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Artigos-->PERFIL: MARTIM D AVILA GARCIA -- 09/07/2013 - 15:23 (Paccelli José Maracci Zahler) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Por Paccelli José Maracci Zahler

Martim D’ Ávila Garcia é bajeense, com experiência de 15 anos em fotojornalismo, fotografia publicitária e tratamento digital de imagens.
Na entrevista, concedida por correio eletrônico, ele nos falou um pouco sobre o seu trabalho e sua vida.

RCC.: Segundo Confúcio, “uma imagem vale por mil palavras”. Elas o inspiraram a dedicar-se à fotografia?

Garcia: Mais que uma descrição, acredito que a fotografia pode mostrar coisas que não existem na realidade, mas em conexão com o que existe dentro do individuo é criada uma nova perspectiva em associação com a imagem.

RCC.: Seu avô, Heron D’ Ávila trabalhou com fotografia na companhia de cinema Vera Cruz, em São Paulo; sua mãe, Fátima D’ Ávila, artista plástica, também se dedica à fotografia. O senhor considera o seu ofício uma herança de família?

Garcia: Acho que influenciou bastante essa convivência, pois diversas vezes a vi trabalhando peças artísticas (pintura, fotografia, joalheria).

RCC.: O senhor nasceu em Bagé, RS, como foi a sua formação escolar?

Garcia: A parte formal foi totalmente comum (Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e o Colégio Estadual Dr. Carlos Kluwe). Mas acredito que a Escolinha de Artes Odessa Macedo (era assim chamada na época) me proporcionou um olhar mais artístico para as coisas.

RCC.: A arquitetura da cidade de Bagé, RS, despertou seu interesse pela fotografia?

Garcia: Inicialmente, não. Na arquitetura, é levado em conta um sistema de “cheios e vazios” onde diz que se não houver distancia suficiente – entre edificações, no caso – não se consegue enxergar direito certo edifício. Do mesmo modo, quando eu vivia em Bagé, não havia distancia suficiente para perceber essas nuances. Depois que mudei para o Modernismo da capital, estabeleceu-se a relação de contraste que me deu um novo olhar para essa arquitetura.

RCC.: Durante sua infância, sua mãe já manejava com extrema sensibilidade a arte da fotografia. Esse contato foi decisivo para a sua escolha profissional?

Garcia: Sim. Quando tinha uns dez anos de idade, minha mãe comprou uma máquina fotográfica – Praktica MTL3 – e firmamos o seguinte trato: se eu lesse, entendesse e explicasse o manual em um tipo de ‘prova oral’ poderia usar a câmera. E é claro que me apliquei nessa tarefa e passei a usar a máquina.

RCC.: Antes de vir para Brasília, DF, o senhor já trabalhava com fotografia?

Garcia: Não. Fotografava mas em caráter amador. Quando cheguei a Brasília (em 1993, o 100º ano da Revolução Farroupilha) comecei a trabalhar em uma agência de publicidade como contato comercial, mas logo de cara precisaram de um fotógrafo e essa foi a porta de entrada do mundo profissional da fotografia.

RCC.: Em qual escola o senhor se formou fotógrafo?

Garcia: Na verdade comecei a trabalhar sem um curso formal. No início fui só com os conhecimentos adquiridos da vivência em casa. Com o dinheiro dos primeiros serviços comprei uns livros (era pré-internet) para ter maior segurança, pois ainda era película o suporte que usávamos.

RCC.: Radicado em Brasília, DF, o senhor fez vários cursos de aperfeiçoamento. Em quais escolas?

Garcia: O primeiro curso que fiz aqui em Brasília, foi no Sindicato dos Jornalistas com a Tinna Coelho. Na sequência fiz vários cursos com o Fernando Bizerra da Escola Brasiliense de Fotografia (EBF).

RCC.: Como foi a sua experiência com o cinema?

Garcia: Muito boa. Fiz o still do filme “Memória de Elefante”, da diretora Denise Moraes em 2010. Nessa mesma ocasião, pude ver o Pedro Ionesco, diretor de fotografia, trabalhando. É um trabalho que exige um planejamento para não atrapalhar a cena que está sendo gravada. Não podem acontecer deslocamentos pelo risco de algum ruído “sujar” o áudio. E como facilidade é oferecida uma luz perfeitamente montada, que é a mesma da cena. Nesse mesmo filme também tem uma parte em stop-motion que ficou muito interessante.

RCC.: Fale-nos sobre o prêmio “Gourmand World Cookbook Awards” e da sua participação.

Garcia: Em 2004, a Editora Senac buscava realizar uma coleção de livros sobre a culinária local e Marta Moraes, organizadora da coleção, acreditou que eu poderia fazer, mesmo não tendo portfolio na época. Esse trabalho resultou nos seis títulos da coleção Cozinha Capital. E o segundo livro, “O Bistrô de Alice” (2005) foi premiado nesse concurso de livros culinários do mundo todo. Já em 2007, a Editora Senac publicou o livro “Gula da África”, que buscava a relação entre as duas culinárias – a brasileira e a dos países africanos. Com essa publicação a Flávia Portela levou o premio em 2009.

RCC.: O senhor trabalhou também em televisão, especificamente, no Programa Show da Cidade da TV Nacional entre janeiro e junho de 1996. Como foi essa experiência?

Garcia: A agência em que trabalhava começou a fazer a produção do programa e eu fui junto. Foi uma experiência muito rica, pois havia recém chegado a Brasília e não conhecia quase ninguém. Lá na produção do programa não tinha muito de cargos, fazia-se um pouco de tudo.

RCC.: Atualmente, o senhor estuda Arquitetura e Urbanismo. A prática profissional da fotografia o levou a esse novo desafio?

Garcia: Eu considero áreas complementares. O processo da fotografia é a transformação da realidade (em três dimensões) para a janela fotográfica (que tem duas dimensões). Essa transformação tem como resultado a criação da “vista” ou perspectiva. A arquitetura também tem esse viés, mas a composição é tridimensional. É como criar uma foto onde as pessoas entram para experimentar com outros sentidos além da visão.

RCC.: Como tem sido a sua experiência no Setor Público?

Garcia: Acredito ser extremamente positiva, por conta da vivência com pessoas de todas as partes do Brasil e também de ter ido a muitos lugares aonde normalmente não se vai.

RCC.: A visão e o sentimento de um fotógrafo em relação a uma cena e uma paisagem é bem diferente de um literato, pois envolve cores e nuances. O senhor poderia descrevê-la?

Garcia: Hierarquicamente, tudo começa na luz. (Eu até brinco: que depois de fazer a luz Deus fez o fotógrafo.) Como o fotógrafo cria a partir da coisa feita, essa percepção (da luz nos objetos) é o principal ingrediente da fotografia. Se a luz é contrastante ou suave, fria ou cálida, se dá ou tira destaque.
Após essa percepção inicial, acontece a observação das possibilidades, ou seja, o que a junção do objeto com a luz produz como imagem. Acredito que esse é o momento mais pessoal da fotografia, por que cada individuo coloca suas experiências pessoais / visões de mundo / conceito de belo, nas pequenas escolhas, tipo o ângulo, a lente (ou fator de zoom) e os parâmetros da câmera fazendo assim uma foto totalmente diferente de qualquer outra feita no mesmo lugar.
No meu caso, quando estou fotografando posso afirmar que minha visão muda: não enxergo normalmente, fico buscando por linhas, padrões, contrastes, conjuntos, enfim, formas geométricas que complementem ou, até mesmo, sejam o tema principal da composição.


Registramos o nosso agradecimento pela gentileza da entrevista.

(Publicado na Revista Cerrado Cultural, www.revistacerradocultural.blogspot.com, edição de julho de 2013)
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