e, sobretudo, respeita as tradições, tem saudades da bucólica Florianópolis, e sabe que existe um Senhor que criou todas estas coisas, porque faz parte do manézinho a fé que herdou de seus antepassados de acreditar em Deus.
Portanto, não é muito difícil ser um manézinho. Sentir-se um é, para mim, um meio de vida.

RCC: O fato de ter nascido no dia de São Francisco de Assis tem algum significado especial?

Caminha: Muito. São Francisco de Assis espelha todo o meu ideal utópico de cristão. Thomas More costumava dizer que cada um deveria criar utopias e viver para alcançá-las, mesmo que isto seja impossível. Ramón de la Cigoña disse, uma vez “só vale a pena viver por um ideal pelo qual valha a pena morrer”. Pois bem, São Francisco de Assis é a minha utopia de vida e seus ideais são os ideais que alguém como eu, que busca viver pelos princípios cristãos e os procura para sua vida – embora seja o pior dos seguidores.
Sou obrigado a confessar, entretanto, que transcorridas seis décadas de vida, ainda estou muito, mas muito longe, desta utopia, destes ideais. Sei que tenho, quem sabe, mais duas ou três décadas pela frente. Uma delas, quiçá, produtiva. Uma e/ou outra com dor aqui, dor ali, estas coisas do uso (risos). Não importa. Vou continuar a persegui-los. Errando e levantando. Errando e levantando. Os ideais cristãos, por lógica, espelham-se no próprio Jesus Cristo. Mas quem sou eu, um pobre mortal, para alcançar ou imitar o Mestre? Afinal, seria muita pretensão minha viver como Ele. Mesmo tendo nascido de uma mulher, Ele era Deus. Por isso, está longe de mim imitá-Lo. Por isso, imitar Francisco de Assis e/ou Maria, a mãe de Jesus, é tarefa que parece mais fácil, embora não seja. Pelo menos, é mais próximo de um humano como eu. Imitá-los é, digamos, uma estratégia de chegar ao Mestre.

RCC: Você sempre gostou de escrever?

Caminha: Desde que aprendi o fantástico mundo de juntar as palavras e formar frases, períodos, realizar, mesmo que só nas linhas de uma página ou num pedaço de papel, um pensamento, uma ideia, uma história, enfim. Isto me reporta ao segundo ano primário - saudades da Professora Aurélia, a Dona Lela, para nós, pequenos infantes – quando ainda se ensinava a descrição, a dissertação, a composição e a interpretação.

RCC: Como foi a sua experiência no Colégio Catarinense na década de 1960?

Caminha: Fantástica. Toda a base de meus aprendizado e conhecimento aprendi com os padres jesuítas e os professores leigos que lá lecionavam. Meus primeiros livros eu ganhara na infância, de meu pai, Uma coleção de Tesouros da Juventude, uma Completa de Machado de Assis e outra, também completa, de Monteiro Lobato. Mas o gosto pelos livros foi amadurecido e firmado no Colégio Catarinense. Naqueles tempos, o Colégio fazia o papel de complemento da educação de casa, a disciplina era férrea, a fé era matéria que transcendia as aulas de Religião ou as atividades religiosas, a moral e a ética era algo inquestionável. Ai de quem não as seguissem ou não as tivesse como regra de vida. Sem desmerecer as outras escolas de Florianópolis, excelentes à época por sinal, “do Catarinense não saia ninguém que se perdesse na vida”. Isto era um paradigma.
Foi lá, também, que começei a ensaiar minhaa repulsa ao regime militar. Passei no Catarinense dos 10 aos 18 anos (1961 a 1969). No meio deste período instalou-se a ditadura militar no Brasil. No começo íamos apenas a passeatas, seguíamos a banda. Depois começamos a pequenas atividades no DCE. Nunca esqueço o dia em que alguém pichou na parede interna da frente do Colégio a frase “Abaixo a Ditadura”. Eu devia ter meus 15 para 16 anos. O diretor correu todas as salas para tentar descobrir quem ousara tanto. Nunca descobriram. Ninguém sabia. Desconfiávamos. Mas o silêncio nas salas e no pátio mostravam aprovação pela coragem. Os padres eram, penso, meio da direita.
Enfim, o Colégio Catarinense moldou minha vida, meu caráter e me vocacionou para a Medicina, uma de minhas paixões.

RCC: Como o poeta Lindolf Bell mudou sua vida?

Caminha: Ah! Bell. Lindolf Bell. Saudades deste amigo. Bell é uma figura imortal. Um poeta sensacional. Deveria ser melhor reconhecido, Brasil afora. Não o é tanto, porque não nasceu no eixo Rio-São Paulo. Para a mídia brasileira parece que só é bom quem nasce por ali. Depois da Semana de Vinte, não houve ninguém, nenhum movimento, mais importante do que Lindolf Bell para a poesia. Sua Catequese Poética fez escola, no Brasil e no exterior. Honra-me tê-lo conhecido e convivido com ele. Um privilégio de poucos.
Conheci Bell em Março de 1970. Eu não lograra êxito no Vestibular de Medicina, mas passara em Artes e Comunicações, em segunda opção. Pensava fazer Jornalismo, curso que acabou sendo autorizado para o Rio Grande do Sul, em Porto Alegre (com justa razão, haja vista a potência que era o Rio Grande do Sul em Informação e Comunicação). Era época da Reforma Universitária, mais um malefício do Governo Militar. O início da burrificação de nosso país. Foi-nos imposta goela abaixo, fruto do abominável acordo MEC / USAID (Usaid, para quem não viveu esta época, vem de United States associado à palavra AID (socorro)). Uma pretenciosa ação dos americanos para patrulhar a América Latina sob ameaça, segundo a nefasta idiotice americana, do comunismo que ainda, na sua pregação, comia criancinhas.
A Universidade Federal de Santa Catarina resolveu fazer uma solenidade única de Aula Inaugural para todos os cursos. O Diretório de Humanas, que compreendia Direito, Economia, e outros, juntamente com o Diretório de Letras e Filosofia (cursos que estavam abrangidos na Área de Artes e Comunicação) resolveu rebelar-se e fez uma Aula Inaugural paralela. No pátio de acesso à antiga Faculdade de Filosofia, já no Campus Novo da UFSC (o atual). Muitos milicos, do exército, em volta. A massa acadêmica toda reunida. Nem aí para os milicos. A solenidade oficial correndo na Reitoria. Vazia. O mínimo de estudantes. Só autoridades e alguns professores.
De repente, um grupo abre a massa trazendo uma mesa. Um alemão alto, franzino, mas espadaúdo, sobe à mesa, pega o microfone e apresenta-se: Sou Lindolf Bell. Estou aqui para proferir-lhes a Aula Inaugural. Foi falando, falando, poetando, encantando. Mais de uma hora. Ali, decidi escrever poesia. Em que pese já ter escrito algumas coisas antes. Daquelas que todo estudante faz para a namorada, quando acha que é poeta e escreve sobre pássaros, faz quadrinhas sobre a lua, como se fosse o tal etc, eu nunca tinha pensado em me dedicar à poesia. Foi o Bell quem despertou esta tendência, naquele dia. Por isto considero o marco inicial deste projeto inacabado de poeta.

RCC: Você queria fazer Jornalismo. O que o fez optar pela Medicina?

Caminha: Esta foi uma questão que dei uma pincelada acima. Quando estava no segundo semestre de Artes e Comunicações (na Reforma, todos os estudantes eram reunidos no Básico e os melhores classificados escolhiam, no fim do terceiro semestre, o curso a seguir) veio a notícia que Curso de Jornalismo ia para o Rio Grande do Sul. Eu não queria fazer Letras. Nem, tampouco, Espanhol ou Inglês. Também não pensava em fazer Filosofia. Aí, comecei a rever as matérias do Científico com uns primos e amigos. Na verdade, eu dava-lhes aula de preparação para o Vestibular. No final do ano, me inscrevi, de novo, para o Vestibular de Medicina. Desta vez passei e, seis anos depois, em 1976, me fiz médico. Abandonei as Artes e Comunicações, mas não o Jornalismo. Durante o Curso de Medicina eu ia para o Jornal o Estado – tinha um amigo lá –2 a 4 vezes por semana para ver como faziam jornal. Foi numa noite destas que recebemos a notícia – censurada – da morte do Vlado (Vlademir Herzog). Lembro como hoje. Indignação geral.
Depois de formado e pós graduado, já exercendo a Medicina, voltei ao jornalismo. Criei o Jornal Clarins do Vale, órgão de comunicação do Movimento de Cursilhos de Cristandade da Diocese de Joinville, que editava e produzia sozinho, tive programa de Rádio, e TV, sempre voltados para discussão sobre qualidade de vida e, mais tarde, tradições. Escrevi para jornais, como articulista esporádico e, mais tarde, com uma Coluna de Opinião na Folha de Blumenau, além de exercer atividades de jornalismo na internet. Foi com tal intensidade esta segunda “profissão” que solicitei e consegui o registro de Jornalista do Ministério do Trabalho. Coloquei aspas porque praticamente não exerci o jornalismo auferindo salário. Só recebi alguma coisa quando escrevi para a Folha de Blumenau. Poderíamos assim dizer que, apesar de registrado, sempre fui um um jornalista amador (alguém não vai gostar disto, mas paciência!)

RCC: Como é conciliar Medicina e Literatura?

Caminha: Aí é que está. Como tinha uma atividade muito intensa na minha especialidade, deixava a literatura em segundo plano, escrevendo nas horas vagas ou quando as musas me interpelavam no meio de minhas atividades. Sempre tive, no criado-mudo, uma folha de papel com uma caneta. Quando vinha a inspiração, acendia a luz e escrevia. No consultório, o jeito foi criar uma pasta no PC chamado Crônicas Consultório e Poemas Consultório. Por fim, em casa, eram outras pastas. E assim foi.
Em 2003, me descobri portador de Hepatite C, que foi contraída de um paciente em um acidente cirúrgico, onde furei o dedo com uma agulha. Foi uma transformação na minha vida. Face o tratamento, tive de parar o exercício da medicina, que permaneceu porque, em seguida, veio um câncer de reto, quimioterapia, radioterapia, cirurgias e mais três tumores de Fígado. Graças a Deus, em 2011, no dia 12 de Abril, submeti-me a um transplante de Fígado. Foram nove anos lutando contra a doença,. Por graça de Deus, de meus médicos – instrumentos precisos colocados por Deus à minha disposição - e das orações de uma comunidade enorme de pessoas, estou curado. Alguns milagres me foram concedidos, mas isto é uma outra longa história que necessitaria muito espaço para contar. Neste período, Deus me permitiu, como compensação, dedicar meu tempo à literatura. Escrever foi uma terapia e o computador, um aliado.

RCC: Após concluir o curso de Medicina, em 1976, na UFSC, você fez Residência Médica em Cirurgia Geral e Colo-Proctologia no Rio de Janeiro. Naquele período, o afastou-se da Literatura para se dedicar aos estudos?

Caminha: Sim, sem dúvida. Desde que conclui o curso de medicina, em Dezembro de 1976, meu foco foi minha especialização em Colo-Proctologia, doenças do Intestino Grosso, Reto e Ânus. Deixei completamente de lado o hábito - não muito frequente - de escrever e o violão. O violão, tocar e cantar, foi por cerca de seis anos. Após minha especialização voltei, por curto período, à Florianópolis. Então, passei num concurso promovido pela Enciclopédia Britânica do Brasil. Fomos 10 os classificados no Brasil, entre 3 mil candidatos. Isto permitiu-me uma pós graduação na Inglaterra e Alemanha. De lá vim direto para Blumenau, onde já havia trabalhado por seis meses.
Na década ddos anos 1980 voltei a escrever. Apenas textos e artigos para o Jornal que acabara de fundar. Esporadicamente fazia um ou outro artigo para jornais, mas o retorno à poesia só se deu muito tempo depois. Desta vez foi um colibri que esbarrou na porta de vidro que dava para nosso jardim de inverno. Já estávamos no começo dos anos 1990. Fiz o poema “Colibri” e... não parei mais. Entretanto, é bom que se diga, só publiquei meu primeiro livro em 1997. Reflexos, um livro todo só de poesias.

RCC: Sua especialidade médica mexe com áreas sensíveis do corpo humano. Houve algum episódio cômico durante algum exame clínico que o senhor possa nos contar, sem citar nomes, obviamente?

Caminha: Muitos. Alguns registrei em meu livro Saboreando Crônicas. Outros tenho preparado para um novo lançamento que comporão o segundo volume do Saboreando. Há um episódio que nunca contei nem escrevi. Talvez o faça depois desta entrevista.

Um dia apareceu, em meu consultório, uma senhora oriunda do interior de uma cidade do planalto norte catarinense. Era muito humilde, de pouca instrução, agricultora, “ da roça”, como ela mesmo se identificava e com feições caboclas que não negavam sua descendência índia. Tinha um problema sério de Fissura Anal que causava muita dor. Na época, o tratamento era cirúrgico. Na alta, de toda a cirurgia orificial (cirurgia no ânus), eu prescrevia analgésicos, anti-inflamatótios, dieta rica em fibras e banhos de assento com água morna e duas xícaras de chá de picão. Frisava bem que o chá de picão deveria ser feito na medida para tomar, mas ao invés de tomado, fosse misturado na água do banho de assento. Tudo isto, vinha impresso em uma folha de meu receituário.

O primeiro retorno acontecia, sempre, 15 dias após, mas ela só apareceu depois de 30 dias, acompanhada do marido, um sujeito mal encarado, com ar enfezado, também agricultor e, da mesma forma, de baixa instrução. Falava um português extremamente brejeiro e, ainda por cima, com um sotaque alemão intenso, fruto de sua origem polonesa.

~ Como a senhora tem passado?

~ Muntu mali, sô dotô. Cum munta dor. Num aguentu mais.

O quadro não era o normal no pós-operatório de fissuras anais. Ao exame, notei um processo inflamatório intenso numa ferida operatória sem qualquer sinal de higienização.

~ Bem, minha senhora. A culpa da dor foi não ter seguido as orientações que lhe passei. Deixou passar 30 dias para voltar e, além disto, a senhora não fez direito a limpeza do local. A senhora está fazendo os banhos de assento?

~ Óia dotô, foi u mô maridu aí qui num deixô.

~ Como assim?, perguntei-lhe surpreso.

~ É isso mermo, sô doto. Eli nun dexô ô fazê us banhu i nem vortá aqui. Só vinhemu mermu pruquê ô tô cum munta dor e num aguentei mais. Dissi pra eli cô vinha di quarqué jeito. Nem qui fossi di ônibus. Daí eli si tocô, mas dissi que só deixava si eli entrassi aqui junto.

Estranhei a história meio absurda. Pensei se tratar de mais um daqueles casos de maridos machistas que não admitem as esposas doentes e as querem no fogão e no tanque. Interpelei-o deste jeito:

~ Escuta aqui, meu amigo, o senhor é médico?

~Non, zenhorrrrr doktorrrrr.

~ Mas, então, me diga como o senhor se atreve em fazer sua esposa desobedecer minhas orientações?

~ Nem que a vaca tussa eu fai deixarrrr meu mulherrr fazerrr o que a zenhorrr mandou.

~ Mas porque?

- .A zenhorrrr querrrr que eu me pele todo, doktorrr? Nein, nein, nein! (traduzindo: Nunca! Nunca! Nunca!)

~ Eu non fai fazerrrr chá du picon com água fervendo nunca. Fai me pelá tudo, uma veiz.

~ Mas o senhor tome cuidado que não vai se pelar. Todos os meus pacientes fazem e nunca ninguém se pelou, respondi-lhe irritado. É assim, desse jeito, que se faz chá de picão. O senhor tem que pegar a planta, as folhas com os galhinhos, o suficiente para duas xícaras e colocar na água fervendo. Depois colocar o chá dentro de uma bacia de água morna para que sua esposa faça o banho de assento. 5 a 6 vezes por dia. Conforme eu falei.

~ O sinhô falô pranta dotô? Mas que pranta?, interrompeu-me a mulher incrédula.

~ O picão, minha senhora. O picão, o pega-pega ou sei lá como vocês chamam na sua cidade.

~ O pega-pega? Ah! Bão. O pico-pico. Daí, ela pode. Eu pensei qui errra a meu.... . Calou-se. Esperou um pouco e continuou. Deixá pra lá herrr doktorrrr. A zenhorrrr me desculpe. Ela fai fazerrrr tudu dirrrreitinho desta vez. Eu carrrranto!

Notei uma mudança imediata no semblante do polaco. Parecia mais aliviado e deixara de lado a cara carrancuda, mas achei ser pela descompostura que levou.

~ Tudo bem, não foi nada. Vamos fazer o seguinte: Eu vou fazer o curativo. Vai doer um pouco. Depois, voltem para sua casa e sigam exatamente minhas ordens. Marquem o retorno para 15 dias. Mas não faltem.

~ Zim, zenhorrr doktorrrr!

Depois que o casal saiu fiquei matutando. Que gente doida! Pensei. Não me conformei. Telefonei para um amigo que era de uma cidade vizinha ao casal e frequentava o Movimento de Cursilhos. Contei-lhe a história, sem identificar a cidade e os personagens. Ele deu uma sonora risada.

~ Caminha! Aqui, o picão é conhecido como pico-pico ou pega-pega, mas o pior é que , para alguns alemães e poloneses do interior, “picón” é como eles chamam seu pênis.

Fui eu quem quase morreu de dar risadas. Imaginei a angustia do coitado pensando em como fazer um chá, com água fervendo, de seu instrumento sexual. Tinha que ficar enfezado.

A partir de então, acrescentei às minhas orientações: Fazer banhos de assento com água morna + duas xícaras de chá de picão (ou pico-pico ou pega-pega). Vai que algum marido enfezado venha de lá e acabe me acusando de abuso sexual. Eu hein!!!

RCC: Como foram suas experiências em Londres (Inglaterra) e Wiesbaden (Alemanha)?

Caminha: Foram enriquecedoras, tanto do ponto de vista pessoal como profissional. Considero que foi o clímax de meu processo de especialização. Até então, eu seguia as condutas de meus mestres na Residência Médica (3 anos no Rio de Janeiro). Depois de estar em Londres, no Hospital Saint Mark’s - então a escola mais importante do mundo em Colo-Proctologia - e na Alemanha, passei a ter minhas próprias condutas, que resumiam as melhoras que eu próprio escolhera de todas elas. O Saint Mark’s tinha um grande mestre mundial para cada dia da semana e, em Wiesbaden, acompanhar um dos melhores Colo-Proctologistas da Europa, foi também fundamental para minha formação. Diria que, a partir destas experiências tornei-me um profissional maduro, pronto para enfrentar qualquer desafio na área.
Não bastasse isto, conviver em outros países, ter contato com sua cultura, sua gente, viajar, conhecer lugares foi muito importante para meu enriquecimento pessoal e de minha família.

RCC: Sua transferência para Blumenau, SC, deu-se logo após chegar ao Brasil ou o senhor exerceu a Medicina em Florianópolis, SC, por algum tempo?

Caminha: Exerci a Colo-Proctologia e a Medicina do Trabalho, minhas especialidades, em Florianópolis de 1980 a 1982. Em 1982 aconteceram diversas enchentes em Blumenau (foram onze, se não me engano, no ano todo). Eu me ofereci para ser voluntário por lá. Fui com autorização das empresas públicas onde eu trabalhava. Então, saiu o resultado do Concurso da Enciclopédia Brittannica do Brasil e fui para Londres, já com uma proposta de voltar para Blumenau, haja vista que o Hospital Santa Catarina não tinha médico na minha área. Quando voltei de Londres, pedi demissão de uma das empresas públicas e, da outra, consegui disposição para a Secretaria de Saúde, com lotação em Blumenau. Mas isto foi apenas depois de 6 meses. Nestes, vinha a Florianópolis todos os dias para cumprir minha jornada. Era uma correia danada. 150 Km de ida e de volta. Saia as seis da manhã e chegava de volta à Blumenau as 15 horas para fazer consultório e 3 x por semana fazer plantão. Coisa de jovens da época.

RCC: Fale-nos sobre o Jornal “Clarins do Vale”, editado pelo senhor de 1985 a 1989.

Caminha: Foi minha primeira experiência séria de jornalismo. Era um jornal de cunho religioso. Eu tinha, como editor, de estar preparado. Foi uma época riquíssima. Li todos os documentos da Igreja e alguns Doutores. Penso que eu quase sabia toda a Bíblia. (risos). Sem ser pretencioso, era preciso. Afinal, eu também era o Coordenador Diocesano do Movimento de Cursilhos de Cristandade da Diocese de Joinville, uma ala dos Cursilhos de tendência progressista, que não se deixou engravidar pelo partidarismo petista. É bom dizer que, no cerne, o que o movimento dito progressista, das Igrejas cristãs, especialmente as católica e luterana, queria era uma volta às origens dos evangelhos, à pregação de Jesus Cristo, uma opção preferencial – mas não excludente, como queriam alguns radicais partidarizados – pelos pobres, pelos desvalidos, pelos colocados de lado por uma sociedade que só considerava de valor aquilo que emanava do poder financeiro, do dinheiro, uma leitura evangélica feita pelo conforto, a riqueza, o “status qüo”. Lamentavelmente, os radicais acabaram contaminando o movimento e deu no que deu. Uma pena.
Bem, voltemos. Vou te confessar uma coisa. No começo eu tinha muito medo. Minha fé era aquela transmitida por meus pais e meus avós e consolidada pelos anos no Colégio Catarinense, dos jesuítas. Muito inocente, pura, fidedigna. Eu tinha medo de que a intelectualidade, motivada pelo estudo, pudesse abalá-la. Que nada. Quanto mais eu lia, mais convicto ficava de minha fé. Portanto, meu amigo, aqui está um cristão, metido a pesquisador, cuja fé é não só espiritual. É também alicerçada no conhecimento. Na experimentação. E quem disse que não se pode conciliar Ciência e Fé? Se disse, está muito enganado.
Editar, escrever, preencher os espaços do Clarins do Vale, fazer reportagens, entrevistas, enfim, quase tudo (não havia funcionários, apenas alguns colaboradores) me ensinou muito escrever, comunicar. Foi uma experiência que valeu a pena viver.

RCC: Os ares de Blumenau, SC, parecem ter despertado a sua veia jornalística. O Jornal “Clarins do Vale” abriu-lhe as portas para o rádio e a televisão?

Não propriamente. Além dos fatos relatados acima, eu comecei na Rádio por causa da política. Em 1988, o cara que se elegeu Prefeito era ligado àquela direita que, há poucos anos, estava ao lado da ditadura. Aí, “só pra inticá”, como dizem os manézinhos, tive a ideia de criar um programa na Rádio que se chamava “Canal Livre na Rádio”. Convidei o grande jornalista Arthur Monteiro, que faz uns 15 anos está em Brasília, e fomos para o ar. Tornou-se um campeão de audiência. O Prefeito tinha de nos ouvir. Era ouvinte assíduo porque nosso foco era fiscalizar sua administração discutindo “qualidade de vida em Blumenau”.
Já a TV surgiu depois que fui Secretário de Saúde. Havia um apelo da OPAS – Organização Pan-Americana de Saúde, de inserção de lideranças da saúde na mídia a fim de discutir qualidade de vida. Recebi o convite da TV Galega e criei o FELIZCIDADE que acabou abrindo espaço para um quadro STAMMTISCH que se transformou em um outro Programa. Nesta época eu fazia duas horas semanais na TV e a TV Galega tinha mais audiência que a sucursal da globo local, a RBS.

RCC: Mesmo com tanta atividade, o senhor ainda mantinha seu consultório em Blumenau, SC?

Caminha: Com certeza. Fazia comunicação e jornalismo por diletantismo e por ideais políticos, frise-se, não partidários.

RCC: O que significa “Stammtisch”?

Caminha: Para ficar mais fácil a compreensão, Stammtisch é um termo germânico, que combina Stamm, que quer dizer tronco (no sentido de mesmas raízes ou afinidades) com a palavra tisch que significa mesa. Ou seja, mesa de pessoas de um mesmo tronco de afinidades . Designa um grupo de amigos ou pessoas de mesma afinidade que se reúne para bater papo, tomar umas cervejinhas ou outra bebida e/ou/ou não, curtir uma outra atividade comum É o equivalente alemão às nossas patotas, rodas de amigos, rodinhas, confrarias etc. Só que, como é de prevalência alemã, estes grupos são mais organizados, reúnem-se quase sempre numa mesma mesa, num mesmo lugar, cada membro procura sentar-se sempre na mesma cadeira, toma no seu copo, a sua cerveja e outras particularidades do tipo. Mas, o que os une, é a amizade, a irreverência, o prazer em viver a vida e brindá-la a cada momento. É o Stammtischgeist, o espírito do Stammtisch, onde o que vale é celebrar a vida.

RCC: O que despertou seu interesse pelo movimento? Foi sua passagem pela Alemanha?

Caminha: Não, na verdade é uma longa história. Eu conheci estes grupos na Alemanha, sim, mas não vem de lá o interesse. Meu programa na TV discutia qualidade de vida e “tradição” estava ligada ao tema. Um amigo tinha um outro programa sobre turismo que estava esgotando a pauta. Decidimos fundir os programas, já que turismo tem tudo a ver com a temática do FELIZCIDADE, o meu programa. Na fusão, ele sugeriu criarmos um quadro com este estranho nome. Eu já nem lembrava mais a respeito e saí de fininho. Afinal, sou descendente de luso-açorianos e alemão não era minha praia. Entreguei o quadro para ele que era descendente direto de alemães, Norberto Mette.
O Programa ia para o ar em 02.04. 2000 e reprisava outros dois dias. Tudo pronto, e este amigo resolve sair candidato a Vice-Prefeito da cidade. A legislação eleitoral não era clara sobre a desincompatibilidade para agentes de comunicação, se 3 ou 6 meses. Uma das reprises entrava no prazo que o juiz eleitoral acreditava vir a ser (uma nova lei estava para ser votada) 6 meses. Resultado, fui pego de calças curtas e tive de apresentar o quadro. Na marra. Um manézinho falando de uma das mais marcantes tradições germânicas. Saí a estudar e falar com amigos entender aquela geringonça onde duas vogais vagavam, bêbadas, em meio a 8 consoantes (risos). Até a pronúncia tive que aprender. Levou uns 20 minutos desenrolando a língua direitinho para o som sair mais ou menos (risos).
Só que, macaco velho, de calças curtas pescando siri, resolvi saber quanto os blumenauenses conheciam da tradição. Para surpresa minha, de 100 entrevistados, só dois o sabiam. O termo estava semi-enterrado, fruto da abominável discriminação do nacionalismo Varguista. Estávamos todos de calças curtas. Ai, meti as caras e o programa foi um sucesso. Explodiu em audiência e culminou, quatro meses depois, em um Encontro de grupos, na Rua 15 de Novembro, principal artéria da cidade, de 17 grupos. Foi durante as festividades dos 150 anos de Blumenau. O Encontro também pegou. Hoje são 300 grupos reunidos num Sábado, a rua toda interditada. Foi a festa de maior crescimento da primeira década do século atual me Santa Catarina. Isto fazem apenas 13 anos e 22 edições foram feitas. Lamentavelmente, em função de problemas de saúde, tive que deixar o programa, mas a tradição foi resgatada. O programa ainda se manteve por mais dois anos. E foi encerrado. Neste ano, Norberto Mette está tentando revivê-lo.

RCC: O que significa o movimento “Stammtisch” para você?

Caminha: Foi uma espécie de afirmação da minha condição de cidadão blumenauense, dentro daquele espírito de Rui Barbosa. O reconhecimento da cidade, o resgate da auto-estima, do ser brasileiro, mas de origem alemã, sem a vergonha de declinar esta condição, foi um fato inesquecível que marcou indelevelmente a minha vida. Sem contar que na esteira do Programa e dos Encontros, a cerveja em barril voltou a ser produzida na cidade. Hoje são cinco micro-cervejarias em Blumenau e mais outras cinco ou seis na região. Blumenau tinha há 17 anos a maior festa da cerveja das Américas (segunda do mundo) e não produzia uma gota de cerveja há mais de 20 anos. Os bandoneões – empoeirados nas prateleiras – voltaram a abrir-se em empolgadas polcas e marchas, a tradicional vestimenta alemã passou a ser uma coisa usual, algo que também se deve muito à Oktoberfest, enfim, a rica e querida Blumenau, voltava a sorrir, mais rica, mais querida, mais autêntica e, sobretudo, mais alegre. Ter contribuído, mesmo que pouco, para isto, é uma coisa que deixa qualquer pessoa muito feliz. DEUS TEM ME COLOCADO MUITAS VEZES NO LUGAR CERTO, NA HORA CERTA. DOU GRAÇAS POR ISTO.

RCC: Além da Medicina e do Jornalismo, você exerceu atividades políticas como Presidente da Associação Médica de Blumenau (1992-1993), Secretário de Saúde de Blumenau (1993-1996), Presidente do Conselho Estadual de Secretários Municipais de Saúde (1994-1997) e Vice-Presidente do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (1993-1997). O senhor cogitou lançar-se a um mandato estadual ou federal?

Caminha: Saí, uma vez, candidato a vereador, e outra, a deputado estadual. Mas, depois que passei por todas estas experiências que citaste, não era mais preciso. Outros podiam desempenhar esta função. Ademais, eu me sentia um vocacionado para o exercício da Medicina. A Medicina era o meu esteio e o meu sustento. Foi graças a ela que me permiti fazer tudo isto sem buscar auferir rendimentos. Deus me concedeu um maravilhoso talento que é a práxis médica, a arte de curar as pessoas, restituir o maior patrimônio que Ele dá a suas criaturas, a vida com saúde. Eu tinha um dever cristão de bem desenvolver este talento.

RCC: É filiado a algum partido político?

Caminha: Sou fundador nacional do PSDB. Um dos 101 signatários da ata de formação do Partido, juntamente com Mário Covas, Franco Montoro, FHC, Serra, Arthur da Távola, Cristina Tavares, Aécio Neves, Vilson Souza, entre tantos outros.

RCC: O senhor teve a oportunidade de se encontrar com o Papa João Paulo II tanto em Curitiba, PR, como em Roma (Itália). Como foram esses encontros?

Caminha: João Paulo II foi uma benção em minha vida. Mas é uma história comprida. Não sei se seus leitores vão ter paciência para ler. Vou tentar resumí-la.
Foram muitas passagens e certezas de sua intervenção. A primeira destas não passou de uma sensação. Foi no dia de sua eleição. Aquele olhar meigo e alegre, confiante, na televisão, parecia me convidar para uma conversa. Senti-me muito emocionado. Ainda morávamos no Rio. Mas, como nos jornais do dia seguinte esta sensação de bem-estar parecia ser comum a milhares de pessoa, achei que era coisa da minha cabeça ou uma certa pretensão de minha parte.
Em 1980, fomos vê-lo em Curitiba. O mesmo olhar. Ficamos longe. Mas eu reconhecia aquele olhar como se fosse para mim.
Então, em 1983, no dia 02 de Junho, veio o grande encontro pessoal. Nós chegamos a Roma sem saber que iria haver uma Cerimônia de Corpus Christie. Soubemos num Convento. Estávamos procurando hospedagem barata. Daí uma freirinha nos falou que não havia vagas por causa da grande festa. Decidimos largar a procura por vagas e ir à cerimônia. Acompanhamos a procissão com o papa desde a Igreja São João do Latrão até a Basílica de Santa Maria Maggiore. Conseguimos um lugar, junto às cordas, a cerca de uns 300 metros do Papa. Já estava bom demais. Nosso filhos, de dois e seis anos no colo. Mas tudo valia a pena.
Não demorou uns 2 minutos e um guarda se aproximou, acho que penalizado por nossas crianças, levantou a corda para que nós e um grupo maior, passássemos para o 2o. circulo em torno do Altar montado na frente da Igreja. Parecia que algo estava nos conduzindo para perto do Papa.
Fomos procurando espaço e acabamos a cerca de 150 metros do altar e do trono papal, que era ladeado por dezenas de cadeiras para os cardeais do mundo todo. Algumas estavam vazias. Provavelmente destinadas a cardeais que faltaram. Ainda não havia a grade que separa o adro da grande rótula que circunda um obelisco.
Foi quando o Papa olhou para nós - aquele mesmo olhar que eu já sentira antes - e fez um sinal em nossa direção. Havia dois guardas na nossa frente. Um deles ainda meneou os braços e mãos como se perguntasse: O que? Ele, apontou-nos o dedo indicador, fez um circulo, e chamou-nos.
O guarda levantou a corda e foi uma algazarra. Todos queriam passar e o guarda só deixou passar a nós e uma senhorinha que dizia, em italiano, ser de nossa família. Foi o que me pareceu. O guarda perguntou-me se ela era de nossa família. Eu disse: “Non chapisco”. E pedi para falar em inglês. Eu disse que sim, para ajudar a velhinha que se agarrou em mim e beijou-me agradecida.
João Paulo II ainda fez sinal para nos sentarmos nas cadeiras reservadas aos Cardeais que iriam concelebrar. Assistimos a cerimônia há 8 metros do Papa. Na Comunhão ele veio em nossa direção. Paasou do nosso lado. Encostado às nossas cadeiras. Novamente olhou-nos e passou a distribuir as hóstias. Não comungamos com ele porque um Cardeal entrou, em meio à fila, para ajudá-lo na distribuição das hóstias. Confesso que me deu vontade de mudar de fila, mas aí pensei: “Não! Jesus Cristo já nos deu muito e isto é um teste. Afinal fosse quem fosse, a hóstia é o corpo de Cristo. Não será mais sagrada por causa do papa. E comungamos com o Cardeal. Havia muita gente. Mais de 1 milhão de pessoas para comungarem. E alcançamos esta graça. Fomos escolhidos. Nunca mais ele saiu de minha cabeça
A partir de então nomeei-o, junto de Maria, a mãe de Jesus, meus intercessores, principalmente por causa de minha longa doença,
Foram muitas as outras convivências espirituais com o “polaquinho” (um santinho, é assim que o chamo, em minha irreverência). Mas, confesso, andei meio esquecido dele mesmo depois de sua ida para junto do Pai. Em Janeiro de 2011 eu estava muito estressado porque o transplante de fígado não saía. Daí entreguei tudo em suas mãos. Que fosse o melhor para mim. No dia 10 de Abril tive uma conversa séria com ele e com Nossa Senhora. Pedi muito que levassem meu nome a Jesus. Terminei a oração pedindo a Jesus Cristo que me ouvisse e desse ouvidos aos dois. Eu estava angustiado. Achava que morreria antes de chegar a data. Na noite do dia 11, fui chamado e o transplante aconteceu no dia seguinte. Não é demais? Me emociono muito ao contar isto.

RCC: Sempre foi religioso?

Caminha: Desde que me entendo por gente. E não poderia ser diferente. Gosto da conceituação da Santo Agostinho que diz ser a religião oriunda do latim “religare” (religar).
Este conceito, para mim, está ligado a um movimento de ação e reação. A ação consiste na tendência humana de apegar-se às coisas temporais, ao que é do mundo, afastando-se do Criador, do Absoluto, das coisas espirituais. A reação possibilita ao homem uma volta, um religar-se a Deus, ao Sagrado, ao Criador, o Absoluto. É como se houvesse em nós, pela dispersão no mundo, uma ação de afastamento do núcleo, do Absoluto, que acaba sucumbindo, pela religião, pelo religar, uma (re)ação de volta ao núcleo. É mais ou menos como aquela história da busca da posição fetal para dormir dos velhos, uma atitude inconsciente de voltar àquela posição do ventre materno. Isto é forte no nosso ser. O ventre materno nos dá a sensação de absoluta segurança. Assim é com o ser humano, com relação à vida, esta criação do Absoluto. Como se o Absoluto, engravidado, parisse a vida. O ser vivente teria então esta necessidade, esta “saudade”, de voltar ao ventre do Absoluto, onde há segurança. Daí o religar. Daí a religião. Manter-me religado a quem me deu o dom da vida sempre foi, para mim, e creio que sempre será, como uma espécie de cordão umbilical, pelo qual me alimento, um cabo, pelo qual recarrego minhas baterias. Não há, na minha concepção, vida em plenitude, se não houver esta ligação com Deus. Há vida, sim, mas não a vida plena, na graça, em comunhão com Absoluto.
É uma coisa difícil de explicar, de entender. Somos muito pequenos, uma miséria, um nada, mas este nada esta pequenez, esta ínfima criatura está dentro de uma Criação, que está dentro do Absoluto, de Deus. Uma vez Madre Teresa de Calcutá foi questionada pelo Chefe de Governo da Índia sobre sua ação em favor dos pobres e dos desvalidos. Ele lhe disse mais ou menos assim: “De nada adianta! Suas atitudes todas juntas são uma gota neste oceano todo de miséria.” E ela, serenamente, respondeu: “Sim, eu sei, mas o oceano seria menor sem mim.”
É isto que sinto na religião. Somos uma infinitésima gotícula no Absoluto que é Deus, mas somos parte d’Ele. Numa metáfora à Madre Teresa, poderíamos dizer “o Absoluto seria menor sem mim.” Isto é algo fantástico, maravilhoso. Saber pertencer-se a Deus. Não é? Como se fôssemos um átomo, sem importância, dentro de uma substância, mas sabendo, conscientemente, que esta substância seria menor sem este átomo – mesmo que este fato não alterasse esta substância no todo.
Mais. O RE-ligar, tem fundamentos transcendentais difíceis de compreender. De admitir. É como aquelas pontes pênseis, de corda, dos Incas, nos vãos de despenhadeiros de profundidades incríveis. A gente fica se perguntando. Como foram construídas? Como eles ligaram as duas pontas? Como chegaram, antes dela existir, nos dois lados do penhasco? Ou a construíram de um lado? Mas, se assim, como levaram a ponta solta até o outro lado? Como fizeram para que ela ligasse um lado ao outro? O que será que nos aguarda do outro lado? Você não entende, quase não acredita ser possível, mas ela está lá. E você pode atravessá-la. E ver o que há do outro lado. Fazer esta experiência de Deus. Atravessar esta ponte pênsil é o religar de Santo Agostinho. Ainda segundo este grande doutor da Igreja "Ter fé é acreditar nas coisas que você não vê; a recompensa por essa fé é ver aquilo em que você acredita." Esta busca pelo religar, a religião, alimenta a sua fé e permite você chegar ao outro lado, ainda que na eternidade.


RCC: Em 12 de abril de 2011, você submeteu-se a um transplante de fígado. Este fato mudou sua forma de ver a vida e sua relação com as pessoas?

Caminha: Mudou a minha vida. A maneira de pensar sobre mim mesmo. E a certeza que Mahatma Gandhi tinha razão quando dizia que a oração é a força do homem e a fraqueza de Deus.
Eu sempre fui um cara comunicativo, de muitos amigos, alguém que sempre colocou os outros à frente. Mas, desde aproximadamente 2006, com 3 anos de doença e muitos problemas pessoais, um deles um processo de re-integração que movia na Justiça contra o Estado de Santa Catarina e se arrastava por 20 anos, além da paralização completa de minha atividade profissional, as dificuldades financeiras emanadas daí, eu passei a questionar meu jeito de ser ou ter sido. Minha completa doação aos outros, à comunidade, à justiça, aos direitos humanos, à qualidade de vida das pessoas etc. Comecei a ficar nervoso, explodia fácil, foi uma fase muito difícil de autoafirmação. E a coisa foi me consumindo. Afinal, enfrentar quatro tumores, uma contaminação cirúrgica acidental por Hepatite “C”, cirrose em decorrência, hemorragias sucessivas, convenhamos, não é fácil! Meu esteio eram as orações, minha família, meus filhos e, muito especialmente, uma mulher fantástica, o meu “hércules”, minha esposa Seluta. Eu era agradecido a Deus, mas não sei porque andava assim. Irritado, decepcionado comigo mesmo, frustrado. Aí aconteceu o transplante e toda a dificuldade do isolamento e da pós operatório mais preocupante que durou quase um ano. Tudo piorou.
É a primeira vez que falo sobre isto. Veja só, como nossa fé ainda é pequenininha. Foi quando meus filhos aconselharam-me buscar socorro na Psicologia. Recorro, novamente, a Santo Agostinho, “Conhece-te, aceita-te, supera-te”. Aprendi a fazer uma leitura de tudo o que me acontecera. E percebi que o 12 de Abril precisava marcar meu renascimento para a vida. Um re-encontro com está dádiva que Deus me concedeu por duas vezes. Estou fazendo muito esforço, mas já conquistei a auto-confiança, estou mais calmo e, tenho certeza, em breve estarei a 100%. Como fui outrora. Só que mais maduro, mais enriquecido, mais experiente da presença de Deus em nossas vidas. Mais amigo de meus filhos e mais apaixonado por esta mulher que me mantém vivo por 40 anos.

RCC: Quais são seus próximos projetos culturais?

Caminha: Escrever muito. Ler muito. Viajar muito. Viver. Louvar e agradecer. Quatro projetos iminentes são as publicações de livros, um comemorando 4 décadas de fazer poético; outro, a segunda edição do Saboreado Crônicas, um terceiro, um romance que envolve a República Juliana e Anita Garibaldi e, finalmente, um livro contando minhas experiências com a doença. Este é um projeto incentivado por minha esposa. Ela acha que eu tenho muito a oferecer a pessoas que estão passando por problemas semelhantes, pela batalha contra o câncer, Vamos ver.

(Publicado na Revista Cerrado Cultura, www.revistacerradocultural.blogspot.com, ed. junho de 2013)

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